
Por Rennan Martins
A questão da possível crise no mercado de capitais e os efeitos da retirada, ainda que gradual, dos estímulos monetários do Federal Reserve continua em alta nas rodas de debate dos Desenvolvimentistas. A continuação das análises deste tópico, iniciada aqui, nos permite adquirir perspectivas interessantes sobre o jogo econômico e a defesa dos interesses das principais economias do mundo, tanto desenvolvidas quanto emergentes.
Nesta reprodução a questão do desemprego, a vontade política de resolução da crise de 2008 e a manutenção da ordem financista são chave. Além dos participantes iniciais, Gustavo Santos, Helio Silveira, e Adriano Benayon, também interviu oportunamente o economista e funcionário do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal, Heldo Siqueira.
Confira:
Helio Silveira – Então a sorte está lançada, torçamos para que a crise política arrefeça com uma solução em que a paz seja a vencedora.
Agora, os americanos e os europeus estão preocupados com as situações econômicas internas sim. Não estão conseguindo elevar emprego e renda, importante para qualquer grupamento político dirigente. Estão mais preocupados com a deflação e a recessão. Protegem as altas finanças com liquidez para os bancos e “austeridade” para os todos os outros, isso não dá certo, fica uma política capenga.
Gustavo Santos – Os europeus certamente estão preocupados, com 12% de desemprego e proibidos de fazer política fiscal.
Os americanos com menos de 7% de desemprego e com previsão de crescer quase 3% este ano, não estão preocupados, mesmo porque preparação de guerra justifica gastar mais.
Creio que vão ceder, mas não pela economia, e sim pela resistência e sangue frio dos russos. As pessoas ficarão nervosas com a possibilidade de guerra nuclear e isso deve minar o apoio ao Obama, mas não a ponto de prejudicar muito a economia americana, já a europeia…
Helio Silveira – Eu acho que a recuperação americana é um blefe. A taxa oficial de desemprego não revela o número real de desempregados já que não considera os desalentados, os que desistiram, além disso o número registra muitos empregos de meio-tempo e voláteis. Paul Craig Roberts em seu site:http://www.paulcraigroberts.org/ volta e meia analisa questão do emprego e revela a fraqueza do mercado de trabalho americano com seus empregos precários e a desindustrialização, já que a indústria americana mudou-se para a China. Por outro lado, a baixa inflação indica um risco de deflação e recessão.
Eu concordo que a economia americana emite a moeda mais poderosa do mundo e pode facilmente ser recuperada com a política fiscal, só há limitação impostas pelos conservadores, a tal austeridade, impostas ao mundo inteiro pelas Altas Finanças. Resta então só a política monetária,ou seja os QE’s, que também são questionados pelos conservadores.
Então a coisa fica imperfeita e inacabada, resultando em pífios crescimentos.
Os EUA tem todos os graus de autonomia econômica, mas não podem utilizar por causa dos vigilantes conservadores, que servem as Altas Finanças.
O resultado da tal austeridade é visível, já que foi aplicada na Europa e no mundo inteiro.Se vê também aqui no Brasil, aplicada pelo governo Dilma, e o baixo crescimento resultante.
Adriano Benayon – Sugiro que acessem o site www.shadowstats.com do economista Walter John Williams, especialista na análise das manipulações praticadas nas estatísticas oficiais.
Por exemplo, ele tem mostrado, quanto à inflação, haver diferencial de cerca de três pontos percentuais (no mínimo) entre a taxa verdadeira e a taxa da estatística do Labor Bureau of Statistics.
Só com essa, já dá para verificar que o crescimento positivo do PIB é falacioso.
Além disso, como a concentração de renda e de patrimônio têm sido grandes e continuadas, 95% do total do crescimento da renda tendo ido para o 1% mais rico, pode-se deduzir, sem dificuldade, como se tem deteriorado as condições de vida do grosso da população, cujos sofrimentos se agravaram também com as perdas, por centenas de milhares, de suas casas. E mais a redução de benefícios sociais, inclusive no âmbito estadual, das cidades e dos condados, em situação financeira precária, tratando de cortar despesas.
Gustavo Santos – Tenho a mesma visão que você nessa questão, Helio. Mas reitero. Se houver recessão hoje nos EUA ou no mundo. Será por escolha deles e não por incapacidade deles entrarem e consenso ou não saberem o que fazer. Ou seja a recessão será monitorada para ficar sob controle. Na próxima década será diferente.
Heldo Siqueira – Tendo a discordar em parte da opinião do Gustavo. Afinal, essa crise vem se arrastando desde 2008 e se os financistas sabiam o que estavam fazendo, não teria acontecido em primeiro lugar. Mesmo assim, tenho certeza que esse menos de 1% está comandando as ações do Fed e do tesouro americano no momento.
Queria levar esse debate para uma outra perspectiva. Primeiro devo fazer algumas considerações. Entendo que a política monetária deve sancionar a atividade econômica e não estimulá-la. No caso dos EUA, me parece que a utilização da política monetária foi simplesmente para dar uma boia para os capitalistas de lá, que estavam virtualmente quebrados. Esse movimento levou capitais para os países em desenvolvimento, mergulhando-os no mesmo barco que os EUA. Hoje realmente talvez sejam reféns da política monetária norte americana. Mesmo com a consideração de que os maiores credores americanos são alguns desses países, penso que a situação não é tão confortável. Nesse sentido, entendo que o controle dos financistas sobre o processo de recuperação está muito mais no sentido de minimizar perdas do que de aumentar seus lucros, pois, obviamente, a recuperação econômica não é objetivo final de nenhum deles.
Mas me parece que o problema está no fato de estarmos no final de um ciclo de acumulação. Nesse sentido, fora as manobras financeiras que os rentistas estão perpetrando, é preciso que haja o início de outro ciclo para que haja a recuperação econômica. Isso significa ter um ator (país, bloco de países ou ramo de indústria) que possa liderar esse processo e gerar a demanda necessária para a recuperação.

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