
Jornal Nacional: Símbolo da falta de compromisso com a informação (Pragmatismo Político/Reprodução)
Por Rennan Martins
Na última terça publiquei artigo denominado A crise do jornalismo e o futuro da comunicação que levantou questões acerca das dificuldades de sobrevivência da informação apurada, precisa e sem compromissos com nada que não seja o fato.
Observamos que a massificação da tecnologia trouxe uma crise à mídia da informação, e que atualmente precisamos repensar o modelo a fim de assegurar o verdadeiro jornalismo, já chamado de “Quarto Poder”, intrinsecamente comprometido com a democracia.
Na primeira parte a contribuição à reflexão se fez por meio de um trecho de autoria de Ignacio Ramonet, prosseguiremos citando jornalistas da vanguarda da reformulação.
O texto escolhido é assinado por Gianni Minà, jornalista italiano que em sua carreira dedica especial atenção a América Latina. Presente no livro O Continente Desaparecido, este escrito dialoga também com ideias de Ramonet e levanta a importante questão da lógica mercadológica que hoje impera nas redações.
Considerando que a informação deveria ser submetida primeiramente ao interesse público da sociedade civil, Minà enxerga nesta nova lógica uma falta de comprometimento com a verdade e uma tendência a hibridização do jornalismo com o entretenimento e a publicidade, trazendo insegurança e alienação do público frente a realidade: “A informação hoje é organizada segundo os cânones do espetáculo, que são a encenação, a dramatização, a espetacularização e a capacidade de despertar emoções, que podem chegar ao exagero, sem nenhuma vontade de questionar realidades concretas que serviriam para criar uma consciência maior na sociedade”.
Em tempo, quando digitamos na busca do Google palavras como “jornal manipula”, ou, “manipulação jornal”, imagens do programa Jornal Nacional pululam na tela, julguei oportuno então ilustrar este artigo com ela.
Continue agora com a íntegra:
A informação tornou-se uma mercadoria à venda
Por que, então, a mídia tornou-se um problema para as democracias amadurecidas? Ignacio Ramonet tentou responder a esta questão, em Porto Alegre, num dos seminários sobre a informação, iniciando com uma pergunta: “Por que a informação, que era um elemento civil de libertação (e continuamos a achar que deva ser isso), tornou-se uma mercadoria?” E prosseguiu arriscando uma resposta precisa, embora amarga: “Porque agora a informação circula segundo a lei da oferta e da procura e não segundo as exigências da sociedade civil. E tudo isso aconteceu porque as leis do espetáculo, devido a essas exigências do mercado, impuseram-se às leis tradicionais do jornalismo.”
A informação hoje é organizada segundo os cânones do espetáculo, que são a encenação, a dramatização, a espetacularização e a capacidade de despertar emoções, que podem chegar ao exagero, sem nenhuma vontade de questionar realidades concretas que serviriam para criar uma consciência maior na sociedade, para que pudessem, talvez, transformá-la. O nosso sofisticado e tecnologicamente avançado sistema de informações é agora, por ironia da história, um sistema não-confiável, porque já não temos a garantia de que ele tenha interesse em nos fornecer informações verídicas e confirmadas. Lucra-se mais promovendo a publicidade.
Sobre esta realidade, Ramonet não ofereceu esperanças: “Os meios de comunicação, que deveria ser expressões de grupos sociais diversos ou de grupos culturais alternativos, continuam, no entanto, a se concentrar e a se reagrupar formando monopólios que hoje, nos países que chamamos de democráticos, se dividem em quatro ou cinco grupos que controlam toda a informação, uma informação que é, cada vez mais frequentemente, uma despudorada propaganda de certos poderes políticos ou de certos interesses econômicos de feudos multinacionais. Assim, passados trinta anos, a concentração, em vez de diminuir, aumentou a tal ponto, que nos descobrimos prisioneiros de um sistema que eu definiria como o da insegurança da informação.”
Assim como existe uma insegurança com relação à alimentação nos países em desenvolvimento, nas nações “evoluídas” há, em contrapartida, uma insegurança do saber, pois, quando nos chega uma notícia, não podemos mais estabelecer com certeza se ela é verdadeira ou falsa, ou se corre o risco de ser desmentida poucos dias depois. Uma situação perigosa para qualquer noção de democracia, que leva também a mídia de maior alcance a se limitar, cada vez mais, à notícias mais próximas do ponto de vista geográfico, aquelas que realmente não podem ser ignoradas, ou ainda aquelas “indiscutíveis”, que provêm das agências norte-americanas, levando também a excluir tudo aquilo que seja pouco conveniente para os interesses de quem manda no país ou para os patrões das próprias sociedades editoriais para a qual o jornalista trabalha. Dentro deste contexto, é inevitável ocultar as realidades demasiado complexas ou aquelas julgadas, por oportunismo ou covardia, perigosas para a tranquilidade da empresa editorial, radiofônica ou televisiva para a qual se trabalha, ou que destoem do desejo de bom humor de um público que, pouco a pouco, tende a ser considerado, por conveniência, descerebrado. É a informação-espetáculo, que beleza!
O tom torna-se sério somente quando a interpretação de certas histórias controvertidas provém de Washington. Por definição, é preciso sempre acreditar nos Estados Unidos, mesmo quando os fatos desmentem de modo flagrante as afirmações da Casa Branca.
