Arquivos anuais: 2013

FHC e Aécio querem Serra fora do PSDB

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Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tem defendido que, se for para Serra optar por outro caminho, que o faça agora; senador Aécio Neves (PSDB-MG) também afirma que tucanos não devem esperar por definição da tropa serrista; recado foi transmitido por meio da coluna da jornalista Sonia Racy, do Estado de S. Paulo;  a outra colunista do Estadão, Dora Kramer, Roberto Freire confirma ter feito um convite a Serra para que integre as fileiras do PPS; tucanos estão a um passo de uma cisão histórica

No Brasil 247

O PSDB está bem perto de uma cisão histórica, com a saída de um de seus fundadores, José Serra, que foi prefeito de São Paulo, governador do estado e duas vezes candidato à presidência da República. Tanto o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como o senador Aécio Neves (PSDB-MG) sinalizam que não estão dispostos a ceder às pressões de Serra para ocupar maior espaço no PSDB – o ex-governador quer a presidência da sigla para só depois disso hipotecar seu apoio a Aécio.

O recado de que FHC e Aécio não pretendem ceder foi transmitido na edição desta terça-feira do jornal Estado de S. Paulo, na coluna da jornalista Sonia Racy. “O ex-presidente tem defendido que, se for para Serra optar por outro caminho, que o faça agora”, diz a nota Ponte Minas-SP. No mesmo texto, a jornalista prossegue, afirmando que “Aécio não quer que o partido fique parado à espera de Serra”.

Ao 247, um dos mais próximos aliados de Serra, o ex-governador Alberto Goldman, classificou a eventual saída como uma “revolução”. Goldman afirmou ainda que a permanência de Serra, e com um bom espaço no PSDB, seria vital não apenas para Aécio, como também para a candidatura de Geraldo Alckmin à reeleição, em São Paulo.

Por isso mesmo, a saída de Serra pode ser uma aposta de altíssimo risco para o PSDB. O ex-governador tem convite para se filiar ao PPS, de Roberto Freire, onde concorreria ao Palácio dos Bandeirantes, em 2014, e também criaria um palanque para Eduardo Campos, do PSB, em São Paulo. Ou seja: Serra dividiria o PSDB, colocaria em risco a principal cidadela do partido e ainda estimularia o projeto presidencial dos socialistas. Outra possibilidade seria concorrer à presidência.

À jornalista Dora Kramer, também do Estado de S. Paulo, Roberto Freire confirmou ter convidado José Serra a integrar o PPS. Ao 247, um dos principais aliados de Serra disse que a possibilidade de que ele deixe o PSDB hoje é bem superior a 50%.

Leia, abaixo, a coluna de Dora Kramer:

Tremor na base

O presidente do PPS, deputado Roberto Freire, realmente convidou o tucano José Serra a entrar no partido, ainda não obteve resposta e diz que se encerra por aí a veracidade das versões que correm sobre o assunto. “O mais é fruto de uma central de invenções sem compromisso com a realidade”, afirma.

Esse “mais” que Freire qualifica como mero boato seria a exigência de Serra de que, para entrar no partido, precisaria ter assegurada a legenda para concorrer à Presidência da República. “Nem podemos garantir nada, nem ele pediu, nem temos ainda claro como será o cenário da disputa de 2014.”

De acordo com Roberto Freire, o que há em relação ao tucano é um desejo de incorporá-lo a um bloco para tentar quebrar o ciclo de dez anos do PT no poder central e a evidência de que Serra está desconfortável no PSDB, onde o grupo afinado com o senador Aécio Neves vem ocupando ativamente todos os espaços desde a derrota de 2010.

O importante nessa história, aponta Roberto Freire, é a existência de alternativa no horizonte. “Alguém que possa derrotar eleitoralmente o que está aí, que recupere o respeito pelas instituições e possa enfrentar a crise econômica.”

Se Eduardo Campos tem origem no campo governista, para o deputado não é algo que deve ser visto como um fator excludente. “Inclusive porque não é a oposição que estimula a candidatura dele, mas sim um evidente processo de reestruturação na base do governo.”

Na visão dele, o que impulsionou essa forte tendência de Eduardo Campos de se afastar da área de influência do PT e buscar a articulação de outro polo de perspectiva de poder foi a ruptura com o PT na eleição para a prefeitura de Recife.”Ele enfrentou Lula e venceu. No Rio Grande do Sul, também conseguimos romper com a hegemonia do PT na capital. Esse grupo não é invencível e, para vencê-lo, não é preponderante que haja a encarnação do oposicionismo, mas capacidade de vencer mediante um projeto que faça o Brasil avançar.”

O empresariado, notadamente o setor produtivo, tem dado reiteradas demonstrações de cansaço com o atual modelo, na opinião de Freire. A busca por uma opção não estaria, portanto, restrita ao mundo político-partidário.

Freire vê semelhanças com o período pré-edição da Carta aos Brasileiros, com a qual o PT se comprometeu com o bom senso na área econômica, quando a sociedade buscou outros nomes antes de se concentrar em Lula: Roseana Sarney e Ciro Gomes, por exemplo, que chegaram a liderar as pesquisas no primeiro semestre de 2002.

Se o “alguém” será Pedro, Paulo ou João – ou mesmo todos os nomes de quem se fala, incluindo Serra e Marina Silva, na percepção de Roberto Freire não é uma questão para ser resolvida agora nem administrada pela lógica da disputa no campo que pretende se apresentar como contraponto ao PT. “Do ponto de vista tático, podem disputar todos os candidatos. Haverá segundo turno e, nesse grupo, não há a tendência de repetir o gesto de neutralidade de Marina em 2010.”

