Arquivo mensais:fevereiro 2014

Diálogos Desenvolvimentistas: O Sistema Elétrico nacional

Por Rennan Martins

Na esteira da entrevista de ontem com o diretor do Instituto Ilumina Roberto D’Araújo sobre o Sistema Elétrico e o apagão que atingiu o Brasil na última terça iniciou-se um debate entre os colaboradores. Adriano Benayon, ex diplomata e doutor em economia, Gustavo Santos, também doutor em economia e funcionário do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o próprio entrevistado fizeram suas intervenções, contribuindo assim para a reflexão sobre os caminhos do setor energético.

Confira:

Adriano Benayon – Quase sempre, leio as matérias produzidas pelo Roberto d’Araújo, muito esclarecedoras sobre o caos que é sistema elétrico brasileiro, o qual, passou a dar saltos qualitativos em matéria de deterioração ao ser modificado pelas privatizações que favoreceram as térmicas (leia-se Shell, BP, Enron et alii).

Isso, como sabemos, foi lançado e institucionalizado sob o governo de FHC, e tem sido continuado sob os governos do PT, especialmente o atual.

Valeria a pena que d’Araújo se estendesse sobre a última pergunta da breve entrevista, pois só fala da pluralidade que deve ser eliminada, e sobre os órgãos responsáveis pela bagunça. Apreciaria também que ele aprofundasse sobre cada uma das múltiplas causas do desastre no setor da eletricidade.

De fato, sabemos que há pluralidade também de falhas estruturais de suma gravidade no sistema elétrico, tais como investimentos insuficientes, custosos e por vezes mal planejados – por exemplo no subaproveitamento dos potenciais hídricos e falta de eclusas.

Tudo isso agravado pelas políticas ambiental , indigenista e quilombola, as quais atrasam, complicam e mutilam os projetos, sem falar na mania das concessões, Parcerias Público Privada e outros esquemas.

Essa prática propicia campo de lucros extraordinários e indevidos para concentradores das empreiteiras, sem falar nas empresas monopolizadoras de projetos, cobrados ao governo, e feitos sem licitação, o que ocorre também na área dos transportes.

Está evidente que tecnicamente as soluções não são difíceis, embora envolvam complexidade, passível de ser vencida pela competência de bons planejadores e executores.

A questão fundamental, porém, a meu ver, é que as soluções adequadas, para serem executadas, dependem de um sistema político e institucional diverso do que temos, pois este está não é só infiltrado, mas também controlado pelos beneficiários dos n defeitos estruturais determinantes do desastre na energia.

Roberto D’Araújo- O que se percebe na implantação da privatização e mercantilização do setor elétrico brasileiro é a fragmentação da gestão e da responsabilidade. Não sei se isso é uma estratégia de tipo “dividir para dominar”, mas, chama a atenção o fato de que a fragmentação é institucional e física. E isso não é uma mera opinião minha. São conhecidas as dissidências metodológicas entre planejamento e operação do sistema brasileiro.

Quanto aos reservatórios, é um engano achar que seríamos capazes de recuperar uma situação de conforto anterior adicionando mais reservatórios. Primeiro porque não há mais lugares para tal e segundo porque a carga cresce no mínimo 3 a 4% ao ano e cada ano seria necessário um novo reservatório de grande porte a cada ano. Mas isso é o grande atraso brasileiro, pois querem tratar hidrelétricas como fábricas de kWh e elas não são.

Adriano Benayon – Apreciei o conteúdo de suas novas observações. Entretanto, ainda estou à espera de algo mais satisfatório em matéria de soluções para os defeitos estruturais do sistema elétrico.

Basicamente, permaneço com estas dúvidas:

Por que não seria viável elevar a geração de energia hidrelétrica?

Ou, se trata de dificuldade política? Pois os governos sob o atual “sistema democrático de direito”, gerido do jeito que é há 25 anos (desde a CF/88), não querem fazer o que é preciso para realizar a necessária elevação daquele potencial?

Se não é viável tecnicamente, que outras fontes energéticas deveriam ser objeto dos necessários investimentos para que o país não prossiga na situação de ter custos referentes a energia dos mais caros do mundo? O qual afeta, inclusive, a competitividade da indústria nacional, bem como o padrão de vida dos residentes.

Gustavo Santos – O problema não são os impostos e encargos, mas as altas taxas de lucro na distribuição e geração e os preços muito baratos do mercado livre em momentos normais, o que impede que esses preços baixos possam ser aproveitados pelo consumidor comum. O lucro excessivo em todas as fases que tem grandes empresas envolvidas e o custo elevado decorrente da simulação mercantil e do mal planejamento

Roberto D’Araújo – Elevar a geração hidroelétrica é viável, com, por exemplo com Pequenas Centrais Hidrelétricas e usinas a fio d’água. O que me parece difícil é construir usinas com reservatórios de dimensões que alterem a atual relação reserva-carga, que é o problema que está por trás do esvaziamento dos reservatórios. Ainda mais quando o governo tem uma filosofia fundamentalista de que todas as fontes competem entre si como se fossem meras fábricas de kWh.

As resistências podem estar sendo orquestradas por grupos de interesse, mas, se ao invés de um projeto puramente hidrelétrico as usinas fossem apresentadas como parte integrante de um projeto regional, onde se poderia tratar de assuntos como irrigação, transporte pluvial, reflorestamento, turismo, abastecimento d’água, urbanização e até reforma agrária, a situação seria outra. Sugiro relembrar a experiência da Tenessee Valley Authority, que fez tudo isso na década de 30. Afinal, não faltam ministérios nesse governo.

A tarifa brasileira não é cara por conta do preço do kWh. Os preços dos leilões giram no entorno de US$ 60/MWh que é barato em termos internacionais. O problema é o que está sobre esse preço. Principalmente Encargos e carga tributária. Portanto, a medida provisória de redução de tarifa escolheu o alvo errado. Praticamente inviabilizou a Eletrobrás para conseguir uma redução pífia.

Os custos das térmicas não são o normal. As que foram contratadas no governo Dilma nem têm características técnicas para funcionarem na base. Esse é o sintoma de que não há equilíbrio estrutural. O secretário executivo do Ministério (Zimmerman, ex presidente da Eletrosul no governo FHC, favorável à privatização) mente para a população.

Dilma no caminho de uma nova estratégia

Por Eneas de Souza, para o Sul21

Uma análise da realidade brasileira mostra que ela está atravessada, como toda a sociedade contemporânea, pelo menos por três grandes conflitos: a concorrência intercapitalista, a concorrência entre os Estados, e a concorrência entre o Estado e o Capital. E é vendo sob este ângulo que nós podemos compreender as dimensões da política profunda do Brasil. Política, tomada aqui como expressão dos embates da economia política. E o consequente reflexo dessa luta entre os grupos sociais na formulação de uma política econômica. O quadro em que navegamos atualmente mostra, entre a cortina do palco e o pano de fundo do teatro da economia contemporânea, a plenitude de uma crise do capitalismo. Avultam, então, conflitos intensos entre os próprios capitais, e o efeito final seria o de remoçar as estruturas capitalistas. E isso só pode acontecer se o capital chegar a algum porto seguro, a alguma estrada nova. E essa tem uma placa: terceira revolução industrial. Mas, atenção!, não nos iludamos: se ela acontecer, será uma terceira revolução industrial organizada hegemonicamente pelas finanças de um lado, pelas indústrias líderes dessa revolução de outro, e pelos Estados Nacionais que lideram a geoeconomia e a geopolítica de uma terceira margem.

