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Jorge Viana: “Tucanos previam privatizar a Petrobras e agora falam em reestatização?!”

sugestão de Olímpio Cruz Neto, via e-mail no Viomundo

Segue a íntegra do discurso, feito na noite de 13 de março de 2013.

JORGE VIANA (PT-AC) – Senhor presidente, senhoras e senhores senadores, todos que nos acompanham na TV Senado e na Rádio Senado,

Como anunciei durante o Expediente, enquanto eu presidia, falei ao líder do PSDB na Casa, ao senador Aécio Neves (MG), ao senador José Agripino (DEM-RN), que falaria hoje sobre a Petrobras.

Ainda há pouco, ocupou exatamente esta tribuna o senador Aécio Neves, trazendo uma repercussão sobre o seminário que o PSDB realizou na Câmara dos Deputados, que, ironicamente – e eu só posso entender como uma ironia –, tinha o título: “Recuperar a Petrobras é o nosso Desafio”.

Vejo o próprio título do seminário como uma ironia ou como uma jogada de marqueteiro, visando às eleições do próximo ano.

Venho falar da Petrobras, talvez o maior patrimônio empresarial do nosso País, que é fruto de uma luta do nosso povo, a luta do petróleo, que atravessou décadas, e que agora em outubro, meu caro líder Wellington Dias (PT-PI), completa 60 anos. Mas, felizmente, apesar das tentativas do governo do PSDB, eu venho falar da Petrobras e não da Petrobrax.

Se o PSDB tivesse conseguido o seu intento no governo, o Brasil não teria mais a Petrobras. O Brasil teria a Petrobrax, uma empresa, certamente, dominada por alguns grandes grupos estrangeiros que dominam a área de petróleo no mundo. Esse intento, essa tentativa explícita do PSDB no governo, apoiada pelo PFL, não logrou sucesso.

Essa, talvez, tenha sido a gestão técnica, competente, que eles queriam levar a termo quando governaram este País por oito anos.

Não estou falando de qualquer área, de qualquer empresa. Estou falando de uma área estratégica. Petrobras é sinônimo de energia. Sendo sinônimo de energia, ela é sinônimo de uma posição estratégica para o País.

Mas, vejam só, senhoras e senhores senadores, o PSDB veio anunciar – e o meu caro colega, a quem eu tenho muito respeito e que acabei de ouvir com atenção ainda presidindo essa sessão, o senador Aécio –, ainda não sei se com mais ironia, falou em reestatizar a Petrobras. Mas qual é a autoridade do PSDB, que governou oito anos?

Claro que este é um debate importantíssimo, presidente [Paulo] Paim (PT-RS). Agora que estamos abrindo a possibilidade de debater grandes temas aqui, no Senado, este pode ser um grande tema, deve ser um grande tema.

Falam que o nosso querido ex-presidente [José Eduardo] Dutra, da Petrobras, que agora é diretor, que é da área, o [José Sérgio] Gabrielli, ex-presidente, que também é da área, e agora doutora Graça Foster, falam que o nosso governo está partidarizando ou que o nosso governo está comprometendo esse patrimônio do povo brasileiro.

Mas acho, primeiro, que a doutora Graça Foster, os técnicos e os funcionários da Petrobras merecem respeito. Segundo, que não reconheço – lamento a ausência dos colegas, mas avisei a eles que faria este pronunciamento –, não reconheço autoridade ao PSDB, que governou este país por oito anos, para tratar de Petrobras. Eles têm autoridade para tratar da Petrobrax.

O PSDB fala, caro líder Wellington Dias, a quem já concederei um aparte, de uma condução não técnica da Petrobras. Quando o PT assumiu a Petrobras, com o presidente Lula, nós tínhamos três ex-deputados e deputadas – não vou citar os nomes – na direção da Petrobras. Não tenho nada contra ex-senadores ou ex-deputados fazerem parte da direção. Só não vale o PSDB dizer que o PT está partidarizando, que o governo do Brasil, tão bem, com o sucesso que teve o presidente Lula e que tem agora a presidenta Dilma, está tratando de uma maneira equivocada ou que está tentando desmontar a Petrobras. Pelo contrário. Mas acho, senador Wellington, já passando a palavra para Vossa Excelência, que o maior equívoco deste debate e da maneira como esse seminário do PSDB tratou a Petrobras é eles compararem a Petrobras de 2012, dizendo que é a Petrobras do PT, com a Petrobras do PT de 2002 para cá.

Eu gostaria de comparar a Petrobras do governo do PT com a Petrobras do governo do PSDB. E não adianta dizer que a gente quer olhar sempre o passado. Nós queremos e estamos mirando o futuro. Mas, para que a gente possa acertar no futuro, é bom a gente olhar de onde nós estamos vendo.

Com satisfação, ouço o aparte do Líder Wellington Dias.

Wellington Dias (PT-PI) – Senador Jorge Viana, primeiro, quero parabenizar Vossa Excelência pela forma firme, com subsídios, com que trata desse tema. Senão, vejamos: a quem interessa a queda das ações da Petrobras? O manifesto que foi lançado hoje (13/março/2013) trata, basicamente, disto: a quem interessa? A quem interessa que as ações de uma empresa que é um orgulho nacional caiam?

Eu imagino que, pelo menos, um setor: os especuladores. Nós não estamos aqui, nem governo, nem Executivo, nem Legislativo, para defender interesse de especulador. Nós queremos defender interesse do povo brasileiro. Vejam que a crítica que se faz é porque a empresa teve um lucro de R$21 bilhões. No meio de uma crise econômica como a que estamos vivendo, quantas empresas no mundo tiveram um lucro de R$21 bilhões? Quantas empresas? A Petrobras é uma das poucas. Colocam como se a empresa… Todos os dias falam. Está aqui: perda, Petrobras, uma imagem de desconfiança. Colocam um material como se fosse uma empresa qualquer.

Nós estamos falando de uma empresa que está investindo, neste instante, cerca de R$ 230 bilhões, R$ 250 bilhões. Que empresas em dificuldades investem R$ 230 bilhões, R$ 250 bilhões? Então, é para enganar. Sabe Deus com que interesse que se faz esse tipo de situação. Mais do que isso, informações que são jogos de palavra.

Por exemplo, quando lá atrás foi anunciada uma autossuficiência – e nós temos autossuficiência em petróleo – e, ao mesmo tempo, criticam e utilizam a palavra “emperrar” investimentos em refino.

Ora, para podermos ter autossuficiência em gasolina, em óleo, em querosene, enfim, tem que refinar. Eu tenho orgulho de ver plataformas no Rio de Janeiro, novas plataformas na Bahia, plataformas no Recife, plataformas em Fortaleza, plataformas em São Luísdo Maranhão. E espero que em mais lugares. Quem sabe no Rio Grande do Sul, no meu querido estado do Piauí, no Acre, enfim.