Mas Eduardo Campos, sendo oriundo da arena governista, pode ficar com Dilma, não? Na visão de Freire, ao contrário: “Se ele se traz como proposta de um projeto alternativo, não poderá retroceder”.

Bom proveito

Seja qual for o caminho dos partidos aliados ao governo em relação à reeleição de Dilma, uma decisão está se consolidando entre eles: entrega dos cargos não estará em cogitação tão cedo. Chegaram à conclusão de que a devolução dos espaços só serve para que sejam redistribuídos ao PT que, na posse deles, os usa como instrumentos não apenas contra os que se transformam em adversários, mas também contra os que continuam aliados no plano federal e optam pelo chamado “palanque duplo” no âmbito regional.

Associações acadêmicas repudiam Capes por prêmio de sustentabilidade em parceria com a Vale

Mineradora foi eleita como a pior empresa do mundo em termos de direitos humanos e sustentabilidade

Na Revista Forum

Vale recebeu o título de pior empresa do mundo em direitos humanos e meio ambiente (Foto: Ag. Pública)

Representantes de diversas associações acadêmicas enviaram uma carta ao presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), em repúdio ao “Prêmio Vale-Capes de Ciência e Sustentabilidade”.

O prêmio é voltado para teses e dissertações sobre temas ambientais e é fruto de uma parceria entre a Capes, agência vinculada ao governo federal, e a mineradora Vale.

Acontece que a empresa de mineração foi considerada a pior empresa do mundo no que diz respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente. Com cerca de 25 mil votos, a Vale recebeu o “título” do  “Public Eye People´s 2012”, premiação as avessas organizada pelas ONGs Greenpeace e Declaração de Berna.

Condições desumanas de trabalho, pilhagem do patrimônio público e exploração da natureza estão entre as denúncias que garantiram o “título” da Vale.

A empresa também responde a 111 processos judiciais e 151 administrativos, além de ser a campeã de multas aplicadas pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).

Leia a carta na íntegra:

“Nós, representantes de associações acadêmicas, professores e pesquisadores abaixo-assinados, viemos a público declarar que consideramos inadequada a instituição do chamado “Prêmio Vale-Capes de Ciência e Sustentabilidade”, visando a premiar Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado associadas a temas ambientais e socioambientais. É de conhecimento público que as práticas da Vale S.A. são, com grande frequência, avaliadas como impróprias do ponto de vista social e ambiental, em muitos casos com implicações legais, conforme registrado por inúmeros trabalhos de pesquisa nas áreas de Sociologia, Antropologia e Ciências Sociais Aplicadas expressos em apresentações em Congressos, Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado referendadas pela comunidade científica brasileira nos últimos anos. Com base nesta produção científica, listamos abaixo alguns exemplos de danos ambientais e sociais associados à atuação da empresa em questão e, em anexo, apresentamos uma amostra ilustrativa de citações de resultados de pesquisas recentes:

  • Despejo ilegal de minério diretamente nas águas da Baía de Sepetiba (Zborowski, 2008 e Stotz; Peres, 2009);
  • Dragagem de 20 milhões m3 de lama contaminada por cádmio, zinco e arsênio na Baía de Sepetiba (FIOCRUZ, 2011);
  • Emissão de material particulado no ar contendo elementos químicos causadores de problemas respiratórios graves (FIOCRUZ, 2011);
  • Rompimento de mineroduto e contaminação do solo e de corpos hídricos no município de Paragominas, PA. (Marin, 2010);
  • Destruição de terras agricultáveis e desmatamento de castanheiras para a construção de minerodutos, linhas férreas e linhas de transmissão de energia em territórios ocupados por populações tradicionais (Marin, 2010; Pereira, 2008);
  • Não-cumprimento do acordo com comunidades quilombolas do Jambuaçu, Moju, PA, pelo qual a Vale deveria recuperar 33 km de estrada que cortam as terras quilombolas, a reforma de duas pontes e indenizações pela passagem do mineroduto de bauxita e da linha de transmissão (Pereira, 2008, apud Trindade, 2011);
  • Conflitos com comunidades indígenas Xikrin (na região de Carajás, PA) e com os índios Krenak, na região de Resplendor, MG. (Carrara, 2009);
  • Deslocamento compulsório de populações em função da exploração mineral e da construção de barragens e usinas para fins de auto-geração de energia (Pinto, 2005; Lages, 2008; Wanderley, 2009, Campos, 2010);
  • Transformação da imagem da empresa frente à opinião pública, sem que suas ações sejam menos degradantes no que respeita ao meio socioambiental (Cabral e Paraíso, ANPOCS, 2005);
  • Projeto de mineração da Serra da Gandarela, considerada Área de importância biológica especial, com endemismo de espécies e alta biodiversidade. (Marent; Lamounier; Gontijo, 2011);
  • Marcação de casas que estariam em área de remoção para a implantação de uma siderúrgica no Maranhão, sem que as famílias atingidas fossem informadas sobre para onde, por quem e em que condições seriam removidas (Santos Jr. et alii 2009);
  • Construção de estradas e infra-estruturas que têm provocado assoreamento e morte de igarapés no território quilombola do Jambuaçu, Moju, PA. (Trindade, 2011).