A LUTA À MORTE DOS CAPITAIS NA CONCORRÊNCIA

A luta à morte dos capitais em competição passa pelas finanças e pelas corporações que funcionam na esfera produtiva, agora organizada em cadeias mundiais de valor. As finanças precisam, nesse momento, criar as condições para o estabelecimento de novas bases com vistas a um novo e amplo ciclo especulativo. E o avanço da especulação depende de um ambiente, de um clima econômico, que vem muito do dinamismo da economia produtiva. Pois é sustentado nesse dinamismo que as finanças, por exemplo, organizam um leque de lançamento de ações, promovem a venda de produtos financeiros para atender as necessidades das tesourarias das empresas e inventam novas idéias – papéis privados, por exemplo –para dar segurança e rentabilidade excessiva aos inversores em geral (indivíduos, firmas e mesmo Estados). Só que a luta à morte entre os concorrentes prossegue e continua em todos os instantes como um vulcão. Percebe-se que o combate empresarial desenha o cenário e alimenta a dinâmica dessa atual e longa crise econômica. O capitalismo funciona com este acorde melódico: o desarranjo da economia é funcional para a sua futura solução. No caso presente, a transformação da crise deverá desembocar na construção de uma nova arquitetura da economia. Essa golden era, como diz Carlota Pérez, seria a 3ª revolução industrial.

A SUBSTITUIÇÃO DA LIDERANÇA PRODUTIVA

Os conflitos da presente disputa balançam o processo capitalista. Esse jogo vai dar na substituição da liderança da economia produtiva. Como já sabemos, o negócio passa por trocar o setor petróleo e o setor automobilístico pelas novas tecnologias de comunicação e informação, pelos novos materiais, pela biotecnologia, etc. Ou seja, os novos setores dinâmicos são aqueles que estão produzindo uma permanente revolução tecnológica, aqueles que dão lucratividades exuberantes, aqueles que mais puxam e encadeiam os demais setores, aqueles que mais estão movimentando e organizando a sociedade. São esses que passam à frente e ocupam o lugar dos antigos líderes.

Vejam como as novas tecnologias de comunicação e informação estão transformando vários setores como a própria finanças, como as indústrias bélicas, como a indústria midiática, etc. E elas estão na liderança porque, obviamente, além de serem as propulsoras tecnológicas da dinâmica das empresas desses outros setores, são companhias que estão em constante transformação, são corporações que tornam elásticas a sua taxa de lucro. E essa explosão é tão significativa que essas taxas são maiores que muitas taxas especulativas. Se duvidarem, dêem uma olhada nas empresas que estão no topo daquelas mais rentáveis. O importante é ver como esses setores emergentes se rearranjam e tomam a liderança por relação, principalmente, à indústria de automóveis.

Contudo, no setor petróleo, a passagem para sua realocação ainda vai levar um bom tempo. Como a energia é uma infraestrutura fundamental de qualquer paradigma, sua reposição, seu deslocamento definitivo na 3ª revolução industrial, depende da fixação de uma nova energia dominante. Isso só se fará no médio ou longo prazo.

ESTRATÉGIA BRASILEIRA E A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

Então, o Brasil tem uma estratégia para essa realidade, para esse futuro. Em primeiro lugar, o país se avantaja para entrar nesse novo padrão de acumulação. No primeiro momento, o seu objetivo é integrá-lo, através da agroindústria e do petróleo. São dois setores chaves. Um deles, o primeiro, fornecerá bens indispensáveis para a reprodução da mão de obra mundial. E o segundo, ocupará com intensidade um lugar no setor de energia – são os tempos do pré-sal. Assim, o Brasil, de um modo geral, não deixará de estar presente no padrão que nos referíamos. É isso que alguns chamam de primarização da economia brasileira. Sim, mas o que não quer dizer que o país não terá uma presença forte na economia mundial, tudo depende da amplitude das nossas pretensões e de nossas potencialidades.

Há um terceiro aspecto na estratégia brasileira, um outro setor, que foi o setor líder da 2ª revolução industrial. E ele está hoje em processo de deslocamento dinâmico, onde o Brasil se apresenta como forte candidato. Trata-se do já comentado setor de automóveis. O país é, agora, grande consumidor, e se volta para se tornar produtor de grande porte. A estratégia do Programa Inovar-Auto já está permitindo que o Brasil seja uma das fronteiras da expansão de grandes empresas automobilísticas. E o vento desse crescimento vem da Ásia, e, especialmente, é de origem chinesa. (Os resultados recentes da queda da produção da economia do automóvel em 2013 é um fenômeno conjuntural, em função da retirada das medidas anteriormente tomadas pelo governo. A questão que estamos colocando aqui envolve o norte estratégico do longo prazo, e esse norte re-estruturará a conjuntura vigente.)

Observação: esses três setores estratégicos (agroindústria, petróleo, automóveis) têm na liderança fortes empresas mundiais (no petróleo, a PETROBRÁS), que organizam amplas cadeias globais de valores. Elas abrem um processo de fertilização, quando inscritos no Brasil, que atingem toda a economia brasileira.

UMA NOVA ESTRATÉGIA PARA O ESTADO NACIONAL

Essas realidades impõem uma nova estratégia para o Estado Nacional. E isso convoca e clama realidades políticas – inclusive políticas partidárias e eleitorais importantes. Há que sustentar um novo modelo de desenvolvimento da economia brasileira. E são essas conexões que irão organizar as políticas monetárias, cambiais, financeiras e fiscais. Precisamos entender, então, a estratégia. E a estratégia do Brasil é simples, é alcançar uma inserção significativa no padrão de acumulação da 3ª RI, em cima do petróleo, dos alimentos e dos automóveis.

Isso nos mostra algo que se oculta nos debates. Embora o Brasil possa ser um país onde as empresas produzam milhares de inovações, o que é ótimo, no entanto, nos setores avançados do novo padrão, nos setores de liderança, a nossa posição será de seguir o rastro das empresas principais, o rastro do cometa. Podemos nos preparar sim, para o longo prazo. O economista brasileiro Wilson Canno nos dizia que o Brasil entra nas novas revoluções industriais com um razoável atraso. Não parece ser diferente aqui nesse novo padrão.

A SUSTENTAÇÃO DA POLÍTICA PROFUNDA

Olhado isso, a pergunta estala: o que significa, em termos políticos, a sustentação dessa estratégia? Nós estamos num momento de mudança fundamental, mas continua a proposta política básica que veio desde 2002: um arco de aliança que envolva um pacto social determinado: capital e população. E como ele é um pacto estrutural, o que se quer saber é como vai se fazer novamente esta soldagem?