O que quero chamar a atenção é a forma como é feita, como se pudesse enganar ao conjunto dos brasileiros.

Eu queria, meu querido, enquanto eles tratam dessa ideia – lá no interior do meu estado, chamamos de urubu na carniça –, eu quero aqui trazer uma informação.

Hoje os jornais estão anunciando: pré-sal pode ter, além do que já foi anunciado, mais 35 bilhões de barris – estimativa do Ministério das Minas e Energia. É um campo encontrado na bacia de Santos, que coloca grandes reservas além daquelas já anunciadas anteriormente e reconhecidas pelo mundo.

Então, a Petrobras é a empresa que investiu em pesquisa, junto com a ANP, é a empresa que tem know how para trabalhar uma situação nova como essa e que colocará o Brasil, muito em breve, como o quinto maior produtor de petróleo e gás no mundo. É isso que estão falando.

Então, quero aqui chamar atenção, pois não acho nem patriota a forma como estão trabalhando. O direito de crítica é natural, é da democracia, mas não se está criticando um governo. Neste instante, a forma é como se houvesse um interesse direto de ver destruído o maior patrimônio que este País já teve, que é a nossa Petrobras, e disso, certamente, vamos estar aqui na defesa. Parabéns, Senador Jorge Viana.

JORGE VIANA (PT-AC) – Obrigado, caro líder, senador Wellington Dias.

Eu prossigo. O PSDB quer tratar só do futuro. E o passado do PSDB à frente da Petrobras, como é que foi? Nós temos de tratar é disso também. Aliás, nós estamos falando de um patrimônio. Olhar para trás, olhar para o passado, é para tirar lições e para não errar. Então, tem de ter um olhar no futuro sim.

Os líderes do PSDB falam de um tal “erro de gestão que leva a estatal a perder grande chance de crescimento”. Mas eles cobram o que eles denominam de gestão técnica; eles falam disso. Imagine que o PSDB, querendo olhar só para frente, ele não quer reconhecer os erros que tiveram quando conduziram os destinos deste país, principalmente no que se refere à própria Petrobras.

Eu vou falar alguns números, como Vossa Excelência trouxe.

Qual era a receita da Petrobras, em 2002, quando nós recebemos o governo do PSDB? A receita era de R$69 bilhões.

Qual é a receita da Petrobras hoje, senador Paim, em 2012? R$ 281 bilhões de reais.

Essa é a gestão técnica do PT; essa é a nossa Petrobras, Petrobras do Brasil. A outra era a Petrobras que eles tinham como problema. Para nós, do PT, Petrobras é solução; ela é estratégica para o Brasil se firmar diante do mundo.

O lucro. Querem discutir lucro.

Em 2002, o lucro da Petrobras foi de R$ 8 bilhões. Em 2012, num ano de crise profunda, foi de R$ 21 bilhões, senador Paim. Onde é que está o problema de gestão técnica do nosso governo na Petrobras?

Os investimentos, caro senador Wellington, em 2012, eram de R$ 18 bilhões. Agora são de R$84 bilhões!

Que Petrobras nós recebemos e que Petrobras tem hoje o nosso País?

O valor de mercado. A Petrobras, naquela época, o valor de mercado dela era de US$ 15 bilhões, US$ 15 bilhões, meu caro senador Wellington Dias. Agora, o valor da Petrobras é US$ 126 bilhões, e nós temos uma discussão sobre o valor de mercado da Petrobras.

Estamos diretamente vinculados? Nós estamos no mercado. Todo mundo sabe que a Bolsa [de Valores] brasileira atravessa um período de dificuldade. Eu toparia fazer uma discussão sobre o valor de mercado da Petrobras daqui a um ano ou há um ano; isso é uma questão meramente sazonal. Mas hoje, pelos investimentos, pelo lucro, pela receita, não dá para discutir a Petrobras de dez anos de nosso governo com a Petrobras de oito anos de governo do PSDB.

As reservas de petróleo, como muito bem colocou o senador Wellington Dias: a produção de óleo no Brasil era de 1,5 milhão de barris/dia, em 2002. Mais de 2 milhões, hoje.

Pessoal, senador Wellington. A Petrobras, quando o PSDB assumiu, chegou a ter um número de funcionários – e é bom que a gente coloque isso – que mudou completamente daquele período para cá.

Nós assumimos a Petrobras com 46 mil funcionários – ela tinha tido 60 mil antes do governo do PSDB. Hoje, a Petrobras tem 85 mil servidores, funcionários, que se orgulham da empresa de que fazem parte e ajudam a seguir.

Eu não estou falando das reservas que nós temos provadas que na época eram de 11 bilhões de barris. Hoje, Vossa Excelência acabou de fazer o número: 35 bilhões de barris. Se nós tirarmos o pré-sal, hoje as nossas reservas são de 15 bilhões de barris, em 2012, fora os mais de 14 bilhões do pré-sal. São números conservadores que nós estamos apresentando.

O problema, senhoras e senhores senadores, é que o Brasil de 2002 ficou para trás mesmo, felizmente. Era um país de US$ 500 bilhões de PIB. Hoje, é um país de US$ 2,6 trilhões.

A taxa de investimento naquela época era de 16%, de um país pequeno de US$ 500 bilhões. Hoje, a taxa de investimento sobre o PIB no país é de mais de 20% de um país de US$2,6 trilhões.

Os investimentos estrangeiros, naquela época, quando assumimos o governo, senador Paim, eram de R$ 16 bilhões. Agora são R$ 66 bilhões, em 2011.

Eu queria, senhoras e senhores senadores, voltar à história de uma gestão técnica na Petrobras. Nós tivemos, inclusive, o episódio – que foi tão falado aqui – da Pasadena, que foi um péssimo negócio. O senhor Adriano Pires, uma estrela do seminário do PSDB, ontem [12/março/2013], na Câmara dos Deputados, falando dos prejuízos que a Petrobras teve com esse negócio, convidado, estrela do seminário do PSDB sobre a Petrobras; em 2006, quando a Petrobras fez o negócio, ele botou no seu blog – está lá, estão registrados na Internet os maiores elogios – era “o melhor negócio do mundo” que a Petrobras estava fazendo à época. Claro, o mundo viveu turbulências de lá para cá.

Então, caro senador Wellington Dias, não tenho dúvidas de que o Brasil compreende a situação que estamos vivendo hoje. O Brasil atingiu a autossuficiência em petróleo em 2006, é verdade. A produção de petróleo no país equiparou-se ao volume de derivados consumidos à época. Só que era um país que estava começando a crescer e a fazer inclusão social, até a ascensão social de mais de 40 milhões de brasileiros.

Entre 2007 e 2012, no entanto, o crescimento da demanda por derivados cresceu 4,9% no Brasil, contra um crescimento da produção de petróleo de 3,4%. Isso de 2007 para cá. A partir de 2014, a produção de petróleo no Brasil, certamente, voltará a atingir a autossuficiência volumétrica, ou seja, volumes iguais de petróleo produzidos e de derivados consumidos. Ano que vem, 2014.