Consideramos, em conseqüência, que o estabelecimento de um vínculo desta ordem entre a Capes e a Vale S.A. tende a enfraquecer a autonomia científica no estudo das relações entre meio ambiente e sociedade no Brasil, na medida em que as práticas da referida empresa são, elas próprias, objeto de pesquisa e que a situação assim criada pode comprometer a análise dos casos concretos em que esta firma figure como agente social em conflito com atores públicos (prefeituras, IBAMA e Ministério Público, entre outros), assim como com populações afetadas por empreendimentos, com organizações sociais defensoras do meio ambiente, direitos humanos e direitos sociais. Isto posto, afirmamos nossa preocupação com o fato de que a produção científica na área temática em questão venha a perder em substância e qualidade com a transformação de um de seus próprios objetos de estudo em co-patrocinador de pesquisas – mesmo que de modo indireto, como é o caso da concessão de Prêmios.
Entendemos, a este propósito, que empresas cuja atuação seja, com frequência, questionada como danosa a populações e ao meio ambiente, quando eventualmente dispostas a destinar recursos ao financiamento de pesquisas acadêmicas, devem submeter-se a condições definidas na estrita perspectiva do caráter público da produção científica. Propomos, por conseguinte, que a aplicação de recursos privados a premiações de pesquisas científicas passe por uma instância pública que regule a distribuição dos recursos e que critérios e dispositivos normativos sejam instituídos para lidar com casos como esses, excluindo-se, em particular, que representantes de empresas venham a compor júris na avaliação de trabalhos científicos – como é o caso neste prêmio – e que recursos devidos sob a forma de multa, condicionantes ou compensação sejam apresentados pelas empresas como patrocínio ou filantropia estratégica.

Atenciosamente,
Profa. Ester LimonadPresidente da ANPUR”
Com informações do Brasil de Fato

 

A atualidade de uma marxista rebelde

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Ciclo de debates examina ideias de Rosa Luxemburgo – que convidam a rever, ou mesmo reinventar, pensamento de Marx

Por Antonio Martins | Imagem: Rolando Astarita no Outras Palavras

Há cinco anos, surgiu e cresce, em paralelo a uma crise do capitalismo duradoura e de final imprevisível, um movimento intelectual surpreendente: a reabilitação das ideias de Karl Marx. O filósofo alemão, que muitos desprezaram após a queda do Muro de Berlim, está de volta. Seus livros são republicados em todo o mundo, com tiragens e repercussão expressivas. Não raro, sua importância e contemporaneidade são reconhecidas até mesmo por publicações conservadoras e por consultores ilustres das grandes finanças globais.

No Brasil, este resgate pode avançar um pouco mais a partir de hoje (19/3), de maneira aparentemente paradoxal. Um curso, em São Paulo, examinará a obra de uma pensadora e militante que se apaixonou pelo marxismo muito jovem, viveu intensamente sob sua influência e contribuiu para enriquecê-lo – mas foi esquecida, no século 20, tanto pelo socialismo soviético quanto pelas correntes hegemônicas entre a esquerda. Estamos falando de Rosa Luxemburgo.

O curso será conduzido pela filósofa Isabel Loureiro, provavelmente a principal estudiosa da obra de Rosa Luxemburgo no Brasil. Autora de diversos livros sobre a líder da Revolução Alemã de 1918 (1 2 3), organizadora de uma vasta coletânea sobre sua obra, em três volumes (1 2 3), Isabel avalia que Rosa tornou-se ainda mais atual, hoje, pelos motivos que a fizeram maldita no passado.

Talvez o primeiro deles seja um ponto de vista extremamente sofisticado sobre Revolução, Reformas e Poder. Rosa enxergava a importância (e a beleza…) das mudanças inesperadas, dos grandes movimentos da História em que as maiorias desafiam o automatismo enfadonho das relações sociais e viram a mesa. Mas via estes momentos como a abertura de um longo processo de mudanças, não como mera oportunidade para instalar novos grupos no poder de Estado.

Disso derivava seu grande empenho em construir formas avançadas de democracia. Para transformar a vida, pensava Rosa, as sociedades precisavam enxergá-la; deviam superar a alienação, a repetição quase inconsciente de relações consolidadas ao longo do tempo. Esta lenta conquista de autonomia exige, é claro, abertura ao debate, à crítica e à polêmica. Por isso, Rosa, embora aliada a Lênin na luta contra o amortecimento e burocratização do marxismo, no início do século 20, divergiu abertamente das tendências centralizadoras do revolucionário russo. Em consequência, “foi posta no índex dos partidos comunistas”, diz Isabel Loureiro.

Mas esta combinação de rebeldia contra o capitalismo e desejo de valorizar a autonomia não fará de Rosa uma autora a ser estudada com atenção especial em nossos dias? Sua obra não será, de certa forma, um convite a rever a obra de Marx e reinventar seus sentidos? Isabel pensa que sim. Construiu o curso que começa hoje buscando recuperar, precisamente, as possíveis contribuições da marxista assassinada em 1918 a uma época marcada por reviravoltas na América do Sul, grandes mobilizações da juventude em todo o mundo e… necessidade de construir alternativas.

Realizado em sessões semanais (às terças feiras, das 19h às 22h), o curso estende-se até 31/5, dividido em três blocos: I. Rosa Luxemburgo e o Marxismo; II. Revolução, Democracia e Socialismo; III. A atualidade de ‘A Acumulação do Capital’ na América Latina e a crítica do Progresso. O programa completo e a ficha de inscrição podem ser acessados no site da Fundação Rosa Luxemburgo, que promove o curso em sua sede, no bairro de Pinheiros. A participação é grátis; mas as vagas, limitadas, por exiguidade de espaço.

Na entrevista abaixo, Isabel Loureiro antecipa a “Outras Palavras” o que espera do curso. Ela, que dedicou um dos três volumes da coletânea de Rosa à correspondência trocada com amigos e amantes, frisa: “Pelas cartas, podemos acompanhar seu doloroso processo de amadurecimento, conflitos amorosos, desejo de ser feliz, suas reclamações de como a vida política era desumana, seu grande amor à natureza e suas reflexões sobre arte”.

