
Karl Marx reaparecendo nas análises sócio-econômicas.
Por Rennan Martins
A crise econômica global que temos enfrentado desde 2008 tem afetado profundamente os países desenvolvidos. Esta configuração desastrosa atual é fruto de políticas equivocadas que tem sido praticadas majoritariamente desde o início dos anos 80, com a subida de Thatcher e Reagan ao executivo de seus respectivos países, a queda da URSS no início da década de 90 também é um fator relevante nesta equação.
O Brasil por sua vez, sofre impactos relativamente baixos desta crise, alguns analistas creem que isto se deve principalmente as práticas latino-americanas que tem ido na contra mão do Consenso de Washington.
Uma das explicações para esta certa imunidade é a oferta de crédito, estimulada de forma enérgica desde 2002. Esta seria um fator decisivo na expansão do mercado consumidor e consequentemente, na produção.
Considerando que os estágios de desenvolvimento capitalista possuem similaridades entre as diversas nações e o alto grau de integração da atividade econômica contemporânea, julguei oportuno fazer a tradução do artigo que segue. Trata-se do texto intitulado A Return to a World Marx Would Have Known, de autoria do editor Doug Henwood, da Left Business Observer, disponível no New York Times.
Nele, Doug faz uma análise dialética das causas da expansão e recessão econômica e procura por causas e soluções para a atual crise vivida principalmente pelos Estados Unidos e União Europeia. Tendo em vista que o modelo de impulso ao consumo tem demonstrado debilidade nos últimos anos em nosso país e que o governo tem rumado a ortodoxia, creio que essas ideias tem muito a contribuir para o debate nacional.
Segue a tradução:
A volta a um mundo familiar à Marx
Por Doug Henwood
Não vejo outra maneira de entender o triste estado da economia global sem o uso de análises inspiradas em Marx.
Cá estamos, há quase cinco anos passando por um processo oficial de recuperação da pior crise econômica em 80 anos, o ganho médio de um lar hoje está mais de 8% abaixo de quando a Grande Depressão começou e o desemprego persiste com 650.000 cargos abaixo dos níveis de antes da recessão.
Enquanto as elites voltaram a prosperar, para milhões de americanos, é como se a recessão nunca tivesse acabado.
Como isso pode ser explicado? A melhor maneira é voltando aos anos 70. A lucratividade das empresas – coisa que todo marxista sabe, é o motor do sistema – tinha caído de forma acentuada de seus bons níveis de meados da década de 60. As bolsas de títulos e mercadorias tinham performances terríveis. A inflação parecia subir sem limites. Após três décadas de crescimento que parecia infindável, os trabalhadores desenvolveram uma atitude problemática, procrastinavam e até mesmo organizavam greves. Não é estranho que Johnny Paycheck tenha atingido o primeiro lugar nas rádios com a música “Take This Job and Shove It” em 1977 – inimaginável algo similar nos dias de hoje.
E é neste ponto que Marx entra em cena. Na raiz do problema o que ocorreu foi a quebra da lógica da relação classista: os trabalhadores não mais temiam seus chefes. A uma sanção severa estava por vir.
E ela veio drasticamente. Em outubro de 1979 o Federal Reserve elevou os juros em 20%, a fim de acabar com a inflação e restringir o empréstimo, acabou por criar a maior recessão desde 1930. (Este recorde só foi superado em 2008/2009). Pouco menos de um ano depois, Ronald Reagan chegou ao gabinete, demitiu os controladores aéreos em greve, foi um duro golpe em décadas de organização sindical. Cinco anos após o hit de Johnny Paycheck, os trabalhadores se tornaram desesperados em manter ou conseguir empregos. Acabou-se a postura rebelde.
A “cura” funcionou durante 30 anos. Os lucros das corporações decolaram juntamente com os mercados financeiros. O mecanismo por trás disso, como Marx explicaria, é simples: trabalhadores produzindo mais valor do que sua remuneração, e esta diferença é a raiz do lucro. Se a produtividade dos trabalhadores aumenta enquanto seus ganhos permanecem estagnados ou em queda, os lucros sobem. Isto é precisamente o que ocorreu nas últimas três décadas. De acordo com o Bureau of Labor Statistics, a produtividade cresceu 93% entre 1980 e 2013, enquanto a remuneração do trabalhador 38% (corrigido pela inflação).
O 1% tornou-se mais rico e poderoso. Mas temos um problema: um sistema dependente de um alto nível de consumo em massa tem sérios dilemas frente a estagnação ou declínio dos ganhos das massas. O desenvolvimento de um grande mercado de consumo em massa após a morte de Marx, com uma ávida participação da crescente classe média fez um sem número de análises considera-lo obsoleto. Agora, no entanto, com a diminuição da classe média e a erosão de seu poder de compra, todo o modelo de consumo massivo do século 20 é que começa a parecer ultrapassado.
O modelo creditício sustentou o consumo de larga escala por poucas décadas. Lares de renda relativamente baixa puderam financiar carros, comprar comida, pagar contas médicas, comprar casas mais luxuosas e etc. Convenientemente, a classe de alta renda tinha muito recurso pra emprestar-lhes.
Este modelo colapsou em 2008 e não conseguiu – nem pôde – ser revivido. Sem o sumo proveniente do crédito fácil, a demanda prossegue restrita e o crescimento baixo. (Este é também o caso da Europa)
Aumentar os rendimentos dos 90% de baixo traria maiores salários a população em geral e o aumento dos gastos públicos – mínimos desde que Reagan os arrochou – poderia mudar isto. A classe dominante porém é resistente, e também possui muito do poder político.
O resultado disto é uma economia baseada em relações de dominação e submissão. Não temos expectativa de que o século 21 trará um retorno das enormes disparidades do século 19, mas o que parece é que está acontecendo.
