Standard & Poor’s rebaixou a nota. E o Brasil com isso? Entrevista com Bruno Galvão

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A polêmica e comprometida Standard & Poor’s sendo super-valorizada no Brasil (Debtonation/Reprodução)

Por Rennan Martins

Na semana passada, a agência norte-americana Standard & Poors rebaixou a nota de classificação brasileira de BBB para BBB-, e a repercussão desta notícia foi imensa. Diversos programas de debate, entrevistas e publicações dedicaram-se a dissecar as razões desta medida proveniente dos “oráculos”.

Intrigado com o fato de a S&P ocupar-se somente do mercado financeiro, ou seja, do especulativo, o que a priori não deveria ser a primeira preocupação da economia de um país, resolvi fazer uma entrevista pra contribuir com uma visão mais ampla ao debate ainda em questão.

Contatei então Bruno Galvão, doutor em economia pela UFRJ, funcionário do BNDES e colaborador da Associação dos Desenvolvimentistas Brasileira e tivemos a interessante conversa onde ele ressalta que a reação do mercado financeiro foi menos dramática que a da mídia e que é preciso que o governo não ceda ainda mais as recomendações conservadoras pois elas agravarão o quadro de baixo crescimento.

Confira:

A agência de classificação de risco Standard & Poors rebaixou a nota brasileira de BBB para BBB-. Qual é a real importância deste fato?

O próprio mercado financeiro não deu valor a esse fato, tendo em vista que no dia a bolsa brasileira subiu e o dólar não só caiu, como caiu mais que a moeda das outras grandes economias da América Latina. Independente disso, é muito temerário um governo democrático guiar suas políticas para a valorização de curto prazo dos ativos financeiros. O governo é eleito com vistas a melhorar a vida da população (e o prejuízo ou lucro dos especuladores deve ser apenas um efeito colateral disso). Em relação à decisão da S&P, ela é, na melhor das hipóteses, reativa; ou seja, houve uma piora das condições da economia brasileira e o Brasil foi rebaixado. De fato, a situação econômica do Brasil está significativamente pior do que há 5 ou 6 anos atrás. Mas, o anúncio da S&P em nada muda essa situação. É interessante notar que o Brasil está pior exatamente por causa das políticas recomendadas pela S&P. A política cambial e monetária conservadora fez com que tivéssemos uma brutal valorização da taxa de câmbio real e esse é o principal motivo para a deterioração da conta corrente. O aumento do déficit em conta corrente é o principal responsável pela piora das condições econômicas do Brasil. Além disso, a irresponsável política de superávit primário, associada às elevadas taxas de juros pagas pelos consumidores, minou o crescimento econômico, que é outro fator muito importante para a piora da perspectiva da economia brasileira.

 

Qual o interesse dos que alardeiam exageradamente em torno do tema? Há motivações políticas por trás disso?

Há um obvio interesse das agências em promover seus ratings e suas recomendações políticas. Mas, a questão é porque isso é tão aceito na mídia e entre as pessoas “formadoras de opinião” e no governo. Não é de hoje que a opinião das agências é superdimensionada. Acho que os principais motivos são: 1) a crença de que uma política economicamente sustentável requer que os especuladores tenham altos lucros investindo em ativos do país ou que esses lucros sejam sintoma de que a economia está bem; 2) as recomendações políticas da agência são convergentes com a da mídia e da elite econômica e política no Brasil; 3) há um mito de que os grandes investidores no mercado financeiro são seres iluminados que entendem mais de economia do que nós, os pobres mortais. Deve-se acrescentar que essas crenças são infundadas: os especuladores não têm nem uma visão melhor sobre o estado da economia, nem o interesse do desenvolvimento econômico sustentável. Evidências empíricas mostram não só que os investidores erram, mas também que remuneração muito elevada para a especulação financeira é sinal de que crise econômica está por vir. Por outro lado, países com economia forte e sustentável, como os países nórdicos, não são conhecidos por alta remuneração da especulação.

 

Uma rápida pesquisa nos indica que a S&P possui diversos processos por conta de avaliações duvidosas e que estas já causaram perdas bilionárias. Qual a razão de darem tanta relevância a opinião de economistas que já se mostraram irresponsáveis?

Essa é uma pergunta muito boa. É realmente muito estranho porque depois da crise de 2008 a S&P ainda continua a ser considerada como um oráculo. É indesculpável a S&P ter considerado o crédito subprime como triplo A. Mas, o fato é que a imprensa, o governo e burocratas ainda consideram a S&P como uma verdade que eles são incapazes de questionar. É a única explicação para isso me parece ser o emburrecimento tanto do governo quanto da academia. Falar isso é muito agressivo, mas eu lembro que professor Mario Possas costumava falar que pensar criticamente era pleonasmo. O governo está muito preocupado com a nota das agências porque acreditam que elas ainda sabem o que é melhor para o Brasil.

 

Há alguma intenção em forçar o governo a mudar a política econômica com essa medida?

A política econômica já é orientada pela opinião das agências de rating. Mas, realmente as agências recomendam um aumento do conservadorismo fiscal. É capaz do governo seguir essa recomendação, porque ele está perdido e não sabe o que fazer com a deterioração da economia brasileira e das condições internacionais. Contudo, o efeito do ajuste fiscal será a apenas a diminuição do crescimento econômico, do investimento público e a piora dos serviços públicos. O ajuste fiscal não irá resolver os dois principais problemas do Brasil: o déficit externo e o baixo dinamismo da economia brasileira. Apesar de não resolver o problema, os liberais sempre poderão reivindicar que o problema econômico não foi resolvido porque o ajuste não foi duro o suficiente. Isso me lembra que aconteceu durante a crise Argentina: como o governo não queria enfrentar o problema do currency board, ele optou por fazer um duro ajuste fiscal, que só piorava a situação econômica, sem conseguir afastar o temor dos investidores de que o câmbio seria desvalorizado.

 

Ainda sobre este tema. Ontem o Copom se reuniu novamente e alcançamos o 11% na taxa básica de juros. Este cenário é interessante a agência? Quem ganha com o Brasil tendo os maiores juros do mundo?

É complicado discutir os interesses da elite em alta taxa de juros. Realmente, a taxa de juros elevada no Brasil é muito boa para os interesses dos rentistas. Além disso, ela favorece especulação em geral. Um dos principais motivos para a grande flutuação na taxa de câmbio no Brasil é o fato da taxa de juros ser alta. Em relação aos lucros dos bancos, é controverso quanto que a elevação da taxa Selic aumenta os seus lucros. Me parece que é mais importante o grau de monopólio para determinar o spread bancário e, portanto, a taxa de lucro dos bancos do que o nível da taxa Selic. Essa é uma questão em aberto e a ser estudada. De qualquer forma, é fato que a elite econômica é convergente na defesa de políticas econômicas conservadoras. Sempre eles estão pedindo ou legitimando políticas fiscais e monetárias mais conservadoras. Por isso eu recomendo a leitura de um artigo clássico que explica porque as elites são sempre favoráveis a políticas econômicas conservadoras: “Aspectos políticos do pleno emprego” de Michael Kalecki.

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