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Isabel Loureiro: “Rosa tem uma concepção aberta do marxismo. Para ela, Marx não era uma Bíblia com verdades prontas e imutáveis, mas manancial que permite levar adiante trabalho de compreensão do mundo contemporâneo”

Pouco mais de um ano depois de lançar uma coletânea de três volumes sobre a obra de Rosa Luxemburgo, você prepara um seminário de três meses sobre o tema. Em que Rosa e sua visão particular do marxismo podem ajudar os novos movimentos que questionam o capitalismo no século 21?

Essa foi precisamente a pergunta que me fiz quando comecei a preparar o seminário. Por que, quase cem anos depois de seu assassinato, voltar a discutir as ideias de uma revolucionária marxista clássica, formada na cultura humanista europeia do século 19, cujo mundo desmoronou com a Primeira Guerra Mundial? A resposta não é evidente. Por que sua interpretação de Marx ainda hoje é atual? Para começar, Rosa tem uma concepção aberta do marxismo. No seu entender a teoria de Marx não era uma Bíblia com verdades prontas e imutáveis que os fieis tinham que seguir sem questionar, mas um manancial inesgotável que permite levar adiante o trabalho de compreensão do mundo contemporâneo.

Por isso mesmo, ela nunca hesitou em criticar as vacas sagradas do marxismo europeu, como Bernstein e Kautsky, e nem sequer o próprio Marx. Essa independência intelectual é, para os marxistas – que infelizmente têm uma tendência ao dogmatismo e à ossificação – uma indicação de que precisam continuar pesquisando e criando conceitos que permitam dar conta da nova fase da acumulação do capital e da nova situação em que se encontram as forças sociais. Além disso, Rosa acrescenta à teoria de Marx algo original, propriamente seu: a ideia de que as transformações sociais são fruto da ação autônoma das massas populares que, na luta quotidiana pela ampliação de direitos e, sobretudo, na luta revolucionária pela transformação radical da sociedade capitalista, ou seja, no seu processo de existência real, forjam sua consciência político-social. Em resumo, e simplificando muito, se queremos mudar o que está aí, devemos agir aqui e agora, porque a nossa ação é o que pode interromper o curso da história em direção ao abismo.

Alguns aspectos centrais que você enxerga no pensamento de Rosa têm muito a ver com a nova cultura política de autonomia e horizontalidade. Por que você a identifica com a crítica ao vanguardismo, à burocratização e ao centralismo?

Esses pontos que você menciona resumem bem o que opôs Rosa Luxemburgo à social-democracia e ao bolchevismo e continuam sendo de grande atualidade na cultura da esquerda. Durante o século 20, Rosa foi posta no índex dos partidos comunistas devido à sua crítica a Lênin e aos bolcheviques. Foi usada como ícone revolucionário pelos comunistas da antiga Alemanha Oriental (RDA), mas suas ideias democráticas e libertárias foram deixadas na sombra ou censuradas. O stalinismo acusou-a de espontaneísta, de não dar importância à organização política.

É preciso deixar claro que Rosa não é contra a organização (afinal ela sempre militou num partido político), e sim contra uma concepção de partido como vanguarda de revolucionários profissionais, hierarquicamente separada das massas, e que leva de fora a consciência às massas informes. Essa crítica era endereçada tanto à social-democracia, quanto ao bolchevismo. Para Rosa, que é herdeira do Iluminismo, o verdadeiro líder político é aquele que esclarece, que destrói a cegueira da massa, que transforma a massa em liderança, que acaba com a separação entre dirigentes e dirigidos, que contribui para formar aquilo que ela considera o mais importante pré-requisito de uma humanidade emancipada: a autonomia intelectual, o pensamento crítico das massas trabalhadoras. E, por sua vez, a autonomia intelectual requer a existência de liberdades democráticas: direito de reunião, associação, imprensa livre, etc. Daí a crítica que Rosa faz aos bolcheviques por terem eliminado o espaço público, que ela vê como o único antídoto contra a burocratização do partido e dos sovietes.

No seminário, uma sessão é dedicada à “dialética entre reforma e revolução”. Algumas das características mais marcantes da nova cultura é o desejo de produzir mudanças, ainda que parciais; a recusa a reduzir a política a eleições, ou mesmo a apostar na revolução como um momento mágico e transcendente, em que toda a sociedade se transforma. O que Rosa poderia dizer sobre isso?

Esse é mais um ponto em que Rosa continua sendo atual. Ela queria uma humanidade em que houvesse liberdade e justiça social; para isso, era necessário passar do capitalismo ao socialismo. Porém, essa transição só seria possível com a mais ampla participação dos de baixo nos assuntos que lhes dizem respeito, o que significava um longo processo de amadurecimento, de correção de rota, etc. Daí a necessidade do debate público. A revolução não consistia na troca de homens no poder, era muito mais que isso, era todo um processo econômico, social, cultural e, claro, político – isto é, de tomada do poder pelos trabalhadores, que levaria muito tempo para se efetivar. Resumindo: no pensamento de Rosa Luxemburgo a ideia de tomada do poder – revolução como quebra rápida das relações de poder existentes – não se separa da ideia de mudança estrutural da sociedade, o que implica mudança de valores, ou seja, uma revolução no longo prazo. Para ela, as duas coisas precisam ocorrer conjuntamente.

Vivemos num mundo em que estão abertas janelas tanto para enormes transformações como para riscos de desumanização inéditos. Estão aí os drones, a tentativa de controlar a internet e vigiar os cidadãos por meio dela, os sinais de xenofobia, os grupos nazistas em certos países europeus. “Socialismo ou barbárie”, uma consigna de Rosa, tem a ver com este futuro tão aberto?