Eu fico às vezes me perguntando como é que alguns partidos querem assumir um lugar, no lugar do PT e dos partidos aliados, trabalhando contra o Brasil? Eu vejo alguns discursos que satanizam o povo brasileiro e o país, que satanizam um patrimônio nosso como a Petrobras. Acho que é por isso que eles não ganham o respeito da população.

Mesmo uma parcela da imprensa, que, de alguma maneira, tendo em vista a incompetência de alguns partidos de oposição, assume um papel de crítica e até mesmo de oposição ao nosso governo, reconhece isso.

A curva de produção da companhia apresentará um crescimento contínuo até atingir 2,5 milhões de barris por dia, em 2016, e 4,2 milhões de barris por dia, em 2020.

Eu não tenho nenhuma dúvida de que, para o nosso país, que entende a Petrobras como uma empresa estratégica, fundamental para que o Brasil possa se firmar diante do mundo, ela vai seguir sendo motivo de orgulho para todos os brasileiros e para as brasileiras.

O presidente Lula acertou quando mudou completamente a ação da Petrobras a partir do seu conselho de administração e da sua direção executiva.

Se não fosse a Petrobras, nós não teríamos ressuscitado a indústria naval brasileira. Se não fosse a Petrobras, nós não teríamos fortalecido a presença da expertise brasileira como fornecedora de produtos essenciais para o funcionamento da empresa.

Se os nobres líderes do PSDB quisessem tratar de uma gestão temerária, deveríamos nos referir à Petrobras de 2000, quando eles faziam a tal gestão técnica. E não adianta querer culpar o Henri [Philippe] Reichstul [ex-presidente da Petrobras]. Não! Era uma decisão de governo transformar a Petrobras em Petrobrax.

O lucro da Petrobras, que chegou a registrar R$10 bilhões em 2000, caiu e, dois anos depois, era de R$8 bilhões.

O recuo do lucro acontece, como ocorreu agora com a Petrobras, por questões sazonais, mas o problema é que a gestão do PSDB na Petrobras foi marcada por atropelos administrativos e desastres.

Peço para concluir, senhor presidente.

E não é culpa só do gestor. Em menos de 48 horas, no Natal de 2000, a Petrobras perdeu o seu “s” e virou Petrobrax – em 2000 –, mas voltou a ter seu nome original de batismo.

Foram gastos R$2,3 milhões numa promoção internacional, preparando a privatização da Petrobras. Isso é gestão técnica?

Em 2001, o país assistiu a quatro acidentes gravíssimos na Bacia de Campos. Cadê a competência técnica?

O mais trágico deles aconteceu há 12 anos, o pior acidente. Morreram pessoas, e eu não quero me referir a elas, porque vidas humanas não podem entrar num debate como este.

Mas a tida como a mais moderna plataforma, a P-36, instalada no Campo de Roncador, litoral norte-fluminense, foi a pique, afundou.

A empresa chegou a montar uma megaoperação de resgate da plataforma, mas não teve sucesso. Cinco dias depois a estrutura de 40 mil toneladas afundou no mar, e o Brasil ficou chocado.

Essa era a gestão técnica da Petrobras?

Imaginem se fosse no governo do PT que um navio da Petrobras tivesse afundado?

Senhoras e senhores senadores, o prejuízo com a P-36 custou aos cofres públicos R$750 milhões. Ninguém pagou nada, ninguém foi punido, ninguém falou nada.

Os prejuízos somados com os desastres, antes de o presidente Lula assumir, na Petrobras, passam de R$1,5 bilhão.

Como é que podemos ouvir calados, senador Paim, que, hoje, a Petrobras tem uma administração temerária?

Temos uma mulher profissional, respeitada no mercado, mundo afora, a senhora Graça Foster, presidindo essa estatal. Essa estatal é orgulho, hoje, para o povo brasileiro e será sempre, desde que seja conduzida com responsabilidade, como vem sendo conduzida aqui.

Senhor presidente, se tivesse mais tempo, eu queria poder responder a todos os pontos que as lideranças do PSDB trazem aqui sobre a Petrobras, mas o tempo é curto.

E só queria dizer, para concluir este pronunciamento, que, não fosse o cuidado do presidente Lula de fazer a Petrobras se firmar como uma grande empresa – “Ah, mas ela era a terceira maior companhia petrolífera do mundo e, agora, é a sexta!” – sazonalidade de mercado, mas a Petrobras não deixa de estar, vai estar sempre, se seguirmos, nesse caminho, se seguir sendo valorizada, respeitada como a grande companhia brasileira no mercado mundial.

E devemos isso, ao contrário do que falam os nossos opositores, à coragem do presidente Lula e à determinação da presidenta Dilma, que foi presidenta do Conselho da Petrobras e que a consolidou.

(Soa a campanhia.)

JORGE VIANA (PT-AC) – Concluo as minhas palavras, senhor presidente, agradecendo a todos que me acompanharam, dizendo que eu espero que se os partidos de oposição querem de fato se credenciar, ano que vem, para disputar a governança do nosso país, que façam, mas sem danificar o patrimônio do nosso país, sem satanizar o nosso povo, sem satanizar aquilo que temos de bom.

Volto a repetir aqui, em 1990, presidente Paim, Vossa Excelência que é tão lutador por emprego e renda, a Petrobras tinha 60 mil funcionários. Em 2001, quando o presidente Lula foi assumir, já tinha só 31 mil. Ela cresceu ou diminuiu de tamanho? E hoje ela tem 84 mil funcionários.

Onde está a gestão técnica e onde está a incompetência?

Eu acho que se o PSDB tivesse feito um governo competente na condução do patrimônio do Brasil…

E é porque eu não citei, senhor presidente, o que eu tenho aqui na mão, da “Gazeta Mercantil”, de 8 de agosto de 1997: “PFL quer privatizar Banco do Brasil e Petrobras”.

Veja aqui a revista “Veja”, para concluir, que tantas críticas tem feito ao nosso governo, ao nosso trabalho. A revista “Veja”, que é até cobrada por meus colegas do PT, mas que tem tanto crédito com o PSDB… Leio aqui um título do dia 31 de março de 1999:

“A fera domada. Sob o comando de Joel Rennó, a Petrobras faturava US$26 bilhões anuais e tinha um lucro operacional” – olhem os termos – “minúsculo de US$ 11 milhões. Com o novo presidente Henri Reichstul, o governo vai desfazer-se de 34% das ações; poderá vender algumas refinarias. A Petrobras que é a maior empresa do País passará a ser administrada por uma empresa privada”.

Veja” de 31 de março de 1999.

Graças a Deus, felizmente, graças ao povo brasileiro isso não se configurou. Em vez da Petrobrax, o Brasil segue tendo a empresa que nos orgulha chamada Petrobras.

