Por Adriano Benayon
Muitos fanáticos de direita têm orgasmos onanistas diante de matérias que “preveem” falências, bolhas etc. na China. Essa euforia por uma desgraça esperada decorre de wishful thinking.
A esperança na queda da China, nessas mentes, provém de a imaginarem comunista ou, pelo menos, estatizante, o que, neste segundo caso, é verdade, dado o peso que o Estado tem na economia, não obstante vir diminuindo.
O Estado ali realmente exerce funções diversas e fundamentais na economia e ensejou notável enriquecimento privado, e – o que é ainda mais importante – não se deixa comandar pelos bilionários que viabilizou, pois lá não vige a falsa democracia das eleições movidas a dinheiro e pela mídia corrupta.
Os êxitos chineses na construção de fabulosas infra-estruturas física e social, com enorme elevação dos padrões de vida, apesar de abusos não corrigidos contra o meio ambiente, enchem, ademais, de ódio os adeptos das teorias econômicas ocidentais, principalmente as de apologistas do inexistente e imaginário “livre mercado”.
O próprio autor, um certo Luis Dufaur, cuja fonte é um jornalista da BBC, escreve:
“Nos últimos anos, a China construiu um novo arranha-céu a cada cinco dias, mais de 30 aeroportos, sistemas de metrô em 25 cidades, as três pontes mais extensas do mundo e mais de 9,6 mil quilômetros de rodovias de alta velocidade, além de empreendimentos imobiliários comerciais e residenciais em larga escala”.
Aí o autor do artigo diz que, sempre houve catástrofes econômicas, sem exceções na História, após grandes expansões da economia turbinadas pelo crédito, pois os devedores acabam não mais podendo servir suas dívidas, e o sistema bancário entra em colapso.
Ele certamente acredita em tsunamis financeiros, mas esquece que estes têm ocorrido no sistema capitalista. A meu ver, a China – pelo menos, até o presente – não é capitalista, embora tenha criado centenas de bilionários e milhões de milionários. O capitalismo, em meu conceito, só se configura como sistema político e econômico, se e quando os capitalistas privados (e só a pequena minoria da cúpula, os grandes concentradores) têm o Estado a seu inteiro serviço e determinam a direção das políticas públicas.
Ora, a experiência recente do colapso de 2007/2008 está acentuando a relativa estagnação das economias líderes do capitalismo, inclusive com suas infra-estruturas em deterioração, desemprego muito grande (o que implica deterioração do “capital humano” e da infra-estrutura social). Isso porque numa crise financeira, o Estado comandado pela oligarquia financeira só trata de socorrer os bancos e apenas adia novas bolhas: o dinheiro fica parado nos bancos, só sendo aplicado em mercados especulativos e em títulos públicos, e, ao mesmo tempo, o Estado vai falindo, mesmo sem aplicar o que deveria na economia real ou em favor dela, através de investimentos e empréstimos para a produção.
Se o Estado tem real poder sobre a economia, se deseja que a sociedade continue elevando seus padrões de vida e se dispõe de quadros que sabem o que fazer, qualquer crise financeira pode ser debelada e a casa arrumada: dívidas podem ser simplesmente canceladas, e novos mecanismos monetários e de crédito podem ser instituídos: ou seja, a finança é algo que sempre pode ser posto em ordem, por meio de decisões políticas, enquanto que o mesmo não se dá, se você não tem estruturas e infra-estruturas físicas e sociais e ativos tecnológicos para viabilizar níveis adequados de produção e de atendimento às necessidades sociais.
Em suma, grana você cria à vontade, é só dar impulsos nos computadores e acionar as impressoras. Já atender adequadamente a demanda (sem reprimi-la) por bens e serviços reais já depende de bem mais que isso.
Note-se que, apesar de estar sendo prevista crise e bolha na China, há muitos anos, isso não ocorreu, não obstante a estagnada demanda por importações das economias desenvolvidas da Europa, América do Norte e Extremo Oriente. Com os 1 ou 2 bilhões de habitantes da China – ninguém sabe a quantidade certa – e bons planejadores não deve ser muito difícil reorientar para o mercado interno parte do aparelho produtivo voltado para exportações.
Tampouco, como já me explicou meu amigo Norton Seng, perito em China, com maior criação de poder aquisitivo interno, poderá ser ocupada a enorme área construída de apartamentos construída e utilizada também a área comercial, ocupando até mesmo as cidades ditas fantasmas que causam esse misto do assombro e de horror nos observadores dependentes dos conhecimentos econômicos mais difundidos no Ocidente.
Além disso, se a política econômica não é escrava das finanças ditas ortodoxas, não há problema algum em arranjar mais crédito para os locatários ou adquirentes, viabilizando a ocupação dos imóveis. Por outro lado, o regresso de alguns milhões de pessoas para as áreas rurais também pode ser administrado, o que não fica tão difícil, com a boa infra-estrutura de transportes, e fomento à produção agrícola descentralizada em interação com as áreas urbanas e industriais.