Quando Rosa diz que a humanidade está perante o dilema “socialismo ou barbárie”, o que ela tem diante dos olhos é o horror da Primeira Guerra Mundial que, para aquela geração, foi um cruel divisor de águas. Pela primeira vez, as pessoas se deram conta de que os avanços tecnológicos podiam ser mortíferos, de que a modernização capitalista destruiria todos os obstáculos que aparecessem no caminho de seu avanço infernal. E a esquerda radical alemã, de que Rosa era uma das lideranças, via no socialismo a única alternativa capaz de barrar essa descida aos infernos.

Mas, ao mesmo tempo, ela também se dava conta de que, com a guerra e o chauvinismo, que haviam engolido as massas trabalhadoras europeias, a luta em prol do socialismo tinha se tornado infinitamente mais difícil. Acho que podemos fazer um paralelo com o que se passa hoje. Depois da queda do comunismo burocrático, parecia que agora sim o terreno estava finalmente livre para que as ideias socialistas democráticas vingassem. Mas o que vemos é que, precisamente num momento em que o capitalismo está em crise e sofre um golpe poderoso, no momento em que constantes e gigantescas manifestações da população europeia mostram claramente que o capitalismo chegou ao fim da linha, o que acontece em termos de mudança no rumo de uma sociedade mais justa, mais igualitária? Absolutamente nada!

Os governantes continuam fazendo os ajustes pedidos pelo capital financeiro e as populações vivem num permanente estado de sítio econômico, sem saber o que o dia de amanhã lhes reserva. Precisamos nos perguntar por que, precisamente num momento em que caiu a máscara ideológica do neoliberalismo, a esquerda não consegue aparecer como alternativa. É necessário rever a história da esquerda institucional europeia para entender porque isso acontece. E aqui, mais uma vez, Rosa Luxemburgo tem o que dizer com sua crítica à adesão da social-democracia alemã ao estado de coisas vigente.

A democracia institucional está esvaziada e em crise, mas os novos movimentos reivindicam formas cada vez mais democráticas de decisão — inclusive em seu próprio interior. De que forma o debate sobre o partido, que opôs Rosa Luxemburgo a Lênin, no início do século XX, pode informar este anseio por democracia?

É preciso que fique claro que Rosa Luxemburgo é contra a abolição da democracia “burguesa” tal como ocorreu no mundo soviético. O que ela quer é complementar a liberdade política com a igualdade social. Isso significa que o pluralismo partidário, a imprensa livre, a liberdade de associação, etc. devem ser preservados. Rosa era uma marxista clássica, como eu disse, que tinha uma visão muito crítica dos regimes autoritários do seu tempo, como o czarismo e o império alemão.

Ao mesmo tempo, também se deve enfatizar que ela, diferentemente de seu companheiro de partido Eduard Bernstein, não tem ilusões quanto à democracia burguesa parlamentar. Ela não acredita na transição ao socialismo pela via eleitoral. Durante a revolução alemã de 1918, Rosa ficou entusiasmada com os conselhos de operários e soldados que surgiram no início do movimento, vendo neles uma forma de ampliar a participação dos de baixo. Mas não foi muito longe nestas reflexões, pois foi assassinada pouco tempo depois.

É muito comum que a esquerda libertária recorra ao exemplo dos conselhos como panacéia que supostamente resolveria os problemas da democracia representativa. É sem dúvida uma forma democrática que deve ser preservada, sobretudo no âmbito local. Mas penso que devemos pensar, como Rosa indicou sem aprofundar em seu texto de crítica aos bolcheviques escrito na prisão em 1918, que o ideal é combinar mecanismos de democracia representativa com mecanismos de democracia direta.

Hugo Chávez, símbolo do “socialismo do século 21″ para parte da esquerda, baseou sua ação num Estado forte e num comando centralizado. Em contrapartida, os zapatistas difundem a ideia de  ”mudar o mundo sem tomar o poder”, cunhada por John Holloway. O que o pensamento de Rosa  sugeriria, sobre esta polêmica?

Rosa defende a tomada do poder de Estado pelos trabalhadores. Nesse sentido, ela se oporia à fórmula de Holloway. No entanto, ao defender a necessidade da transformação radical dos valores burgueses-capitalistas na transição ao socialismo ela percebe que a revolução é um processo muito mais complicado, lento e doloroso que a simples tomada do poder de Estado. Ao mesmo tempo, ela não recusa a tomada do poder, vendo aí um meio de acelerar as mudanças necessárias. Porém, acima de tudo, para Rosa Luxemburgo, o novo grupo que chega ao poder tem a obrigação de preservar e/ou construir mecanismos de participação, de formação política, de criação de autonomia da massa popular e não eliminar os mecanismos democráticos existentes, como se fossem apenas expressão da dominação burguesa.

Crescem em todo o mundo, e em particular no Brasil, os movimentos que criticam a crença cega no “desenvolvimento”. A tradição marxista mais difundida também é desenvolvimentista. Materialista, acredita que o “desenvolvimento das forças produtivas” é anterior aos avanços da consciência. Rosa tem algo a dizer sobre isso?

Rosa é filha do seu tempo, e também filha do marxismo do seu tempo. Isso quer dizer que, por um lado, ela é defensora do desenvolvimento das forças produtivas, ou seja, da modernização capitalista. Mas, por outro – e isso é interessante e atual sobretudo para nós da América Latina –, ela também enfatiza o aspecto sombrio dessa modernização capitalista, com todo o seu conhecido séquito de horrores: destruição violenta de modos de vida primitivos pelo capitalismo europeu, a fim de submetê-los aos mecanismos do mercado; guerra do ópio na China; enriquecimento da metrópole às custas do endividamento da periferia; acumulação de capital mediante compras de armas pelo Estado, o que favorece guerras de todos os tipos, etc. Essa postura avessa ao eurocentrismo e à ideia de que o progresso da civilização justifica os sofrimentos dos povos periféricos dá-nos elementos para repensar no que consiste verdadeiramente o progresso e se o capitalismo é mesmo o horizonte inelutável da humanidade.