Em primeiro lugar, está em marcha, no e pelo governo Dilma, uma alteração decisiva nesse pacto. Dilma foi a Davos e avisou: o setor privado é bem-vindo. O que significa isso? É preciso ler bem a declaração da presidenta. Em primeiro lugar, mantém a posição em favor do capital. Contudo, o seu objetivo dá um passo adiante. Trata-se de proporcionar, nesse momento, um papel mais expressivo ao capital estrangeiro. E o que é que ela está propondo? Um aumento fundamental no aporte de recursos estrangeiros para o ponto dinâmico do investimento. Dilma está convocando o capital internacional a participar do ponto frágil da nossa economia: o investimento em geral. Mas, sobretudo – e aqui está o calcanhar de Aquiles brasileiro – os múltiplos investimentos em infraestrutura. E como são consideráveis os necessários recursos, nem o Estado nem o capital nacional têm numerário suficiente para tal. E, para dar corpo a essa pretensão, o elemento substancial é o capital internacional. E não importa o seu selo de procedência, pode ser capital de origem financeira ou capital de origem de corporação produtiva. Os dois vêm bem.

DILMA TROCA O SINAL DO GOVERNO LULA

Essa aliança com o capital muda uma faceta do governo Lula. Lá, a partir de 2002, o que Lula fez foi um acordo com o capital, mas articulou bancos nacionais e capitais privados para enfrentar, fundamentalmente, as finanças internacionais, que aprisionavam o Brasil em termos de dívida externa, de financiamento do investimento, e mesmo bloqueando o investimento estrangeiro produtivo das grandes empresas. Lula apostou e ganhou. Jogou e se falou de um lance “getulista”. Agora, a situação mudou. E, sem desprezar o capital nacional – como empreiteiras, por exemplo – o gesto de Dilma é trazer uma nova onda de capital estrangeiro para permitir que o capitalismo avance no Brasil. A face do gesto político tem agora mais uma inspiração “juscelinista”.

O problema, no entanto, é o seguinte: como fazer que o avanço do capitalismo seja também um avanço para a população? No governo de Lula, o tema era um conjunto de políticas sociais importantes: aumento do salário mínimo real, Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos, Prouni, etc. E qual é, então, o problema de Dilma? É tentar manter, sustentar, transformar e ampliar essas políticas. Em todos os pontos onde os avanços sejam possíveis. Dessa forma, tem que buscar novas rendas, novos espaços de consumo, novos benefícios para os operários e os trabalhadores, como ampliar a incorporação de indigentes, etc… Porque com isso, se soldará o que falávamos acima: o pacto estrutural capital-população. Esse pacto assegurará não só um novo governo para Dilma como a manutenção do desenvolvimento econômico, com avanços desiguais para capitais (estrangeiros e nacionais) e para a população. Avanços desiguais, mas avanços.

E QUAL É O ROSTO DA INQUIETAÇÃO NA ECONOMIA?

Para enxergar a face da inquietação na economia do Brasil, cabe considerar alguns aspectos. Eles mostram as contradições que afetam o clima geral das três concorrências que colocamos no início do nosso texto.

(1) O governo, por mais que se esforce – e se esforçará – não poderá impedir que vários capitais possam perder a competitividade vis-à-vis os capitais internacionais, e possam ser excluídos dessas cadeias globais de valor;

(2) a política nacionalista passa por dois lados: o benefício da população e o apoio às alianças de capitais nacionais com internacionais. A capacidade competitiva limitada das empresas brasileiras não permite um avanço exclusivamente nacional na participação mundializada da 3ª revolução industrial;

(3) o centro da política nacionalista tem que ter como prioridade a população, visando principalmente salários e melhores condições materiais, sociais e culturais de vida. Só assim a população retribuirá o apoio político ao Estado. Esse item envolve certamente a questão urbana como uma questão desafiadora.

(4) os equilíbrios e desequilíbrios dessa estratégia dependerão muito da soldagem desse pacto e da força que a população dará ao Estado, como diz o item 3, para que ele possa negociar em posição forte com os múltiplos setores do capital.

A PASSAGEM DO ABISMO

Poderíamos dizer que o objetivo da Dilma é a passagem da política econômica, com ênfase no consumo, executada exitosamente pelo governo Lula logo depois da crise de 2007/08, para outra fase do desenvolvimento da economia brasileira, outra etapa da política econômica do investimento. Só que essa passagem tem uma duração, um timing, demorado. O centro da questão, o abismo que temos de atravessar é somente um, mas robusto: como superar os obstáculos (políticos, econômicos, jurídicos, estratégicos, diplomáticos, midiáticos) à expansão da economia através de volumosos investimentos em infraestrutura? Foi isso que o Brasil constatou: o setor privado, o setor público, o Brasil como um todo, tinham baixos índices de investimento, exatamente por causa da falência do campo da infraestrutura. Problema que veio do século passado e atravessou os governos FHC e Lula, que estiveram lutando, de modos diferentes, para resolver o aprisionamento do Estado brasileiro pelas finanças internacionais. O governo Lula conseguiu equacionar essa terrível questão. E, ao mesmo tempo, com uma política pública para a maior parte da população, obteve a absorção de cerca de 40 milhões de pessoas no mercado nacional. E agora, para um novo passo na direção do capitalismo no Brasil, é indispensável, que haja um novo acordo estrutural entre capitais internacionais e nacionais e a população. Acordo estrutural que significa que as forças sigam com atos objetivos e simultâneos na mesma direção. Para tal, a população tem que estar colada ao Estado. Pois só ele pode negociar o processo de desenvolvimento do Brasil na 3ª revolução industrial. E de maneira a equilibrar minimamente as relações de poder, para que os benefícios não sejam só engolfados pela lógica do capital, mas também se distribuam pelos habitantes do país.

(O que fiz acima foi desenhar e interpretar como se afigura a tendência da economia brasileira na nova revolução industrial em andamento. Daí pode emergir duas perguntas. A primeira: porque será que a oposição à direita não tem proposta alternativa às propostas do governo, salvo nas questões conjunturais? A segunda: a oposição à esquerda tem uma proposta consistente de metamorfose da sociedade capitalista?)

LAMENTO HUMANO E CULTURAL

(Queria expressar neste final, fora das discussões, minha profunda dor, como crítico de cinema e admirador do cinema nacional, pela morte do cineasta Eduardo Coutinho. Um cineasta que deu uma enorme contribuição na concepção do documentário brasileiro e mundial. Assim como Glauber Rocha, Eduardo Coutinho foi um grande inovador do cinema. Se Deus e o céu existirem, Coutinho fará um esplêndido documentário sobre o reino celeste, assim como fez, um dia, um documentário maravilhoso sobre o Edifício Master. Imaginem, então, Coutinho entrevistando Deus!)

Enéas de Souza é economista, psicanalista e crítico de cinema.

