
Manifestantes ucranianos pró União Europeia: democratas ou manipulados? (Uol notícias/Reprodução)
Por Rennan Martins
A crise ucraniana tornou-se o assunto mais abordado em toda a imprensa mundial quando pensamos em direito internacional e geopolítica. A Ucrânia, que passou por uma série de protestos anti-governo após recuar na assinatura de um tratado comercial com a União Europeia no ano passado, assistiu essa escalada de revolta e violência culminar na derrubada do governo democraticamente eleito de Kiev, que tinha Viktor Yanukovitch, originário do leste do país, como presidente.
Durante todo o processo de desestabilização ocorrido no segundo maior país europeu foi possível ouvirmos uma série de interpretações que iam desde o levante de um povo oprimido contra um governo autoritário até o de uma massa orquestrada pela interferência ocidental que visava trazer este importante país do ponto de vista geopolítico e econômico para sua órbita de influência.
Hoje constata-se na região uma série de indefinições. A porção do país ao oeste, mais sintonizada com a Europa, tem um novo governo baseado em Kiev que responde alinhado à OTAN. Já no leste, mais precisamente na região da Crimeia, ocorreu um repúdio a derrubada do antigo governo por parte de um povo de raízes étnicas russas e o resultado foi um plebiscito separatista realizado pelo parlamento e posterior anexação à Rússia, relevante lembrar neste ponto que esta região fez parte da Rússia até 1954.
Diante de um debate interminável sobre os acontecimentos que testemunhamos pairam muitas dúvidas sobre a realidade, a reconfiguração geopolítica acontece a cada movimento das potências envolvidas e até mesmo a possibilidade de uma guerra é posta em questão.
A fim de obter uma perspectiva apurada do quadro entrevistei Adriano Benayon, doutor em economia e ex-diplomata brasileiro. Ele considera que houve uma intervenção decisiva das autoridades norte-americanas e europeias na derrubada de Yanukovitch, faz uma contextualização rica dos acontecimentos e vê a Rússia ganhar força no cenário internacional mesmo com as sanções que o ocidente tem promovido em resposta a anexação da Crimeia.
Confira:
Como você interpreta a queda do governo de Yanukovitch na Ucrânia? Há interferência estrangeira?
A resposta a essa pergunta é afirmativa e óbvia, para todos os que acompanham fontes de informação independentes, ou seja, os comunicadores não vinculados à grande mídia local e à norte-americana e a dos seus satélites em todos os continentes. Mas eu não diria que sua pergunta é descabida. Ao contrário, digo que é bem colocada e oportuna, dada a grande e antiga penetração dos veículos dessa grande mídia.
Vale salientar que houve mais do que influência estrangeira: houve intervenção estrangeira, principalmente através das agências e órgãos secretos e não-secretos dos EUA, e até, ostensivamente, por parte do próprio governo estadunidense. Além da intervenção desse país, braço-forte do capitalismo e do imperialismo angloamericano e sócios menores, houve a desses associados, notadamente da União Europeia, na tradição da geopolítica simbolizada no lema “Drang nach Osten” (pressão na direção do leste) dos antigos imperialistas alemães e de Hitler.
Como assinala o arguto jornalista brasileiro Pepe Escobar, que escreve para o Asia Times, atrair a Ucrânia para a União Europeia nada mais é que um meio de agregá-la à OTAN e, assim, encostar a faca praticamente na barriga da Rússia.
Então faz parte da estratégia imperial e se tornou urgente, do ponto de vista desta, principalmente após ter a Rússia tido êxito em seu apoio militar e político à Síria, evitando, assim, até o momento a continuidade da escalada iniciada após a implosão das Torres Gêmeas em Nova York, e programada bem antes desse golpe interno preparatório, para controlar todo o Oriente Médio (seguiram-se as intervenções no Afeganistão, Iraque e Líbia, para citar só as principais, visando a chegar ao Irã, tendo a Síria como ante-sala).
O que levou o Ocidente a reconhecer o novo governo de Kiev com tanta rapidez?
De fato, Obama recebeu em Washington o presidente do governo ilegal estabelecido pelo golpe de Estado fomentado por EUA/UE, dois dias após esse golpe. O porquê está implícito no fato de tudo ter sido patrocinado pela oligarquia imperial, da qual Obama, tal como os chefes de governo da UE e os burocratas da Comissão Europeia são obedientes servidores.
Complementando a resposta à pergunta anterior, base da referente a esta, houve três fatos marcantes, relacionados à intervenção angloamericana e da Europa satelitizada (algo sacramentado por ocasião da criação da UE pelo Tratado de Maastricht). Um foi o encontro da secretária de Estado-assistente dos EUA, Nuland com o embaixador dos EUA na Ucrânia, em que este foi instruído a acelerar o processo de derrubada do governo legítimo do presidente Yanukovich, logo após ter este se recusado a aderir imediatamente à União Europeia (ele não se recusou em definitivo: apenas propôs negociar algumas das condições da adesão, que fariam a Ucrânia tornar-se em breve mais periferia do que a Grécia.
De fato, o atual governo de fato, imediatamente ao entrar, começou a ampliar as concessões a grandes corporações ocidentais, inclusive de petróleo, além de ao grande agronegócio, com a perspectiva de este, inclusive com os transgênicos, ocupar as maiores extensões de terra fértil da Europa, as da planície ucraniana e marginalizarem os agricultores locais (algo que já ocorreu no México e alhures, e está acontecendo também no Brasil).
O segundo fato foram as ameaças econômicas e políticas da Comissão Europeia e da Alemanha àUcrânia, e o terceiro, a conversa telefônica, captada por um hacker, entre a chefe das relações exteriores da Comissão Europeia, a britânica Catherine Ashton, e o ministro das relações exteriores da Estônia, Paet, que estavam na Ucrânia avaliando os acontecimentos nos dias que antecederam o golpe de Estado.