De que forma permanece atual a noção de imperialismo, que era cara a Rosa Luxemburgo? Como este conceito sobrevive num mundo marcado pelo declínio dos EUA e Europa, pela ascensão dos BRICS e, ao mesmo tempo, pela difusão, nestes países, dos modos de vida típicos do capitalismo?

Para Rosa, o imperialismo não é, como para Lênin, uma “etapa superior do capitalismo” e sim uma característica do capitalismo desde as origens. Desde o início, o capitalismo precisou de mercados externos (por exemplo, ao transformar as economias primitivas em economias de mercado) para se reproduzir. A violência e o saque das camadas sociais não-capitalistas, que Marx restringia ao período da chamada “acumulação primitiva”, Rosa Luxemburgo considera uma característica do capitalismo até sua plena maturidade.

Hoje assistimos à mercantilização de tudo que ainda não foi transformado em mercadoria: serviços públicos, saúde, educação, cultura, conhecimento, direitos autorais, recursos ambientais, etc. É precisamente aqui que David Harvey, ao analisar o novo imperialismo, procede a uma interessante atualização da teoria de Rosa Luxemburgo, forjando o conceito de “acumulação por expropriação”. As feministas alemãs, também inspiradas em Rosa, incluem nesse âmbito o trabalho doméstico feminino. Logo, como podemos ver, apesar da ascensão dos BRICS, e apesar de algumas alterações na divisão do mundo entre centro e periferia, a verdade é que o imperialismo, ainda que novo, vai bem, obrigado.

Um dos três volumes da coletânea organizada por você trata da vida privada de Rosa, recupera cartas pessoais, discute sua condição de mulher. Por que este destaque, pouco comum na literatura marxista?

Antes de mais nada, é preciso observar que tivemos a sorte de suas cartas terem sido preservadas praticamente intactas graças à devoção dos amigos. Essa correspondência é um documento precioso sobre o socialismo alemão e internacional da época. Mas a minha escolha recaiu sobre as cartas aos amantes e amigos, pois queria mostrar, pelo exemplo de uma revolucionária, que mesmo a militância política requer qualidades que muitas vezes são desprezadas como pequeno-burguesas, ou sei lá o que.

O exemplo de Rosa se opõe à imagem falsificada do militante como um ser puritano que dedica 24 horas do dia à causa revolucionária. Pelas cartas, podemos acompanhar seu doloroso processo de amadurecimento, conflitos amorosos, desejo de ser feliz, suas reclamações de como a vida política era desumana, seu grande amor à natureza, reflexões sobre arte.

Ela vai se libertando aos poucos de um relacionamento amoroso que não a satisfazia e se afirmando como uma intelectual dona do seu nariz, que intervém no espaço público, que não teme enfrentar as vacas sagradas da social-democracia alemã, com uma vida privada bastante livre para os valores da época. É uma personagem muito rica do ponto de vista emocional, uma ótima escritora, uma pessoa com um amplo espectro de interesses: fala de pintura, literatura, botânica, geologia, e, sobretudo nas cartas da prisão, descreve o pouco de natureza que pode enxergar da janela da cela ou do pátio da prisão com grande sensibilidade e riqueza de detalhes. As cartas aos amigos eram seu jeito de fugir do cárcere. As cartas da prisão, publicadas pela primeira vez logo depois do seu assassinato e republicadas inúmeras vezes, levaram gerações de militantes a se interessarem por Rosa Luxemburgo. Quem sabe acontece o mesmo com a nossa coletânea, publicada em 2011 pela Editora UNESP?

Liminar de Cármen Lúcia suspende efeitos da lei dos royalties

Por Maíra Magro no Valor

A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia concedeu uma liminar na noite desta segunda-feira que suspende os efeitos da nova lei dos royalties do petróleo, que alterou os critérios de distribuição entre os Estados. A liminar atendeu um pedido do governo do Rio de Janeiro, que entrou no STF com uma ação direta de inconstitucionalidade contra a nova lei.

A norma foi publicada no Diário Oficial da União na sexta-feira, 15. No mesmo dia, os governos do Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo, principais Estados produtores, recorreram ao STF contra as mudanças, como haviam anunciado que fariam caso o Congresso derrubasse os vetos da presidente Dilma Rousseff. Com a derrubada dos vetos, os Estados produtores perderam parte de sua receita com os royalties.

Nas ações, os governos do Rio, Espírito Santo e São Paulo também pediram a concessão de uma liminar suspendendo os efeitos da lei até o julgamento do mérito. Ao conceder a liminar, a ministra Cármen Lúcia justificou que o caso é urgente, com “riscos objetivamente demonstrados” e que os efeitos da lei, se implementada, são de “difícil desfazimento”.

Cabral

O governo do Rio alegou no processo que a mudança no sistema de distribuição dos royalties provoca um “desequilíbrio orçamentário”. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, soltou uma curta nota para comentar a decisão liminar da ministra Carmen Lúcia. Na nota, Cabral diz que a decisão da ministra resgata o compromisso com o estado democrático de direito.

“A decisão da ministra Carmen Lúcia resgata o valor mais importante da Constituição de 88: o seu profundo compromisso com o Estado Democrático de Direito”.

