Arquivo mensais:março 2014

Banqueiros ficam com 30% do orçamento

Por Igor Felippe, nEscrevinhador

A melhor forma de saber as prioridades do Estado brasileiro – definidas por governo, parlamento e judiciário – é analisar para onde vai o dinheiro do Orçamento. A presidenta Dilma Rousseff sancionou nesta segunda-feira o orçamento fiscal para 2014, que foi aprovado no Congresso Nacional.

Clique aqui para ler a íntegra da lei sancionada

O pesquisador Antônio David destacou o seguinte trecho da lei:

Art. 3o  A despesa total fixada nos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social é de R$ 2.383.177.997.310,00 (dois trilhões, trezentos e oitenta e três bilhões, cento e setenta e sete milhões, novecentos e noventa e sete mil e trezentos e dez reais), incluindo a relativa ao refinanciamento da dívida  pública federal, interna e externa /…/

I – Orçamento Fiscal: R$ 1.015.519.698.350,00 (um trilhão, quinze bilhões, quinhentos e dezenove milhões, seiscentos e noventa e oito mil e trezentos e cinquenta reais) /…/

II – Orçamento da Seguridade Social: R$ 712.911.351.891,00 (setecentos e doze bilhões, novecentos e onze milhões, trezentos e cinquenta e um mil e oitocentos e noventa e um reais) /…/

III – Refinanciamento da dívida pública federal: R$ 654.746.947.069,00 (seiscentos e cinquenta e quatro bilhões, setecentos e quarenta e seis milhões, novecentos e quarenta e sete mil e sessenta e nove reais) /…/

 

O estudo “Os Ricos no Brasil” (publicado em livro pela Editora Cortez , 2004), lançado pelo economista Márcio Pochmann, que foi presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apontou que 20 mil clãs familiares (grupos compostos por 50 membros de uma mesma família) se apropriam dos recursos destinados pelo governo para o pagamento dos títulos da dívida pública. Os banqueiros ficam com a maior parte desses recursos.

Ou seja, o orçamento deste ano prevê que aproximadamente 30% do orçamento – arrecadado com o pagamento de impostos por toda a população – será destinado para 20 mil famílias.

Aí está o nó para o atendimento das demandas do povo brasileiro – como transporte, educação, saúde e moradia – e para o desenvolvimento do país.

Não é a “gastança” ou “farra fiscal” do governo federal, como acusam os setores neoliberais.

Nem a realização da Copa do Mundo do Brasil, como alegam os organizadores de protestos sob o lema “Não vai ter Copa”, previsto para 25 de janeiro.

Banqueiros avisam: “Não queremos Dilma, mas…”

Por Igor Felippe, no Escrevinhador

Os banqueiros ficam com 30% do orçamento do governo federal (clique aqui para saber mais), mas não querem a permanência de Dilma na presidência. Eles já ganham muito, mas querem mais.

O capital financeiro quer derrotar o projeto de desenvolvimento em curso. Se não conseguir, adapta-se e faz pressão para arrancar cada vez mais vantagens. E o governo tenta de todas as maneiras agradá-lo. Não aprendeu que são insaciáveis e, assim, fica refém daqueles que querem a sua derrota.

Abaixo, leia reportagem de Talita Moreira, no Valor Econômico.

Setor financeiro quer mudança no Planalto

A campanha eleitoral nem começou oficialmente, mas a alta esfera do mercado financeiro já tem seu cenário ideal. Não há uma inclinação clara por um candidato, mas, na visão de banqueiros e gestores de recursos ouvidos pelo Valor, o melhor dos mundos seria que a presidente Dilma Rousseff não se elegesse para um segundo mandato. No entanto, eles próprios consideram essa possibilidade muito remota.

Alguns têm simpatia pela dupla formada pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB) e pela ex-senadora Marina Silva (PSB). Outros gostariam de ver Aécio Neves (PSDB) no Planalto. Porém, acima da preferência por um outro candidato, está o desejo de mudanças na condução da política econômica.

O que agrada ao mercado, sobretudo, são os nomes dos conselheiros econômicos por trás dos candidatos de oposição. Aécio conta com o apoio de peso do ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, sócio da Gávea Investimentos. Campos e Marina têm o respaldo do economista Eduardo Giannetti, também adepto de uma linha de pensamento pautada pelo controle da inflação, pela livre flutuação do câmbio e pelo controle fiscal – o chamado tripé macroeconômico. São questões que, na visão de fontes de instituições financeiras, foram deixadas de lado no governo atual.

Se não reverter esse quadro, Dilma chegará às eleições em uma situação bem diferente da enfrentada por Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. Com a economia estabilizada e crescendo, o então presidente contava com o apoio do setor financeiro para se reeleger.

Segundo pesquisa divulgada no início de dezembro pelo Datafolha, a presidente tem 47% das intenções de voto em eventual disputa com Aécio e Campos, ou 42% se a candidata do PSB for Marina. Nos dois cenários, Dilma subiu em relação ao levantamento anterior.

“A reeleição já está no preço [dos ativos]. Qualquer outro que seja o vencedor levará a uma alta no mercado”, afirma um graduado banqueiro. O mesmo raciocínio é ouvido em algumas das principais instituições financeiras do país.

Segundo esse banqueiro, caso algum opositor mostre chance de ganhar ou de levar a decisão para o segundo turno, poderá haver no mercado um efeito parecido com o que se viu na eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994. Inicialmente, a euforia dos investidores levou a uma subida nos preços. Porém, em seguida, o mercado fez ajustes ao assimilar que o novo governo levaria um tempo para adotar as medidas prometidas.

Para parte do mercado, há outro temor no caso de algum candidato da oposição mostrar chances mais concretas de duelar com Dilma nos próximos meses. O receio é que o governo adote políticas de estímulo à atividade econômica que acentuem o desequilíbrio fiscal em busca de um cenário mais favorável à reeleição.

Não que haja algo especificamente contra Dilma ou o PT. O problema, dizem essas fontes, é que a condução da política econômica tem deixado a desejar. O temor é que o afrouxamento fiscal visto em 2013 se aprofunde num segundo mandato.