Muito obrigado, senhor presidente.

Relatório mapeia violações à liberdade de expressão no Brasil e no México

Estudo da ONG internacional Article 19 expõe em detalhes os ataques a jornalistas e defensores de direitos humanos 

Do Artigo 19 na Revista Fórum

Relatório inédito, produzido pela ONG internacional Article 19, revela que 52 jornalistas e defensores de Direitos Humanos sofreram graves violações à liberdade de expressão no ano passado no Brasil, e 207, no México. O relatório foi lançado simultaneamente no Brasil e no México nesta quinta-feira (14). A íntegra do relatório no Brasil está disponível no site nacional da ONG Article 19 (www.artigo19.org) e no site internacional (www.article19.org).

No Brasil, o levantamento identificou casos de homicídio (30%); tentativas de homicídio (15%); ameaças de morte (51%); e sequestros ou desaparecimento (4%). As vítimas sofreram retaliações por denunciarem publicamente atos de violência praticados por policiais; conflitos agrários; crimes ambientais ou práticas de corrupção.

O relatório também apresenta um panorama comparativo das violações à liberdade de expressão no mundo. No Brasil, as regiões Centro-Oeste e Sudeste foram as que apresentaram o maior número de ocorrências. São Paulo, Mato Grosso do Sul e Maranhão são os estados mais violentos.

“Embora não haja uma intenção da institucionalização da censura no Brasil, em boa parte dos casos, percebemos que os processos de intimidação e violência ocorrem por meio da atuação de representantes do Estado, seja através da polícia, de políticos ou agentes públicos”, afirma Paula Martins, diretora da Article 19 na América do Sul. “São ações não coordenadas e difusas, especialmente nos municípios. O Estado não apenas tem se omitido como acaba sendo protagonista de certas ações”, acrescenta.

O relatório “Graves violações à liberdade de expressão de jornalistas e defensores de Direitos Humanos” relata os casos acompanhados pela equipe da Article 19 e as medidas adotadas pelo Poder Público. De forma complementar, o documento também apresenta outros tipos de intimidação: agressões físicas; prisões; detenções arbitrárias; sanções civis desproporcionais e processos civis e criminais, sob a alegação de calúnia, injúria ou difamação.

Após o lançamento oficial, a Article 19 encaminhará o documento às autoridades nacionais, ONGs e veículos de imprensa no Brasil e no mundo; além dos órgãos de Direitos Humanos da ONU, OEA e União Europeia.

Brasil em números

Um jornalista ou defensor de direitos humanos é assassinado a cada quatro semanas no Brasil por algo que tenha afirmado ou publicado. Para cada assassinato, há mais de 3 situações em que o jornalista ou defensor de direitos humanos já tenha sofrido um sério atentado contra sua vida.

Dezesseis jornalistas e defensores de direitos humanos foram assassinados por se manifestarem no ano de 2012. Sete destes eram jornalistas e nove, defensores de direitos humanos.

Foram investigados 82 casos em que profissionais da mídia ou defensores de direitos humanos foram vítimas de violência. Em praticamente 64% dos casos, as vítimas sofreram algum tipo de ataque por terem feito alguma denúncia, oral ou escrita.

Tipo de violência Número de casos Porcentagem
Homicídio 16 30
Tentativa de homicídio 7 15
Sequestro 2 4
Ameaça de morte 27 51
Total 52 100

Quem sofreu a violência?

O dobro de jornalistas (30, comparado com 17 defensores de direitos humanos) foram vítimas da maioria dos sérios ataques à liberdade de expressão (classificados como homicídios ou tentativa de homicídio).

A maioria das vítimas dos casos mais sérios de violência contra jornalistas são contra aqueles que escrevem em blogs com boa audiência (44%).

Vítima Porcentagem
Jornalistas do impresso 25
Jornalistas de radiodifusão (Rádio e TV) 31
Jornalistas de internet 44

Geografia da violência

Houve mais violência contra a liberdade de expressão nas zonais rurais do que nas grandes cidades.

Quase 50% dos casos de violência ocorreram em cidades com população menor do que 100 mil habitantes. Incluindo as cidades com população em cerca de 500 mil pessoas, essa taxa sobe para 68%. Menos de 1/3 dos crimes contra a liberdade de expressão ocorreram nas grandes cidades (32%).

Motivação para a violência

Em praticamente 74% dos casos, a violência foi motivada por alguma declaração específica feita contra um agente público, funcionário público ou empresa privada. Outros fatores de motivação incluem a manifestação de uma opinião crítica (17%), o compartilhamento de uma informação (4%) e a participação em passeatas (2%).

Pelo menos um agente do Estado está envolvido em 18% dos casos de violência contra a liberdade de expressão.

México em números

No México, a violência contra jornalistas ou profissionais da mídia – relacionada a algo que disseram – cresceu 20% em 2012, em comparação com 2011.

Sete jornalistas foram mortos por se expressarem. Dois jornalistas foram sequestrados e ainda estão desaparecidos em razão de seu trabalho. Ocorreram 8 ataques às sedes de empresas de mídia com uso de armas de fogo e explosivos em razão de algo que as mesmas publicaram ou transmitiram. O relatório também identificou que 207 casos de violência contra jornalistas foram registrados em 25 dos 32 estados da federação.

Tipo de violência Número de casos Porcentagem
Homicídio 7 3.38
Desaparecimento 2 0.96
Sequestro 11 5.31
Ataques Físicos 98 47.34
Prisões ilegais 9 4.35
Deslocamento forçado 14 6.76
Ameaças diretas 28 13.53
Intimidações e ameaças indiretas 31 14.97
Outros 7 3.38
Total 207 100

Quem sofreu a violência?

No México, repórteres e cinegrafistas são os mais vulneráveis aos ataques. No País, 7 dos 10 ataques foram diretamente contra estes dois grupos de profissionais.

Vítimas Porcentagem
Jornalistas da mídia impressa 44
Jornalistas de radio difusão 28
Proprietários de veículos de mídia 7.2
Editores 1.4
Apresentadores de Rádio e TV 1.9
Colunistas 3.3
Organizações 13

Quem são os responsáveis?

Quase metade dos ataques (44%) envolveram agentes do Estado, sendo a polícia municipal responsável por 45%; policial estadual, 42%; e polícia federal, 12%.

O Estado Mexicano afirma que organizações criminosas são a única grande ameaça à segurança dos jornalistas e ressalta que o tráfico de drogas é o ponto chave para a prática destes crimes. No entanto, o relatório mostra que os oficiais estaduais estavam implicados três vezes mais do que o crime organizado, que responde por 14% casos de violência contra jornalistas.