Nessa comunicação, Paet transmitiu a Ashton informações de que os disparos sobre a multidão e sobre os policiais partiram dos mesmos elementos compostos por gangs extremistas ligadas aos atuais ocupantes do poder na Ucrânia. Sim, os disparos que motivaram mais invasores pressionar o Parlamento, os quais obrigaram os deputados não golpistas a fugir. O ministro estoniano confirmou a autenticidade da conversa. Já a britânica Ashton disse: não comentamos nada sobre conversações grampeadas.
E quanto as alegações de que há neonazistas na nova junta governamental, elas procedem? Se sim, porque EU e US não tocam no assunto?
Claro que os reis da hipocrisia jamais falam do que não serve às suas relações públicas. De resto, a oligarquia angloamericana nunca viu problema algum em colaborar com nazistas, haja vista que começou a recrutá-los para ajudar na Guerra Fria, antes de a Segunda Guerra Mundial ter terminado.
Se você quer saber (pouco se informa disso as pessoas), Hitler foi nomeado chefe do governo (primeiro-ministro) pelo presidente Hindenburg, em 30 de janeiro de 1933, chantageado por banqueiros ligados à oligarquia angloamericana. Seria outra longa história para contar, à qual fiz referência no artigo recente: “A oligarquia quer a depressão”.
Outra ilustração: Quem era o chefe do DOPS (delegacia de ordem política e social) da capitalfederal, então no Rio de Janeiro, o homem que dirigiu a trama do crime da rua Toneleros, lance que desencadeou a fase final da conspiração da CIA e MI-6 para derrubar Getúlio Vargas e implantar o entreguismo no País, após esse golpe, de agosto de 1954? – Resposta: o nazista Cecil Borer. Quem foi um dos militares políticos mais ativos nessa trama? O general Ângelo Mendes de Moraes, também nazista. E o general Goes Monteiro, simpatizante nazista, foi figura-chave no golpe que derrubou Vargas em 1945 e estava traindo Vargas de novo, quando foi um dos articuladores, em 1952, do acordo militar com os EUA, nas costas do ministro do Exército, o nacionalista Estillac Leal, que, assim renunciou ao cargo . Para a oligarquia do governo mundial tanto faz jogar com nazistas como, como com “liberais” tipo Castello Branco, Roberto Campos,FHC etc.
A separação e posterior anexação à Rússia da Crimeia fere o direito internacional? A Rússia assume uma postura imperialista com essa anexação?
Se o princípio da autodeterminação dos povos valer alguma coisa no direito internacional, não houve imperialismo algum por parte da Rússia, pois os eleitores da Crimeia votaram pela adesão em plebiscito, por incrível maioria de mais de 96%. Nem se pode falar de anexação, termo, por exemplo, aplicável à da Áustria, em 1938, pela Alemanha nazista, quando houve a invasão pelo exército alemão, e depois o referendo.
O Ocidente conseguirá isolar a Rússia? Como a China reagirá as retaliações?
Está tentando, inclusive adotando sanções desonestas, como bloquear contas de ativos de russos. Poderá trazer dificuldades para a Rússia, mas não isolá-la. Ao contrário, poderá levar a Rússia a reforçar os laços, que já vêm progredindo muito, com países da Ásia Central, Índia e China, além de intensificar as relações com o Irã, país que vem sobrevivendo bem, apesar das sanções que sofre, como alvo-chave da escalada de agressões do Ocidente.
A China mostra-se discreta. Fala pouco – e, como fazia Putin, pelo menos até se tornar tornado também alvo mais explícito da agressão angloamericana e de seus satélites da OTAN, pois até colabora politicamente com o Ocidente. Entretanto, a China joga xadrez, ainda mais complexo que o dos russos, e sabe que também é alvo da violência angloamericana. Daí que deverá continuar adensando as relações econômicas com a Rússia, ao mesmo tempo em que, por exemplo, não veta, junto com a Rússia, a Resolução dos ocidentais no Conselho de Segurança da ONU. Mas não precisava vetar, já estava vetada. “Low profile”, a linha recomendada por Deng, como lembra o Pepe Escobar.
Quanto ao tabuleiro geopolítico, como você interpreta a correlação de forças após esses acontecimentos? Estamos retornando a condições semelhantes a Guerra Fria?
Claro que há diferenças na conversa ideológica: agora Rússia e China não são mais os demônios da propaganda anticomunista. Agora, a falsa democracia do Ocidente opõe-se aos que rotula de não-democráticos e de transgressores dos direitos humanos. Notável que os maiores espezinhadores desses direitos - e praticantes regulares do genocídio, [com mísseis, drones e tudo mais - usem dessa arma ideológica. Mais notável, por internamente terem feito da democracia nada mais que uma formalidade vazia, enquanto os eleitores não têm qualquer escolha: todos os políticos com possibilidades de acesso aos postos de governo são controlados pelos donos da finança. Para os cidadãos sobram condições de vida deterioradas, desemprego, serviços públicos em declínio, direitos sociais reduzidos etc., além de, é claro, repressão violenta se manifestarem desagrado a essa situação.
Em termos de guerra, é provável estar-se retornando a algo mais que guerra-fria, embora na que começou em 1944 (antes de terminar a 2ª GM em 1945), tenha havido conflitos armados de grandes proporções, como os da Coreia e do Vietnam. Muitos analistas competentes consideram ter-se elevado muito a probabilidade de guerra quente, embora esta tenha o potencial de torrar tudo. Mas parece que a deterioração do planeta pelo sistema econômico prevalecente já está conduzindo à dizimação da humana, anelo de alguns dos membros-top da oligarquia mundial.