A preocupação com o futuro não é o único fator que desperta receio. Ainda está viva na memória dos banqueiros a cruzada promovida por Dilma em abril de 2012 contra os spreads, o ganho dos bancos nas operações de crédito. Meses depois, o governo ensaiou um movimento semelhante com as tarifas bancárias. Além da pressão política para que as instituições reduzissem as taxas cobradas, o governo mudou a concorrência ao usar os bancos públicos para puxar para baixo os juros de diversas linhas.

O clima, porém, já foi pior. Medidas recentes adotadas pelo governo com a promessa de controlar as contas públicas foram bem recebidas e poderiam reverter o cenário atual. Mas é preciso tempo para saber se houve, de fato, uma mudança de rumo ou se são ações pontuais, diz fonte de um banco.

Ao longo dos últimos dois meses, o Valor conversou sobre eleições com duas dezenas de executivos de algumas das principais instituições financeiras do país. Todos falaram sob a condição de que seus nomes não fossem revelados.

Em alguns casos, há uma simpatia mais clara pela aliança Campos/Marina, que representaria uma fonte de renovação para a política. Foram muito bem recebidas, no ano passado, declarações dadas por eles na defesa de uma política fiscal mais austera. Para esses interlocutores, faltaria a Aécio Neves o fator “novidade”. Na opinião de um banqueiro, o PSDB não soube renovar seu projeto político e faltaria carisma ao candidato tucano.

Outra frente, no entanto, prefere Aécio justamente por representar um nome mais consolidado entre os eleitores e um projeto sem grandes surpresas. Quem defende essa linha de raciocínio acha que falta a Eduardo Campos se tornar mais conhecido. “Ele tem feito um bom trabalho em Pernambuco, mas ninguém o conhece muito bem”, observa um executivo.

Na tentativa de ganhar mais trânsito entre as instituições financeiras, Campos e Marina têm feito um périplo nos bancos. E com isso têm conquistado alguns adeptos. Recentemente, Campos propôs um encontro com executivos de bancos médios, onde há uma preferência por Aécio. Depois da reunião, realizada na sede da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), alguns banqueiros diziam ter mudado seu voto para Campos.

Ao menos por enquanto, as instituições financeiras têm evitado adotar posições claras. Além de o cenário mais provável ser a reeleição, não é praxe entre os bancos apoiar abertamente um candidato. “De forma bem pragmática, o melhor sempre é apoiar quem está no poder”, diz um vice-presidente de um banco. Por isso, a cautela na hora de apoiar nomes específicos.

O que as instituições têm feito é promover encontros com os principais candidatos e com integrantes da equipe econômica de Dilma para ouvi-los e conhecer melhor suas propostas.

O Credit Suisse e o Itaú BBA são dois dos bancos que têm promovido palestras dos candidatos para grandes clientes. Em outubro, Aécio se apresentou em um evento realizado pelo BTG Pactual em Nova York com investidores e executivos de empresas. No mês seguinte, Campos esteve em um jantar promovido por José Berenguer, presidente do J.P. Morgan.

Em outubro, uma palestra de Marina no Credit Suisse colocou abertamente no cenário eleitoral o debate sobre os rumos da política econômica. A ex-senadora deixou boa impressão nos convidados ao fazer uma defesa veemente do tripé macroeconômico. Na semana anterior, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, também havia feito uma apresentação nesse ciclo de debates do banco suíço.

Para um gestor de recursos, o debate é positivo porque pode, inclusive, levar Dilma a adotar uma política fiscal mais conservadora.

A interlocução com candidatos de vários matizes e a preferência por não manifestar apoios explícitos têm sido a tônica das instituições financeiras nas eleições mais recentes.

Nem sempre foi assim. Mais de uma década atrás, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) chegou a ter uma postura mais política. Trabalhava para a entidade, por exemplo, o consultor político Ney Figueiredo, fundador do Centro de Pesquisas de Opinião Pública da Unicamp.

Desde que a Febraban passou a contar com a presença dos bancos públicos na sua diretoria, deixou de fazer sentido para a entidade levantar qualquer tipo de debate político. Agora, os bancos adotam posturas mais individuais. (Colaborou Carolina Mandl)

Coletivos e Ong’s assinam manifesto contra a política militarizante da segurança pública

UPPow pow pow! (Latuff Cartoons/Reprodução)

Por Rennan Martins

Nas últimas semanas temos testemunhado uma crise das Unidades de Polícia Pacificadora no Rio de Janeiro. O projeto, tão exaltado pela grande mídia e interessados nas áreas, tem sofrido represálias nas favelas e os conflitos se encontram numa escalada de violência.

O debate promovido pela grande mídia não abre espaços para nenhuma medida que não seja o aumento da militarização, como se a falta de escolas, de hospitais e a repressão diária aos moradores das localidades ocupadas pudessem ser “pacificados” simplesmente por meio de maior ostensividade.

O aumento da repressão estatal se mostra algo temerário frente ao que observamos nos últimos tempos. No ano passado, o desaparecimento de Amarildo comoveu todo o país, hoje, sabemos que ele foi torturado até a morte por agentes do Estado. Nesta última semana, o caso Cláudia Ferreira, a moradora do Morro de Congonhas baleada e posteriormente arrastada no asfalto por uma viatura da polícia militar, chegou ao hospital já sem vida.

Ontem, a cobertura exaustiva da rede Globo ao tiroteio que feriu o capitão Gabriel Toledo, atingido por um tiro na coxa, em Manguinhos, sugere que a perna baleada de alguns pode ser mais interessante em noticiar que as mortes de outros, somente dependendo do quanto se pode defender interesses com os fatos.

Talvez seja oportuno recordar que o “caso da mulher arrastada” seja um pouco mais complexo. A “mulher arrastada” chamava-se Cláudia Ferreira, tinha 38 anos, era auxiliar de serviços gerais, deixou viúvo seu marido e órfãos seus quatro filhos. Sempre bom ressaltar as redações de alguns veículos que ela não foi somente arrastada, foi assassinada.

Diante disto, diversos coletivos e ong’s redigiram um manifesto que circula nas redes. Nele, é questionada a ocupação que não promove os direitos, são lembrados diversos “anônimos” vítimas de arbitrariedades e por fim somos alertados que “Não se constrói uma politica de paz, com o pé na porta, agredindo gratuitamente seus moradores, não se constrói paz com caveirão. No atual modelo, ‘independente de quem manda’, os moradores continuam sem ter sua voz ouvida.”