Inglaterra aprova novo marco regulatório da imprensa

Enquanto a polícia britânica investiga centenas de novos casos de escutas telefônicas ilegais envolvendo o grupo Murdoch, os três principais partidos políticos fecharam um acordo, domingo à noite, sobre a regulação da imprensa escrita. O novo marco regulatório estabelece multas de até um milhão de libras e obriga os periódicos a pedir desculpas publicamente em caso de prática de abusos.


Por Marcelo Justo na Carta Maior

Londres – A polícia está investigando centenas de novos casos de escutas telefônicas da extinta publicação dominical do grupo Murdoch, “News of the World”. As revelações de um informante do periódico colocam outra vez contra as cordas o império midiático que, mediante indenizações e acordos extrajudiciais, estava tentando sepultar a investigação. Enquanto isso, os três principais partidos políticos fecharam um acordo, domingo à noite, sobre a regulação da imprensa escrita. “Minha mensagem à imprensa é claro. Debatemos o tema. É hora de olhar para a frente e fazer funcionar este novo sistema”, disse o primeiro ministro David Cameron em uma sessão emergencial do parlamento.
O novo marco regulatório, que estabelece multas de até um milhão de libras e obriga os periódicos a pedir desculpas publicamente em caso de prática de abusos, contará com a sanção da rainha Elizabeth II por meio de um Ato Real e só poderá ser modificado com uma maioria parlamentar de dois terços. O acordo interpartidário esconde uma surda batalha em torno do tema. Em novembro passado, a Comissão Leveson propôs a continuidade do sistema de auto-regulação da imprensa com um código de conduta mais rígido e a criação por lei de um novo organismo supervisor que vigiasse o cumprimento das normas. A proposta era moderada, mas a maioria dos grandes meios de comunicação colocou a boca no trombone e o primeiro ministro conservador David Cameron convocou uma negociação com os outros partidos deixando claro que se opunha a que o parlamento sancionasse uma lei porque era “uma ameaça à liberdade de imprensa”.

Nos meses de negociação interpartidária que se seguiram os conservadores propuseram um Ato Real para resolver a falta de base legal que o novo marco apresentaria. A proposta foi rechaçada por seus aliados no governo, os liberal-democratas, e pela oposição trabalhista e as vítimas de abusos da imprensa, reunidos em torno do grupo Hacked off. Na quinta-feira passada, o primeiro ministro David Cameron deu por finalizadas as negociações e convocou uma votação parlamentar para esta segunda-feira. Na última hora da noite de domingo, chegou-se a um acordo mediante um subterfúgio. As três partes apoiavam a promulgação de uma lei que estipula que um Ato Real só poderá ser revogado por dois terços da Câmara dos Lordes e dos Comuns. Assim, ambas as partes puderam reivindicar uma vitória política. A interrogação que fica é se este novo marco evitará novos abusos.

A auto-regulação da imprensa foi consagrada em 1953 como uma espécie de princípio democrático sagrado, mas foi questionada e examinada por sete comissões nas últimas décadas. A última delas, formada durante os escândalos familiares que sacudiram a família real (Princesa Diana, divórcios, etc.) no início dos anos 90, concluiu que era a última oportunidade para a auto-regulação da imprensa. O experimento falhou como ficou claro no escândalo das escutas telefônicas. O próprio David Cameron se viu obrigado a criar, em julho de 2011, uma nova comissão investigadora da imprensa depois que se revelou que o “News of the World” havia invadido o celular de uma adolescente desaparecida e surgiram em série denúncias similares de vítimas de violações familiares de soldados mortos no Afeganistão e Iraque ou qualquer outro tema que tenha despertado a atenção do olho midiático.

Desde o surgimento do primeiro caso, em 2005, – a escuta telefônica do príncipe William – 16 pessoas foram levadas a julgamento, entre elas a outrora número dois de Ruppert Murdoch, Rebekah Brooks, e o ex-chefe de imprensa do primeiro-ministro Cameron e ex-editor do dominical, David Coulson. O grupo Murdoch aceitou pagar indenizações em 254 casos e há mais de 250 processos iniciados, que incluem a esposa de Tony Blair, Cherie, e Ted Beckham, pai do jogador de futebol. Em fevereiro deste ano, seis diretores do “News of the World” foram presos e na quinta passada o escândalo se estendeu a outro grupo, o Trinity Mirror, com a prisão de Tina Weaver, ex-editora do “Sunday Mirror”, e outros três colegas seus. Nesta segunda-feira, um advogado das vítimas, Hugh Tomilson, disse ao Alto Tribunal de Londres que a polícia havia descoberto centenas de novos casos de escutas telefônicas.

Até aqui, o golpe mais duro atingiu Rupert Murdoch e a News Corporation, segundo grupo midiático do mundo. Murdoch teve que abandonar sua tentativa de obter o controle absoluto da cadeia BSkyB e prestou dois depoimentos no parlamento. Em maior do ano passado, a Comissão de Cultura, Meios de Comunicação e Esportes declarou que ele não era “uma pessoa com as condições requisitos” para estar a frente de uma companhia internacional. Embora o controle acionário da News Corporation (cerca de 39%) permita-lhe manter as rédeas do grupo, sua influência diminuiu. Nos últimos meses, abriu mão de um milhão de ações da empresa e seu filho James, até antes do escândalo considerado o herdeiro do grupo, renunciou no ano passado como diretor executivo da News International, o braço britânico da empresa, e como presidente da BSkyB.

