Arquivo mensais:março 2014

Alckmin raciona água para pobre e poupa ricos, diz Júlio Cerqueira César

Reservatório da Cantareira atingiu o menor nível em 39 anos (Folha de São Paulo/Reprodução)

Por Conceição Lemes, no Viomundo

Apesar de o nível do sistema Cantareira diminuir dia após dia, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) insiste: o racionamento de água está descartado em São Paulo.

A razão é óbvia: teme que a medida interfira nas eleições de 4 de outubro.

“Só que o governador e a Sabesp já estão fazendo racionamento e dizem que não vão fazer”, condena o engenheiro Júlio Cerqueira César Neto, professor aposentado de Hidráulica e Saneamento da Escola Politécnica da USP. “Ao não contar todas as coisas que está fazendo, o governador  mente.”

“Na verdade, o racionamento começou há mais de dois meses”, denuncia. “A Sabesp já está cortando água em vários pontos da cidade de São Paulo e em municípios da região metropolitana, como Osasco, Guarulhos, São Caetano do Sul. Em português, o nome desses cortes é racionamento.”

“Só que essa forma de fazer o racionamento me parece completamente injusta, pois é  dirigida aos pobres; vão deixar os ricos para o fim”, prossegue. “Se existe essa situação de crise total, todos têm de ser penalizados.”

Para o professor, o problema não é falta de chuvas, mas a falta de investimento em mananciais.

“O sistema  de chuvas funciona de acordo com ciclos naturais da natureza. Esses ciclos de secas e enchentes, menos água, mais água – chamados de ciclos hidrológicos negativos –, ocorrem naturalmente. Nós não temos influência grande nisso”, explica. “Nosso sistema de abastecimento de água, portanto, deveria ser sido feito de forma a prevê-los e superá-los. Não é o aconteceu.  Em 1985, São Paulo inaugurou o sistema Cantareira e o governo do Estado e a Sabesp, especialmente, cruzaram os braços.”

“A partir da década de 1990, a Sabesp aderiu ao modelo neoliberal e passou a buscar o lucro a qualquer custo, independentemente dos direitos fundamentais do homem”, observa o engenheiro. “Assim,  deixou de considerar o saneamento básico como problema de saúde pública. E passou a encará-lo como um negócio qualquer.”

“A Sabesp se transformou num balcão de negócios. Sucesso total no mundo dos negócios, fracasso total no mundo sanitário, na saúde pública”, sentencia Júlio de Cerqueira César Neto.

“O volume morto do sistema Cantareira não é reserva estratégica coisa nenhuma e seu uso terá consequências”, avisa. “Tirar água do rio Paraíba do Sul para o Cantareira é mais uma jogada demagógica do governador.”

Por quê? Sugiro que leiam a íntegra da entrevista do professor Júlio Cerqueira César Neto até o final. É muito esclarecedora.

Viomundo – Em 2009, 2010 e 2011, a região metropolitana de São Paulo enfrentou grandes enchentes. O então governador José Serra (PSDB) debitou-as na conta de São Pedro e da população das periferias por jogar lixo e entulhos na rua. Agora, a situação é oposta. Há falta dramática de água. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) responsabiliza a falta de chuvas pela crise de desabastecimento.  O que acha disso?

Júlio Cerqueira César – O abastecimento de água e a drenagem são sistemas de infraestrutura urbana que têm as suas próprias lógicas e características.

Isso quer dizer o seguinte. O abastecimento depende de chuvas intensas para encher os reservatórios. Então, teoricamente quanto mais água tiver durante o ano, melhor. Teremos água para consumir.  Quando isso não acontece, falta água.

O problema da enchente é o contrário. Quando o sistema de drenagem não tem capacidade para escoar as chuvas que ocorrem no período chuvoso, ele extravasa. É completamente oposto ao que acontece agora.

Infelizmente, temos deficiências nos dois sistemas.  O nosso abastecimento de água está totalmente insuficiente em função das disponibilidades que o meio ambiente nos fornece. Se o governo do Estado tivesse feito há mais de 10 anos as obras de reforço necessárias, nós não teríamos falta d’ água hoje.

A mesma coisa acontece em relação às enchentes. Se o governo do Estado não aumentar a capacidade de drenagem dos nossos canais e rios, teremos enchentes.

Fiz até esta piada com a nossa situação.

O governador foi dormir com a dona Lu e falou:

– Oh, meu amor, reza para chover bastante.  Senão a minha reeleição vai para o brejo…o volume dos reservatórios está diminuindo…

Ao que dona Lu respondeu:

– Mas meu bem, se eu pedir pra chover muito, a cidade vai ficar alagada, você vai perder a eleição do mesmo jeito.

Viomundo – Qual o peso da falta de chuvas na atual crise desabastecimento de água?

Júlio Cerqueira César – Vamos tirar a chuva da pauta de discussões, porque o sistema  de chuvas, que é o clima, funciona de acordo com ciclos naturais da natureza. Esses ciclos de secas e enchentes, de menos água, mais água – chamados ciclos hidrológicos negativos –, ocorrem naturalmente. Nós não temos influência grande nisso.

Nosso sistema de abastecimento de água, portanto, deveria ser sido feito de forma a prevê-los e superá-los. Não é o aconteceu.  Em 1985, São Paulo inaugurou o sistema Cantareira e o governo do Estado e a Sabesp, especialmente, cruzaram os braços.

Viomundo – O que deveria ter sido feito?

Júlio Cerqueira César — Em 1985, quando o Cantareira ficou pronto, ele abastecia com folga 100% da população que existia naquela época. E, ainda, tinha capacidade para fazer face às ocorrências cíclicas que a natureza nos proporciona. Era um sistema projetado para satisfazer as necessidades e não deixar a população sem água.

Tanto que de 1985 a 2003 não tivemos um problema de abastecimento de água. Fomos ter 2003, quando houve estiagem prolongada e o Cantareira quase entrou em colapso. A demanda de água de São Paulo era maior do que a disponibilidade dos nossos mananciais.

O que aconteceu? De 1985 a 2003, a população continuou crescendo.  Só que não se investiu mais em mananciais.

Com a inauguração do Cantareira, não era para sentar na cadeira e dizer: agora eu não faço mais nada. Tinha e tem que continuar fazendo, porque a população cresce e eventos hidrológicos negativos variados acontecem.

Viomundo – E de 2003 para cá o que foi feito?

Júlio Cerqueira César – Nada!  Há quase 30 anos São Paulo não investe em novos mananciais.

De 1985, quando o sistema Cantareira foi inaugurado, até 2003, quando tivemos a primeira situação complicada de desabastecimento, eles queimaram a “gordura” que o sistema tinha.

Acontece que não aprenderam nada com a crise de 2003 e continuaram a não tomar as providências indispensáveis  e agora estamos nessa situação dramática.

Em certas regiões do mundo não tem água. Israel, por exemplo. Lá, eles não têm água e têm de se virar, pegar água do mar, desalinizar…

Nós, não. A região metropolitana de São Paulo dispõe do Vale da Ribeira, que tem água mais do que suficiente para o resto da vida da metrópole. E sem prejudicar os moradores de lá.

Então, o nosso problema não é falta d’água. É falta de investimento para ampliar o sistema como foi feito anteriormente com o Cantareira e que nos deixou em 1985 numa situação de  abastecimento de gente civilizada.

Viomundo – O que deveria ter sido feito?

Júlio Cerqueira César – No dia seguinte à situação altamente favorável com a inauguração do Cantareira, a Sabesp deveria ter-se sentado à mesa para definir qual seria o próximo manancial a abastecer São Paulo dali a 10 anos.

E, aí, começar a programar a evolução do sistema ao longo do tempo em função de um crescimento de população que ela deveria imaginar que iria ocorrer. E ir fazendo investimentos, aumentando os mananciais, em função de uma previsão de crescimento da população.

Mas a Sabesp não fez isso. Ficou com os louros da vitória. E a população à revelia (risos) continuou crescendo.

Viomundo – Na prática, seria fazer o quê?

Júlio Cerqueira César  — Ampliar os mananciais. E entre disponíveis, há o do Vale da Ribeira.  Se lá atrás, a Sabesp tivesse feito obras para captar 20 m3/s do Vale do Ribeira, hoje não faltaria água.

Raciocine comigo. O sistema Cantareira foi inaugurado em 1985. Então, em 1990/1995, eles já deveriam começar as obras de  novos mananciais. E poderiam fazer sem correrias, sem superfaturamento, e ir atendendo as necessidades da população de, repito, forma civilizada.