Confira o manifesto, na íntegra:

QUEREMOS SER FELIZES E ANDAR TRANQUILAMENTE NA FAVELA EM QUE NASCEMOS

Durante décadas o Estado não reconheceu a favela como parte integrante da cidade, negando aos seus moradores direitos básicos. Hoje depois de 3 anos de ocupação da segurança pública no Complexo do Alemão, percebemos que ainda temos um longo caminho a seguir na garantia de direitos, uma vez que, o braço do Estado que mais entra na favela é o braço armado. Sem escola não há pacificação, sem saúde não há pacificação, sem saneamento básico não há pacificação, sem lazer não há pacificação. O símbolo da paz no Rio de Janeiro não podem ser as armas, a pistola, o fuzil e os blindados.

Nas últimas semanas, as manchetes dos jornais foram tomadas por matérias sobre os conflitos que acontecem cotidianamente nas favelas com a ocupação policial – as UPPs, sobretudo no Complexo do Alemão. Junto com as manchetes veio as declarações do secretário de segurança pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, que apresentou a opção de ampliar a militarização como possível solução para os problemas. Parece que ao seu ver, toda solução de conflito passa pela ampliação da presença da polícia e de outras forças militares no território.

Entendemos que essa perspectiva precisa ser mudada, uma vez que, é possível perceber que só a presença da polícia nos territórios ocupados não tem trazido a paz. Existem vários casos, em favelas com UPP de abuso de poder, arbitrariedades e desaparecidos, como é o caso do Amarildo , na Rocinha, e da morte de jovens por policiais da UPP como: André de Lima Cardoso, 19 anos, Pavão-Pavãozinho; José Carlos Lopes Júnior,19 anos, morador de Sao Joao; Thales Pereira Ribeiro D’Adrea, 15 anos, Morro do Fogueteiro; Jackson Lessa dos Santos, 20 anos, Morro do Fogueteiro; Mateus Oliveira Casé, 16 anos, Manguinhos; Paulo Henrique dos Santos, 25 anos, Cidade de Deus; Aliélson Nogueira, 21 anos, Jacarezinho; Laércio Hilário da Luz Neto, 17 anos, Morro do Alemão e Israel Meneses, 23 anos, Jacarezinho. Nesta política não podemos deixar de citar os policiais mortos na ação suicida do Estado. Não aceitamos essas mortes, nenhuma vida vale mais que a outra e é preciso que o Estado se responsabilize. Afinal qual é a paz que queremos promover? A paz bélica? A paz militarizada?

Nesse domingo, 16, a capa do jornal extra anunciava que os moradores de favela tinham ido as ruas se manifestar a mando do tráfico e estariam recebendo dinheiro para isso. Mas uma vez a grande imprensa tem sido uma ferramenta de criminalização dos movimentos populares e da favela. Repudiamos totalmente a forma com que os meios de comunicação tem feito a cobertura da ação da polícia no Complexo do Alemão e em outras favelas. Entendemos que o morador de favela não pode ser visto como um inimigo. O governo diz que as favelas estão pacificadas, mas então porque tanta arma ostentada pela polícia? Queremos mais diálogo entre os moradores de favela e segurança no território, queremos a liberdade de ir e vir, queremos mais escolas, saneamento básico para morador ao invés de teleférico para turista, queremos a garantia do direito de expressão onde o baile funk se insere, não queremos a violação do domicílio sem mandato. Entender as demandas do Complexo é simples, entender as demandas da favela é simples , porque o papo é reto.

As propostas de “PAZ” devem ser construídas coletivamente com toda a favela. Não se constrói uma politica de paz, com o pé na porta, agredindo gratuitamente seus moradores, não se constrói paz com caveirão. No atual modelo, “independente de quem manda”, os moradores continuam sem ter sua voz ouvida.Temos a consciência que o pobre tem seu lugar.

Assinam:

Ocupa Alemão
Instituto Raízes em Movimento
Alemão de Notícias
Complexo do Alemão
Educap
Jornal Voz das Comunidades
Pré vestibular comunitário Nova Brasília
Mulheres de Atitude -AMA
Verdejar Socioambiental
Foto Clube Alemão
Família de José Carlos Lopes Júnior
APAFUNK
Porque eu quis
Favela não se Cala
IDDH
Rede Universidade Nômade
O Cidadão
Fórum Social de Manguinhos
Fórum Rede da Juventude
Coletivo Mariati
Favela em Foco
Norte Comum
Observatório de Conflitos Urbanos
Agência de Redes para Juventude
Ibase
Fala Roça
Marcha Mundial das Mulheres -MMM
Núcleo MMM
Coletivo Rosa dos Ventos
Adriana Facina
Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência
Biblioteca Chico Mendes
Coletivo Vô Pixá Pelada
Coletivo vinhetando
Rio Na Rua
Teatro da Laje
Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana da UFRJ
Surbanitas
Coletivo Projetação
Rede Mapping the Commons
Projeto Green Go

Quem vai mover as turbinas do Brasil?

Por Saul Leblon, no Carta Maior

No momento em que sábios tucanos apresentam a abertura do país como panaceia para o investimento, uma empresa brasileira sugere que o caminho é mais complexo.

No momento em que o declínio industrial do país se transformou em preocupação dominante da agenda econômica, uma reportagem publicada na Revista Exame, de 9 de março último e outra do dia 10 de março, na ‘Defesa Aérea e Naval’, revista on line especializada em assuntos de Defesa, criada pelos jornalistas Guilherme Wiltgen e Luiz Padilha,  chamaram a atenção de Carta Maior.

As matérias davam conta de que a Polaris, empresa de  ex-engenheiros  do CTA/ITA, de São José dos Campos (SP), desenvolveu  uma micro turbina para mísseis, que teria despertado o interesse de fabricantes internacionais de armamentos, graças às inovações que apresenta.

A tecnologia reúne, ademais, densidade de conhecimento suficiente para  credenciar o Brasil no seleto clube dos fabricantes mundiais de turbinas aeronáuticas, dominado por um número muito reduzido  de corporações gigantes.

