O planeta está aquecendo: Alguém está ouvindo?

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Um possível cenário para nosso futuro (Bloomtrigger/Reprodução)

Tradução do original de Max Strasser, via News Week

O planeta caminha para o desastre, de acordo com estudo divulgado. As florestas queimarão, as cidades inundarão e a infraestrutura colapsará sob a esteira do clima, que esquenta. As mudanças climáticas também aumentarão a insegurança alimentar levando inclusive a guerras por recursos, é o que declara o novo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que foi divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

O relatório, escrito por mais de 300 cientistas e baseado em milhares de revisões de estudos científicos, diz que alguns dos problemas resultantes das mudanças climáticas podem ser mitigados desde que a trajetória de aquecimento for detida.

Enquanto os cientistas permanecem nos alarmando quanto os prejuízos iminentes das mudanças climáticas por nós criadas, será que os governos tomarão atitudes? A população preocupada com o futuro da humanidade assim espera. Porém, ciência e política são campos separados.

Os dois maiores emissores de gás de efeito estuda, China e Estados Unidos, se mantém resistentes a cortes representativos em suas emissões, que poderiam mitigar as mudanças climáticas. O painel das Nações Unidas que prevê uma abordagem compreensiva ao problema se vê em negociações sem fim, a despeito da urgência crescente dos pedidos de ação da comunidade científica.

O IPCC atua numa função de extrema importância mas eu estaria surpreso se as verdades que nos contam fossem uma fórmula mágica de fazer com que os países se movessem,” diz Ruth Greenspan Bell, professor de políticas públicas que trabalha com mudanças climáticas no Woodrow Wilson International Center for Scholars.

O relatório é o preparatório, o que dá base para novas negociações internacionais. Já houveram mais de 17 conferências internacionais de alto nível nos últimos 9 anos. Em setembro, líderes de Estado, negócios, indústria e grupos de advocacia se encontrarão em Nova York atentendendo a convite do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon para discutir a mudança do clima.

Ano que vem, Paris será anfitriã da 21º Conferência de Mudanças Climáticas das Nações Unidas, onde governos dos 195 países se encontrarão mais uma vez para estabelecer metas de redução das emissões.

Este [relatório] estava programado pra ser publicado antes da realização da conferência de 2015 em Paris,” disse Robert Falkner, professor de relações internacionais da London School of Economics (Escola Londrina de Economia, numa tradução livre) que estuda as negociações ambientais. “Os negociadores esperam um grande impulso.”

Eles deveriam usá-lo.

No passado, as negociações de mudanças climáticas sob o painel das Nações Unidas foram menos produtivas. Em 2009, a Conferência de Mudanças Climáticas de Copenhagen deveria ter estabelecido acordos vinculativos de profundos cortes de emissões que manteriam a subida da temperatura abaixo de 1,5 ºC. Ao invés disso, as partes entraram num acordo não coercitivo que pede aos países a alcançarem suas metas de redução.

O fraco acordo de Copenhagen – desapontador tanto para os países pobres que serão os mais afetados pelos efeitos das mudanças climáticas quanto para os países europeus que tentavam exercer liderança nesta questão – foi arquitetado pelas representações dos Estados Unidos e China, os dois maiores emissores de gás de efeito estufa e, por consequência, os que mais impõem obstáculos nos acordos vinculativos.

Alguns sinais animadores foram dados por Washington. O Secretário de Estado John Kerry disse que o relatório do IPCC deveria ser considerado um chamado.

Ao menos que ajamos de forma dramática e com rapidez, a ciência nos diz que nosso clima e estilo de estão literalmente em perigo,” disse Kerry. “Temos os que dizem que não podemos nos dar ao luxo de agir nesse sentido. Esperar, porém, sairá muito mais caro. Os custos de não agirmos são catastróficos.”

A administração Obama planeja usar os avisos do IPCC para adquirir suporte para as reduções das emissões de carbono nos Estados Unidos, um dos poucos países no mundo em que há negacionistas em posição em cargos de alto escalão do governo (no Congresso e em nível estadual). A Casa Branca está em escalada de ordens executivas relacionadas à mudanças climáticas, forma encontrada de driblar um Congresso obstinado.

Porém, a muita obstinação em todo o mundo, também.

China, o líder mundial em emissões de gases de efeito estufa, permanece hesitante em aderir as metas de emissão, o que poderia se tornar um empecilho ao rápido desenvolvimento econômico e industrialização que promovem.

Não vejo nenhum ganho de flexibilidade na posição dos chineses nas negociações,” disse Elizabeth Economy, especialista em políticas ambientais chinesas do Conselho de Relações Externas, em relação as próximas negociações. “Eles dirão que suas ações condizem com seu nível de desenvolvimento”.

A China reduziu seu consumo de carvão em relação a matriz energética, porém, o que realmente importa é a porção de carvão usada e as emissões per capita.

Mesmo com a abordagem compreensiva das Nações Unidas e as esquivas de algumas partes quando se fala de redução das emissões, talvez tenhamos espaço para progresso nos esforços de mitigação, dizem alguns juristas, e o relatório do IPCC pode ajudar neste sentido.

O relatório prevê que as mudanças climáticas poderão reduzir acima de 2% o crescimento econômico, por ano, se a temperatura subir 2 ºC, diversos cientistas indicam que a Terra está a ponto de ultrapassar esta linha.

Evidências mais sólidas e sérias como estas em que os cálculos indicam prejuízos aos negócios, apontam os investidores e o setor industrial deveriam preocupar-se mais com a mudança do clima, argumenta Falkner.

Com as negociações numa espécie de limbo, mudanças graduais talvez sejam o único caminho para evitar as desastrosas consequências do aquecimento global contínuo previsto pelo relatório do IPCC.

Não há bala de prata neste desafio,” segundo Bell. “Uma abordagem descentralizada seria melhor, com diversas iniciativas, tendo em mente que alguns progredirão e outros não.”

Enquanto uma equipe de milhares de cientistas preveem um futuro catastrófico, parece que a população preocupada tentará toda e qualquer iniciativa que possa gerar progresso.

Nota do tradutor: A professora Ruth Greenspan Bell é catedrática da Woodrow Wilson International Center for Scholars, sediada em Washington. Quando ela sugere “uma abordagem descentralizada” em que “alguns progredirão e outros não”, ela está somente defendendo os interesses dos EUA, segundo maior emissor de gases de efeito estufa, em não assumir compromissos no tocante a redução das emissões. É preciso estar atento a quem os intelectuais representam para não se deixar enganar.

Tradução: Rennan Martins

 

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