Viomundo – Como se captaria água do Vale da Ribeira, por exemplo?

Júlio Cerqueira César– No Alto Juquiá, nós temos o reservatório França. É como se fosse um imenso tanque que armazena água do rio Juquiá, que  vai parar no Ribeira, lá embaixo. Ele tem capacidade de 20m3/s. Nós poderíamos ter providenciado a captação desses 20 m3/s, para mandá-los para São Paulo.

Agora, são obras complexas. Entre programar e executar, elas demoram aproximadamente dez anos.

Vamos supor que, em 1995, a Sabesp tivesse começado as obras do França, não tinha faltado água em 2003. E não teríamos problema hoje.

Viomundo –  Por que a Sabesp não fez isso?

Júlio Cerqueira César  — Até o final da década de 1980, a Sabesp era uma empresa de saneamento básico. E saneamento, para a empresa, era considerado problema de saúde pública. A Sabesp era mantida e operada por engenheiros sanitaristas, que sabiam que o problema era saúde publica. Ela tinha que abastecer a população com água, ao longo do tempo, sem interrupções. E tratar os esgotos que a população produzia.

Até o final da década 1980 foi assim que funcionou. Os responsáveis estavam ligados no assunto para resolver esses problemas.

Na década de 1990, a Sabesp aderiu ao modelo neoliberal e passou a buscar o lucro a qualquer custo, independentemente dos direitos fundamentais do homem. A Sabesp demitiu os engenheiros sanitaristas e advogados e economistas assumiram o comando.

Viomundo – E o que aconteceu?

Júlio Cerqueira César  — A Sabesp deixou de considerar o saneamento básico como problema de saúde pública. E passou a encará-lo como um negócio qualquer. A Sabesp se transformou num balcão de negócios.

E os usuários?!  A partir daquele momento a Sabesp não quis nem mais saber de nós, os usuários; éramos um estorvo. Ela passou a ser preocupar unicamente com os seus acionistas.

Em 2000, colocou suas ações na bolsa de Nova York. Dez anos depois, houve uma grande festa lá, pois as ações da Sabesp tinham sido que as mais valorizadas na Bolsa de Nova York na década.

O capital ativo da Sabesp cresceu uma enormidade. Sucesso total no mundo dos negócios, fracasso total no mundo sanitário, na saúde pública.

Sabendo disso eles vão mudar? O pior é que não.

Viomundo –  Apesar dos níveis do Cantareira só diminuírem dia após dia, o Alckmin continua  descartando o racionamento. Por que empurrar com a barriga algo que parece inevitável?

Júlio Cerqueira César — Porque o senhor governador está  preocupado  com o dia 4 de outubro. Ele acha que se falar em racionamento, a população não vai votar nele. Então começa a inventar uma série de jogadas demagógicas. Só que ele já está racionando a água há mais de dois meses.

Viomundo – Como assim, professor?

Júlio Cerqueira César — Na verdade, o racionamento já começou. A Sabesp já está  cortando água em vários pontos da cidade e em cidades da região metropolitana, como Osasco, Guarulhos. Em português, o nome desses cortes é racionamento.

Só que essa forma de fazer o racionamento me parece completamente injusta. Se existe essa situação de crise total, acho que todos têm de ser penalizados. Isso significa fazer o racionamento de modo uniforme em toda a região metropolitana para todos terem a mesma penalização.

Só que eles estão fazendo o racionamento dirigido.

Dirigido a quem? Aos pobres que não reclamam. Vão deixam os ricos para o fim.

Viomundo – Em que regiões a Sabesp já está racionando a água?

Júlio Cerqueira César — A Sabesp já tinha cortado 20% de São Caetano. Cortou 20% de Guarulhos. Em Osasco e alguns bairros da Zona Norte, o pessoal está com água só de dia. À noite, a Sabesp corta o fornecimento.

O governador e a Sabesp já estão fazendo racionamento e dizem que não vão fazer. Ao não contar todas as coisas que está fazendo, o governador mente. É uma situação muito complicada.

Viomundo – O governador está mentido?!  

Júlio Cerqueira César — Não há a menor dúvida. O nome certo do que estão fazendo é mentira. Eles estão mentindo para a população há tempos.

Você viu o que a Sabesp fez desde janeiro?

De acordo com o sistema de outorga existente, a  Sabesp tem o direito de tirar para São Paulo, em condições normais,  31m3/s. E é obrigada a soltar 5m3/s para Piracicaba. Essa é a regra.

Consta da regra também o seguinte. Se houver falta de chuva, São Paulo só pode tirar 24,8m3/s em vez dos 31.  E soltar 3m3/s para Piracicaba.

O que fez a Sabesp, quando chegou janeiro e o negócio engrossou? Cortou os 3m3/s para Piracicaba e continuou tirando os 31 para São Paulo, até o dia que isso veio a público e o governador mandou diminuírem, mas não diminuíram para os níveis estabelecidos na outorga.

Só que eles vão ter de fazer isso de uma forma mais uniforme. Não é possível só penalizar alguns. Vai ser necessário penalizar todos até outubro. Aos poucos, vão ter de compreender isso e fazer racionamento pelo menos até outubro.

Viomundo – Por que outubro?

Júlio Cerqueira César –  É quando começa a nova estação de chuvas. Nós estamos entrando na estação de estiagem com os reservatórios secos! É um negócio muito sério.

Viomundo — E essa ideia de bombear água do volume morto? 

Júlio Cerqueira César — Isso também é um negócio muito mal contado. Esse volume morto é um acidente de obra. Ele não tem nenhuma função no abastecimento de água do sistema Cantareira.

Viomundo – Nenhuma função?! 

Júlio Cerqueira César –  Nenhuma, mesmo, tanto que ele não pode ser retirado normalmente de lá. Para retirar essa água de lá, são necessárias obras que ficam em de R$ 80 a R$ 100 milhões. Se essa água fosse usável, fosse  mesmo reserva estratégica, não seria um buraco ao qual que não se tem acesso.

Viomundo – Mas o governador diz que é uma reserva estratégica?

Júlio Cerqueira César – Não é reserva estratégica coisa nenhuma. É um volume 400 milhões de litros de água que está lá. Só que ele não é usável, porque está abaixo do reservatório do Cantareira. Então, esse volume morto não entra no reservatório. Não entrando no reservatório, não entra no sistema Cantareira.  Eles vão ter de comprar bombas para tirar água desse buraco e jogar no reservatório.

Viomundo – Supondo que consigam retirar os 400 milhões de litros de água, o que vai acontecer?

Júlio Cerqueira César  — Se fizerem isso realmente, eles podem fazer o sistema Cantareira usar essa água por três meses: abril, maio e junho. E ela acaba. E nós continuamos com os reservatórios secos , pois só vai chover em outubro. Como ficaremos em julho, agosto e setembro?

Se eles tirarem a água agora, eles vão jogar o problema para três meses à frente. Esse é o primeiro problema.

Mas há um segundo problema. Quando começar a chover em outubro, os reservatórios do Cantareira vão começar a encher? Não!!!

O buraco é que vai encher primeiro.  Enquanto não estiver cheio, nada de água nos reservatórios. E a quantidade de água das chuvas é menor do que essa que vão tirar do buraco. Em vez de três meses, vai levar um ano para encher esse buraco e começar a entrar água no Cantareira.

Viomundo – O senhor é contra usar o volume morto?

Júlio Cerqueira César — Podem até usar, mas sabendo o que vai acontecer depois. Acho que eles se esqueceram disso.

Quando começar a chover, não há a menor dúvida que a primeira água vai cair no buraco. Eles estão resolvendo um problema agora para criar outro depois.  Não tem cabimento uma coisa dessas. Depois, o que eles vão fazer com essas bombas?

Viomundo — O que é um acidente de obra?

Júlio Cerqueira César — Eu também não conhecia esse volume morto. Acontece que é uma região topograficamente muito acidentada. Então quando foi encher o reservatório do Cantareira, encheu o buraco também, pois ele fica abaixo do nível do Cantareira.

Por isso, foi um acidente de obra. Ele estava lá e deixaram lá.

Tanto que de 85 para cá, nunca foi usado, ninguém lembrava que ele existia.

E mesmo agora que precisam usar, eles não podem usar. É preciso gastar R$ 100 milhões em obras, para tirar a água de lá de dentro.