A notícia transcende a aparência técnica.

Emoldurada pelos desafios que cercam a agenda do desenvolvimento, ela remete às escolhas  que contrapõe projetos distintos, destinados a resgatar a eficiência e a competitividade da industrialização brasileira no século XXI.

O papel do Estado nesse resgate é um divisor  de águas.

Em que medida a sua ausência é compatível com o financiamento e o ganho de escala reclamado por projetos com o potencial daqueles  desenvolvidos pela Polaris, por exemplo?

A opinião do conservadorismo sobre o assunto ganhou uma importante síntese na entrevista  concedida pelo economista Edmar Bacha, formulador do programa  do candidato Aécio Neves, ao ‘Estadão’ do último domingo.

Na listagem dos ingredientes que compõe o problema há convergências entre o que diz o dirigente da Casa das Garças e a visão progressista.

A saber: a) o país enfrenta uma perigosa erosão de suas cadeias industriais; b) não é uma corrosão recente, mas remonta aos  últimos 30 anos, sendo a defasagem cambial um elo comum ao período; c) sua persistência evidencia a dificuldade de se avançar de uma economia de renda média para um padrão de renda alta, capaz de associar eficiência e empregos de qualidade; d) não há mais como crescer pela expansão do emprego e do consumo, sem girar em falso numa engrenagem esgotada; e) o salto da produtividade industrial  é o grande desafio de um novo ciclo de crescimento mais robusto; e) esse ganho não se dará sem uma integração maior da economia brasileira nas grandes cadeias globais de suprimento e inovação, nas quais predominam as trocas intraempresas e entre grandes empresas.

Até aí, estamos na descrição morfológica do enigma.

Vencida a fase alegre dos consensos, a  polaridade se recoloca quando se trata de responder à questão: quem comandará o desbaste dos gargalos? Que forças podem e devem impulsioná-lo? Que diferença faz a escolha de um ou de outro protagonista?

Edmar Bacha é sincero na antecipação de seu olhar:  ‘Não é segredo para ninguém que sou tucano”, diz ao Estadão; em seguida,  dispara a consequência disso na forma de uma diretriz  schumpeteriana:  um novo governo –tucano como ele–  vai impor um “desfazimento” da atual política macroeconômica e lançar as bases para uma abertura comercial contundente e de longo prazo, diz o interlocutor preferencial de Aécio Neves.

O ‘desfazimento’ e a nova abertura dos portos tem alvos e consequências apreciáveis.

Inclua-se aí o desmonte da tentativa de se construir uma política industrial com a participação ativa do Estado no financiamento à integração de grandes empresas nos mercados globais.

Entenda-se, ainda, a implosão da estratégia de integração sul-americana, em benefício de uma abertura comercial de pedigree  assumidamente liberal, a exemplo do que pretendia a Alca.

E, finalmente, a pedra de toque desse tabuleiro: a redução do famigerado ‘Custo Brasil’ – panaceia negativa na qual cabem todos os males do país, mas que no fundo esconde o indisfarçável desejo de quebrar a espinha dorsal dos assalariados, com uma purga de arrocho nos holerites, a partir do salário mínimo, e cortes de direitos sociais expandidos pelos governos do PT.

O arrocho tem sentido funcional e político.

O objetivo é lubrificar a adesão das empresas  à derrubada das tarifas externas, compensando-as duplamente com o corte nas folhas de pagamento e o ajuste no câmbio.

Fecha-se o círculo  do ‘desfazimento’ neoliberal : de um lado, o barateamento das exportações; de outro, o encarecimento das importações. E o Brasil voltaria a deslizar como um corisco na pista do crescimento virtuoso.

Parece lógico.

A que custo?

O conservadorismo é perito no manejo de variáveis descarnadas da dimensão histórica que lhes é indissociável .

Embaralhados os ingredientes assim, higienizados de sua dimensão temporal, salta-se  com ligeireza das preliminares para se atribuir aos ‘livres mercados’ a tarefa de conduzir a transição da economia para uma nova quadra de expansão e competitividade.

A narrativa tecnocrática subtrai o papel e o contrapeso do Estado na delicada ordenação de  ganhos, perdas e prazos ensejados nessa transição; engole, ademais, a alternativa histórica de substituir a carta branca aos mercados pela negociação política de um novo pacto para o desenvolvimento.

Não por acaso, a formalidade lógica de Edmar Bacha assenta-se em uma omissão ainda mais grave e abrangente: sua explanação ignora a ação devastadora dos ditos mercados racionais na origem da crise mais grave do capitalismo desde 1929.

Ou não terá sido o colapso de 2008 um filho legítimo da mesma cepa a que pertencem as propostas tucanas destinadas a salvar a economia  do ‘anacronismo’ lulopetismo e dos ‘desenvolvimentistas’ da Unicamp –como alfineta Bacha ao desdenhar de ‘uma certa universidade do interior paulista’?

Conviria ao PSDB esclarecer por que a crise não aparece –ou não cabe—no modelo de ‘desfazimento’ do Brasil.

Um pedaço da resposta talvez esteja na predileção dos sábios de bico longo pelo universo fabular dos mercados regidos por leis isonômicas, a salvo das manipulações de interesses e isentos da rapinagem gananciosa dos circuitos financeiros.

A realidade é um pouco mais adversa.

Um dado resume todos os demais: 25% dos recursos do sistema financeiro mundial flutuam hoje à margem de qualquer regulação do Estado e dos organismos internacionais.

Estamos falando de um volume de capital fictício equivalente  ao PIB mundial, autoinvestido de poderes para acuar governos, interditar debates (com a ajuda dos esquadrões midiáticos aliados), atropelar políticas de desenvolvimento e esfarelar programas consagrados nas urnas.

O fato adicional de que se vive sob as rédeas de um sistema monetário em estado de decomposição, mas ainda arbitrado pela supremacia do interesse norte-americano, parece alterar muito pouco a disposição tucana de atribuir à abertura dos portos um papel multiuso na superação dos desafios brasileiros.

Tudo se passa como se o objetivo ao qual se busca integrar o país fosse uma equação perfeita, dotada de poder curativo de largo espectro e geométrica harmonia entre as partes.

Um lego amigável, feito de peças complementares.

