Pascual Serrano: Carta a um venezuelano antichavista

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Leopoldo López, líder do partido “Voluntad Popular”, principal oposicionista que prega o golpe (Confirmado/Reprodução)

Por Rennan Martins

O jornalista e escritor espanhol Pascual Serrano, conhecido por sua posição crítica em relação aos meios de comunicação e autor do livro “Desinformácion. Cómo los medios ocultan el mundo”, publicou este texto intitulado “Carta a un antichavista venezolano” no qual faz alguns questionamentos provocantes aos que integram o movimento que tenta derrubar Maduro na Venezuela.

Pascual levanta dúvidas pertinentes sobre a legitimidade do levante e faz paralelos de outros países os quais sofreram golpe suave promovido por interesses estrangeiros. Julguei oportuno traduzir a íntegra pra disponibilizar uma nova visão sobre o que acontece com nossos vizinhos, para que nossos leitores possam ter outra perspectiva que não a do discurso único da grande mídia.

Confira:

Caro cidadão venezuelano, você que está sofrendo com a grande onda de violência que seu país atravessa. Interpretações diversas podem julgar os últimos acontecimentos como a luta de um povo para libertar-se de um governo opressor ou como ações terroristas que visam desestabilizar um governo legítimo. Antes de entrar nesta questão quero convida-lo, de forma independente das interpretações, a analisar a evolução da situação empresarial e econômica dos últimos quatorze anos, desde o início da chamada revolução bolivariana.

Suponho eu, que na posição de classe média ou alta, você possua qualificação e um trabalho bem remunerado, ou então é um empresário que desenvolve atividades de produção ou de serviços na Venezuela. Compreendo que a chegada e posterior avanço do socialismo do século XXI de Hugo Chávez constitua uma preocupação para ti. Disseram-lhe que Venezuela se tornaria uma “ditadura comunista cubana”, que expropriariam sua empresa, estatizariam seu meio de sustento e terras, que lhe tomariam seus carros e ainda sequestrariam seus filhos para os enviar a células bolivarianas onde se tornariam chavistas. As lideranças da oposição e sua mídia estão há 14 anos lhe dizendo isso sem que um sinal de realização tenha ocorrido. Também lhe disseram que perseguiriam a eles e seus meios de comunicação, e aí estão, sem impedimento.

Agora lhe peço que pense em sua situação, desconsiderando qualquer influência externa, governamental ou oposicionista. Se você é médico, engenheiro, advogado ou exerça qualquer outra profissão liberal ou de alta remuneração. Observas-te que nos governos de Chávez e Maduro seus ganhos aumentaram? Nacionalizaram seu escritório, seu serviço ou instrumentos de trabalho? Os impostos tornaram seu negócio inviável? Seus filhos estão contigo e estudam onde você quer ou foram levados para formação bolivariana a despeito de ti? Se possui um escritório de advocacia, de arquitetura ou uma clínica estética, seu faturamento decaiu  após a revolução bolivariana? Uma camada considerável das classes baixas que nunca puderam realizar uma cirurgia plástica, reformar seu lar ou consultar um advogado agora possuem meios de o fazer.

Um dos assuntos que mais lhe preocupa é a criminalidade, que de fato é alta na Venezuela. Mas você vive em um bairro seguro, na Zona Leste de Caracas ou em El Hatillo Todos sabemos que ali não há grandes problemas ligados a criminalidade. E de todo jeito, sua residência conta com segurança privada e cercas de arame cortante ou eletrificado. E ali já estavam desde antes da chegada de Hugo Chávez ao poder. É verdade que nos bairros humildes das grandes cidades ocorrem crimes todos os dias. O senhor sabe que 80% dos homicídios ocorrem em bairros pobres, porém, o senhor não vai a Petare, La Veja, ou ao 23 de Enero, nem nunca foi, pois sempre foram locais perigosos. No fundo, não há razão para que se preocupe mais agora do que a quinze anos atrás. Falemos então do centro, como por exemplo da Plaza Venezuela ou a Sabana Grande, sério que hoje eles lhe parecem mais perigosos que a dez anos, antes da retirada dos ambulantes e posterior instalação de parques infantis e nova iluminação?

Talvez você não seja um profissional liberal mas sim um empresário. Dono de uma rede de restaurantes, de uma concessionária de automóveis ou de uma fábrica de móveis. Ou ainda proprietário de um estabelecimento de móveis e eletrônicos ou confecções em um centro comercial. Deve ter notado que este comunismo que tanto se fala não tocou no seu empreendimento, o presidente Maduro inclusive disse que tomará medidas de contenção a preços abusivos cobrados pelos locadores dos estabelecimentos. Também não aumentaram seus impostos, tanto que não há mais casos de falência de empresas do que na Espanha, por exemplo. É verdade, no ano passado enfrentou-se um grave problema econômico: a escassez de divisas que impede a aquisição de material importado para seu estabelecimento. Parte da responsabilidade realmente é cabível ao governo, não lhe peço que desconsidere os erros do governo, o próprio Maduro os reconhece. Este problema porém deve ser resolvido sem escalada de violência e desestabilização que vem ocorrendo.