E com o agravante que eu já falei. Essa água vai fazer falta quando começar a chover.  Ela vai ter de encher primeiro o buraco, porque ele está abaixo do reservatório e a água escorre.

Viomundo – Parece piada, professor.

Júlio Cerqueira César — Parece piada, mesmo. E isso feito pela quarta empresa de saneamento do mundo e a maior da América Latina.

Viomundo – E essa ideia de trazer água do rio Paraíba do Sul para o Cantareira?

Júlio Cerqueira César  — Tecnicamente, é viável. Mas ela esbarra na questão política. O Estado do Rio de Janeiro vai autorizar? Além disso, não é uma obra que ficará pronta em uma semana. Serão necessários dois anos para ela ficar concluída. Por isso, pra mim, é mais uma jogada demagógica do governador.

Viomundo – E como sair dessa situação?

Júlio Cerqueira César  –bNão tem como sair. Nós chegamos agora num ponto que vamos ter de suportar essa estiagem até começar a chover de novo. São seis meses de racionamento violento. O Cantareira representa metade da água de São Paulo. Não tem outro jeito, a não ser racionar.

O golpe na Ucrânia e seus resultados: Entrevista com Adriano Benayon

Manifestantes ucranianos pró União Europeia: democratas ou manipulados? (Uol notícias/Reprodução)

 

Por Rennan Martins

A crise ucraniana tornou-se o assunto mais abordado em toda a imprensa mundial quando pensamos em direito internacional e geopolítica. A Ucrânia, que passou por uma série de protestos anti-governo após recuar na assinatura de um tratado comercial com a União Europeia no ano passado, assistiu essa escalada de revolta e violência culminar na derrubada do governo democraticamente eleito de Kiev, que tinha Viktor Yanukovitch, originário do leste do país, como presidente.

Durante todo o processo de desestabilização ocorrido no segundo maior país europeu foi possível ouvirmos uma série de interpretações que iam desde o levante de um povo oprimido contra um governo autoritário até o de uma massa orquestrada pela interferência ocidental que visava trazer este importante país do ponto de vista geopolítico e econômico para sua órbita de influência.

Hoje constata-se na região uma série de indefinições. A porção do país ao oeste, mais sintonizada com a Europa, tem um novo governo baseado em Kiev que responde alinhado à OTAN. Já no leste, mais precisamente na região da Crimeia, ocorreu um repúdio a derrubada do antigo governo por parte de um povo de raízes étnicas russas e o resultado foi um plebiscito separatista realizado pelo parlamento e posterior anexação à Rússia, relevante lembrar neste ponto que esta região fez parte da Rússia até 1954.

Diante de um debate interminável sobre os acontecimentos que testemunhamos pairam muitas dúvidas sobre a realidade, a reconfiguração geopolítica acontece a cada movimento das potências envolvidas e até mesmo a possibilidade de uma guerra é posta em questão.

A fim de obter uma perspectiva apurada do quadro entrevistei Adriano Benayon, doutor em economia e ex-diplomata brasileiro. Ele considera que houve uma intervenção decisiva das autoridades norte-americanas e europeias na derrubada de Yanukovitch, faz uma contextualização rica dos acontecimentos e vê a Rússia ganhar força no cenário internacional mesmo com as sanções que o ocidente tem promovido em resposta a anexação da Crimeia.

Confira:

Como você interpreta a queda do governo de Yanukovitch na Ucrânia? Há interferência estrangeira?

A resposta a essa pergunta é afirmativa e óbvia, para todos os que acompanham fontes de informação independentes, ou seja, os comunicadores não vinculados à grande mídia local e à norte-americana e a dos seus satélites em todos os continentes.  Mas eu não diria que sua pergunta é descabida. Ao contrário, digo que é bem colocada e oportuna, dada a grande e antiga penetração dos veículos dessa grande mídia.

Vale salientar que houve mais do que influência estrangeira: houve intervenção estrangeira, principalmente através das agências e órgãos secretos e não-secretos dos EUA, e até, ostensivamente, por parte do próprio governo estadunidense. Além da intervenção desse país, braço-forte do capitalismo e do imperialismo angloamericano e sócios menores, houve a desses associados, notadamente da União Europeia, na tradição da geopolítica  simbolizada no lema “Drang nach Osten” (pressão na direção do leste)  dos antigos imperialistas alemães e de Hitler.

Como assinala o arguto jornalista brasileiro Pepe Escobar, que escreve para o Asia Times, atrair a Ucrânia para a União Europeia nada mais é que um meio de agregá-la à OTAN e, assim, encostar a faca praticamente na barriga da Rússia.

Então faz parte da estratégia imperial e se tornou urgente, do ponto de vista desta, principalmente após ter a Rússia tido êxito em seu apoio militar e político à Síria, evitando, assim, até o momento a continuidade da escalada iniciada após a implosão das Torres Gêmeas em Nova York, e programada bem antes desse golpe interno preparatório, para controlar todo o Oriente Médio (seguiram-se as intervenções no Afeganistão, Iraque e Líbia, para citar só as principais, visando a chegar ao Irã, tendo a Síria como ante-sala).

O que levou o Ocidente a reconhecer o novo governo de Kiev com tanta rapidez?

De fato, Obama recebeu em Washington  o presidente do governo ilegal estabelecido pelo golpe de Estado fomentado por EUA/UE, dois dias após esse golpe. O porquê está implícito no fato de tudo ter sido patrocinado pela oligarquia imperial, da qual Obama, tal como os chefes de governo da UE e os burocratas da Comissão Europeia são obedientes servidores.

Complementando a resposta à pergunta anterior, base da referente a esta, houve três fatos marcantes, relacionados à intervenção angloamericana e da Europa satelitizada (algo sacramentado por ocasião da criação da UE pelo Tratado de Maastricht). Um foi o encontro da secretária de Estado-assistente dos EUA, Nuland com o embaixador  dos EUA na Ucrânia, em que este foi instruído a acelerar o processo de derrubada do governo legítimo do presidente Yanukovich, logo após ter este se recusado a aderir imediatamente à União Europeia (ele não se recusou em definitivo: apenas propôs negociar algumas das condições da adesão, que fariam a Ucrânia tornar-se em breve mais periferia do que a Grécia.

De fato, o atual governo de fato, imediatamente ao entrar, começou a ampliar as concessões a grandes corporações ocidentais, inclusive de petróleo, além de ao grande agronegócio, com a perspectiva de este, inclusive com os transgênicos, ocupar as  maiores extensões de terra fértil da Europa, as da planície ucraniana e marginalizarem os agricultores locais (algo que já ocorreu no México e alhures, e está acontecendo também no Brasil).

O segundo fato foram as ameaças econômicas e políticas da Comissão Europeia e da Alemanha àUcrânia, e o terceiro, a conversa telefônica, captada por um hacker, entre a chefe das relações exteriores da Comissão Europeia, a britânica Catherine Ashton, e o ministro das relações exteriores da Estônia, Paet, que estavam na Ucrânia avaliando os acontecimentos nos dias que antecederam o golpe de Estado.

Nessa comunicação, Paet transmitiu a Ashton informações de que os disparos sobre a multidão e sobre os policiais partiram dos mesmos elementos compostos por gangs extremistas ligadas aos atuais ocupantes do poder na Ucrânia. Sim, os disparos que motivaram mais invasores pressionar o Parlamento, os quais obrigaram os deputados não golpistas a fugir. O ministro estoniano confirmou a autenticidade da conversa. Já a britânica Ashton disse: não comentamos nada sobre conversações grampeadas.

 

E quanto as alegações de que há neonazistas na nova junta governamental, elas procedem? Se sim, porque EU e US não tocam no assunto?

Claro que os reis da hipocrisia jamais falam do que não serve às suas relações públicas. De resto, a oligarquia angloamericana nunca viu problema algum em colaborar com nazistas, haja vista que começou a recrutá-los para ajudar na Guerra Fria, antes de a Segunda Guerra Mundial ter terminado.

Se você quer saber (pouco se informa disso as pessoas), Hitler foi nomeado chefe do governo (primeiro-ministro) pelo presidente Hindenburg, em 30 de janeiro de 1933, chantageado por banqueiros ligados à oligarquia angloamericana. Seria outra longa história para contar, à qual fiz referência no artigo recente: “A oligarquia quer a depressão”.