Agressor Porcentagem
Agentes do Estado 46
Crime organizado 14
Indivíduos comuns 14
Grupos políticos 5
Grupos sociais 6
Desconhecidos 15

O legado de Hugo Chávez para a América Latina

Por Roberto Amaral na Carta Capital

Apoiador de Chávez, com um boneco do líder nas mãos, acena ao chegar para o velório em Caracas, na quinta-feira 14. Foto: Ronaldo Schemidt / AFP

Apoiador de Chávez, com um boneco do líder nas mãos, acena ao chegar para o velório em Caracas, na quinta-feira 14. Foto: Ronaldo Schemidt / AFP

Em 14 anos promoveu 17 eleições (a 18ª travar-se-á no dia 14 de abril ainda em torno de sua legenda) e ganhou nada menos de 16! Mas é um ‘ditador’, diz o Departamento de Estado dos EUA e o repetem nossos jornalões, reproduzindo suas matrizes ideológicas.

Convocou por plebiscito uma Constituinte autônoma e a confirmou em referendo. Nossa democracia, vencida com tanta dor a ditadura (cujos crimes só agora começam a ser oficialmente apurados!), teve de se conformar com um Congresso ordinário (inchado até com senadores biônicos) autoinvestido de poderes constituintes.

A Constituição da ‘ditadura’ chavista – caminhando para a democracia direta –, incorpora avanços impensáveis ainda hoje no Brasil. Além da iniciativa popular legislativa, do plebiscito e do referendo (consultivo, revocatório, aprovatório e abrogatório), introduziu a revogação de mandatos, inclusive o do presidente. Chávez, ainda, inovou, ao submeter seu mandato a referendo (2004).

Mas, asseveram os comentaristas, o ‘regime chavista’ era (e prossegue sendo com Maduro) uma ‘ditadura’. Democracia mesmo, bem esta é a do grande ‘irmão do Norte’, onde Al Gore ganha as eleições no voto e quem toma posse é Bush…

No Brasil democrático, a ‘Constituição cidadã’ do Dr. Ulysses foi contestada desde o primeiro dia pelos seus avanços sociais, tarefa a que se devotaram Sarney, Collor e FHC, em nome da chamada governabilidade. Hoje, é um texto sem caráter, colcha de retalhos, mutilada por 71 emendas (e outro tanto em andamento…) que derrogaram a maior parte das conquistas sociais e os dispositivos que protegiam o interesse nacional. O que sobrou de avanço, sofre a condenação da direita, ecoada pela grande imprensa. Bom exemplo é a impossibilidade de cumprir a ordem do art. 220 da CF (aquele que regula os meios de comunicação de massa).

Acostumados com a leniência de nossos governos, dos partidos, do Legislativo e do Judiciário – todos acovardados diante do monopólio da informação – os grandes meios dizem que Chávez era um ditador porque enfrentou o que não ousamos enfrentar aqui: o monopólio da informação manipulada. Lá, os poderosíssimos grupos RCTV e Globovision. Não se informa (ora, informar não é o objetivo da grande imprensa!) que esses grupos de mídia foram instrumento fundamental (e evidentemente inconstitucional e ilegal) no golpe de Estado de 2002, contra Chávez, articulado pela embaixada dos EUA e o grande empresariado venezuelano. Como aqui em 1964, o golpe de lá também foi perpetrado em nome da democracia. Lá, o ‘democrata’ Pedro Carmona, presidente da Federação Venezuelana de Câmaras de Comércio (Fedecámaras), assim que instalado no Miraflores, atribuiu a si mesmo poderes extraordinários para determinar a dissolução da Assembleia e o recesso do Judiciário e da Procuradoria…

Seria esse o regime que prometia livrar a Venezuela da ‘ditadura chavista’. A diferença entre o nosso longevo golpe de 1964 e o venezuelano de 2002 é que lá o povo reagiu e depôs os golpistas. O resto é história contada e sabida.

No Brasil, a direita – e ela é a mesma aqui, ali e acolá –, responde com arreganhos a toda e qualquer iniciativa, seja mesmo puramente acadêmica, teórica, de democratização dos meios de comunicação, oligopolizados do ponto de vista empresarial e monopolizados do ponto de vista ideológico. Hoje um poder acima do Estado, e da Constituição, irresponsável porque inimputável, poder que ninguém ousa controlar. Pois uma das exigências da democracia é o encontro da liberdade com a responsabilidade. Uma não pode ser maior do que a outra.

Não se quer muito. Agora mesmo, no México, o governo festejadamente democrático de Peña Nieto criou um Instituto Federal de Telecomunicações com poderes para regular a concorrência nos mercados de telefonia e radiodifusão. Terá sido acometido de algum vírus chavista? Se essa regulação caminhar no sentido da democratização, o alvo poderá vir a ser o Grupo Televisa, que detém 70% da audiência mexicana. Nessa hipótese de ‘mau exemplo’, o México continuará sendo considerado uma democracia?

O merecido conceito brasileiro de democracia representativa estável resistiria, na voz dos monopólios, a qualquer tentativa de democratização dos meios de comunicação de massa?

Fala-se, agora, que Maduro, indicado vice na forma da Constituição venezuelana, não poderia permanecer no cargo após a morte do titular. No Brasil, o colégio eleitoral (que substituiria o povo no direito de eleger o presidente), elegeu Tancredo, e, com sua morte, o Congresso, passando por cima do presidente da Câmara dos Deputados, deu posse ao vice-presidente José Sarney (também e não por acaso ex-presidente do partido da ditadura, é impossível deixar de lembrar).

A história da Constituinte condicionada e da posse do vice no lugar do presidente morto antes de seu juramento no Congresso e de instalar-se no Planalto, remonta a negociações de próceres do PMDB com os militares que teriam dado origem a compromissos para assegurar a transição do poder militar para o poder civil, monitorado por aquele. Um dos compromissos teria sido o da convocação de um congresso constituinte, em vez de uma Constituinte autônoma; outro, inimputabilidade dos crimes da ditadura.

Não nos enganemos. A direita, no Brasil e no mundo, jamais teve apreço pela democracia, embora alegue sua defesa sempre que promove golpes-de-Estado. As razões para a guerra midiática antichavista são objetivas: a Venezuela possui uma das maiores reservas petrolíferas do mundo, reservas que sobreviverão quando secarem as do Oriente Médio, depredado pelas grandes potências. Em seu rastro, a pobreza de milhões (em contraste com a riqueza obscena de suas classes dominantes) e os milhões de vítimas de um genocídio permanente, sustentado pela fome e pelas guerras impostas pelo imperialismo.

Para as elites venezuelanas, corruptas, pérfidas, o petróleo serviria tão só para o seu enriquecimento e fausto, pois os lucros eram aplicados em Miami, sua verdadeira capital. Quanto mais o país exportava petróleo – e importava tudo porque nada era investido na produção de alimentos ou na industrialização – o povo, as grandes massas, a maioria da população, os mulatos e os mestiços, pobres porque povo mestiço, viviam na pobreza abjeta, sem emprego, sem educação, sem saúde, sem nada porque também sem esperança. Que fez o ‘caudilho’, coronel ‘populista’, ‘demagogo’? Desviou os lucros da PDVSA para a melhoria das condições de vida da população, da população pobre, em detrimento, salve ele!, de suas elites alienadas e forâneas, em detrimento dos poderosos, inclusive dos poderosos empresários da mídia, em prejuízo inclusive de uma corporativismo sindical corrupto.

