UPPow pow pow! (Latuff Cartoons/Reprodução)
Por Rennan Martins
Nas últimas semanas temos testemunhado uma crise das Unidades de Polícia Pacificadora no Rio de Janeiro. O projeto, tão exaltado pela grande mídia e interessados nas áreas, tem sofrido represálias nas favelas e os conflitos se encontram numa escalada de violência.
O debate promovido pela grande mídia não abre espaços para nenhuma medida que não seja o aumento da militarização, como se a falta de escolas, de hospitais e a repressão diária aos moradores das localidades ocupadas pudessem ser “pacificados” simplesmente por meio de maior ostensividade.
O aumento da repressão estatal se mostra algo temerário frente ao que observamos nos últimos tempos. No ano passado, o desaparecimento de Amarildo comoveu todo o país, hoje, sabemos que ele foi torturado até a morte por agentes do Estado. Nesta última semana, o caso Cláudia Ferreira, a moradora do Morro de Congonhas baleada e posteriormente arrastada no asfalto por uma viatura da polícia militar, chegou ao hospital já sem vida.
Ontem, a cobertura exaustiva da rede Globo ao tiroteio que feriu o capitão Gabriel Toledo, atingido por um tiro na coxa, em Manguinhos, sugere que a perna baleada de alguns pode ser mais interessante em noticiar que as mortes de outros, somente dependendo do quanto se pode defender interesses com os fatos.
Talvez seja oportuno recordar que o “caso da mulher arrastada” seja um pouco mais complexo. A “mulher arrastada” chamava-se Cláudia Ferreira, tinha 38 anos, era auxiliar de serviços gerais, deixou viúvo seu marido e órfãos seus quatro filhos. Sempre bom ressaltar as redações de alguns veículos que ela não foi somente arrastada, foi assassinada.
Diante disto, diversos coletivos e ong’s redigiram um manifesto que circula nas redes. Nele, é questionada a ocupação que não promove os direitos, são lembrados diversos “anônimos” vítimas de arbitrariedades e por fim somos alertados que “Não se constrói uma politica de paz, com o pé na porta, agredindo gratuitamente seus moradores, não se constrói paz com caveirão. No atual modelo, ‘independente de quem manda’, os moradores continuam sem ter sua voz ouvida.”
Confira o manifesto, na íntegra:
QUEREMOS SER FELIZES E ANDAR TRANQUILAMENTE NA FAVELA EM QUE NASCEMOS
Durante décadas o Estado não reconheceu a favela como parte integrante da cidade, negando aos seus moradores direitos básicos. Hoje depois de 3 anos de ocupação da segurança pública no Complexo do Alemão, percebemos que ainda temos um longo caminho a seguir na garantia de direitos, uma vez que, o braço do Estado que mais entra na favela é o braço armado. Sem escola não há pacificação, sem saúde não há pacificação, sem saneamento básico não há pacificação, sem lazer não há pacificação. O símbolo da paz no Rio de Janeiro não podem ser as armas, a pistola, o fuzil e os blindados.
Nas últimas semanas, as manchetes dos jornais foram tomadas por matérias sobre os conflitos que acontecem cotidianamente nas favelas com a ocupação policial – as UPPs, sobretudo no Complexo do Alemão. Junto com as manchetes veio as declarações do secretário de segurança pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, que apresentou a opção de ampliar a militarização como possível solução para os problemas. Parece que ao seu ver, toda solução de conflito passa pela ampliação da presença da polícia e de outras forças militares no território.
Entendemos que essa perspectiva precisa ser mudada, uma vez que, é possível perceber que só a presença da polícia nos territórios ocupados não tem trazido a paz. Existem vários casos, em favelas com UPP de abuso de poder, arbitrariedades e desaparecidos, como é o caso do Amarildo , na Rocinha, e da morte de jovens por policiais da UPP como: André de Lima Cardoso, 19 anos, Pavão-Pavãozinho; José Carlos Lopes Júnior,19 anos, morador de Sao Joao; Thales Pereira Ribeiro D’Adrea, 15 anos, Morro do Fogueteiro; Jackson Lessa dos Santos, 20 anos, Morro do Fogueteiro; Mateus Oliveira Casé, 16 anos, Manguinhos; Paulo Henrique dos Santos, 25 anos, Cidade de Deus; Aliélson Nogueira, 21 anos, Jacarezinho; Laércio Hilário da Luz Neto, 17 anos, Morro do Alemão e Israel Meneses, 23 anos, Jacarezinho. Nesta política não podemos deixar de citar os policiais mortos na ação suicida do Estado. Não aceitamos essas mortes, nenhuma vida vale mais que a outra e é preciso que o Estado se responsabilize. Afinal qual é a paz que queremos promover? A paz bélica? A paz militarizada?
Nesse domingo, 16, a capa do jornal extra anunciava que os moradores de favela tinham ido as ruas se manifestar a mando do tráfico e estariam recebendo dinheiro para isso. Mas uma vez a grande imprensa tem sido uma ferramenta de criminalização dos movimentos populares e da favela. Repudiamos totalmente a forma com que os meios de comunicação tem feito a cobertura da ação da polícia no Complexo do Alemão e em outras favelas. Entendemos que o morador de favela não pode ser visto como um inimigo. O governo diz que as favelas estão pacificadas, mas então porque tanta arma ostentada pela polícia? Queremos mais diálogo entre os moradores de favela e segurança no território, queremos a liberdade de ir e vir, queremos mais escolas, saneamento básico para morador ao invés de teleférico para turista, queremos a garantia do direito de expressão onde o baile funk se insere, não queremos a violação do domicílio sem mandato. Entender as demandas do Complexo é simples, entender as demandas da favela é simples , porque o papo é reto.
As propostas de “PAZ” devem ser construídas coletivamente com toda a favela. Não se constrói uma politica de paz, com o pé na porta, agredindo gratuitamente seus moradores, não se constrói paz com caveirão. No atual modelo, “independente de quem manda”, os moradores continuam sem ter sua voz ouvida.Temos a consciência que o pobre tem seu lugar.
Assinam:
Ocupa Alemão
Instituto Raízes em Movimento
Alemão de Notícias
Complexo do Alemão
Educap
Jornal Voz das Comunidades
Pré vestibular comunitário Nova Brasília
Mulheres de Atitude -AMA
Verdejar Socioambiental
Foto Clube Alemão
Família de José Carlos Lopes Júnior
APAFUNK
Porque eu quis
Favela não se Cala
IDDH
Rede Universidade Nômade
O Cidadão
Fórum Social de Manguinhos
Fórum Rede da Juventude
Coletivo Mariati
Favela em Foco
Norte Comum
Observatório de Conflitos Urbanos
Agência de Redes para Juventude
Ibase
Fala Roça
Marcha Mundial das Mulheres -MMM
Núcleo MMM
Coletivo Rosa dos Ventos
Adriana Facina
Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência
Biblioteca Chico Mendes
Coletivo Vô Pixá Pelada
Coletivo vinhetando
Rio Na Rua
Teatro da Laje
Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana da UFRJ
Surbanitas
Coletivo Projetação
Rede Mapping the Commons
Projeto Green Go