Outra ilustração: Quem era o  chefe do DOPS (delegacia de ordem política e social) da capitalfederal, então no Rio de Janeiro, o homem que dirigiu a trama do crime da rua Toneleros, lance que desencadeou a fase final da conspiração da CIA e MI-6 para derrubar Getúlio Vargas e implantar o entreguismo no País, após esse golpe, de agosto de 1954? – Resposta: o nazista Cecil Borer. Quem foi um dos militares políticos mais ativos nessa trama? O general Ângelo Mendes de Moraes, também nazista. E o general Goes Monteiro, simpatizante nazista, foi figura-chave no golpe que derrubou Vargas em 1945 e estava traindo Vargas de novo, quando foi um dos articuladores, em 1952, do acordo militar com os EUA, nas costas do ministro do Exército, o nacionalista Estillac Leal, que, assim renunciou ao cargo . Para a oligarquia do governo mundial tanto faz jogar com nazistas como, como com “liberais” tipo Castello Branco, Roberto Campos,FHC etc.

A separação e posterior anexação à Rússia da Crimeia fere o direito internacional? A Rússia assume uma postura imperialista com essa anexação?

Se o princípio da autodeterminação dos povos valer alguma coisa no direito internacional, não houve imperialismo algum por parte da Rússia, pois os eleitores da Crimeia votaram pela adesão em plebiscito, por incrível maioria de mais de 96%. Nem se pode falar de anexação, termo, por exemplo, aplicável à da Áustria, em 1938, pela Alemanha nazista, quando houve a invasão pelo exército alemão, e depois o referendo.

 O Ocidente conseguirá isolar a Rússia? Como a China reagirá as retaliações?

Está tentando, inclusive adotando sanções desonestas, como bloquear contas de ativos de russos. Poderá trazer dificuldades para a Rússia, mas não isolá-la. Ao contrário, poderá levar a Rússia a reforçar os laços, que já vêm progredindo muito, com países da Ásia Central, Índia e China, além de intensificar as relações com o Irã, país que vem sobrevivendo bem, apesar das sanções que sofre, como alvo-chave da escalada de agressões do Ocidente.

A China mostra-se discreta. Fala pouco – e, como fazia Putin, pelo menos até se tornar tornado também alvo mais explícito  da agressão angloamericana e de seus satélites da OTAN, pois até colabora politicamente com o Ocidente. Entretanto, a China joga xadrez, ainda mais complexo que o dos russos, e sabe que também é alvo da violência angloamericana. Daí que deverá continuar adensando as relações econômicas com a Rússia, ao mesmo tempo em que, por exemplo, não veta, junto com a Rússia, a Resolução dos ocidentais no Conselho de Segurança da ONU. Mas não precisava vetar, já estava vetada. “Low profile”, a linha recomendada por Deng, como lembra o Pepe Escobar.

Quanto ao tabuleiro geopolítico, como você interpreta a correlação de forças após esses acontecimentos? Estamos retornando a condições semelhantes a Guerra Fria?

Claro que há diferenças na conversa ideológica: agora Rússia e China não são mais  os demônios da propaganda anticomunista. Agora, a falsa democracia do Ocidente opõe-se aos que rotula de não-democráticos e de transgressores dos direitos humanos. Notável que os maiores espezinhadores desses direitos - e praticantes regulares do genocídio, [com mísseis, drones e tudo mais - usem dessa arma ideológica. Mais notável, por internamente terem feito da democracia nada mais que uma formalidade vazia, enquanto os eleitores não têm qualquer escolha: todos os políticos com possibilidades de acesso aos postos de governo são controlados pelos donos da finança. Para os cidadãos sobram condições de vida deterioradas, desemprego, serviços públicos em declínio, direitos sociais reduzidos etc., além de, é claro, repressão violenta se manifestarem desagrado a essa situação.

Em termos de guerra, é provável estar-se retornando a algo mais que guerra-fria, embora na que começou em 1944 (antes de terminar a 2ª GM em 1945), tenha havido conflitos armados de grandes proporções, como os da Coreia e do Vietnam. Muitos analistas competentes consideram ter-se elevado muito a probabilidade de guerra quente, embora esta tenha o potencial de torrar tudo. Mas parece que a deterioração do planeta pelo sistema econômico prevalecente já está conduzindo à dizimação da humana, anelo de alguns dos membros-top da oligarquia mundial.

 

 

 

 

‘As pessoas estão felizes com os russos’: um soldado ucraniano na Crimeia fala ao DCM

Vladimir Seleznev, porta-voz do Ministério da Defesa ucraniana na Crimeia

Por Mauro Donato, no DCM

Forças russas tomaram mais uma base militar (Feodosia) ucraniana na Crimeia na segunda-feira (24). A operação utilizou veículos blindados, helicópteros e ocorreu troca de tiros. Soldados leais a Kiev ficaram feridos e alguns foram feitos prisioneiros. Não houve mortos.

Os militares ucranianos manifestaram a intenção de abandonar Feodosia desde que a bordo dos próprios veículos e de posse de todo o armamento. Já Moscou exigia que os ucranianos deixassem todas as armas e equipamentos. Deu-se assim mais uma das batalhas que, desde sábado, vêm acontecendo para a Rússia assumir o controle de todas as unidades militares resistentes à mudança de poder.

O ministro da defesa da Ucrânia, Igor Teniukh, renunciou e a marinha do país perdeu quase a totalidade de seus navios na Crimeia. Mais de 200 unidades ucranianas içaram a bandeira russa e mais da metade dos soldados mudou de lado.

O DCM falou com Vladislav Seleznev, porta voz do Ministério de Defesa ucraniano na Crimeia, sobre o novo cenário de seu país. Seleznev tem 30 anos e mora na capital, Simferopol. Segundo ele, “muitas pessoas estão felizes pelo fato de a região ter se tornado russa”.

 

Ainda há focos de resistência?

Os militares na Crimeia estão em uma situação muito difícil. Não temos nenhuma ordem concreta de Kiev quanto à retirada do exército. O governo dá declarações, mas não há nenhum passo firme na prática. Hoje, praticamente todas as bases militares estão tomadas pelos russos. Nós as defendemos por semanas e não nos entregamos, mas a ajuda da Ucrânia não chegou. Eu sinto muito por isso, as nossas forças são significativamente menores.

O poder nos deixou sozinhos com os nossos problemas. Mas os ucranianos são maravilhosos e nos ajudaram. Os soldados russos nos prometem muita coisa boa, enquanto a Ucrânia não promete nada. Muitos soldados ucranianos estão inclusive prontos para servir o exército russo, mas isso é contra a lei.

A votação a favor da Rússia representou o desejo da população?

Sim, há muitas pessoas na Crimeia que estão felizes pelo fato de a região ter se tornado russa. Mas não são tantas como foi mostrado pelo resultado do referendo. Muitos russos e ucranianos foram contra o referendo. Os tártaros da Crimeia, por exemplo, não votaram e só eles são uns 300 mil. Na Crimeia vivem 2,5 milhoes de pessoas, portanto considero exagerado que 95% dos moradores tenham optado pela integração russa.

Quais são as perspectivas?

Para mim, é dificil fazer avaliações por todo o país, isso é tarefa do presidente interino da Ucrânia e não há muita clareza nas ações. Como resultado disso, o grupo das forças armadas ucranianas ficou desmoralizado. Não sabemos quantas pessoas conseguiremos retirar para o território ucraniano, também não sabemos quais são os planos da Rússia ou se essa situação irá continuar. É possível que prossiga a invasão para dentro do nosso país.

A crise do jornalismo e o futuro da comunicação

Charge emblemática quanto a falta de sintonia entre as mídias de massa e a população (Blog Danizudo/Reprodução)

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Rennan Martins

A difusão massiva das tecnologias de informação estremeceu as bases da sociedade e de suas instituições em escala global. Hoje, todo cidadão com acesso à um smartphone e internet pode produzir mídia em tempo real, e, dependendo da relevância da informação captada, esta dá a volta ao mundo em questão de horas, passando por um processo colaborativo no qual é possível adicionar mais fatos, gerar reflexão sobre o tema e até mesmo distorcer o que ela originalmente quis dizer.

A revolução que estes recursos têm trazido ao mundo já é visível, diversos movimentos de massa, espontâneos ou orquestrados se mobilizam pelas redes, e é possível observar uma verdadeira guerra da informação em torno de pautas e visões de mundo, enquanto isto, a grande mídia perde credibilidade e é vista cada dia mais como porta-voz do interesse de conglomerados econômicos, o que a leva a uma decadência ainda mais rápida.