Cedo, Chávez compreendeu a importância da união cooperativa dos Estados latino-americanos, o que sempre irritou as metrópoles. Daí a tentativa de desmoralizar seu bolivarianismo. Estreitou as relações econômicas com a Argentina (que socorreu com a compra de seus títulos desvalorizados), ajudou Cuba e diversos pequenos países do Caribe (fornecendo petróleo subsidiado), cooperou com a Bolívia e o Equador. Promoveu aproximação sem precedentes entre a Venezuela e o Brasil (com FHC, com Lula, com Dilma), cujos efeitos econômicos a burguesia indígena, se tivesse um mínimo de autonomia ideológica, saberia reconhecer. Mas ao contrário, combateu o quanto pôde o ingresso da Venezuela no Mercosul, projeto sabidamente do interesse da região e do Brasil.

Não, não fez a revolução social, mas governou tendo sempre em vista a emancipação econômica da Venezuela e a melhoria da qualidade de vida de sua gente, propostas inaceitáveis pela direita (defesa do país e promoção dos interesses dos pobres), eis as razões de seus conflitos com os EUA e a oposição dos poderosos internos. Uma oposição de ódio, ódio de classe, ódio étnico, ódios hepáticos e ódio puro ódio. Mas eis, igualmente, a razão de suas sucessivas vitórias e a esperança de que o semeado frutificará, regado que é pelo apoio popular.

Leia mais em www.ramaral.org

Máscaras de carne e osso

Por Saul Leblon no Blog das Frases

O país vive dias buliçosos.

Como se não houvesse amanhã, nem ontem, Aécio cogita a necessidade de reestatizar a Petrobrás. Vai além: promete fazê-lo.

Serra ressurge das cinzas.

E reacende seu fogo ‘desenvolvimentista’ – ‘de boca’, entrecortou, um dia, Maria da Conceição Tavares, em aparte rápido, definitivo.

Aguarda-se a chegada de Alckmin. Especula-se um figurino chão de fábrica, na defesa carbonara do salário mínimo do Dieese. Ou isso, ou greve geral.

O que falta ainda? A mídia. Conhecida pela isenção com que aborda as causas da miséria brasileira, mostra-se indignada. O país ‘estacionou’ na 85ª posição do IDH mundial, denunciam manchetes sulforosas.

Cegas, ignoram que o IDH brasileiro de 2012 baseou-se em dados de 2005,no caso da educação, por exemplo. Sete anos desconsiderados.

A própria análise do PNUD relativiza a importância da variação entre um ano e outro (leia a reportagem). O braço da ONU atesta para todos os fins que o Brasil perfila entre os grandes velocistas da luta contra a pobreza e a desigualdade no século 21.

A informação é irrelevante para o jornalismo isento. Há lógica na indignação seletiva.

Os dados defasados lubrificam de alguma forma a narrativa construída meticulosamente neste início de 2013, mas que ainda carecia de uma ‘evidência’ de apelo popular.

‘O Brasil estagnou’

Ou não é isso que sugere com diuturna disciplina o jogral de vozes que nunca desafinam? São elas que ajudam os fatos com a força das ideias.

E não lhes faltam espaços, manchetes, nem publicidade federal, generosamente aspergida pela Secom.

Desse conjunto endogâmico, em que as coisas são como são, e como são, assim ficarão, estala agora um frenesi no ar.

O IDH corrobora a bandeira em fraldas da oposição para 2014: ‘o Brasil de Dilma estagnou’.

Tucanos rodopiam no divertido baile das máscaras, onde ninguém é de ninguém, o passado fica na porta e o futuro é uma jura de salão.

Cabe ao coletivo dos professores banqueiros do PSDB acertar os ponteiros do relógio com quem realmente conta: a engrenagem do dinheiro a juro.

Aqui a conversa é entre costelas do mesmo espinhaço, partes convexas que fazem rodízio articulado dos dois lados do guichê. Das gargantas ecoam a mesma linguagem, as mesmas palavras. Cifradas pela mídia no ensaio-geral de arrumação para 2014.

A saber:

a) o país vive uma pressão inflacionária difusa decorrente do excesso de demanda;

b) o excesso de demanda deriva do abusivo aumento do poder de compra dos trabalhadores, puxado pelo reajuste real de 60% do salário mínimo nos governos Lula/Dilma;

c) a renda das famílias cresce ininterruptamente há mais de 4 anos ;

d) sustenta o insustentável: a expansão da demanda interna sem aumento equivalente da oferta — atendida, em mais de 20% no caso de manufaturados, pelas importações;

e) a solução para o estresse macroeconômico, somatizado em alta de preços, passa por um tratamento de choque: alta dos juros e achatamento salarial.

f) o IDH, oportunamente, mostra que nem os pobres ganham mais com o quadro vigente. Logo, tanto faz ministrar-lhes um cristel de arrocho, desemprego e paulada no crédito.

A mídia cuida de dar ao ensaio de 2014 um sentido de urgência. O apetite da usura é caramelado com o glacê do interesse social.

Nem tudo é pastelão.

Ingredientes objetivos evocados no confronto político de uma época muitas vezes são idênticos dos dois lados da disputa.

As consequências listadas não raro compartilham alguma similitude.

O que distingue as margens do rio é menos o ingrediente do que o sentido de determinação que se atribui a cada um deles.

O conservadorismo identifica no ganho de poder aquisitivo a usina de males do país. Daí deriva a vacina conhecida pelas suas consequências.

Resistir passa por debater politicamente o que há de real no impasse econômico brasileiro hoje.

A saber:

- a inflação reflete pressões passageiros de quebra de safra de alimentos e outras que vieram para ficar; estas, decorrentes de uma mudança estrutural na economia do país;

- o setor de serviços (telefonia, saúde, educação, transportes, bancos etc.) elevou sua participação no PIB, de 63% para 68,5% nos últimos oito anos.

- a inflação dos serviços tem crescido acima de 8% ao mês (dois ou três pontos acima da média por ela puxada).

- combate-se isso com mais oferta, fiscalização, exigência de qualidade, regras de reinvestimento etc.;

- mas a expansão dos serviços na cesta ‘básica’ moderna é algo irreversível: um padrão planetário;

- nenhuma ‘abertura comercial’ do tipo ‘deixai o mercado agir por conta própria’ vai resolver isso; serviços em regra são de difícil importação;

- tampouco a alta dos juros supera o impasse; na verdade, apenas agravará o polo oposto: o enfraquecimento do setor industrial, cuja participação no PIB recuou de 19% para algo como 14% no período citado.