Pane no metrô e na imprensa

Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa

 

O metrô de São Paulo é tema do noticiário novamente, nas edições de quarta-feira (5/2), por conta de uma pane que quase desandou em tragédia. As reportagens dos dois principais jornais paulistas se desencontram ao informar as causas do problema, que afetou a linha 3-Vermelha, que cruza a cidade no sentido Leste-Oeste, e a linha 4-Amarela, que liga o Butantã, na zona oeste, à região da Luz, no centro velho.

Folha de S. Paulo relata que a causa de tudo foi uma pane no sistema de fechamento das portas, que teria ocorrido num trem parado na estação Sé, marco zero da cidade, às 18h19 da terça-feira (4/2). Na sequência descrita pelo jornal, nos dez minutos seguintes pelo menos sete composições do trajeto foram obrigadas a parar, e alguns passageiros, agoniados pelo calor, apertaram os botões de emergência para deixar os vagões. Por volta das 20h, um novo defeito fez com que o tráfego fosse novamente suspenso, com a situação se normalizando somente perto da meia-noite.

A história contada pela Folha dá quase todo crédito à versão da Companhia do Metrô, segundo a qual houve precipitação dos passageiros, vandalismo e agressões a funcionários. O texto do jornal reforça a posição da empresa, em trechos que dizem, por exemplo, que “vagões foram depredados e seguranças, agredidos”, ou no relato segundo o qual “a Folha presenciou passageiros quebrando vidros de ao menos uma composição na Sé”. No entanto, a fotografia na primeira página mostra a multidão tentando escapar pelo túnel e um grupo de seguranças barrando a passagem, um deles ameaçando os passageiros com um cassetete.

No Estado de S. Paulo, a descrição dos acontecimentos é mais detalhada  desde o título, no qual se diz que “pane somada a atrasos, lotação e calor causa tumulto e fecha linha-3 do metrô”. No texto, o jornal explica que, diante da paralisação do sistema, passageiros abriram as portas e saíram para os trilhos, porque muitas pessoas estavam passando mal com o calor. A diferença com o outro diário começa na descrição do tumulto que se seguiu: “Na confusão, seguranças do Metrô agrediram passageiros na Estação da Sé. Houve tumulto e depredação na plataforma”.

A versão oficial

As sequências das duas versões apontam para interpretações totalmente opostas dos acontecimentos, e o leitor atento não precisa muito esforço para se dar conta de que a Folha de S. Paulo agasalhou uma história que poderia muito bem ser escrita pela assessoria do Metrô. Nesse roteiro, a empresa sofreu um problema que, afinal, pode acontecer em qualquer lugar, e o resto teria sido consequência da má educação dos passageiros.

Já o Estado abre a possibilidade de outra interpretação, informando, por exemplo, que os passageiros ficaram retidos por mais de vinte minutos nos trens parados, sem informação e sem ajuda da empresa. Conta também que o Metrô não acionou o Plano de Apoio entre Empresas em Situações de Emergência, que providenciaria ônibus e outros meios para desafogar o movimento de passageiros. Além disso, a descrição das agressões indiscriminadas a quem deixava os trens combina melhor com o que se conhece dos seguranças do Metrô, muitas vezes denunciados por abusos e excesso de violência.

Nos dois relatos, é preciso destacar o fato de que, nos momentos de maior risco, foi a atitude solidária dos passageiros que evitou uma tragédia: pessoas idosas, mulheres grávidas e cadeirantes foram protegidos nos vagões ou conduzidos para lugares seguros pelos próprios usuários, enquanto a segurança tentava apenas mantê-los parados, sob o calor infernal que assolava a cidade.

Além das divergências sobre os fatos específicos, com uma reportagem de muito mais qualidade por parte do Estado de S. Paulo, pode-se dizer que os dois jornais erraram juntos em uma questão fundamental: não vincularam a pane a problemas de manutenção do Metrô, cujos técnicos estão sendo obrigados a fazer “gambiarras”, porque os contratos foram suspensos em função do escândalo das licitações fraudulentas.

Bem longe dos tumultos, onde a imprensa publica notícias sobre corrupção, os dois diários paulistas e mais o carioca O Globo informam que o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, dividiu em dois o inquérito sobre as fraudes, mandando um deputado e três secretários do governo paulista para o foro privilegiado. Mas nenhum deles relaciona um fato ao outro.

Nesse assunto, são os jornais que entram em pane.

Lula e Dilma seguiram alinhados às oligarquias, afirma Stedile

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Entrevista concedida à Jimmy Azevedo, para o Jornal do Comércio

 

Com a passagem dos 30 anos de fundação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no dia 22 de janeiro, o Jornal do Comércio entrevistou um de seus fundadores e principais líderes. João Pedro Stedile não poupa críticas aos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff, ambos do PT. Stedile questiona o fato de a reforma agrária não ter apresentado resultados significativos no governo Dilma. Segundo o ativista, a reforma agrária só não tem avanços porque a presidente está “alinhada com as oligarquias”.

O líder nacional do MST critica a política do atual governo em promover concessões de setores estratégicos. Sobre a política econômica do governo de coalizão, acredita que é necessário realizar mudanças, barrar o superávit primário e destinar os R$ 280 bilhões anuais, hoje pagos em juros aos bancos, para educação, saúde, reforma agrária e transporte público. Reitera que, para que haja essas mudanças estruturais, será necessário primeiro promover uma reforma política para que o poder seja exercido pelo povo, “e não contra ele”.

O MST foi criado em um encontro de camponeses em Cascavel, no Paraná, no dia 22 de janeiro de 1984. Em três décadas de mobilização pela reforma agrária, seus integrantes realizaram mais de 2,5 mil ocupações. O movimento tem 2 mil escolas instaladas em assentamentos.

Quais são os desafios dos movimentos sociais?

Primeiro, é não desanimar diante da avalanche do grande capital que está dominando toda agricultura.  Ir construindo pequenas e médias agroindústrias na forma cooperativa.  Adotar a agroecologia como matriz de produção e priorizar a produção de alimentos sadios. Resistir. Logo aí, as contradições do modelo do agronegócio vão gerar uma crise tremenda, pois ele é predador da natureza, só produz alimentos contaminados pelo alto uso de venenos e vai despovoando o interior, com mais desemprego.

O senhor disse que o modelo de luta pela reforma agrária deve ser reformulado. Quais seriam as alternativas?

Durante todo século XX, os movimentos camponeses lutaram por terra e os governos que representavam os interesses da burguesia industrial aplicaram programas de reforma agrária clássica, que eliminava o latifúndio e democratizava a propriedade da terra para desenvolver o mercado interno. Agora, é o capital financeiro e as empresas transnacionais que hegemonizam o capitalismo, e a eles não interessa mercado interno, nem democratizar o acesso a terra.  Então, nós, dos movimentos camponeses, precisamos avançar para um programa de reforma agrária popular, que interesse a todo o povo, centrado na distribuição de terras, na produção de alimentos sadios, sem venenos, no uso da agroecologia e na democratização da educação e das agroindústrias.