Este processo está nos conduzindo a uma reformulação na maneira de fazer jornalismo, onde novos métodos e dilemas surgem. É preciso conciliar a necessidade urgente do furo com o cuidado de verificação da veracidade e ainda criar um modelo de financiamento que garanta a sobrevivência da boa informação, aquela que não possui comprometimento nem com o Estado nem com a iniciativa privada.

É neste ponto que o livro A explosão do jornalismo: Das mídias de massa à massa de mídias, de Ignacio Ramonet se insere, trazendo diversos dados, fatos e produzindo uma reflexão profunda sobre o futuro do jornalismo. O autor nos dá uma visão sobre os desafios impostos aos setor midiático.

Abaixo segue uma transcrição de um dos melhores trechos do livro o qual Ramonet expõe a nova configuração que a web trouxe ao setor da comunicação. Polêmico, ele considera agora, “O verdadeiro poder é [...] mantido por um feixe de grupos econômicos e financeiros planetários e de empresas globais, cujo peso nos negócios do mundo é, às vezes, mais importante que o dos Estados. Eles são os ‘novos mestres do mundo’.”

Confira:

Uma só esfera

Trecho de “A explosão do jornalismo: Das mídias de massa à massa de mídias”, de Ignacio Ramonet

O verdadeiro poder é, a partir de agora, mantido por um feixe de grupos econômicos e financeiros planetários e de empresas globais, cujo peso nos negócios do mundo é, às vezes, mais importante que o dos Estados. Eles são os “novos mestres do mundo”.

Neste novo quadro geoeconômico, produziu-se uma metamorfose decisiva no campo das mídias de massa. A “revolução digital” quebrou as fronteiras que separavam as três formas tradicionais de comunicação: o som, a escrita e a imagem. Ela favoreceu o desenvolvimento da web. A internet representa um quarto modo de comunicar, uma nova maneira de se expressar, de se informar, de criar, de consumir, de se distrair, de estabelecer relações…

As empresas midiáticas procuram agrupar em seu interior todas as mídias (edição, fotografia, imprensa, rádio, cinema, televisão, internet), mas também todas as atividades das três grandes esferas: a cultura de massa, a comunicação e a informação. Essas esferas eram antes autônomas. De um lado, a cultura de massa, com sua lógica comercial, suas criações populares, seus objetivos essencialmente mercantis. De outro, a comunicação, a publicidade, o marketing, a propaganda, a retórica da persuasão. Enfim, a informação, com suas agências de notícias, os boletins, radiodifundidos ou televisionados, a imprensa escrita, os canais de informação contínua, os sites de informação, os blogues, o universo de todos os jornalismos.

Essas três esferas, antes tão diferentes, imbricaram-se pouco a pouco para constituir uma única esfera ciclópica, no interior da qual se torna cada vez mais difícil distinguir as atividades provenientes da cultura de massa, da comunicação, da informação ou da internet. A internet absorve tudo, ela é totalizadora.

Além disso, essas novas empresas midiáticas, produtoras de símbolos, difundem mensagens de todo tipo, nas quais se misturam televisão, desenhos animados, cinema, videogame, CD, DVD, edição, websites, parques de diversão (gênero Disneyland), esporte-espetáculo etc.

Em outros termos, as novas empresas de mídias possuem duas singularidades, primeiramente, elas se ocupam de tudo o que deriva da escrita, da imagem e do som, e difundem pelos canais mais diversos (imprensa escrita, rádios, televisões, web, telefone, tablets). Em segundo lugar, essas empresas são planetárias, globais, e não somente nacionais ou locais.

Mas os novos gigantes da rede, como Google, Yahoo!, ou Facebook, contam com uma vantagem decisiva: eles nasceram dentro do novo ecossistema e são muito mais bem-adaptados a um ambiente no qual a web é o oxigênio.

Em 1941, Orson Welles atacava o “superpoder” do Cidadão Kane. No entanto, comparado ao dos colossos midiáticos planetários atuais, o poder de Kane era insignificante. Proprietário de alguns jornais da imprensa escrita em somente um país, Kane dispunha de um poder minúsculo (sem ser, apesar disso, desprovido de eficácia em escala local ou nacional) diante do poder de fogo dos novos mastodontes midiáticos.

 

Marchas da Família viram fiasco em todo o País

Do Brasil247

As principais notícias das chamadas ‘Marcha da Família com Deus Pela Liberdade’ foram alguns conflitos entre manifestantes pró e contra a intervenção militar no País neste sábado, 50 anos depois do movimento que antecedeu o golpe de 64; atos reuniram menos de dez pessoas em Belo Horizonte, Florianópolis, Natal e Recife; em São Paulo, a adesão foi maior (cerca de 700), mas protesto mais pareceu greve de PMs, tamanha a quantidade de policiais que trabalhavam no protesto; no Rio, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) marcou presença: “estou aqui como um patriota”; marchas ganham apelido de “Murcha da Família” nas redes.

A adesão às Marchas da Família com Deus Pela Liberdade, realizadas neste sábado (22) em algumas capitais, classifica o movimento em defesa de uma intervenção militar no País como um verdadeiro fiasco. Os atos acontecem 50 anos depois do movimento que antecedeu o golpe militar em 1964.

Belo Horizonte, em Minas, reuniu cinco manifestantes; Florianópolis, em Santa Catarina, três; Recife, em Pernambuco, seis; e Natal, no Rio Grande do Norte, nove. Em Belém (Pará), as vinte pessoas que posaram para registrar o protesto deixaram a bandeira do Brasil de cabeça para baixo (confira aqui).

Em São Paulo, a adesão foi maior: cerca de 700 pessoas, mesmo número de participantes de uma marcha contra o golpe. A presença de policiais que trabalharam no ato que defendeu os militares, no entanto, era tão grande que o evento mais se pareceu com uma reivindicação da categoria. No Rio, foram cerca de 150 pessoas, responsáveis pela principal notícia do dia sobre o tema: um confronto com militantes contra o regime.

No Twitter e no Facebook, onde usuários publicam dezenas de fotos das marchas em suas cidades, os movimentos já ganharam o apelido de “Murcha da Família” ou então uma definição que caracteriza muito bem o movimento minguado, feita pelo usuário @cellso89: “a Marcha da Família começou em marcha lenta e terminou em marcha ré”.

“Intervenção militar já!”, “o Brasil exige: Ordem e Progresso”, “Socorro, forças” e “eleição não, intervenção sim” foram alguns dos cartazes levantados sobre o golpe. O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) compareceu à marcha do Rio de Janeiro, mas não se posicionou a favor do pedido de intervenção militar, por entender que isso descaracteriza o movimento. “Estou aqui como um patriota”, disse o parlamentar.

Um dos organizadores da marcha no Rio, o cabo da reserva do Exército Emílio Alarcon, ponderou que, apesar dos pedidos de intervenção, a intenção deles não é a instauração de uma ditadura militar. Para ele, as Forças Armadas devem fechar o Congresso e derrubar o Executivo, para convocar novas eleições apenas com candidatos ficha limpa. “A intervenção é constitucional. A gente não está pedindo nada de anormal”, disse ele.

Para reivindicar a intervenção, os militantes desse grupo usaram o Artigo 142 da Constituição, que diz: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do presidente da República, e destinam-se à defesa da pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.

Na interpretação do grupo, tal obrigação de garantir os poderes justificaria a intervenção, já que há problemas institucionais graves que só podem ser resolvidos dessa forma: “seria umreset, formatar de novo o Brasil. Todos os partidos estão envolvidos em corrupção”, argumentou Alarcon.

No protesto de São Paulo, um discurso um tanto confuso. “Eu sou federalista, sou a favor da democracia. Só que a gente não tem certeza se a nossa democracia está sendo exercida. Então, sou a favor de que os militares intervenham, não o regime, apenas para convocar novas eleições com voto impresso, para o povo ter garantia de que o voto que ele está dando está indo para quem ele colocou lá. Não é regime militar”, disse Walace Silvestre.

Os manifestantes da capital paulista, que tinham expectativa de refazer o percurso da primeira edição do evento – da Praça da República até a Praça da Sé – gritaram, por vezes, “fora, Dilma”, e entoaram melodias pedindo a prisão da presidenta e a volta dos militares: “Um, dois, três, quatro, 5 mil, queremos os militares protegendo o Brasil”, e “um, dois, três, Dilma no xadrez”.