- juro alto e laissez-faire vão desidratar ainda mais a industrialização brasileira;

- são políticas conhecidas pelo efeito de valorizar a moeda local e incentivar importações castradoras da manufatura.

- hoje, mais de 20% da demanda brasileira por bens industrializados é importada.

- importa-se produto barato, exporta-se o emprego industrial que paga salário superior ao padrão call-center das vagas na área de serviços.

- o recuo da industrialização é real, mas vem de longe: em 1985 o setor fabril produzia 27% da riqueza agregada ao PIB brasileiro; em 1996 essa fatia caiu para cerca de 18,5%; agora oscila em torno de 14%.

- a desindustrialização pesada do ciclo tucano desenhou um retrocesso de participação no PIB da ordem de 8 pontos; impulsionada pela gororoba livre mercadista composta de privatizações, câmbio valorizado, juro alto e abertura comercial suicida.

Os governos do PT desmontaram essa lógica parcialmente. E de forma muito lenta.

Manteve-se até 2008 a dupla turbina do juro alto e câmbio valorizado.

A partir do colapso neoliberal daquele ano, o governo Lula acelerou o desmonte do mecanismo que Dilma golpeou mais fundo, com o corte nas taxas de juros.

O estrago na estrutura industrial, porém, estava feito.

Linhas de montagem foram desativadas. Empresas desterritorializaram seu fornecimento de componentes. Vagas fechadas aqui brotaram na Ásia.

Não só o Brasil.

Mas o erro generalizado dos países em desenvolvimento, com raras exceções, não mitiga o ônus da obra comum.

Síntese: o país tem a maior mina de ferro a céu aberto do mundo; montou um programa de expansão de ferrovias de 10 mil kms nos próximos anos. E importa cada centímetro de trilho que usa.

A política econômica dos últimos anos, no entanto, introduziu um redefinidor potente na equação do desenvolvimento.

Ele dificulta sobremaneira a aplicação mecânica da vacina ortodoxa de juro alto e salário baixo.

O ciclo Lula/Dilma promoveu o mercado de massa à condição de ator principal do enredo econômico brasileiro.

Muda muita coisa.

Em primeiro lugar, a centralidade do novo protagonista dificilmente é reversível nas urnas.

Tampouco ele cabe na escala da infraestrutura pesada e da logística social, originalmente previstas para 30% dos que vivem no topo da pirâmide de renda.

A organização política do novo ator persiste aquém do peso que ele exerce na ordenação do desenvolvimento.

Mas sua dimensão histórica ultrapassou o ponto em que poderia ser facilmente descartado.

Mesmo sem se traduzir em uma nova relação de forças efetivamente mobilizada, a presença condiciona e atemoriza.

Em resumo: máscaras novas, para receitas velhas, é o truque que resta ao conservadorismo para transitar nesse ambiente mutante e adverso.

Talvez sejam necessárias máscaras de carne e osso para reduzir as resistências previsíveis.

Há oferta em espécie.

O resultado do IDH de 2012 será manipulado para lubrificar o simulacro, mas não lhe confere autenticidade.

O que o PNUD mostra na verdade é que uma visita imprevista chegou para jantar.

O governo tem no problema a solução para injetar a coerência política e macroeconômica à continuidade do desenvolvimento.

A visita espera no meio na sala. Em pé.

Cabe-lhe, de fato, a cabeceira da mesa. E a prerrogativa do cardápio.

*Foto de George Gianni/PSDB

Apesar de avanços no IDH, Brasil está abaixo da média da América Latina

Relatório da ONU na Carta Capital

O Brasil teve um avanço consistente nos últimos 22 anos no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), mas ainda está abaixo do desempenho dos países da América Latina e Caribe. É o que indica o relatórioA Ascensão do Sul: Progresso Humano em um Mundo Diverso (em tradução do inglês), divulgado nesta quinta-feira 13, no qual a sexta maior economia do mundo aparece apenas na 85ª posição, com o índice 0,730 (quanto mais próximo de 1, melhor), entre os 186 países analisados em 2012.

O País está no grupo das nações com IDH considerado elevado.

Foto: Agência Brasil

Foto: Agência Brasil

Segundo o estudo, o Brasil foi um dos países que mais avançou para eliminar a pobreza e a desigualdade, aumentando assim seu desempenho no ranking. Entre 1980 e 2012, o IDH brasileiro passou de 0,522 para 0,730, um aumento de 40%, ou uma média de anual de crescimento em torno de 1,1%.

No mesmo período, a expectativa de vida ao nascer no Brasil subiu 11,3 anos (saindo de 62,5 anos para 73,8), a média de anos de estudo cresceu 4,6 anos e a expectativa de anos de estudo avançou 4,3 anos. Além disso, a renda per capital aumentou 39%.

Mesmo com esse quadro positivo, o País aparece atrás do Chile (0,819), Argentina (0,811), Uruguai (0,792), Venezuela (0,748) e Peru (0,741). O resultado brasileiro também está abaixo da média dos integrantes do grupo dos considerados com desenvolvimento humano elevado (0,758) e dos países da Amértica Latina e Caribe (0,741).

O Pnud ainda compara o Brasil com México (0,775) e Colômbia (0,719), por serem da mesma região e terem número de habitantes próximos. O País perde para ambos e para a média da América Latina quando considerada a expectativa de vida ao nascer.

Por outro lado, mostra desempenho superior nos anos esperados de ensino (também maiores que a média dos países com IDH elevado). Mas volta a perder na média de anos de educação Colômbia, México, América Latina e países com IDH elevado. Entre as maiores rendas, supera apenas os colombianos. (Veja no quadro abaixo)

tabela

 

BRICS

Apesar de estar abaixo dos indicadores da América Latina, em geral, o Brasil tem melhores resultados que os países do BRICS (Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul), grupo das economias que crescem mais rapidamente no mundo. Os dados do Pnud também mostram superioridade brasileira no subgrupo IBAS (Índia, Brasil e África do Sul).

O IDH brasileiro é mais elevado que o da China (0,699), Índia (0,554) e África do Sul (0,629), embora seja superado pela Rússia (0,788). O país também leva a melhor na média dos Brics (0,655) e do IBAS (0,588).

Na maioria dos quesitos (veja o quadro abaixo), o Brasil apresenta melhor desempenho. Com exceção da renda per capita, no qual os seus 10,1 mil dólares por ano são superados pelos 14,4 mil da Rússia, e nos anos esperados de ensino (14,3 anos da Rússia contra 14,2 do Brasil).

Na média de anos de estudo, por outro lado, o país supera apenas a Índia (7,2 anos contra 4,4).

tabela 1

 

Desigualdade de gênero

O Pnud também calculou o ranking de desigualdade de genero, no qual o Brasil (0,447) aparece na 85º posição, entre os 148 países analisados em 2012. Um resultado pior que a média da América Latina (0,419) e dos países com IDH elevado (0,376) e muito abaixo dos primeiros colocados na lista: Holanda (0,045), a Suécia (0,055) e a Suíça (0,057).