Por outro lado, é notável que mestiços e pobres que nunca possuíram um smartphone, nem um carro novo, nem uma roupa cara, nem sentavam em um bom restaurante agora são seus clientes. Pode ocorrer a alguns de vocês, brancos, que admiram os Estados Unidos e reivindicam sua origem europeia que a esses mestiços, afrodescendentes, indígenas e até um pouco sujos e analfabetos não convem e você não gosta de encontra-los nos mesmos comércios, no mesmo bairro, com um carro e uma casa equiparadas a sua. Incomoda até mesmo que sejam clientes de seu estabelecimento. Não lhe recordarei que isso é racismo, diferentemente de ti, os europeus e norte-americanos que tanto admira estão encantados com os afrodescendentes e asiáticos  quando estes possuem dinheiro. Os empresários da Marbella ficam bem felizes quando chegam os árabes com seus cartões de crédito, o ex-presidente Bush não pestanejou em ter como Secretária de Estado uma afrodescendente. As grandes transnacionais norte-americanas também não possuem problema algum com o atual presidente, também negro. Pense bem, o dinheiro proveniente da periferia cai muito bem no seu negócio, antes dos ventos bolivarianos estas cifras não chegavam. Acusam o governo de dividir os venezuelanos, a divisão que denunciam é artificial. A verdadeira divisão de uma sociedade é entre aqueles tudo tem e os que não tem nada. Diminuir esta diferença, que podes comprovar em sua clientela, é algo que está em avanço na Venezuela.

Não peço tampouco que negue o problema do abastecimento. Sabemos porém que as principais vias de distribuição são privadas. Na Venezuela tanto os cidadãos como o governo possuem recursos econômicos para adquirir os bens de primeira necessidade, é evidente que o principal problema – falta de dinheiro – não existe. A governo algum interessa que se tornem escassos estes produtos, daí temos que o primeiro interessado em resolver essa questão seja o governo intervindo sobre os especuladores, atravessadores e distribuidores que provocam o desabastecimento. Nenhum movimento violento que está queimando caminhões do Estado podem assim demonstrar preocupação na questão da escassez que vive a população.

Na Espanha comprovou-se, por meio de entrevistas do Centro de Investigações Sociológicas, que inquirindo aos cidadãos a pergunta “quais problemas do país você considera mais urgentes?” eles respondem uma coisa e perguntando “quais são os principais problemas que afetam você e sua família?”, respondem outra. De maneira que na primeira opção está em destaque o terrorismo, e na segunda, o desemprego. Isto acontece por conta da influência psicótica que transmitiram alguns políticos e veículos de mídia, que os fazem angustiar-se por assuntos que, quando levados em conta sua perspectiva pessoal, não são tão importantes, e assim aparecem outros. Michael Moore alerta aos norte-americanos que ocorrem mais suicídios em nos EUA que mortes por ataques terroristas, que dito de outra forma, é mais provável estatisticamente que você suicide, ao invés de perder a vida num ato terrorista. E todos os cidadãos daquele país, sem exceção, preocupavam-se mais com o terrorismo. Conto isto a ti, amigo venezuelano, pois, talvez esteja acontecendo algo similar no que concerne a preocupação que o governo de Maduro lhe provoca.

Não pretendo convencer-lhe a apoiar o atual governo venezuelano ou que nele vote nas próximas eleições. Você terá muitos mais elementos que eu para observar a evolução de seu país e detectar que problemas são concernentes a erros do governo e quais são de causa diversa. No meu país, a Espanha, muitos cidadãos discordam da política do governo. Criticamos suas decisões, tentamos fazer que as mudem e no dia das eleições votamos em outro partido. Também nos manifestamos, entendemos no entanto que um presidente, um deputado, ou um prefeito o é até as próximas eleições. Não incendiamos caminhões de abastecimento estatais, nem fazemos barricadas nas estradas para que as cidades colapsem, os políticos opositores não lançam os cidadãos em milhares a fim de ocupar um ministério, não permitimos que alguns cidadãos descontentes com o governo estiquem linhas numa avenida para degolar aqueles que passarem de motocicleta. Tudo para que se deponha um presidente que alcançou seu cargo pela via democrática. Você, cidadão venezuelano, de classe média ou alta, acha realmente que este cenário pode ajudar a melhorar sua situação pessoal, familiar e econômica?

Na Venezuela há mecanismos democráticos para destituir um governo, inclusive mais que na Europa onde não existe um referendo revogatório que permita encerrar um mandato político antes do final do mandato. Os setores que estão desencadeando a violência não estão preocupados com sua economia ou seu empreendimento, querem apenas desestabilizar um determinado sistema político, democrático e legítimo pela força pois sabem que pela via democrática não chegarão ao poder. Muitos já estão reconhecendo. Dê uma olhada durante alguns segundos nos países onde as massas enfurecidas derrubaram seus governos com apoio estrangeiro que diziam que iriam recuperar a democracia: Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Ucrânia… Realmente acha que os profissionais de alto nível ou empresários como você saíram ganhando e agora estão melhor?

Um último detalhe, antes que alguns de vocês insinuem o quanto me paga o governos venezuelano para que eu escreva isto. Nunca me pagaram nada por nenhum artigo nem texto sobre a Venezuela, o qual não me parece justo porque o trabalho (não a adesão) deve ser pago. Por isso que publicamos num meio de comunicação espanhol.

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