
Por Rennan Martins
A nova crise financeira de escala global pode originar-se no mercado de capitais desta vez, segundo avaliação do diretor-geral do Banco Internacional de Compensações (BIS), Jaime Caruana. O BIS é considerado um banco dos bancos centrais.
Jaime considerou que os títulos privados de dívida emitidos por emergentes estão ganhando peso excessivo no mercado, declarando que “Devemos estar alertas para os incentivos que podem contribuir para perturbações e instabilidade nos mercados”.
O relatório do Instituto Internacional de Finanças (IIF), divulgado no último fórum de Davos, aponta que o endividamento externo das empresas brasileiras está em 12% do PIB, cerca de US$ 287 bilhões, e que a dívida corporativa dos emergentes se equipara a norte americana, ou seja, 78% do PIB. Enquanto isto, na zona do euro este índice é de 103%.
O dado mais chama atenção nesta publicação é o montante da dívida mundial, que inclui o setor privado e público, e se encontra em 313% do PIB mundial, ou US$ 223 trilhões, e em ritmo de subida. Neste contexto que se insere o discurso de Jaime que pede maior atenção nesta retomada da liquidez.
Estas informações levantaram o debate em torno da possibilidade de uma nova crise de insolvência, a relação dos EUA e a retirada dos estímulos por parte do FED, da escala que esta teria e que papel as diversas economias devem assumir no tabuleiro geopolítico entre os colaborares da Associação Brasileira dos Desenvolvimentistas. Interviram Helio Silveira, economista e ex vice presidente da AFBNDES, Adriano Benayon, economista e ex diplomata e Gustavo Santos, funcionário do BNDES, também economista.
Confira:
Helio Silveira – O Banco Internacional de Compensações (BIS) alerta para a excessiva alavancagem em títulos corporativos (privados), que já equivale a 3 vezes o PIB mundial.
Por mim, acho que tudo começa nos QE’s* americanos reduzindo os juros, aumentando a liquidez, segurando o dólar e incentivando a alavancagem privada a nível mundial.
O “imbróglio” se encontra no fato de que a redução dos estímulos pode provocar em algum momento uma situação de instabilidade só medido em termos de escala Richter.
Adriano Benayon –Essa história de 223 trilhões (três vezes o PIB mundial, segundo a matéria), parece-me eufemismo, por incrível que a muitos pareça.
Primeiro, porque essa cifra se refere às dívidas públicas e privadas, a de derivativos não são contabilizados como tal, e elas, ao que indicam várias fontes, ultrapassa 1 quatrilhão de dólares.
Logo antes de eclodir o colapso financeiro em 2007/2008, o estoque deles era da ordem de US$ 600 bilhões.
Estamos falando só dos OTC (over the counter), que não incluem os registrados em bolsas.
Hélio Silveira – Lembro dos US$ 600 bilhões em derivativos, em 2008. Não resta dúvida que os derivativos também, nas crises, são bombas de efeito incontrolável(em situações normais eles se compensam ou são rolados “ad infinitum”). Mas os US$ 223 trilhões se referem aos empréstimos corporativos(captados pelas próprias empresas) para o funcionamento operacional dos ciclo de negócio. Os baixos juros vigentes em dólares, graças aos QE’s, incentivam a tomada dos empréstimos no mercado internacional pelas empresas. Até a Petrobrás tem tomado, a despeito de ter um BNDES para financiá-la. Um momento “Ponzi” se caracteriza quando a alavancagem é excessiva a ponto dos tomadores não terem recursos para pagar os juros e amortização, eles só rolam os créditos.
E a alavancagem está muito elevada, basta um deslize nos juros ou uma volatilidade cambial e isso explode, pode ser por um agravamento de qualquer fator da crise atual, por exemplo na Ucrânia. Pode ser também por algum mal entendimento na saída dos QE’s.
Em suma, a situação, novamente me parece de grande instabilidade mundial.
Gustavo Santos – É certo que a maioria dos emergentes vai quebrar e ficar na mão dos EUA em breve. Talvez até a Rússia. Basta um pequeno aumento dos juros e teremos uma nova crise da dívida externa. E os EUA não sofrerão muito se aumentarem o deficit público com isso. Basta uma guerra e um país marginal para os falcões do tea party deixarem os democratas gastarem, ou uma corrida armamentista contra Rússia.
A posição dos EUA é tão confortável com o grau de manipulação midiática e de espionagem que eles estão se dando o luxo de promoverem a política de derrubada de governo em pelo menos uns 10 países ao mesmo tempo, sendo que pelo menos 3 sob forte oposição de outras potências. E ao contrário do que dizem, o dólar continua fortíssimo pois só uma moeda muito forte suporta uma taxa de juros tão baixa e uma política monetária de estímulos tão expansionista.