Somente um devaneio desse calibre  justificaria a intenção expressa de renunciar ao papel do Estado no acirramento da guerra de posições  em curso no ambiente belicoso dos mercados globais.

Se quiser avaliar a realidade concreta da pressão na caldeira, a inteligência abrigada na Casa das Garças deveria, por exemplo, atentar para a disputa fraticida entre grandes corporações globais, subjacente a um episódio que lhe é familiar: o propinoduto no metrô de São Paulo.

Um olhar isento chegaria facilmente à conclusão de que, ademais dos apetites de bolso , existe uma compulsão estrutural a exigir da indústria um desempenho lucrativo equivalente ao do mercado financeiro, de resto dificilmente realizável sem um mergulho no vale tudo que teria marcado duas décadas de licitações  do PSDB em São Paulo.  E isso, de fato, é apenas um exemplo.

Nenhuma macroeconomia determinada a resgatar o papel irradiador da produtividade industrial pode ignorar o peso adquirido pela  condicionalidade financeira na luta pelo desenvolvimento no século XXI.

Mais que isso.

Não pode prescindir do amparo estatal no superlativo esforço de disciplinar os fluxos de capitais  para induzir a composição das  grandes massas de recursos produtivos demandadas pela escala competitiva global.

O que seria do Brasil se as turbinas tucanas alçassem o poder novamente impulsionadas pelo menosprezo olímpico a esses parâmetros de voo do nosso tempo?

Que destino amargaria uma empresa brasileira como a Polaris, embarcada nesse comboio?

No dia 13 de março, fruto da repercussão das matérias da Exame, mas principalmente da Revista Defesa Aérea & Naval, os sócios da Polaris, ex-engenheiros do CTA/ITA, receberam em suas instalações, na cidade de São José dos campos, São Paulo, uma comitiva do Ministério da Defesa para conhecer a audaciosa aposta  de quem pode credenciar o Brasil ao seleto clube dos cinco ou seis fabricantes mundiais de turbinas aeronáuticas.

O passaporte dessa travessia, a  TJ-1000, uma turbina utilizável em mísseis de longo alcance e drones, reúne conhecimento e tecnologias suficientes para, em pouco tempo, com verbas adequadas, desdobrar-se em uma versão de grande porte  para uso em aeronaves comerciais e inúmeras outras finalidades civis, inclusive geração de energia, como informa o site da empresa.

Além dessa, outra turbina já se transformou em realidade na Polaris: a  TJ200, que pesa menos de 10 Kg e tem apenas 16cm de diâmetro. Mas pode impulsionar um míssil de 230 Kg, num voo de 250 km de distância, com apenas 39 litros de combustível.

O Engenheiro Alberto Carlos Pereira Filho, Presidente da Polaris, explica que todo o processo de desenvolvimento e certificação internacional de uma turbina para aviões comerciais custa dezenas de milhões de dólares. O projeto leva anos; é impensável sem um apoio efetivo do setor estatal.

Foi por isso que a Polaris optou, inicialmente, por uma versão de menor complexidade, com investimentos de R$ 4,5 milhões, via Finep (Financiadora de Estudos e Projetos).

Vencida a barreira do conhecimento e, com dois anos de testes, a TJ200 é a  primeira turbina aeronáutica de pequeno porte a entrar em produção num mundo cada vez mais receptivo  ao seu uso civil.

’A disseminação de  drones para serviços de correio’, exemplifica Luis Klein, diretor comercial da empresa, ‘vai acelerar a adequação desses equipamentos a esse uso — a exemplo do que deve ocorrer também na agricultura, nas operações de pulverização e controle’.

Só há uma empresa, a francesa Turbomeca, que fabrica um produto similar ao desenvolvido pela Polaris.

Mesmo com esses trunfos, o Estado brasileiro demorou a prestar atenção no potencial de um projeto que já acumula contratos preliminares para a exportação de 100  unidades para a Europa.

O salto para disputar o mercado de aviões comerciais está nas mãos do governo, insiste Klein.

‘Recentemente’, exemplifica, ‘o Brasil assinou um contrato para o primeiro avião a ser fabricado 100% dentro da Unasul; a turbina prevista é de origem  russa.

Poderíamos ter acoplado ao projeto o desenvolvimento de uma tecnologia própria’, lamenta.

O mesmo pode ser dito em relação à tecnologia desenvolvida pela empresa para turbinas  à gás, destinadas  à geração de energia. ‘Seu desempenho’, assegura Alberto, ‘é superior aos modelos  existentes no mercado mundial, impróprios  para  combustíveis de baixo poder calorífico’.

A tecnologia brasileira, ao contrário, utilizaria gases  que hoje são desperdiçados, queimados e lançados  diretamente na atmosfera, a exemplo das emissões liberadas nos aterros. ‘São apenas dois exemplos de oportunidades à espera de uma política estratégica de Estado’, diz o dirigente.

A visita do Coronel Fábio Eduardo Madioli e do Comandante Eduardo Pinto Urbano, representantes do Ministério da Defesa,  à Polaris, na semana passada, pode ser um sinal de que esses equívocos começam a ser retificados por uma nova disposição dentro do governo.

Se assim for, será uma auspiciosa ruptura com a lógica embutida nos planos na candidatura  tucana, mas não com a receita de adensamento tecnológico  adotada pelas maiores economias industriais do planeta.

Caso dos EUA, por exemplo, cuja  bilionária política de encomendas do setor militar  constitui a principal alavanca de impulsão tecnológica do país.

Ainda hoje,  o orçamento militar norte-americano figura como o maior sistema de encomendas públicas e de incentivo à   inovação  do mundo.

A tal ponto que  Estado autoriza margens de preferência de até 50% nas compras do Exército –ou seja, as compras bilionárias das Forças Armadas dos EUA  privilegiam empresas locais,  mesmo que o seu preço  seja  até 50% superior ao similar importado.

Pelo menos até a crise de 2008, mais de 30% dos gastos dos EUA  com  pesquisas correspondiam a  recursos canalizados a  empresas inovadoras recurso para o desenvolvimento de novas tecnologias e uma escala de compras compatível com a sua sustentação comercial.

Uma dessas linhas de fomento, a Small Business Innovation Research Program, foi a estufa onde floresceu a Microsoft.