Levantamentos revelam que o Brasil importou mais de US$ 2 bilhões em agrotóxicos no ano de 2012. Como o senhor avalia essa situação?

O governo Dilma é refém do agronegócio e da falácia de que as exportações agrícolas são necessárias. Nenhum país do mundo se desenvolveu vendendo matérias primas. Olha, somos o maior exportador mundial de couro cru e os maiores importadores de tênis da China.  Isso é uma vergonha. Somos o maior exportador de minério de ferro, sem pagar nada de imposto, e depois compramos até trilho de trem, ferro elétrico, e ventilador da China. Vendemos soja em grão e depois importamos leite em pó. E esse modelo anacrônico, até do ponto de vista agronômico, transformou a agricultura em refém dos venenos.  Somos o maior consumidor mundial de venenos, 20% de todos os venenos do mundo, sem nenhuma necessidade agronômica. Nós estamos aplicando em media 15 litros de venenos por hectare por ano, e consumimos cinco litros por habitante ano. E ele mata a biodiversidade, mata os rios, a água subterrânea, contamina o ar, a chuva, e fica nos alimentos, para depois virar câncer. Esse é o preço que o povo esta pagando pela falácia do agronegócio.

Por que o senhor diz que o governo Dilma Rousseff tem um desempenho ruim na reforma agrária?

Porque é um governo de composição, de coalizão de todas as classes, em que o agronegócio tem hegemonia e os setores favoráveis à reforma agrária são minoritários. Somado a isso, há o contexto da agricultura dominada pelo capital financeiro e pelas empresas transnacionais.  E é um Estado dominado pela burguesia, que tem controle absoluto do poder Judiciário e do Congresso para se proteger contra qualquer mudança.

O MST, em particular nos governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), foi um dos movimentos sociais que mais realizaram mobilizações. Como está isso hoje?

Na época do neoliberalismo, dos governos Collor-FHC, os movimentos sociais resistiram no campo e lutaram muito. Até porque o movimento sindical e a classe trabalhadora urbana haviam sido derrotados econômica e ideologicamente. Então, a imprensa burguesa como reprodutora de sua ideologia nos atacava permanentemente para evitar que crescessemos. Hoje, o papel da imprensa burguesa é esconder as lutas sociais ou difundir como sinônimo apenas de “baderna”, para abrir caminho para a repressão judicial e policial.

Por que o senhor tem dito que os governos Lula e Dilma não fizeram a ruptura com o capital financeiro?

Primeiro, porque nunca se propuseram a isso, uma ruptura com as oligarquias.  Segundo, porque diante de uma correlação de forças adversas para a classe trabalhadora em todo mundo e a hegemonia do capital financeiro, escolheram o caminho de chegar ao governo em aliança com setores da burguesia. E disso se gerou um pacto: “vocês podem governar, fazer políticas de distribuição de renda, mas não podem mexer nas estruturas iníquas do capital e do Estado”. Isto é, formaram um governo de aliança de classes. Todos ganham um pouco, mas o capital financeiro é o que mais ganha. E cabe a ele financiar as campanhas dos deputados, dos governantes, encontros do poder Judiciário…

Como o senhor analisa as concessões que estão sendo promovidas pela presidente Dilma?

O governo Lula barrou as privatizações. Já o governo Dilma usa um sofisma: em vez de privatização, concessão. Na minha opinião, uma vergonha. O Estado brasileiro deve manter controle dos setores estratégicos da economia, da energia, dos transportes, das comunicações, para garantir que os interesses do povo estejam acima de qualquer coisa. Com as concessões e privatizações, o lucro das empresas está em primeiro lugar. Por isso, a energia elétrica no Brasil é a mais cara do mundo. Os pedágios, a internet e os celulares são os mais caros do mundo. Isso aqui virou um paraíso para o capital internacional, como diria o saudoso Brizola.

Na sua opinião, por que o assunto reforma agrária esteve ausente da pauta das manifestações populares ocorridas em junho do ano passado?

O que tivemos em junho e julho foram mobilizações da juventude urbana pedindo mudanças. E se mobilizou como indignação e protesto.  Não por um programa de mudanças. Quem pode se mobilizar com programa de mudanças são os setores organizados da classe trabalhadora, que ainda infelizmente estão meio parados. Porém, as mobilizações da juventude são importantes e necessárias, pois são uma espécie de termômetro da saúde da sociedade. A juventude é a primeira que sente a febre e vai para a rua. Depois virão a classe trabalhadora e os demais setores. É urgente construirmos um programa de mudanças articulado pelos movimentos populares e partidos de esquerda.

Um dos assuntos mais criticados pelos manifestantes foram os gastos com a Copa do Mundo. Qual é a sua opinião sobre esse tema?

O governo gastou, através de diversas formas, ao redor de R$ 8 bilhões. A imprensa burguesa, porta-voz da oposição partidária, fez disso uma bandeira para tentar desgastar o governo. Mas, cá entre nós, esse volume representa apenas duas semanas dos juros pagos pelo Tesouro Nacional aos bancos. E ninguém diz nada. Claro que poderiam ser aplicados melhor, em educação e hospital. Nosso inimigo principal não são os estádios e a Copa, que vai passar logo.  Nosso inimigo são os bancos, o capital financeiro. E sobre eles a imprensa não diz nada. O próprio (Joseph) Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, defendeu que a única saída para salvar o capitalismo, se se quisesse, seria estatizar os bancos.

A ideia de se realizar reforma agrária no Brasil, proposta pelo então presidente João Goulart (Jango), foi um fator determinante para o golpe de 1964. No Chile, da mesma forma, com Salvador Allende. Por que esse tema é um tabu?

Porque a base do poder político em todos os países periféricos e subalternos ainda está no poder econômico da propriedade da terra. Todos os países hoje industrializados fizeram reforma agrária para democratizar a terra e gerar um amplo mercado interno. Mas aqui a burguesia prefere vender pouco e ganhar muito, em vez de vender muito e ganhar mais. Por isso temos uma sociedade, a cada dia, cada vez mais desigual. O Brasil é um dos países de maior desigualdade social do mundo. E um dia isso vai estourar.

O MST ficou submisso aos governos do PT, como criticam alguns?

O MST adota como um princípio a autonomia em relação aos governos, Estado, partidos e igrejas. Aplicamos isso durante todos os 30 anos de existência. E fazemos isso também com os governos Lula-Dilma. Nossa prática de movimento social é pressionar e negociar. Pau e prosa. No ano passado, ocupamos os ministérios de Minas e Energia, da Fazenda, da Agricultura, nenhum outro movimento social fez isso, e não  consta que o governo federal tenha gostado.

Como o senhor acompanhou, em 2011, a mobilização de um grupo de mais de 50 integrantes que deixaram o MST por acharem que a direção do movimento estava submissa ao governo?

Stedile - Do MST, eram apenas 17, os demais eram de outros movimentos.  A crítica do documento deles é ideológica e se referia a todos os movimentos populares e partidos. Infelizmente, não entenderam que em um movimento de massa cabem todas as opiniões. Não me consta que sua saída e seu agrupamento representou algum avanço para a classe trabalhadora ou alguma ameaça aos governos e à burguesia. Faz parte da vida, e todo mundo tem a liberdade de defender suas ideias.

