Por Rennan Martins
Os indicadores econômicos e sociais da Bolívia chamaram a atenção da comunidade internacional, o crescimento do PIB deste país foi de 6,5% em 2013, muito representativo, principalmente levando-se em conta o atual cenário da economia global. O New York Times publicou, no dia 16 deste mês, o artigo Turnabout in Bolivia as Economy Rises from Instability no qual há uma análise elogiosa do quadro macroeconômico do país mais pobre da América do Sul.
Além do crescimento notável, podemos observar a queda de 14 pontos percentuais na extrema pobreza nos últimos 6 anos, chegando a 24%. Houve aumento das aposentadorias, instituição do 14º salário para o setor público e parte do privado, e, contrariando as correntes dominantes, a nacionalização de diversas empresas a fim de enfrentar um cenário de desinvestimento, destaque para o setor de gás natural, principal responsável pelo aumento dos ganhos do Estado. Em concomitante a estes avanços, ocorreu também o aumento substancial das reservas internacionais em moeda forte, que ultrapassou o valor de metade do PIB.
Na esteira do artigo e dos dados expostos, abriu-se um debate entre os associados, participaram Hélio Silveira, economista e ex vice presidente da AFBNDES, Gustavo Santos e Bruno Galvão, também economistas e funcionários do BNDES interviram.
Confira o conteúdo:
Hélio Silveira – Este artigo publicado pelo New York Times é altamente subversivo, ele demonstra claramente o que eu tenho discutido nos nossos grupos sobre o que é um Plano Estratégico para o Brasil, que seria a “Inclusão Social Radical”, em última análise ele demonstra, na prática, o que gostaria de transmitir sobre a inclusão radical e agora, depois da leitura deste artigo colocarei sempre o adendo assim:”Inclusão Social Radical & Integração AL!”, (América Latina).
Se alguém ousar dizer que só vale pra Bolívia, um país de um PIB de US$ 50 bilhões, replico: “Vale o princípio da proporcionalidade”, não importa o tamanho. A Bolívia foi laboratório de experimentos neoliberais dos anos 90. Foi explorada pela falida “Enron” e até pela “Petrobrax” de FHC e seu genro, David Zilbernstein na época.
Mas vamos lá, tudo o que está dito no artigo feito por Evo Morales para seu povo e reconhecido até pelo FMI é o que tenho defendido. Não adianta fazer um plano burguês, ou seja de industrialização, o que interessa é a integração social direto na veia! A industrialização é importantíssima, mas vem por consequência.
Bruno Galvão - Não acho que a política econômica boliviana um sucesso. O governo da Bolívia está de parabéns em lutar para apropriar de maior parcela dos rendimentos das exportações de gás natural e distribuir parte dos ganhos para a população mais pobre. Contudo, a manutenção de elevados superávits fiscais é um desperdício de dinheiro. Ao invés de aumentar ainda mais os gastos sociais, o governo preferiu provocar admiração de analistas econômicos, ao fazer os maiores superávits fiscais da história da Bolívia.
É até difícil de entender como um país que em menos de 10 anos multiplicou suas exportações por 10 (enquanto a do mundo como um todo nem duplicou) ter tido um crescimento econômico praticamente igual à média mundial. O que pode explicar esse paradoxo? Uma política econômica bastante equivocada. Acho impossível não comparar com o governo JK no Brasil. Quando ele foi presidente, houve uma significativa deterioração dos termos de troca e isso não impediu ele de, em apenas 5 anos, quase ter duplicado a produção industrial e ter revolucionado a estrutura produtiva do Brasil.
Governos socialistas muito frequentemente querem ser mais realistas que o rei, o que é algo muito triste. Não devemos esquecer que foi o governo socialista na Grécia que fez os cortes de gastos mais draconianos. Qual a diferença na política macroeconômica no governo socialista da Grécia e no governo socialista da Bolívia? Um teve a sorte de ter tido um aumento exponencial das receitas (a multiplicação do valor exportado por 10 em tão pouco tempo é algo pouco frequente na história mundial) e o outro teve um azar de chegar ao governo num período de crise. Ao invés de querer fazer o que os analistas recomendam, eles deveriam fazer o melhor para população, que seria aumentar mais os gastos sociais.
O Brasil poderia se inspirar na Bolívia nas estatizações e assumir o controle da Vale, tendo em vista que o BNDES e os fundos de pensão de estatal detêm mais da metade das ações da Valepar, que possui o controle da Vale. Qual empresa privada que controla outra renuncia fazê-lo? Era até para ser considerado um crime o governo renunciar esse direito.
A principal lição positiva da Bolívia é a luta pela apropriação dos seus recursos naturais para melhorar a vida da população. Em relação ao lado do gerenciamento macroeconômico, a principal lição é o risco dos governos socialistas quererem ser mais realistas que o rei. A experiência boliviana deveria servir para nos alertar dos riscos da tentação ortodoxa contagiar governos socialistas.
Gustavo Santos - Os bolivianos foram tímidos demais em distribuir renda e fazer investimentos públicos não estou criticando a orientação socialista e nem a posição de soberania nacional, mas a timidez em distribuir esses ganhos para a população. Essa timidez decorre de terem feito uma política na questão do gasto público e social muito tímida em relação ao que poderia ter sido feito, tanto que até o FMI elogiou. A política nacionalista no petróleo é execrada pelo FMI mas a política de distribuir menos do que o que poderiam ter distribuído guardando o dinheiro como quer o FMI, é de certa forma elogiada ou elogiável por eles porque é parecido com a postura que recomendam.
Ou seja, a política fiscal da Bolívia é neoliberal em termos dos agregados macroeconômicos, apesar de ser progressista na forma como é distribuída.
É como se a Bolívia resolvesse ter uma postura de “pobre limpinho” que ganhou um bom dinheiro com a ousadia nacionalista no gás e petróleo, mas não quis gastar muito para não chocar os países ricos com um enriquecimento acelerado dos bolivianos como faz a China.
