Por José Blanco, via La Jornada
O fim da história e o último homem (1992) via a queda da URSS assim, em meio ao júbilo dos ocidentais (e orientais): terminariam as ideologias, o mundo seria governado pela economia globalizada, sob o marco da democracia liberal: o fim da história. A única coisa a ser feita seria esperar o avanço da ciência que nos traria benefícios sem fim, eternamente.
Por meio do tratado de Belavezha, firmado em 8 de dezembro de 1991 pelos presidentes da Rússia, Ucrânia e Bielorrússia, dissolveu-se a maior república socialista que já existiu. As 15 repúblicas que formavam a URSS adquiriram independência, ainda que 78% dos cidadãos tenham votado a favor da conservação da URSS.
O que parece é que a posterior conformação da Comunidade de Estados Independentes conservou em boa parte o peso da Rússia perante a região. Os historiadores nos revelarão um dia como grupos políticos russos abriram caminho para realocar a Rússia e a mesma confederação como um ator independente e de grande influência e peso na cena internacional.
Apenas 23 anos depois, tendo como marco a crise da globalização neoliberal, os caminhos percorridos pela Rússia e a China nos levaram a um ponto próximo da formação de um novo mundo. Uwe Klussmann escreve no Spiegel online, publicação do semanário alemão Der Spiegel que Rússia e China “preparam-se para firmar um novo acordo de cooperação político-militar”, o qual daria a plataforma necessária para gerar um reequilíbrio das forças mundiais. Klusmann informa que Renmin Ribao, o órgão principal do Partido Comunista chinês, declarou recentemente em um documento que o caso da Ucrânia está revestido do espírito da Guerra Fria, de modo que “o enfoque estratégico da China e Rússia põem um ponto de estabilidade no mundo”.
O Global Times, periódico chinês publicado em inglês, assim intitulou um editorial recente: “Como fazemos novos amigos”, que conclui dizendo: “não podemos deixar assim a Rússia, se encontra-se em dificuldades a China deve ser um sócio estratégico confiável”. Estas posições foram saudadas por Putin na Duma (parlamento russo), agradecendo ao povo chinês. E uma surpresa: a página da Casa Branca publicou na semana passada que descendentes de antigos siberianos russos entregaram a Washington um documento com 30 mil assinaturas solicitando a reintegração do Alaska à Rússia. A mesma página informa que são necessárias 100 mil assinaturas para que esta passe a consideração do presidente.
Os Estados Unidos festejaram com júbilo a votação da ONU sobre o que o Ocidente denomina anexação e a Rússia reunificação, em relação a Crimeia: 100 votos a favor condenando a “ação russa”, 11 contra e 58 abstenções. A Rússia solicitou a Obama que preste um pouco de atenção as abstenções: China, Índia, Brasil, África do Sul (os BRICS). Também Argentina, Uruguai, Equador, Paraguai e El Salvador, e mais outros 49, não votaram com os EUA.
Os Estados Unidos e a União Europeia estavam há anos negociando um acordo de livre comércio, um instrumento bastante complexo que seria o maior acordo comercial do mundo, sem dúvida uma boa notícia para ambos. As negociações haviam entrado em ponto morto devido as descobertas de espionagem que afetam a vários países da Europa em torno das negociações. Na atual circunstância os EUA tinham decidido eliminar, de uma penada, os embargos as importações da União Europeia a partir do último dia 26. A EU procura afiançar uma coalizão internacional de grande poder. Só que esta coalizão vive um momento de grande fragilidade econômica e pode estar próxima de mais uma grande crise.
Do outro lado os mesmos acontecimentos impulsionam outra grande coalizão com os BRICS, que estão em vias de criar seu próprio “Banco Mundial” e “FMI”, sob suas próprias regras. Na semana passada a Rússia negociou um acordo para seus pagamentos em sua própria moeda, com a China e a Coreia do Norte. Se esta medida expande-se aos BRICA, não farão mais pagamentos em dólar pelo petróleo. A queda da demanda por dólares seria um duríssimo golpe a economia estadunidense.
Não somente outras coalizões internacionais estão a se formar, também os plebiscitos proliferam: a região italiana de Cerdeña segue a Véneto, outra região italiana que celebrou recentemente sua independência da Itália, segundo a edição digital do Nova Sardegna. O mesmo ocorre com a província autônoma italiana de Bolzano-Alto Adigio, mais conhecida como Tirol del Sur, que em 1919 formava o império Austro-Húngaro: busca se tornar independente da Itália. E mais: o governo da Escócia anunciou um referendo para o próximo setembro a fim de consultar a população sobre a independência do Reino Unido. A Catalunha, por sua vez, mesmo sob a negativa do governo espanhol, decide também em setembro em uma votação a opção de separar-se da Espanha. O país Székely – parte da Transilvânia, integrante da Romênia – está do mesmo jeito, e as regiões de Flandes querem separar-se de Valonia, o que faria desaparecer a Bélgica.
Estamos às portas de um novo mundo?
*- Resolvi incluir este pertinente comentário de Adriano Benayon, doutor em economia e ex-diplomata sobre os acontecimentos discutidos neste artigo:
É um artigo bastante informativo, que assinala fatos recentes, demonstrativos do que sempre deveu estar claro: que a estória de “fim da História”, do tal Francis Fukuyama, jamais mereceu crédito por parte de quem tem noções de História. Se tiver tempo, vou procurar algo que publiquei, logo que se começou a propagar a tal estória.
Sempre esteve claro, para os menos mal informados, que a grande voga de Fukuyama foi uma dessas que a maioria dos meios acadêmicos e a grande mídia fomentam, no quadro de sua prestação de serviços à oligarquia cuja meta é o poder mundial totalitário.
É mais um dos inúmeros casos de famas criadas a respeito de personagens acadêmicas medíocres, promovidas por cumprirem à risca o que diz o ditado alemão:
Dessen Brot ich esse, wessen Lied ich singe. (Eu canto a canção de quem me dá o pão).
Tradução: Rennan Martins