A centralidade  de uma política industrial soberana, portanto,  não é um mero fetiche da esquerda. Tampouco  um anacronismo ideológico da Unicamp , como quer a soberba  tucana.

Trata-se de um trunfo indispensável à irradiação da produtividade sistêmica, sem a qual não haverá  excedente econômico para ampliar direitos sociais, empregos de qualidade e salários dignos.

Para que cumpra essa função ela terá que ser tutelada pelo interesse público.

A indução estatal não esgota o duplo desafio de conciliar a construção de uma democracia social no Brasil com a inserção de sua economia nas grandes cadeias globais.

Mas figura, por assim dizer, como a chave-mestra das escolhas  que vão decidir se o país logrará se reposicionar no século XXI como uma economia dotada de turbinas  próprias, ou como figurante caudatário, a  turbinar interesses alheios.

Pascual Serrano: Carta a um venezuelano antichavista

Leopoldo López, líder do partido “Voluntad Popular”, principal oposicionista que prega o golpe (Confirmado/Reprodução)

Por Rennan Martins

O jornalista e escritor espanhol Pascual Serrano, conhecido por sua posição crítica em relação aos meios de comunicação e autor do livro “Desinformácion. Cómo los medios ocultan el mundo”, publicou este texto intitulado “Carta a un antichavista venezolano” no qual faz alguns questionamentos provocantes aos que integram o movimento que tenta derrubar Maduro na Venezuela.

Pascual levanta dúvidas pertinentes sobre a legitimidade do levante e faz paralelos de outros países os quais sofreram golpe suave promovido por interesses estrangeiros. Julguei oportuno traduzir a íntegra pra disponibilizar uma nova visão sobre o que acontece com nossos vizinhos, para que nossos leitores possam ter outra perspectiva que não a do discurso único da grande mídia.

Confira:

Caro cidadão venezuelano, você que está sofrendo com a grande onda de violência que seu país atravessa. Interpretações diversas podem julgar os últimos acontecimentos como a luta de um povo para libertar-se de um governo opressor ou como ações terroristas que visam desestabilizar um governo legítimo. Antes de entrar nesta questão quero convida-lo, de forma independente das interpretações, a analisar a evolução da situação empresarial e econômica dos últimos quatorze anos, desde o início da chamada revolução bolivariana.

Suponho eu, que na posição de classe média ou alta, você possua qualificação e um trabalho bem remunerado, ou então é um empresário que desenvolve atividades de produção ou de serviços na Venezuela. Compreendo que a chegada e posterior avanço do socialismo do século XXI de Hugo Chávez constitua uma preocupação para ti. Disseram-lhe que Venezuela se tornaria uma “ditadura comunista cubana”, que expropriariam sua empresa, estatizariam seu meio de sustento e terras, que lhe tomariam seus carros e ainda sequestrariam seus filhos para os enviar a células bolivarianas onde se tornariam chavistas. As lideranças da oposição e sua mídia estão há 14 anos lhe dizendo isso sem que um sinal de realização tenha ocorrido. Também lhe disseram que perseguiriam a eles e seus meios de comunicação, e aí estão, sem impedimento.

Agora lhe peço que pense em sua situação, desconsiderando qualquer influência externa, governamental ou oposicionista. Se você é médico, engenheiro, advogado ou exerça qualquer outra profissão liberal ou de alta remuneração. Observas-te que nos governos de Chávez e Maduro seus ganhos aumentaram? Nacionalizaram seu escritório, seu serviço ou instrumentos de trabalho? Os impostos tornaram seu negócio inviável? Seus filhos estão contigo e estudam onde você quer ou foram levados para formação bolivariana a despeito de ti? Se possui um escritório de advocacia, de arquitetura ou uma clínica estética, seu faturamento decaiu  após a revolução bolivariana? Uma camada considerável das classes baixas que nunca puderam realizar uma cirurgia plástica, reformar seu lar ou consultar um advogado agora possuem meios de o fazer.

Um dos assuntos que mais lhe preocupa é a criminalidade, que de fato é alta na Venezuela. Mas você vive em um bairro seguro, na Zona Leste de Caracas ou em El Hatillo Todos sabemos que ali não há grandes problemas ligados a criminalidade. E de todo jeito, sua residência conta com segurança privada e cercas de arame cortante ou eletrificado. E ali já estavam desde antes da chegada de Hugo Chávez ao poder. É verdade que nos bairros humildes das grandes cidades ocorrem crimes todos os dias. O senhor sabe que 80% dos homicídios ocorrem em bairros pobres, porém, o senhor não vai a Petare, La Veja, ou ao 23 de Enero, nem nunca foi, pois sempre foram locais perigosos. No fundo, não há razão para que se preocupe mais agora do que a quinze anos atrás. Falemos então do centro, como por exemplo da Plaza Venezuela ou a Sabana Grande, sério que hoje eles lhe parecem mais perigosos que a dez anos, antes da retirada dos ambulantes e posterior instalação de parques infantis e nova iluminação?

Talvez você não seja um profissional liberal mas sim um empresário. Dono de uma rede de restaurantes, de uma concessionária de automóveis ou de uma fábrica de móveis. Ou ainda proprietário de um estabelecimento de móveis e eletrônicos ou confecções em um centro comercial. Deve ter notado que este comunismo que tanto se fala não tocou no seu empreendimento, o presidente Maduro inclusive disse que tomará medidas de contenção a preços abusivos cobrados pelos locadores dos estabelecimentos. Também não aumentaram seus impostos, tanto que não há mais casos de falência de empresas do que na Espanha, por exemplo. É verdade, no ano passado enfrentou-se um grave problema econômico: a escassez de divisas que impede a aquisição de material importado para seu estabelecimento. Parte da responsabilidade realmente é cabível ao governo, não lhe peço que desconsidere os erros do governo, o próprio Maduro os reconhece. Este problema porém deve ser resolvido sem escalada de violência e desestabilização que vem ocorrendo.