João Pedro Stedile é, nas últimas décadas, a maior liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Um dos fundadores do MST, o ativista brasileiro também integra a Via Campesina. É graduado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs) e pós-graduado pela Universidade Nacional Autônoma do México. Filho de pequenos agricultores da província italiana de Trento, nasceu em 1953 na cidade gaúcha de Lagoa Vermelha. Marxista de formação, Stedile, desde 1979, participa das atividades de luta pela reforma agrária no País. Atuou como membro da Comissão de Produtores de Uva, dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais do Rio Grande do Sul, na região de Bento Gonçalves. Já assessorou a Comissão Pastoral da Terra (CPT), no Rio Grande do Sul e em âmbito nacional, além de ter trabalhado na Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul. Por indicação do então deputado federal Brizola Neto (PDT-RJ), recebeu a medalha Mérito Legislativo, concedida a personalidades brasileiras ou estrangeiras que realizaram ou realizam serviço de relevância para a sociedade.

CELAC: Os discursos dos chefes de Delegações

Por Javier Salado y Graciela Ramirez

Especial para Resumen Latinoamericano

Se algo ficou posto bem em evidência durante o uso da palavra por cada um dos chefes de delegação presentes – principalmente os 29 chefes de Estado ou de Governo – foi a grande diversidade de pontos de vista, critérios, valorações e temas priorizados, existentes na região e, sobretudo, que interesses defende cada governo.

É aqui onde o princípio de alcançar a unidade dentro da diversidade exposto pelo presidente cubano Raúl Castro, se converte não somente na regra de ouro para o futuro da CELAC como também em sua coluna vertebral.

Ouvidas as intervenções, a visão das correntes imperantes nos 33 membros da Comunidade é esquematicamente o seguinte:

Um bloco de posições avançadas por seu compromisso com as lutas e interesses dos despossuídos de sempre, dos povos originários e dessa Nossa América profunda, libertária, independente e contestatária, conformado por Cuba, Equador, Bolivia, Venezuela, Nicaragua, Uruguay e seguido muito de perto por Argentina, El Salvador e Brasil, foi reforçado pelo compromisso demonstrado por alguns países caribenhos como San Kitts e Nevis, San Vicente e as Granadinas, Trinidad e Tobago, Antigua e Barbuda, Haiti, Dominica e Santa Lucía, aos quais de perto os seguem com apoios parciais majoritários Jamaica, Guyana, Suriname e Granada.

Outro grupo de corte nacionalista é encabeçado por México (respeitoso em suas colocações e diplomacia dentro desta cúpula) e composto por Peru e Belize, seguido por Barbados – com uma situação econômica interna insustentável e buscando ajuda desesperadamente nas grandes potências.

É identificável uma direita que encabeçada por Colômbia, a compõem Honduras, Guatemala, Costa Rica, Panamá, República Dominicana, Paraguai, Bahamas e até esta Cúpula o Chile de Piñera. Para ser sincero, apesar do dito sobre o México e ainda que no foro tenha mostrado uma postura muito construtiva e positiva, na arena internacional e ocasionalmente em sua política exterior se soma a este grupo.

Nos discursos escutamos um presidente Santos da Colômbia que não só justificou a existência da Aliança do Pacífico, como a caracterizou como “esforço para alcançar a integração” Também se ouviu do presidente dominicano Danilo Medina rechaçar a colocação da existência de discriminação contra cidadãos haitianos na República Dominicana, algo comprovado de forma cabal nas últimas semanas.

Com a finalização da II Cúpula é transmitida  a presidência pro-tempore da Comunidade para a presidenta da Costa Rica Laura Chinchilla. É necessário ressaltar o que o presidente cubano em uma de suas intervenções teve de recordar ao presidente chileno Sebastián Piñera, em fim de mandato, como, no momento em que recebeu a presidência pro-tempore da CELAC em Santiago do Chile, Piñera lhe disse “Castro, a presidência é por um ano, não por cinquenta“, seguido de sua opinião de que a CELAC  era somente uma oportunidade de encontrar-se e discutir, não um organismo. O presidente cubano lhe contestou naquela ocasião que não compartilhava desta visão, e lhe recordou, agora em Havana,  acrescentando: “Piñera, os Castro somos  fortes e longevos, minha presidência foi de apenas um ano, porém a CELAC chegou para ser forte e longeva”, aduzindo ademais que se criarão as condições para que os acordos tomados não sejam apenas letra morta no papel e sim que sejam objeto de ação e atenção.

Em suas palavras de recebimento da presidência, Chinchilla deixou assentado que a CELAC não é para competir com nenhuma organização internacional e sim para encontrar soluções. E que está segura que seja quem seja o próximo presidente da Costa Rica a ser eleito no próximo dia 2 de fevereiro, trabalhará pelo fortalecimento da Comunidade.

A verdade abrirá passagem por si só, todavia não pode restar dúvidas de que diante dos governos populares, progressistas e de esquerda, membros da CELAC, se abrirá um imenso desafio, que estamos seguros saberão conduzir com êxito em direção da verdadeira unidade, integração e independência da América Latina e do Caribe.

As causas do apagão e soluções para o Sistema Elétrico nacional

apagão

Por Rennan Martins

Ontem nosso país passou por um apagão de grandes proporções, atingindo 6 milhões de pessoas em 11 estados nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, além do estado do Tocantins. A falha no Sistema Elétrico nacional ocorreu às 14:03, a recomposição de cargas iniciou 38 minutos depois concluindo às 15:30 segundo nota à imprensa do Operador Nacional do Sistema Elétrico.

Diante disto o debate sobre racionamento reacendeu em toda a imprensa brasileira. Entramos em contato com o engenheiro e diretor do Instituto Ilumina de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético Roberto D’Araújo que comentou as causas da crise, considerou que as explicações oficiais não condizem com a realidade e sugeriu uma “revisão profunda do modelo mercantil e institucional”.

Segue a entrevista, na íntegra:

Quais são as causas da ameaça de crise de abastecimento do Sistema Elétrico de nosso país? Elas condizem com as explicações oficiais?
Na minha opinião são 4 as causas:

1 – Um modelo mercantil que mimetiza um mercado competitivo genuíno de energia num sistema físico cuja característica é a cooperação entre usinas e linhas de transmissão. Essa adaptação criou um mercado livre virtual onde os preços não são negociados entre os agentes, criando distorção de preços, de irrisórios até impagáveis. Não há termos de comparação do que ocorre no Brasil com qualquer outro mercado de energia.

