O que está ocorrendo na Venezuela? Entrevista com FC Leite Filho

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Por Rennan Martins

Desde semana passada o mundo está de olhos atentos aos nossos vizinhos venezuelanos. O país que vivia desde o início do mês uma onda de protestos contra os índices de violência, viu esta mesma tornar-se em um levante oposicionista de caráter radical, o qual exige a renúncia do atual presidente Nicolás Maduro.

A crise e o acirramento político tornaram-se mais evidentes depois do ato do dia 12, quarta-feira da semana passada, o qual noticia-se a morte de três pessoas, dois manifestantes oposicionistas e um governista. Quanto a autoria dos assassinatos, há ainda mais obscuridade, enquanto a BBC informa que estas ocorreram ao fim da manifestação “quando indivíduos em motocicletas abriram fogo contra o resto da multidão”, a Globo, declara no G1, que “A repressão do governo contra os opositores no dia 12 causou a morte de três pessoas”.

Quanto as divergências de interpretação e veiculação de informações inexatas, relevante também é a guerra de informação travada nas redes sociais. O Opera Mundi veiculou artigo expondo diversas ocorrências destas práticas.

Miguel Rodríguez Torres, ministro do interior, informou que 120 pessoas foram detidas, das quais 14 permanecem presas, e responderão processo por incêndio a veículos policiais, porte de armas de fogo e agressão a funcionários estatais. Enquanto a ONG Foro Penal Venezolano registra 155 detidos, 6 à espera de julgamento, e 14 pessoas feridas a tiros.

Diante deste quadro, em que diversas versões são veiculadas e quem pretende acompanhar acaba se tornando ainda mais confuso, resolvemos entrar em contato com Francisco das Chagas, jornalista e blogueiro do Café na Política, autor do livro “Quem Tem Medo de Hugo Chávez?”, tivemos uma breve conversa a qual ele expôs a situação do país, considerou que a oposição tenta o golpe por saber que não chegará ao poder pelas eleições, e que há apoio dos EUA na desestabilização que vem ocorrendo.

Confira:

O que está ocorrendo na Venezuela? Quais são as causas dos protestos?

Quando o presidente Hugo Chávez morreu, em cinco de março de 2013. A oposição mais extremista julgou que iria se abrir um vácuo de poder e o neoliberalismo seria restabelecido na Venezuela. Mas ocorreu o contrário, Nicolás Maduro, o sucessor in pectore de Chávez soube manter a unidade governista, ou bolivariana, e conseguiu, não só ganhar a eleição presidencial como também o pleito municipal de dezembro último. Maduro, igualmente, se revelou muito hábil, talvez mais do que Chávez, na convivência com a mídia hostil ao governo, conseguindo neutralizar a antiga hostilidade aos atos governamentais.

A oposição se viu então meio sem saída e se dividiu em duas correntes principais. Uma, mais desesperada, saiu a exigir a renúncia de Maduro pela via não institucional, ou seja, o velho golpismo. A outra, liderada pelo ex candidato Henrique Capriles, que diz confiar na via eleitoral. Num primeiro momento, venceu a alternativa radical. Esta, liderada por Leopoldo López, conhecido ex agente da CIA, e ainda ligado umbilicalmente aos serviços de segurança dos Estados Unidos, decidiu sair para o que chama de ações de rua. Só que estas ações se transformaram em ataques vandálicos e incêndios a estações do metrô, postos de saúde, escolas, viaturas policiais e até máquinas que cuidam do asfalto nas ruas. Quatro pessoas morreram e outras 61 sofreram mutilações no corpo. Leopoldo López agora está preso.

Como não conseguiram derrubar o governo na marra, como dizemos aqui, é provável que agora cresça o espaço para Capriles no comando oposicionista. Capriles é governador do Estado de Miranda, com responsabilidades administrativas e que, por isso, decidiu colaborar com o programa de segurança do governo nacional para combater a violência urbana e a criminalidade.