Por outro lado, é notável que mestiços e pobres que nunca possuíram um smartphone, nem um carro novo, nem uma roupa cara, nem sentavam em um bom restaurante agora são seus clientes. Pode ocorrer a alguns de vocês, brancos, que admiram os Estados Unidos e reivindicam sua origem europeia que a esses mestiços, afrodescendentes, indígenas e até um pouco sujos e analfabetos não convem e você não gosta de encontra-los nos mesmos comércios, no mesmo bairro, com um carro e uma casa equiparadas a sua. Incomoda até mesmo que sejam clientes de seu estabelecimento. Não lhe recordarei que isso é racismo, diferentemente de ti, os europeus e norte-americanos que tanto admira estão encantados com os afrodescendentes e asiáticos  quando estes possuem dinheiro. Os empresários da Marbella ficam bem felizes quando chegam os árabes com seus cartões de crédito, o ex-presidente Bush não pestanejou em ter como Secretária de Estado uma afrodescendente. As grandes transnacionais norte-americanas também não possuem problema algum com o atual presidente, também negro. Pense bem, o dinheiro proveniente da periferia cai muito bem no seu negócio, antes dos ventos bolivarianos estas cifras não chegavam. Acusam o governo de dividir os venezuelanos, a divisão que denunciam é artificial. A verdadeira divisão de uma sociedade é entre aqueles tudo tem e os que não tem nada. Diminuir esta diferença, que podes comprovar em sua clientela, é algo que está em avanço na Venezuela.

Não peço tampouco que negue o problema do abastecimento. Sabemos porém que as principais vias de distribuição são privadas. Na Venezuela tanto os cidadãos como o governo possuem recursos econômicos para adquirir os bens de primeira necessidade, é evidente que o principal problema – falta de dinheiro – não existe. A governo algum interessa que se tornem escassos estes produtos, daí temos que o primeiro interessado em resolver essa questão seja o governo intervindo sobre os especuladores, atravessadores e distribuidores que provocam o desabastecimento. Nenhum movimento violento que está queimando caminhões do Estado podem assim demonstrar preocupação na questão da escassez que vive a população.

Na Espanha comprovou-se, por meio de entrevistas do Centro de Investigações Sociológicas, que inquirindo aos cidadãos a pergunta “quais problemas do país você considera mais urgentes?” eles respondem uma coisa e perguntando “quais são os principais problemas que afetam você e sua família?”, respondem outra. De maneira que na primeira opção está em destaque o terrorismo, e na segunda, o desemprego. Isto acontece por conta da influência psicótica que transmitiram alguns políticos e veículos de mídia, que os fazem angustiar-se por assuntos que, quando levados em conta sua perspectiva pessoal, não são tão importantes, e assim aparecem outros. Michael Moore alerta aos norte-americanos que ocorrem mais suicídios em nos EUA que mortes por ataques terroristas, que dito de outra forma, é mais provável estatisticamente que você suicide, ao invés de perder a vida num ato terrorista. E todos os cidadãos daquele país, sem exceção, preocupavam-se mais com o terrorismo. Conto isto a ti, amigo venezuelano, pois, talvez esteja acontecendo algo similar no que concerne a preocupação que o governo de Maduro lhe provoca.

Não pretendo convencer-lhe a apoiar o atual governo venezuelano ou que nele vote nas próximas eleições. Você terá muitos mais elementos que eu para observar a evolução de seu país e detectar que problemas são concernentes a erros do governo e quais são de causa diversa. No meu país, a Espanha, muitos cidadãos discordam da política do governo. Criticamos suas decisões, tentamos fazer que as mudem e no dia das eleições votamos em outro partido. Também nos manifestamos, entendemos no entanto que um presidente, um deputado, ou um prefeito o é até as próximas eleições. Não incendiamos caminhões de abastecimento estatais, nem fazemos barricadas nas estradas para que as cidades colapsem, os políticos opositores não lançam os cidadãos em milhares a fim de ocupar um ministério, não permitimos que alguns cidadãos descontentes com o governo estiquem linhas numa avenida para degolar aqueles que passarem de motocicleta. Tudo para que se deponha um presidente que alcançou seu cargo pela via democrática. Você, cidadão venezuelano, de classe média ou alta, acha realmente que este cenário pode ajudar a melhorar sua situação pessoal, familiar e econômica?

Na Venezuela há mecanismos democráticos para destituir um governo, inclusive mais que na Europa onde não existe um referendo revogatório que permita encerrar um mandato político antes do final do mandato. Os setores que estão desencadeando a violência não estão preocupados com sua economia ou seu empreendimento, querem apenas desestabilizar um determinado sistema político, democrático e legítimo pela força pois sabem que pela via democrática não chegarão ao poder. Muitos já estão reconhecendo. Dê uma olhada durante alguns segundos nos países onde as massas enfurecidas derrubaram seus governos com apoio estrangeiro que diziam que iriam recuperar a democracia: Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Ucrânia… Realmente acha que os profissionais de alto nível ou empresários como você saíram ganhando e agora estão melhor?

Um último detalhe, antes que alguns de vocês insinuem o quanto me paga o governos venezuelano para que eu escreva isto. Nunca me pagaram nada por nenhum artigo nem texto sobre a Venezuela, o qual não me parece justo porque o trabalho (não a adesão) deve ser pago. Por isso que publicamos num meio de comunicação espanhol.

Candidatura de José Roberto Arruda em Brasília é tapa na cara

Arruda anunciou que se candidata ao governo do DF no último sábado (Blog Mais Comunidade/Reprodução)

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Bob Fernandes, em seu blog

José Roberto Arruda diz que sua candidatura ao governo de Brasília é “irreversível”. Arruda renunciou ao governo do Distrito Federal, em 2010, depois de filmado recebendo dinheiro.

Em 2001, então senador, Arruda renunciou ao mandato. Por envolvimento no escândalo de adulteração do painel de votação do Senado.

Agora, em comício e vídeo, Arruda diz: deixou o governo do DF não pelo flagra recebendo grana, mas por ação das “forças do mal” e da “maldade humana”.

E, claro, Arruda informa ao distinto público: ele agora é um homem “de fé” e está próximo de Deus.

Quem sabe não veremos Arruda na “Marcha da Família com Deus”?

A vice de Arruda será Liliane Roriz. Liliane é filha de Joaquim Roriz, que renunciou ao governo, em 2007, atolado em denúncias de corrupção.