A Rússia é uma potência fraca com um PIB menor que o brasileiro. Claro que o Putin tem conseguido aumentar o poder da Rússia. Mas ela é frágil perto dos EUA.
A grande ameaça aos EUA será a China. Mas esta só terá condições de incomodar na próxima década. EUA e Alemanha superaram o PIB da Inglaterra muitos anos antes de começar a incomoda-la.
Mas se os EUA não pararem, China e Rússia sentirão sua política monetária um pouco limitada na próxima década assim como sua desenvoltura militar. Acho que resolveram agir agora para controlar ainda mais o comércio internacional de hidrocarbonetos e assim fazer a China comer na sua mão e manter o dólar forte. E a chave para isso é Irã e Rússia. O grande projeto é submetê-los e assim deixar a China isolada e dependente.
Síria e Ucrânia são apenas degraus.
Isso tudo para dizer que apesar de estarmos perto de outra crise financeira grave, creio que será apenas mais uma, como tantas que vimos desde 1973.
Os americanos vão deixar a crise atuar no exterior, mas quando estiver com um nível de desemprego um pouco mais alto em casa resolverão pela política monetária ou fiscal.
Isso não será mais possível na próxima década se a China rivalizar militarmente, financeiramente e tecnologicamente.
Por isso agora estão atuando com tão alto grau de ativismo de sabotagem.
A economia não os incomoda e o dólar é forte como uma rocha porque isso não é só interesse da China e Rússia, mas de todos.
Haverão crises financeiras graves, mas só um descontrole no preço do petróleo e alimentos pode lhes incomodar. As crises passarão em um ano. A alavancagem alta favorece muito o poder do FED e dos EUA.
É no petróleo, nas armas e na capacidade dos países se manterem unidos frente a sabotagem que será decidido a estabilidade deste cenário hoje tão favorável aos EUA apesar das pequenas derrotas que podem ter. Hoje só a China pode realmente dizer que os EUA não pode vetar a escolha de seus governantes.
Haverá crises mas nenhuma será como a de 30, a menos que os EUA desistam de bancar a estabilidade global.
Helio Silveira – Concordo com a força do dólar, que é lastreado em ferro, o ferro das armas, do maior poder bélico do mundo que nem o Império Britânico ousou ter em sua época.
Mas permita fazer algumas colocações:
- Os EUA possuem total liberdade na política monetária, pois isso interessa aos financistas, mas os gastos sociais, o outro componente do crescimento, são limitados pelos republicanos. O produto disso é a recuperação fraca que assistimos desde 2008.
- Os QE’s foram fáceis de serem introduzidos mas difíceis de serem retirados, apesar das pressões conservadoras para reduzi-los e promoveram uma recuperação muito frágil baseada na subida excepcional das bolsas americanas e boa recuperação dos preços dos imóveis, porém, falharam em aumentar a renda e o emprego.
- Qualquer alteração nos estímulos e/ou crise política mais estressante pode provocar uma subida dos juros de mercado e arrebentar com a alavancagem dos créditos tomados pelas empresas.
- Concordo que numa tremida mais forte o dólar recupera seu esplendor, mas isso prejudicará as exportações americanas e a sua insípida recuperação, por outro lado.
- A subida do dólar quebra muitos países emergentes.
Então, faço duas perguntas:
Será mais uma crise igual a tantas outras pós 73 ou será uma tão forte como a de 2008?
Estamos num momento Ponzi com a alavancagem das empresas?
Gustavo Santos – É tudo uma questão de política e não de economia.
Acho que a alavancagem deve estar muito alta e só não está ponzi porque os juros são muito baixos nos desenvolvidos. Nos emergentes é ponzi mesmo.
Você acha que eles estão muito preocupados com emprego e renda?
Não estão. Se nem na Europa estão nos EUA muito menos onde o desemprego é a metade.
A retirada dos QE vai gerar grave crise sim. Mas eles vão tirar a contas gotas com idas e vindas e se precisar ainda farão uma guerra para justificar uma expansão fiscal. Caso necessária. Eles tem total controle da situação econômica e não querem acabar com o desemprego.
E não acho que acabarão com os QE. Inclusive com essa disputa com os russos Obama volta a dar as cartas na política interna pois sua popularidade subirá bastante. Bater em russo nos EUA dá mais popularidade do que jogar dinheiro de helicóptero. Por isso e pela necessidade de impor o medo que eles estão insistindo tanto no confronto.
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*QE’s são os quantitave easing, trata-se de uma política monetária expansionista atualmente utilizada pelo Federal Reserve. Se traduz na compra de obrigações da dívida pública, o que aumenta a quantidade de moeda em circulação e, portanto, a liquidez dos mercados.

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