Com informações da Agência Brasil

A relação entre a CIA e a intervenção militar

Por JNS, no jornalGGN

OPERAÇÕES DE DESESTABILIZAÇÃO INTERNA

A relação de governos que foram derrubados pela CIA: Irã (1953), Tibet (1950), Guatemala (1954), Cuba (1959), Congo (1960), Iraque (1963), Brasil (1964), Gana (1966), Iraque (1968), Chile (1973), Afeganistão (1973-1974), Iraque (1973-1975), Argentina (1976), Irã (1980), Nicarágua (1981-1990), El Salvador (1980-1992), Camboja (1980-1995), Angola (1980), Filipinas (1986), Irã (2001- até o presente), Iraque (1992-1995), Guatemala (1993), Sérvia (2000), Venezuela (2002), Haiti (2004), Ucrânia (2014).

Observando os acontecimentos envolvendo o Irã e a Líbia, nota-se uma repetição de um “modus operandi” de comprovado sucesso , quando se deseja justificar uma intervenção militar ou a imposição de bloqueio econômico em um determinado país, visando enfraquecê-lo e assim tornar possível a queda do regime vigente, para ser, posteriormente, substituído por uma equipe de governo aliado aos da nação (ou grupo) que mantém interesses no chamado ‘país-alvo’.

As motivações para tais operações são:

Interesses de ordem econômica;

Interesses de ordem política;

Manutenção ou obtenção de áreas de influência, entre outras.

O ex-agente da CIA, Philip Agee reconheceu, em seu livro Inside the Company: Cia Diary, que essas operações são arriscadas porque quase sempre significam intervenção, pois visam a influenciar, por meios encobertos, os assuntos internos de outro país, com o qual os Estados Unidos mantêm relações diplomáticas. A técnica consiste essencialmente na “penetration” (inserção de agentes no país), buscando aliados desejosos de colaborar com a CIA e dissidentes do governo estabelecido. Daí que a regra mais importante na sua execução é a possibilidade de “plausible denial” (capacidade de negar um fato ou alegação), ou seja, negar convincentemente a responsabilidade e a cumplicidade dos Estados Unidos com o golpe de Estado ou outra operação, uma vez que se fosse descoberto seu patrocínio, as consequências no campo diplomático seriam graves.

Embora as principais potências mundiais (Rússia, China, Inglaterra, França, Espanha e várias outras) utilizem á séculos tal expediente em vários momentos de sua história, analisaremos somente algumas ações atribuídas aos Estados Unidos devido a sua relevância no contexto das Américas Central e Sul, as quais são sua esfera de influência e onde se localiza o nosso país.

 

1.  GOLPES DE ESTADO

Tal medida existe desde os primórdios da civilização humana. A técnica do “golpe de estado”, principalmente quando provocada por um governo externo, sempre foi utilizada quando pretende-se evitar o confronto direto, poupando assim recursos materiais e vidas humanas, além de manter ilibada a reputação da nação estrangeira que provocou (ou somente apoiou) o referido golpe, pois assim torna-se difícil, mas não impossível, a comprovação nos períodos iniciais do golpe, da efetiva participação desta nação estrangeira.

Para tanto, certos elementos são necessários para a eficácia do golpe de estado (não necessariamente obrigatórios, pois cada caso é um caso):

A existência dissidências internas no governo do país-alvo, o que faz com que o referido governo não tenha a coesão necessária para resistir ao golpe;

A centralização do poder decisório do país em um único local;

A realização de políticas pelo país-alvo que desagradem certas parcelas da população em detrimento á outras;

A existência de um clima de deterioração e caos político reinante no país, antecedendo ao golpe;

Hostilidade da população contra o governo, o qual se manifestará a favor da queda do regime;

A perda do crédito nas instituições-chave do país pela população;

Movimentação popular contra o regime a ser deposto.

A reunião de uma ou mais condicionantes fazem com que o país-alvo esteja vulnerável. Estas mesmas condicionantes servem de material a ser manipulado pelo país interessado na queda de regime, o qual se utilizará de técnicas especializadas que visam a produção de um ambiente que favoreça tal operação.

“Ora, um dos remédios mais eficazes que um príncipe possui contra as conspirações é não se tornar odiado pela população, pois quem conspira julga sempre que vai satisfazer os desejos do povo com a morte do príncipe; se julgar, porém, que com isso ofenderá o povo, não terá coragem de tomar tal partido, porque as dificuldades com que os conspiradores teriam que lutar seriam infinitas. A um príncipe pouco devem importar as conspirações se ele é querido do povo, porém se este é seu inimigo e o odeia, deve temer tudo e todos” – Nicolau Maquiavel

Devido a isto, certos governos ditatoriais tiveram seu fim antecipado assim que a população teve acesso a liberdade de expressão e a um estado de direito, os quais são utilizados como pretexto para a consecução de manobras de desestabilização interna do país-alvo (veja doutrina de intervenção humanitária), as quais são movidas quando nações estrangeiras tem interesses econômicos e políticos neste país.

 

2. DESESTABILIZAÇÃO INTERNA

Operações de desestabilização interna são ações que antecipam e fornecem condições para que um golpe de estado ocorra, propiciando o caos político, a agitação social, e a descrença nas instituições nacionais do país-alvo. São por vezes utilizados o terrorismo, operações psicológicas e os chamados “ataques de falsa bandeira’, para confundir e amedrontar a opinião pública (nacional e internacional), criando um clima de guerra civil e justificando assim uma intervenção no referido país.

Um exemplo atual de ataque de falsa bandeira seria a suposta tentativa de assassinato do embaixador saudita por agentes iranianos em território americano, sendo utilizado para isto um traficante mexicano (tentar matar dois pássaros com uma só pedra?), mesmo o Irã tendo assassinos treinados na chamada ‘Força Quds’ que poderiam facilmente levar a cabo a tal missão em qualquer país do oriente médio.  Esta foi uma trama comparada pelo próprio diretor do FBI, Robert Mueller, a “um roteiro de Hollywood”.

E o que dizer sobre as armas nucleares de destruição em massa iraquianas (2003) tão propagadas e que nunca foram de fato encontradas?

E o incidente do Golfo de Tonquim (1965), que iniciou a escalada da guerra do Vietnam?

O afundamento do USS Maine, ancorado em Cuba (1898) resultando na guerra Americano-Espanhola.

As operações Nortwood e Mongoose (1962), as quais não chegaram a ser executadas, quando a invasão da Baía dos Porcos (Girón) orquestrada pela CIA falhou?

Existem até os dias de hoje tentativas de organizações norte-americanas a favor de uma melhor explicação do que aconteceu no 11/09, algo que provavelmente nunca saberemos ao certo o que ocorreu. Existem outras operações do tipo, as quais devido a quantidade não poderiam ser abordadas de forma resumida.

Uma operação de desestabilização interna em um país inicia-se através de várias ações, como por exemplo:

Infiltração de indivíduos especializados na montagem de uma rede subversiva, os quais irão orientar, treinar e equipar a força dissidente do governo, visando a queda do mesmo (operadores do SAS capturados na Líbia);

Montagem de grandes manifestações populares contra o governo (Marcha da Família com Deus pela Liberdade no Brasil);

Estabelecimento de centros de pesquisa de opinião pública, visando analisar as características do público-alvo e definir quais os melhores procedimentos para manipular a formação da opinião pública e a mídia, voltando-as para a finalidade do país interessado (IPES);

Desmoralização nacional e internacional de figuras importantes do governo-alvo (classificação como comunista no passado, nos dias atuais, como terrorista).

São vários exemplos de operações de desestabilização interna na América Latina no passado, como por exemplo a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, ocorrida no Brasil no ano de 1964, a qual foi organizada por elementos conservadores e dissidentes do governo João Goulart e o padre católico conhecido como Patrick Peyton chamado de “padre Hollywood”, fundador do Movimento da Cruzada do Rosário pela Família, o qual era ligado a CIA (Central de Inteligência Americana).

Tais manifestações tinham como objetivo desestabilizar o governo de João Goulart, através de características inerentes do brasileiro (religião), propiciando assim um clima favorável a sua derrubada do poder, principalmente depois que o mesmo apresentou seu programa de ‘reformas de base’, os quais eram tidos como revolucionários pelo setor conservador da sociedade brasileira, além dos EUA que consideravam Goulart com tendências de esquerda.

O Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais – IPES tinha como principal tarefa a organização de estudos e movimentos contra o presidente João Goulart. Era patrocinado por grandes conglomerados empresariais nacionais e multinacionais, e entidades de classe. Realizava levantamento da maneira de expressão do brasileiro de forma a mapear o comportamento social do público alvo, que era a classe média baixa da população, além dos formadores de opinião, como entidades religiosas diversas, para elaborar filmes publicitários, documentários, confecção de panfletos e propagandas.