2 – O sistema está completamente fragmentado. ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica, ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), EPE (Empresa de Pesquisa Energética), CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico) mostram o excesso de órgãos e a consequente fragmentação de responsabilidades. Além disso, o sistema físico também se encontra no mesmo estado. A separação de geração e transmissão gerou situações ridículas de usinas que não conseguem transmitir sua energia e incompatibilidade técnica entre linhas e usinas. O sistema de transmissão, que deveria ter um monitoramento único onde a compatibilidade de equipamentos é essencial está espalhado sob diversas propriedades. Exemplo: A subestação de Colinas recebe 6 linhas de donos diferentes. Há 6 equipes de operação atuando na mesma subestação.

3 – Problemas de diferenças metodológicas entre planejamento e operação geram incerteza sobre os certificados de energia assegurada, invenção brasileira para mimetizar sistemas de base térmica. Hoje esses certificados estão exagerados.

4 – A obsessão por reduzir tarifas sem um prévio diagnóstico gerou a MP 579 que fixou valores irrisórios para operação e manutenção das linhas e usinas antigas quando elas precisariam de recursos para se modernizar. O setor passou a ser dependente de muita burocracia e de aportes do tesouro.

Claro que não condizem com as explicações das autoridades.

A nota à imprensa no site do Operador Nacional do Sistema Elétrico sobre o grande apagão de ontem diz que “ocorreu um curto-circuito bifásico-terra envolvendo as fases A e B da linha de transmissão 500 kV Miracema – Colinas C2″ e que isto comandou o desligamento do circuito remanescente. Poderia explicar numa linguagem menos técnica?
Um curto circuito pode ocorrer por sobrecarga. Como explicado na pergunta anterior, a subestação Colinas é responsável pela alimentação do Nordeste e do Sudeste quando Tucuruí pode gerar muita energia. Geralmente o sudeste não precisa de ajuda, mas, em função de termos deixado os reservatórios do SE esvaziarem e da atual seca, a subestação pode estar sobrecarregada. Entretanto, o corte de carga programado é melhor do que tentar vencer a sobrecarga.

O Brasil corre riscos de ter de se submeter a um racionamento este ano?
Risco sempre há. Risco zero não existe. Se não ocorrer o racionamento isso não quer dizer que não houve risco. Se alguém atravessar a avenida Presidente Vargas de olhos vendados e conseguir chegar vivo do outro lado, isso não quer dizer que o risco foi nulo.

Que soluções de gestão são necessárias para otimizar e tornar o Sistema Elétrico brasileiro mais seguro?
Uma revisão profunda do modelo mercantil e institucional. A conjugação de órgãos em apenas um para evitar que se veja apenas de um pedaço do problema sem que haja capacidade do MME (Ministério de Minas e Energia) para coordenar efetivamente os conflitos. Usinas hidroelétricas não são meras fábricas de kWh, como são as térmicas ou eólicas. Apesar disso, com tantos ministérios, esses projetos continuam sob a visão limitada do MME. Por isso aumentam as resistências às usinas.

Giorgio Agamben: A crise como instrumento de poder

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Entrevista a Dirk Schumer, para o dialogosdosul

Em entrevista concedida à Dirk Schumer, o filósofo italiano discorre sobre os desafios que a Europa enfrenta atualmente. Considera a constituição da União Europeia ilegítima, declara que “Atualmente, a crise se transformou em um instrumento de dominação.”e sugere que o ser humano considere suas ações além do campo da economia a fim de encontrar uma saída para os problemas atuais.

Professor Agamben, em março desencadeou-se a ideia de uma “soberania latina” contra o domínio alemão na Europa. O senhor poderia imaginar a grande repercussão que isso teria? Enquanto isso, o ensaio foi traduzido para muitos idiomas e apaixonadamente discutido na metade do continente

Giorgio Agamben: Não, não esperava isso. Mas acredito no poder das palavras, quando são chamadas no momento adequado.

A brecha na União Europeia é na realidade entre as economias e estilos de vida do norte “germânico” e o sul “latino?”


Quero dizer antes de mais nada que minha tese foi exagerada pelos meios de comunicação e, portanto, distorcida. Seu título, “O império latino, deveria lançar um contra-ataque” foi criado pelos editores do Liberacion e assumida pelos meios de comunicação alemães. Não foi algo que eu disse. Como poderia opor a cultura latina à alemã, quando um europeu inteligente sabe que a cultura italiana do Renascimento ou cultura da Grécia clássica já estão plenamente integrados à cultura alemã, que a repensou e dela se apropriou?

Portanto, nenhum “império latino” dominante? Nenhum alemão inculto?


Na Europa, a identidade de cada cultura ainda reside em suas fronteiras. Um alemão como Winckelmann ou Hölderlin, poderiam ser mais gregos que os gregos. E um florentino como Dante, assim como um alemão, podia sentir-se como o imperador Frederico II da Suábia. Isto é precisamente o que faz com que a Europa tenha uma característica que volta e meia ultrapassa as fronteiras nacionais e culturais. O objeto de minha crítica não é a Alemanha, e sim a forma como se construiu a União Europeia, sobre uma base puramente econômica. Portanto, não apenas nossas raízes espirituais e culturais foram ignoradas, como também nossas políticas e de nossas jurisprudências. Se isso foi entendido como uma crítica à Alemanha, é só porque a Alemanha, devido a sua posição dominante apesar de sua destacada tradição filosófica, atualmente parece incapaz de imaginar uma Europa baseada em algo mais do que o euro e a economia.

De que maneira a UE negou suas raízes políticas e legais?


Quando falamos da Europa de hoje, enfrentamos o enorme peso de uma dolorosa e, no entanto, evidente verdade: a chamada Constituição Europeia é ilegítima. O texto criado desde cima jamais  foi votado pelo povo. Ou então, quando foi posto em votação, como na França e nos Países Baixos em 2005, foi repudiada frontalmente. Legalmente falando, portanto, o que temos aqui não é uma constituição, e sim um tratado entre governos: do direito internacional, não do direito constitucional. Mais recentemente, o mais respeitado e erudito o jurista alemão, Dieter Grimm, lembrou que a Constituição Europeia carecia do elemento democrático fundamental, já que não foi permitido aos europeus decidir. E agora, todo o projeto de ratificação pelo povo foi silenciosamente congelado.

Na realidade, o famoso “déficit democrático” do sistema europeu

Não se pode perder isso de vista. Os jornalistas, sobretudo na Alemanha, me criticaram por não entender a democracia, mas devem considerar em primeiro lugar que a União Europeia é uma comunidade baseada em tratados entre estados tendo apenas uma constituição democrática para disfarçá-los. A ideia da Europa como potencia constitucional é um fantasma que ninguém se arrisca invocar. No entanto, só tornando válida a constituição é que as instituições europeias poderiam recuperar sua legitimidade.

Isso significa que a União Europeia é vista como uma organização ilegal?


