A energia, o mercantilismo e o racionamento

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Apagao

Por Roberto D’Araújo
Diretor do instituto ILUMINA

O Brasil é o recordista mundial na capacidade de reservar água para geração de eletricidade. Já tivemos uma relação reserva/carga de 24 meses na década de 70. No entanto, seria um espanto se pudéssemos manter essa relação por muito tempo, pois, a carga cresce a taxas muitas vezes superiores a 3% ao ano. No início do século esse número já tinha se reduzido para 7 meses e, agora, temos aproximadamente 5 meses. Supondo que quiséssemos voltar a ter o índice de 2.000, como 7/5 é igual a 1,4, teríamos que aumentar em 40% a capacidade de reserva. Apenas para ter uma vaga ideia, os reservatórios do Rio São Francisco representam 18% do total. Portando, seria necessário 2 sistemas iguais e ainda ficaria faltando. Além disso, não há mais lugares que comportem esse volume sem grandes alagamentos, uma vez que os potenciais por explorar estão na Amazônia, cuja geografia é bastante plana.

Se ainda o governo entendesse que usinas hidrelétricas não são meras fábricas de kWh e formulasse planos de âmbito regional que promovessem diversas melhorias na região afetada, talvez pudéssemos reduzir as resistências. Entretanto, o mercantilismo tomou conta das autoridades do setor e tal visão multidisciplinar está fora de questão.

Sobre a MP 579: A medida foi “encomendada” pela FIESP, que, sem nenhuma cerimônia e contando com a omissão do governo, fez campanha milionária dando informações falsas. A atribuição da perda de competitividade da indústria ao preço da energia é absurda. Se tal fosse verdade, a indústria italiana e japonesa estariam falidas, pois pagam mais caro do que a brasileira. Além disso, a maioria da indústria não está no mercado cativo e sim no livre, onde, de 2003 até 2008, receberam um BOLSA MW proporcionado pela descontratação das usinas da Eletrobrás. Se tal adjetivação é falsa, porque não se mostra quem fez contratos de curto prazo nesse período por até R$ 4/MWh?

A MP 579 é uma bizarrice no mundo elétrico, pois inventou algo inédito, a tarifa por usina. Fixando valores baixíssimos para menos de 20% do parque instalado, mal conseguiu uma redução de 4%, uma vez que o kWh representa apenas 30% de uma conta média.

Sobre a ameaça de racionamento: Ao contrário das afirmações governamentais, o sistema encontra-se em desequilíbrio estrutural, uma vez que o uso das térmicas se dá sem grandes desgraças hidrológicas e por longo prazo. Se irá haver racionamento ou não a questão parece irrelevante, pois a tarifa que pagamos pressupõe um risco muito menos do que corremos agora. Reservatórios não se esvaziam apenas por falta de chuva. Esvaziam se forem usados além de sua capacidade.

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