E o que dizer então das operações Brother Sam e Popeye, as quais praticamente selaram o destino de João Goulart e mergulharam o país em 21 anos de regime militar?

 

3. OPERAÇÕES BEM SUCEDIDAS

Guatemala 1954 – Operação PBSUCESS

Jacobo Arbenz Guzman, presidente da Guatemala  eleito democraticamente, foi deposto num golpe orquestrado e financiado pela CIA, que o substituiu por uma brutal ditadura militar. O seu programa de reforma agrária ameaçou os interesses comerciais dos EUA, em particular os da United Fruit Company. As preocupações dos EUA se uniram em planos secretos para destruir o governo de Arbenz.

Jacobo Arbenz Guzman foi eleito democraticamente presidente da Guatemala e governou o país entre 1951 e 1954, quando foi deposto pela junta militar patrocinada pelos EUA.

A United Fruit Company, uma empresa em que tinham interesses pessoais o secretário de estado do governo dos EUA, John Foster Dulles e seu irmão Allen Dulles, então diretor da CIA, além de várias instituições bancárias, trabalharam com a CIA para proteger seus interesses no país, instigando que Arbenz era uma ameaça comunista e criando um clima desestabilizador no país.

A operação PBSUCCESS foi autorizada pelo presidente Eisenhower em agosto de 1953, com um orçamento de US $ 2,7 milhões para “guerra psicológica, ação política e subversão” para poder viabilizar a tomada do poder pelos militares, além de um pequeno exército paramilitar, comandado pelo general Carlos Castillo Armas.

Carlos Castillo Armas (4 de Novembro de 1914 - 26 de Julho de 1957) foi presidente da Guatemala de 8 de Julho de 1954 a 26 de Julho de 1957, data em que foi assassinado.

Depois de uma pequena insurgência desenvolvida na sequência do golpe, os líderes militares da Guatemala, desenvolvidos e aperfeiçoados na “Escola das Américas” com a assistência dos EUA, realizaram uma campanha maciça de contra-insurgência que deixou dezenas de milhares de guatemaltecos mortos, mutilados e desaparecidos. A violência subsequente causou a morte e desaparecimento de mais de 140 mil guatemaltecos. Alguns ativistas de direitos humanos colocam o número de mortos em cerca de 250.000.

United Fruit Company

A United Fruit Company (1889-1970) era uma empresa multinacional americana que enriqueceu explorando o comércio de frutas tropicais (principalmente bananas) em regiões do terceiro mundo. Com a ajuda do governo dos EUA, derrubou vários governos de países do terceiro mundo que iam contra seus interesses, e impondo líderes locais alinhados com sua política empresarial. Daí surgiu o termo ‘República das Bananas’.

Em Cuba, era uma das empresas que controlavam a produção de açúcar e que foram expulsas em 1959, devido á revolução cubana que um ano mais tarde, em 01 de janeiro de 1960, nacionalizaria todas as suas possessões.

Em 1969 foi comprada por Zapata Corporation, empresa relacionada com o ex-presidente americano George H. W. Bush. A empresa modificou sua razão social para Chiquita Brands e até hoje opera com esse nome.

Em 2007, a Chiquita Brands enfrentou um julgamento nos EUA por haver financiado grupos paramilitares na Colômbia que foram responsáveis pelo massacre de sindicalistas e camponeses. A companhia teve que pagar multa às autoridades de seu país. As autoridades colombianas buscam cooperação dos EUA para que extraditem os funcionários responsáveis por esses delitos para que sejam julgados em território colombiano.

Operação Fulbelt

O golpe de estado de 11 de Setembro, ocorrido no Chile em 1973, consistiu na derrubada do governo eleito democraticamente do Chile e de seu presidente, Salvador Allende, tendo sido articulado por oficiais da marinha e do exército chileno, com apoio militar e financeiro do governo dos Estados Unidos através da CIA, bem como de organizações extremistas chilenas, como a Patria y Libertad, de tendências nacionalistas e neofacistas, tendo sido encabeçado pelo general Augusto Pinochet, que se proclamou presidente.

Allende foi o primeiro presidente marxista a ser eleito democraticamente e decidiu tomar medidas para redistribuir riqueza e terras em Chile. Aumento de salários de cerca de 40 por cento foram introduzidas. Ao mesmo tempo, as empresas não foram autorizadas a aumentar os preços. A indústria do cobre foi nacionalizada, assim como os bancos.

Para impedir Allende de chegar ao poder ou para derrubá-lo, o presidente Richard Nixon tinha ordenado a CIA para “fazer gritar de dor” a economia chilena, através de sanções econômicas visando desestabilizar a economia do país.

Com a queda do presidente Salvador Allende, subiu ao poder o general Augusto Pinochet, o qual levou a nação chilena a dezessete anos de regime militar, onde foram mortas cerca de 40 mil pessoas mortas, presas ou torturadas.

Quatro meses depois do golpe, seu balanço já era atroz: quase 20 000 pessoas assassinadas, 30 000 prisioneiros políticos submetidos a torturas selvagens, 25 000 estudantes expulsos de escolas e 200 000 operários demitidos. A etapa mais dura, sem dúvida; ainda não havia terminado.

Operação Ajax

Foi assim chamada a operação de desestabilização que levou á queda do presidente iraniano democraticamente eleito, Mohammed Mosaddeq. Foi realizada uma operação conjunta entre a CIA (EUA) e o MI6 (Inglaterra), apoiados por iranianos pró-ocidentais e militares dissidentes.

Mossadeq nacionalizou a extração de petróleo visando condições mais justas, pois as anteriores favoreciam enormemente a Anglo-Iranian Oil Company (AIOC).  Em 1947, por exemplo, AIOC relatou lucros após impostos de £ 40 milhões (US $ 112 milhões), e foram repassados ao Irã apenas £ 7.000.000. Foram realizadas operações de desestabilização e terrorismo na capital Teerã por operativos da CIA através de movimentação de massas, culminando na derrubada do poder do democraticamente eleito Mossaddeq.

Em seu lugar assumiu o Shah Reza Pahlavi, escolhido pela CIA e pelo MI6 para governar o país com mão de ferro, garantindo os interesses dos EUA e da Inglaterra. Após o golpe de 1953, o governo do Xá formou a Savak (polícia secreta iraniana), cujos agentes foram treinados nos Estados Unidos. A Savak foi dado “carta branca” para torturar dissidentes suspeitos.

Revolução Islâmica

A impopularidade do regime tirânico de Reza Pahlavi e de sua Savak, além de políticas fracassadas voltadas para o povo, foram exploradas pelos clérigos islâmicos, os quais eram a única frente organizada contra o Shah. Através de manifestações contra o ocidente e o governo, Reza Pahlavi fugiu de Teerã e buscou refúgio nos EUA, abrindo caminho assim para o Aiatolá Ruhollah Khomeini, o qual instaurou a República Islâmica do Irã, com forte tendências antiocidentais.

Muitos historiadores entendem que o atual extremismo religioso antiocidental iraniano, é resultado das ações dos EUA/GB no país na década de 50. E o caso de se pensar se o termo “grande satã” cunhado por Khomeini em relação aos EUA seria realmente tão injusto…

Anglo Persian Oil Company

Fundada em 1908, foi rebatizada Anglo-Iranian Oil Company – AIOC, em 1935, e atualmente é conhecida como British Petroleum – BP. Durante a operação Ajax, foi a responsável direta pelo envolvimento da CIA e do MI6 que depuseram o presidente democraticamente eleito Mohammed Mossadeq. Em 2010, foi considerada a terceira maior empresa de energia do mundo e a quarta maior empresa do mundo, com valores agregados de cerca de 308 bilhões de dólares.

Governos Derrubados pela CIA

Irã (1953), Tibet (1950), Guatemala (1954), Cuba (1959), Congo (1960), Iraque (1963), Brasil (1964), Gana (1966), Iraque (1968), Chile (1973), Afeganistão (1973-1974), Iraque (1973-1975), Argentina (1976), Irã (1980), Nicarágua (1981-1990), El Salvador (1980-1992), Camboja (1980-1995), Angola (1980), Filipinas (1986), Irã (2001- até o presente), Iraque (1992-1995), Guatemala (1993), Sérvia (2000), Venezuela (2002), Haiti (2004).