Não é ilegal, mas é ilegítima. A legalidade é a questão das normas de exercício do poder, a legitimidade é o princípio que é a base destas normas. Tratados legais não são certamente só as formalidades, pois refletem uma realidade social. Portanto, é compreensível que uma instituição sem uma constituição não possa seguir uma política original, porém cada estado europeu continua agindo de acordo com seus próprios interesses o que hoje significa, obviamente, acima de tudo os interesses econômicos. O mínimo denominador comum de unidade é alcançado quando a Europa emerge como um vassalo dos Estados Unidos participando de guerras que em nenhum caso são de interesse comum, para não falar da vontade das pessoas. Vários dos países fundadores da UE – como a Itália, com suas numerosas bases militares estadunidenses – estão mais no campo de protetorados do que de Estados soberanos. Em politica e militarmente, há uma aliança atlântica, mas certamente não é uma aliança da Europa.

Na União Europeia, portanto, é preferível uma “soberania latina” como caminho de vida e os “alemães” deverão se adaptar.

Não, talvez eu tenha tomado o projeto de “soberania latina” de Alexandre Kojève por provocação. Na Idade Média, as  pessoas pelo menos sabiam que a unidade das diferentes sociedades políticas deve ser mais que uma sociedade puramente política. Naquela época, o vínculo que unia (os estados) era o cristianismo.  Hoje em dia, acredito que é preciso buscar a legitimidade na história e nas tradições culturais da Europa. Diferentemente dos asiáticos e dos americanos, para quem a história significa algo completamente diferente, os europeus ainda confrontam sua verdade em diálogo com seu passado. O passado significa para nós não apenas à herança e a tradição cultural, como também uma condição antropológica fundamental. Se tivéssemos ignorado nossa própria história, só poderíamos penetrar na passado por meio da arqueologia. O passado para nós é como uma forma distinta de vida. A Europa tem uma relação especial com suas cidades, seus tesouros artísticos, suas paisagens. É nisso que consiste realmente a Europa. E é aí que está a sobrevivência da Europa.

A Europa é sobretudo uma forma de vida, um sentido histórico da vida?


Sim, foi por isso que em meu artigo, destaco incondicionalmente que devemos preservar nossas distintas formas de vida. Quando os aliados bombardearam cidades alemãs, sabiam que com isso poderiam destruir a identidade alemã. Do mesmo modo, os especuladores de hoje em dia estão destruindo a paisagem italiana com concreto e rodovias. Isto significa não apenas a perda de nossa propriedade, mas de nossa identidade histórica.

De modo que a UE deveria focar nas diferenças, em vez da harmonização?


Pode ser que fora da Europa não exista outro lugar no mundo em que a grande variedade de culturas e formas de vida – pelo menos em seus momentos preciosos – seja notável. Anteriormente, na mina opinião, a política se expressava com a ideia do Império Romano, depois, a do império romano-germânico. No entanto, no conjunto ainda mantem intacta as característica dos povos. Não é fácil dizer o que poderia surgir hoje no lugar disso. Mas, certamente, uma entidade política chamada Europa não pode surgir senão a partir desta consciência do passado. É precisamente por esta razão que a crise atual parece tão perigosa. É preciso imaginar a unidade pela primeira vez como uma tomada de consciência das diferenças. Mas muito ao contrário disso, nos países europeus, as escolas e as universidades, as mesmas instituições que deveriam perpetuar nossa cultura e criar um contato vivo entre o passado e o presente, estão sendo destruídas e comprometidas financeiramente. Esse trabalho furtivo se faz junto a uma cada vez maior museificação do passado. Temos muitas cidades que começam a se converter em áreas históricas, onde os habitantes se veem obrigadas a sentir-se turistas no mundo de suas próprias vidas.

Museificação desenfreada que é a contrapartida de uma pauperização progressiva?


GA: É evidente que não só estamos diante de problemas econômicos, mas da existência da Europa em seu conjunto – a partir de nossa relação com o passado. O único lugar onde o passado se pode viver é o presente. E se isto já não é eleger seu próprio passado como algo vivo, então as universidades e os museus se convertem em um problema. É óbvio que há forças no trabalho na Europa de hoje que tratam de manipular nossa identidade, rompendo o cordão umbilical que ainda nos conecta com nosso passado. Nivelam-se as diferenças. Só a Europa não pode ser nosso futuro se deixamos claro que significa, antes de mais nada, todo nosso passado. Mas o passado está sendo cada vez mais liquidado.

Isso significa que a crise, presente em todos os aspectos, a forma de expressão de tudo um sistema de regulação dirigindo nossa vida diária?

O conceito de “crise” de fato transformou-se em uma palavra de ordem da política moderna, e durante muito tempo, ela era parte da normalidade em todos os segmentos da sociedade. A palavra expressa duas raízes semânticas: uma médica, em referência à evolução de uma doença e a outra teológica, do Juízo Final. Os dois significados, no entanto, sofreram uma transformação atual, que eliminou sua relação com o tempo. Na medicina antiga, “crise” significava um julgamento, quando o médico se referia ao momento determinante se o paciente poderia sobreviver ou morrer. A compreensão atual da crise, por outro lado, refere-se a um estado sustentável. Portanto, esta incerteza estende-se indefinidamente no futuro. Este é exatamente o mesmo que no sentido teológico, o Juízo Final é inseparável do fim dos tempos. Hoje, no entanto, o julgamento se divorciou da ideia de resolução e se apresenta em várias ocasiões. Assim, a perspectiva de uma decisão é cada vez menor, e o processo infinito de decisão nunca termina.

Isso significa que a crise da dívida, a crise das finanças estatais, a moeda, a União Europeia, são infinitas?


Atualmente, a crise se transformou em um instrumento de dominação. Serve para legitimar decisões políticas e econômicas que privam os cidadãos de toda possibilidade de decisão. Na Itália, é muito claro. Aqui, um governo foi formado em nome da crise e Berlusconi está de volta ao poder apesar de que ser radicalmente contra a vontade do eleitorado. Este governo é tão ilegítimo quanto a chamada Constituição europeia. Os cidadãos europeus devem deixar claro seus próprios olhos que esta crise sem fim – tanto como o estado de emergência – é incompatível com a democracia.

Que perspectivas restam agora para a Europa?


É preciso começar por restabelecer o sentido original da palavra “crise”, como um tempo de julgamento e de escolha. Não podemos postergá-lo a um futuro indefinido para a Europa. Há vários anos, o filósofo Alexandre Kojève, alto funcionário da embrionária União Europeia propôs que o homo sapiens tinha chegado ao fim da história e que só havia duas possibilidades restantes. Ser o “american way of life” que Kojève viu um acordo pós-histórico. Ou, o esnobismo japonês, simplesmente continuar a a celebração de rituais vivos da tradição, agora privada de significado histórico. Creio, no entanto, que a Europa poderia realizar a alternativa de uma cultura que seja ao mesmo tempo humana e vital, tanto porque se encontrará em um diálogo com sua própria história, ao mesmo tempo que adquiriria uma nova vida.

A Europa, entendida como cultura, não só como espaço econômico, poderia dar uma resposta à crise?


Por mais de duzentos anos, as energias humanas se concentraram na economia. Muitas coisas indicam que talvez tenha chegado o momento para o homo sapiens de organizar uma nova ação humana além desta única dimensão. A velha Europa pode fazer com precisão uma contribuição decisiva para o futuro aqui.