Liliane é irmã da deputada Jaqueline Roriz, que também apareceu em vídeo. Cena em que Durval Barbosa, delator do chamado “mensalão do DEM”, distribuia maços de R$ 50 mil.

Arruda anuncia ser candidato pelo PR. A vice, Liliane Roriz, é do PRTB. O presidente do PRTB é Luiz Estevão.

Estevão, ex-senador, cassado por envolvimento no escândalo do Fórum do juiz Lalau. Estevão fez um acordo: está devolvendo R$ 468 milhões aos cofres públicos.

Arruda quer ainda o apoio de Paulo Octávio, do PP. Octávio foi governador de Brasília por 22 dias. Vice de Arruda e acusado de corrupção, Octávio também renunciou ao governo.

A candidatura Arruda é algo inacreditável, mesmo para os padrões da política brasileira. E impõe algumas questões.

Sabe-se que o processo contra Arruda dormiu por anos no STJ. Mas, ainda assim, pergunte-se: o que tem a dizer a justiça do Distrito Federal?

Como explicar, para um cidadão comum, a candidatura Arruda & Cia?

Como um político filmado recebendo grana, depois preso, isso já há 4 anos, vai disputar o governo da capital do país?

Essa candidatura leva também a outras perguntas, de endereço geral: cadê a “indignação moral” com a corrupção? Onde estão o impeto investigativo e o barulho?

Como Arruda & Cia, para não falar de tantos outros, submergiu por 4 anos quase sem ser incomodado?

A candidatura de Arruda & Cia é um tapa na cara. Tapa na cara não apenas da chamada “sociedade”, que não aceita mais, e coberta de razões, impunidade.

É tapa na cara da “moralidade” de ocasião. Da “indignação” quando apenas usada para fazer política na falta de ideias e projetos sólidos.

Um discurso moral hipócrita quando não resiste às biografias e nem ao espelho de tantos dos “acusadores”.

Discurso que serve, tantas vezes, para apascentar a alma e o fígado de ressentidos e recalcados.

A candidatura de Arruda & e Cia nasce do silêncio cúmplice. E desnuda os que escolhem… o que deve ser condenado e o que deve e precisa ser escondido.

Discussão do marco civil da internet pode começar hoje com polêmica sobre neutralidade

Parlamentares de vários partidos estendem faixa em apoio ao Marco Civil da Internet (Blog Agora Pressa/Reprodução)

Por Carol Siqueira, na Agência da Câmara

O Plenário pode começar a discutir hoje, em sessão marcada para as 14 horas, o projeto do marco civil da internet (PL 2126/11) com pelo menos dois pontos de divergência: a neutralidade da rede e a regra que obriga empresas estrangeiras a instalar data centers para armazenar dados no Brasil.

Para tentar minimizar a polêmica, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, vai se reunir hojeàs 9 horas com todos os líderes partidários num último esforço antes da proposta chegar ao Plenário.

O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, disse que a reunião será um “tira-teima”. “Ou todos nós concordamos com uma proposta, ou vamos para a disputa nos itens em que não for possível chegar a um acordo”, explicou o presidente. Alves informou que o projeto terá a fase de discussão encerrada amanhã e será colocado em votação na terça-feira que vem (25). “Ele será votado irreversivelmente na terça”, avisou.

Confira os principais pontos da proposta.

Mudanças
O relator do projeto, deputado Alessandro Molon (PT-RJ), admitiu que pode haver mudança na regra sobre os data centers a pedido de partidos da base. “Esse ponto foi incluído após o escândalo de espionagem; não constava do projeto original, e alguns partidos da base sugerem que se busque uma redação alternativa”, disse Molon. Até agora, segundo ele, não houve mudanças no relatório apresentado no mês passado.

A oposição já avisou que é contra obrigar empresas a armazenar dados no Brasil. Os líderes do Solidariedade, deputado Fernando Francischini (PR), e do DEM, deputado Mendonça Filho (PE), disseram que a medida vai encarecer o acesso à internet. “As empresas terão de replicar no Brasil a sua estrutura de data centers, e esse custo fatalmente será repassado para o consumidor”, disse Mendonça Filho.

DEM, PPS, PSD, PP e Pros já pediram que o artigo seja votado separadamente. Além disso, DEM e PMDB apresentaram textos alternativos ao marco civil da internet que excluem essa regra.

Neutralidade
O ponto mais polêmico da proposta, no entanto, continua sendo a neutralidade. O princípio proíbe a venda de pacotes diferenciados por serviços pelos provedores de acesso ou o bloqueio de alguns sites ou aplicativos pelas empresas que gerenciam conteúdo. Todos os usuários deverão ter tratamento igual pelas empresas.

O PMDB, no entanto, quer autorizar a venda de pacotes diferenciados de acesso a Internet enquanto a oposição quer tirar do governo o poder de regulamentar as exceções à neutralidade. Mas o relator já avisou que a neutralidade é “inegociável”.

Para a oposição, dar ao governo o poder de regulamentar a neutralidade vai permitir que algumas empresas sejam beneficiadas em detrimento de outras. O líder do DEM, deputado Mendonça Filho, apresentou hoje uma emenda que proíbe qualquer regulamentação da neutralidade. “Essa proposta do governo é neutralidade fake [falsa] porque depende de decreto do Executivo”, denunciou. “A neutralidade deve ser independente da posição política de quem governa”, disse o líder do SDD, deputado Fernando Francischini.

Molon rebateu as críticas. “Não há como tirar a regulamentação, que é prerrogativa constitucional. Tirar isso é deixar ao sabor dos provedores quais os requisitos que eles vão usar na sua rede, ou seja, acabar com a neutralidade”, disse.

Reunião
A bancada do PMDB deve se reunir hoje, às 14 horas, para decidir a sua posição quanto ao marco civil. Até a semana passada, o líder do PMDB, deputado Eduardo Cunha (RJ), dizia que o partido iria rejeitar o texto, mas Cunha admitiu que a posição do PMDB pode mudar se o projeto for alterado nos dois pontos polêmicos.

“Estão falando em tirar os data centers, o que a gente não concorda; também falam em tirar a regulamentação por decreto, e nós não queremos interferência do governo na internet. Se essas coisas forem resolvidas, o projeto passa a ter uma chance”, disse.