 

4. TRABALHO DE CONVENCIMENTO

Os chamados “trabalhos de convencimento” são operações que visam convencer a mídia nacional e internacional da legitimidade de uma operação militar ou de um bloqueio econômico contra determinado país, mesmo que suas razões não sejam provadas explicitamente. Visam desqualificar o país-alvo e seus governantes em relação as suas políticas de gerenciamento nacional ao mesmo tempo que convencem a mídia nacional e internacional de que “algo precisa ser feito”. A população é exposta diuturnamente á versão que interessa ao país interessado na queda do regime, formando assim opinião favorável á operação.

O Brasil sofreu este tipo de pressão nas décadas de 80 e 90, quando da tentativa de se justificar a internacionalização da Amazônia, chamada na época de ”pulmão do mundo”. Nesse período, a mídia televisiva exibia constantemente a derrubada de árvores e a queimada de partes da floresta, além da questão indígena. A repetição destas imagens na mídia causou uma comoção internacional, resultando em debates acalorados por vários setores da sociedade mundial, sendo que alguns desses setores defendiam uma imediata internacionalização da floresta tropical brasileira. A questão indígena também é explorada por estes países, mesmo que estes tenham exterminado todos os seus índios no passado.

A ameaça direta ao nosso amado Brasil:

“O Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia”. François Mitterrand, 1989, então presidente da França;

“As nações desenvolvidas devem estender o domínio da lei ao que é comum de todos no mundo. As campanhas ecologistas internacionais que visam à limitação das soberanias nacionais sobre a região amazônica estão deixando a fase propagandística para dar início a uma fase operativa, que pode, definitivamente, ensejar intervenções militares diretas sobre a região”. John Major, 1992, então primeiro ministro da Inglaterra;

“Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós”. Al Gore, ex-Vice-Presidente norte-americano:

“A Amazônia é um patrimônio da humanidade. A posse dessa imensa > área pelos países mencionados (Brasil, Venezuela, Colômbia, Peru e Equador) é meramente Circunstancial”. Conselho Mundial de Igrejas Cristãs reunidas em Genebra, 1992.

 

5. INTERESSES GLOBAIS

Os EUA é a nação que dominou o cenário no século XX, com interesses globais que respondem pelo seu modo de vida e sua compreensão com relação ao resto do mundo. Simplesmente nada de novo, pois os grandes impérios sempre fizeram o mesmo em seu auge. Para manter o que consideram a paz em seus termos (Pax Americana), promoveram intervenções em várias nações, muitas delas democráticas ou não, visando defender os seus interesses econômicos e estratégicos. Esse acúmulo de poder e interesses globais gerou uma nação que interfere em todas as grandes questões mundiais, para o bem ou para o mal.

Cabe a nós, brasileiros, entender o que se passa no mundo, pois a verdade está bem além do que se vê na mídia ou que é recebida dos órgãos federais. Devemos, como povo instruído, entender os mecanismos utilizados por aqueles que podem um dia tornar-se o nosso algoz, intervindo nos nossos assuntos internos, sobre os quais só cabem á nós mesmos decidir. Com o potencial energético, humano, industrial e econômico que o Brasil possui, somos alvos da cobiça internacional travestida de “operações humanitárias ou ecológicas” as quais estão em andamento atualmente.

Felizmente o Brasil, possui uma situação um pouco diferente dos demais países que são alvos fáceis para este tipo de operações, por ter uma capacidade real de crescimento e ser uma democracia real, podendo se tornar uma potência com capacidade de decisão em um futuro próximo.

Mas isso não é nada que um bom ‘trabalho de convencimento’ não possa vir a mudar…

Fonte: PLANO BRASIL, 29 OUTUBRO 2011

Nestlé mata Água Mineral São Lourenço

Por Carla Klein, no CuraeAscensão

Há alguns anos a Nestlé vem utilizando os poços de água mineral de São Lourenço para fabricar água marca PureLife. Diversas organizações da cidade vêm combatendo a prática, por muitas razões.

As águas minerais, de propriedades medicinais, e baixo custo, eram um eficiente e barato tratamento médico para diversas doenças, que entrou em desuso, a partir dos anos 50, pela maciça campanha dos laboratórios farmacêuticos para vender suas fórmulas químicas através dos médicos. Mas o poder dessas águas permanece. Médicos da região, por exemplo, curam a anemia das crianças de baixa renda apenas com água ferruginosa.

Para fabricar a PureLife, a Nestlé, sem estudos sérios de riscos à saúde, desmineraliza a água e acrescenta sais minerais de sua patente.

A desmineralização de água é proibida pela Constituição. Cientistas europeus afirmam que nesse processo a Nestlé desestabiliza a água e acrescenta sais minerais para fechar a reação.

Em outras palavras, a PureLife é uma água química.
A Nestlé está faturando em cima de um bem comum, a água, além de o estar esgotando por não obedecer às normas de restrição de impacto ambiental, expondo a saúde da população a riscos desconhecidos. O ritmo de bombeamento da Nestlé está acima do permitido.

Troca de dutos na presença de fiscais é rotina. O terreno do Parque das Águas de São Lourenço está afundando devido ao comprometimento dos lençóis subterrâneos. A extração em níveis além do aceito está comprometendo os poços minerais, cujas águas têm um lento processo de formação. Dois poços já secaram. Toda a região do sul de Minas está sendo afetada, inclusive estâncias minerais de outras localidades. Durante anos a Nestlé vinha operando, sem licença estadual. E finalmente obteve essa licença no início de 2004.

Um dos brasileiros atuantes no movimento de defesa das águas de São Lourenço, Franklin Frederick, após anos de tentativas frustradas junto ao governo e imprensa para combater o problema, conseguiu apoio, na Suíça, para interpelar a empresa criminosa. A Igreja Reformista, a Igreja Católica, Grupos Socialistas e a ong verde ATTAC uniram esforços contra a Nestlé, que já havia tentado a mesma prática na Suíça.

Em janeiro deste ano, graças ao apoio desses grupos, Franklin conseguiu interpelar pessoalmente, e em público, o presidente mundial do Grupo Nestlé. Este, irritado, respondeu que mandaria fechar imediatamente a fábrica da Nestlé em São Lourenço.

No dia seguinte, o governo de Minas (PSDB), baixou portaria que regulamentava a atividade da Nestlé. Ao invés de multas, uma autorização, mesmo ferindo a legislação federal. Sem aproveitar o apoio internacional para o caso, apoiou uma corporação privada de histórico duvidoso. Se a grande imprensa brasileira, misteriosa e sistematicamente vem ignorando o caso, o mesmo não ocorre na Europa, onde o assunto foi publicado em jornais de vários países, além de duas matérias de meia hora na televisão.

Em uma dessas matérias, o vereador Cássio Mendes, do PT de São Lourenço, envolvido na batalha contra a criminosa Nestlé, reclama que sofreu pressões do Governo Federal (PT), para calar a boca.

Teria sido avisado de que o pessoal da Nestlé apóia o Programa Fome Zero e não está gostando do barulho em São Lourenço.Diga-se também que a relação espúria da Nestlé com o Fome Zero é outro caso sinistro.

A empresa, como estratégia de marketing, incentiva os consumidores a comprar seus produtos, alegando que reverte lucros para o Fome Zero. E qual é a real participação da Nestlé no programa? A contratação de agentes e, parece, também fornecendo o treinamento. Sim, a famosa Nestlé, que tem sido há décadas alvo internacional de denúncias de propaganda mentirosa, enganando mães pobres e educadores para a substituição de leite materno por produtos Nestlé, em um dos maiores crimes contra a humanidade.

A vendedora de leites e papinhas “substitutos” estaria envolvida com o treinamento dos agentes brasileiros do Fome Zero, recolhendo informações e gerando lucros e publicidade nas duas pontas do programa: compradores desejosos de colaborar e famintos carentes de comida e informação.Mais preocupante: o Governo Federal anuncia que irá alterar a legislação, permitindo a desmineralização “parcial” das águas.O que é isso? Como será regulamentado?

Se a Nestlé vinha bombeando água além do permitido e a fiscalização nada fez, como irão fiscalizar a tal desmineralização “parcial”? Além do que, “parcial” ou “integral”, a desmineralização é combatida por cientistas e pesquisadores de todo o mundo. E por que alterar a legislação em um item que apenas interessa à Nestlé? O que nós cidadãos ganhamos com isso?

Sabemos que outras empresas, como a Coca-Cola, estão no mesmo caminho da Nestlé, adquirindo terrenos em importantes áreas de fontes de água.