 

Há influência estrangeira no meio dos insurgentes? Se sim, poderia exemplificar?

Na segunda-feira, 17/02/14, o presidente Maduro expulsou três diplomatas americanos os quais ele acusou de estar se reunindo com a oposição para programar ações violentas de rua.

Os manifestantes, que se diziam estudantes, portavam, além de coquetéis molotov, motos de alta cilindrada e coletes a prova de bala. Eram eles que jogavam os petardos sobre creches, estações do metrô, e TVs estatais e depois sumiam na noite, deixando um rastro de sangue e fogo. Segundo Maduro, todo este arsenal vem dos Estados Unidos, onde, diz, está o laboratório, e o financiamento de agências como a USAID, a NEP e ONGs, algumas delas europeias, que treinam e municiam os tais estudantes.

 

Qual sua opinião em relação ao corte das comunicações por parte do governo?

Não houve corte nas comunicações. E nem há censura à imprensa. Na Venezuela, só pra se ter uma ideia, todos os jornais são anti governistas. Agora, existe uma lei lá, a Resort, que, se você pregar o golpismo ou acusar alguém injustamente, fizer o linchamento ou o fuzilamento midiático, terá de provar e responder perante a justiça. As emissoras de TV ainda resistiram ao cumprimento dessa lei, mas agora, fazem um noticiário mais equilibrado. A Globovisión, de capital privado, que tinha uma linha extremista, evoluiu para algo mais sensato, que é o real jornalismo: ou seja, ouvir as duas partes, contra e a favor do governo. É a maior e mais vista no país. Ela, por exemplo, dá espaço a Capriles, Leopoldo López e Maria Corina Machado, mas se contém na fúria de seu passado golpista quando se envolveu na conspiração que derrubou Hugo Chávez, por 48 horas, em 2002.

 

E quanto a retirada das concessões a algumas empresas de comunicação, trata-se de censura ou realmente as empresas infringiram as leis e o cancelamento foi justo?

Não tem havido retirada de concessões. O que houve, ainda época do Chávez, se não me engano, em 2007, foi que a TV Caracas, a RCTV, na época a de maior audiência, lançou-se numa campanha alucinada para derrubar o governo. Chávez então tentou um entendimento com seus donos, mas eles se negaram a qualquer negociação. Como sua licença estava para expirar, o presidente simplesmente se negou a renová-la e a emissora está fora do ar até hoje.

 

E quanto ao apoio da população, a maioria é pró ou contra o governo chavista?

 Bom, se você verificar nessas manifestações dos que se dizem estudantes, vai ver que eles não conseguem juntar muita gente. Já as de apoio a Maduro chegam a um milhão. Mas o apoio popular é também medido pela eleição. Nas 15 eleições realizadas desde o início do chavismo, em 1999, o governo só perdeu uma, em 2004, que foi o referendo que permitia a reeleição sem limites do ocupante do cargo de presidente. Depois, Chávez fez outro referendo e ganhou por 54%, se não me engano. Mas o governo é também popular porque construiu milhares de escolas, postos de saúde, com a ajuda de profissionais de Cuba, que também preparam os atletas que estão brilhando mundo afora. Os salários, se equiparados ao período de antes de Chávez aumentaram quase 20 vezes, enquanto o desemprego caiu de 30% para 7%. Lá também os alunos, como na Argentina dos Kirchner, tem cada qual seu notebook para assistir às aulas e fazer o dever de casa, inclusive pela internet. Você já viu isso aqui ou nos Estados Unidos?

 

Qual a perspectiva atual do governo e da oposição? Existe chance real da oposição derrubar Maduro?

Derrubar com esses atos vandálicos, duvido. O problema é que não se ganha no tapetão, pelo menos quando o programa oposicionista é todo neoliberal, ou seja, pelo corte de gastos, o arrocho salarial, a privatização generalizada das estatais. Que povo vai apoiar esta loucura?

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