O índice considera dados oficiais sobre saúde reprodutiva, poder das mulheres e participação no mercado de trabalho. Quanto mais próximo de zero, menor a diferença de gênero.

Segundo o estudo, no Brasil apenas 9,6% das cadeiras do Congresso são ocupadas por mulheres, contra 24,4% na América Latina e 18,5% nos países com IDH elevado.

O Brasil tem um desempenho melhor que a média latina para as mortes de mulheres por problemas relacionados à gravidez. No País, a cada 100 mil nascimentos, 56 mulheres falecem devido a estas complicações, contra 74 na América Latina. O número é, no entanto, maior que os 47 da média dos países com IDH elevado.

As mulheres adultas brasileiras também são mais educadas que os homens: 50,5% delas atingiram o ensino médio ou superior, comparado com 48,5% dos homens. Na América Latina esse dado é de 49,8% para as mulheres e 51,1% aos homens. Entre as nações com IDH elevado, a média foi de 62,9% para mulheres e 65,2% para os homens.

O Pnud ainda indica uma elevada diferença na participação feminina no mercado de trabalho: 59,6% contra 80,9% dos homens. Na América Latina, essa  média é 53,7% para mulheres e 79,9% para homens. Nos países com IDH elevado fica em 46,8% para mulheres e 75,3% para homens.

Erradicação da miséria

Ministra Campello conversa sobre os desafios para mitigar o “núcleo duro” da pobreza

Ministra Tereza CampelloMinistra Tereza CampelloO Brasilianas.org desta semana lança um debate sobre as ações do governo federal para reduzir o chamado “núcleo duro” da miséria. Quais as articulações político-gerenciais necessárias para a eficiência dos programas de combate à fome?

De acordo com a presidente Dilma Rousseff, em onze anos, 19,5 milhões de brasileiros saíram daextrema pobreza, faixa de renda inerior a R$ 70 mensais. O anúncio foi feito nesta semana em evento sobre os resultados do Programa Brasil sem Miséria. Atualmente, há 2,5 milhões de pessoas no país que necessitam de auxílio para superar a linha da extrema pobreza.

O programa recebe a Ministra do Desenvolvimento Social e Combate à FomeTereza Campello; a jornalista e cientista política Maria Inês Nassif; e o diretor de Políticas e Estudos Sociais doInstituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)Rafael Osorio.

 

 

 

Apresentação: Luis Nassif
Produtores: Juliana Oliveira, Aline Penna, Bruno de Pierro, Lilian Milena e João Paulo Caldeira
Diretor: Pola Galé
Pauta: Bruno de Pierro, Lilian Milena João Paulo Caldeira

Banco dos Brics deve ser anunciado no fim de março

Em Durban, África do Sul, deverá ser anunciada a decisão de fundar um novo banco de desenvolvimento

Por Carlos Tautz, do Brasil de Fato

Anúncio oficial da criação do “Banco dos Brics” deve  ficar para a 6a Cúpula, a realizar-se no Brasil em 2014 (Foto: Roberto Stuckert Filho/PR)

Ao longo da 5ª reunião de chefes de estado dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que acontece em finais de março, em Durban (África do Sul), deverá ser anunciada a decisão de fundar um novo banco de desenvolvimento, o banco dos Brics. Tudo indica que ali vão se iniciar os estudos finos sobre a nova instituição, com o anúncio oficial de criação ficando para a 6ª Cúpula, a realizar-se no Brasil em 2014.

Confirmadas essas possibilidades, estará aberta uma enorme janela histórica de oportunidade para incidência da sociedade civil internacional. Afinal, não é todos os dias que se criam instituições com essa natureza e missão, nem que organizações do campo popular podem se articular para garantir que os critérios de financiamento incluam a obediência a uma ampla gama de direitos.

Não se teve oportunidade semelhante em 1945/6, na criação do Fundo Monetário Internacional, o FMI, e do Banco Mundial. Nem em 1950, quando o Brasil fundou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. Agora, o cenário é outro. Há consenso sobre a necessidade de tais instituições incorporarem mecanismos de transparência e controle social, para garantir que os projetos por elas viabilizados distribuam renda e respeitem culturas e o ambiente.

Além de nascer da crítica que os Brics fazem ao antidemocrático sistema que garante a hegemonia eterna dos EUA e da Europa no Banco Mundial e no FMI, o banco dos Brics, que nascerá com aportes totais de 50 bilhões de dólares (2 bi cash e 8 bi em garantias de cada sócio) é justificado pela nova realidade econômica internacional, que possibilita maior raio de ação a essas nações.

Desde o início dos anos 2000, com o aumento da demanda e dos preços internacionais de commodities e demais matérias-primas, mercados em que os Brics são especializados, esses países acumularam expressivas reservas em moeda forte (cerca de 5 trilhões de dólares em dezembro de 2011).

Capacidade

Assim, capitalizadas, essas nações recuperaram parte de sua capacidade de conduzir internamente políticas públicas e de transitar com razoável autonomia no fechadíssimo clube das finanças internacionais, onde predominam, por ordem, o dólar (EUA), o euro (Europa) e o iene (Japão).

Foi nesse cenário que nasceu a ideia, em 2010, na segunda cúpula dos Brics, realizada no Brasil, de criar um fundo de fomento ao desenvolvimento, quando a África do Sul ainda não integrava o bloco. O acordo foi capitaneado pelo BNDES, instituição que tem tido papel importante na criação do novo banco. O fundo servirá para fazer reservas em moedas próprias dos Brics, dispensando dólares e euros, e atender aos cinco países em caso de futuras crises do capitalismo globalmente interconectado.

O banco teve sua ideia vocalizada pela Índia, que sediou a terceira cúpula dos Brics em 2011 e também integra a estratégia de isolamento diante das crises. Mas, está sendo desenhado para atuar especificamente no apoio às oportunidades comerciais abertas pela crise climática, conforme paper dos economistas Nicholas Stern e Joseph Stiglitz que circula entre governos do bloco desde setembro de 2011 (ver a íntegra em www.maisdemocracia.org.br).

Sistema

Os estudos preliminares detiveram-se até agora sobre o sistema de governança e os esquemas comercial e financeiro do novo banco. O governo brasileiro, em consonância com o texto Stern-Stiglitz, defende que a instituição tenha o menor número possível de funcionários e não promova políticas públicas a serem exigidas dos tomadores de empréstimos. O local da sede ainda não está definido.

O Brasil postula a adoção do sistema de cotas iguais, com direito a voto, para os fundadores principais, cabendo a diversos tipos de países participantes diferentes modos de aportar e acessar os recursos, mas sem direito a voto. A África é apontada como campo de interesse particular da nova instituição, por deter grandes quantidades de terras férteis, água e subsolo riquíssimo.