James Murdoch declarou repetidamente que todo o escândalo das escutas se devia a “uma maçã podre”. O golpe letal para sua carreira e a de seu pai será se a investigação policial em curso determinar que um dos dois ou ambos conheciam e concordavam com uma prática de espionagem jornalística que era “vox populi” em ambientes da imprensa e que havia chegado à cultura popular das séries televisivas sobre o jornalismo.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Kirchner pede intervenção do Papa na disputa pelas Ilhas Malvinas

Na Carta Capital

ROMA (AFP) – A presidente argentina, Cristina  pediu nesta segunda-feira 18 “a intervenção” do Papa Francisco, seu compatriota, na disputa entre o seu país e a Grã-Bretanha pela soberania das Ilhas Malvinas.

O Papa recebe a presidente argentina no Vaticano. Foto: AFP

O Papa recebe a presidente argentina no Vaticano. Foto: AFP

“Eu pedi a mediação dele para iniciar um diálogo entre as duas partes”, declarou Kirchner em Roma, após almoçar com o Papa, o ex-arcebispo de Buenos Aires Jorge Mario Bergoglio.

A presidente lembrou que o Papa João Paulo II também agiu como mediador entre o Chile e a Argentina para resolver tensões fronteiriças nas proximidades do canal de Beagle. “Agora temos uma oportunidade histórica muito diferente, muito mais favorável”, declarou.

Segundo ela, a Grã-Bretanha e Argentina são democracias, ao contrário da Argentina e Chile dos anos de 1970. “A Argentina é um país mais que pacífico e, portanto, o que queremos é o cumprimento das múltiplas resoluções das Nações Unidas, sentar para dialogar.”

Após a eleição de Bergoglio, a imprensa britânica trouxe à tona declarações feitas em 2011 pelo pontífice nas quais se referiu às ilhas como “nossas”.

Os habitantes das Ilhas Malvinas, arquipélago que o Reino Unido chama de Falklands, votaram neste mês a favor de continuar como um Território Ultramarítmo Britânico, em um referendo não reconhecido pela Argentina.

O governo argentino considera que os malvinenses são uma população implantada desde que o Reino Unido tomou o controle em 1833 deste arquipélago do Atlântico Sul. As ilhas ficam a 400 quilômetros da costa argentina e a 12,7 mil de Londres.

Após a guerra travada pelos dois países pelo território em 1982, que terminou com a morte de 649 argentinos e 255 britânicos, a Argentina reclama a soberania e pede respeito às resoluções da ONU que desde 1965 chamam as partes ao diálogo. Mas a Grã Bretanha rejeita qualquer negociação, insistindo no direito de autodeterminação dos habitantes.

A iniciativa de Kirchner em falar do tema surpreendeu a todos na véspera da entronização do primeiro papa sul-americano. Por sua vez, o Vaticano não difundiu nenhum comunicado sobre o encontro entre os dois. O porta-voz da Santa Sé se limitou a citar uma reunião “muito informal” de 15 a 20 minutos “em privado”.

Um Papa “sereno, seguro, em paz”

Francisco e Kirchner mantiveram um diálogo “frutífero”, na Casa Santa Marta, residência provisória do Papa, explicou a presidente argentina. “Vi um homem sereno, seguro, em paz”, disse .

O Papa recebe a presidente argentina no Vaticano. Foto: AFP

A presidente argentina pediu o apoio do Papa na disputa do país com o Reino Unido pelas Ilhas Malvinas.  Foto: AFP

O pontífice lhe deu uma rosa branca, “um presente íntimo, quase pessoal”, declarou ela, que ofereceu uma cuia de chimarrão feita por cooperativistas argentinos e um poncho “para que se proteja do frio”.

Kirchner e o antes arcebispo de Buenos Aires mantêm relações tensas e espera-se que este encontro sirva para aproximar as duas partes.

As divergências entre ambos começaram durante a presidência de seu marido, o falecido Néstor Kirchner, que não apreciava as críticas nas homilias do então arcebispo, que denunciava com frequência o escândalo da pobreza ou o flagelo da droga e do crime na Argentina.

Néstor Kirchner chegou a classificar Bergoglio de “verdadeiro líder da oposição”. A relação ficou ainda mais tensa com a legalização, em 2010, do casamento homossexual na Argentina.

Francisco I e a repressão: algo a esconder?

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Por Amy Goodman no Outras Palavras

Jornalista argentino que investigou relações entre ditadura e Igreja revela papel real de Bergoglio. Também prevê: Papa será um “conservador-populista”

Entrevista a Amy Goodman e Juan González, em Democracy Now | Tradução: Gabriela Leite

No início desta semana, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi eleito por seus pares como novo Papa da Igreja Católica. Assumiu o posto sob o título de Francisco. Imediatamente, vieram à tona os laços de cumplicidade mantidos entre a cúpula eclesiástica argentina e a ditadura militar, no poder entre 1976 e 83. Qual teria sido o papel de Bergoglio nestas relações perigosas?

Um dos principais jornalistas investigativos da Argentina, Horacio Verbitsky (hoje no diário “Pagina 12”) escreveu extensivamente sobre a carreira do Cardeal Bergoglio e suas ações no período, em que mais de 30 mil pessoas foram sequestradas e assassinadas. Uma ação judicial de 2005 acusou Jorge Bergoglio de estar conectado aos sequestros de dois padres jesuítas em 1976, Orlando Yorio e Francisco Jalics. A ação foi protocolada após a publicação do livro de Verbitsky, “O Silêncio: De Paulo VI a Bergoglio: As Relações Secretas entre a Igreja e a ESMA”. ESMA é a antiga Escola Superior de Mecânica da Marinha argentina, transformada em um centro de detenção onde prisioneiros eram torturados pela ditadura militar.

Bergoglio negou as acusações. Ele invocou duas vezes seu direito, sob a lei argentina, de recusar-se a depor no processo aberto para apurar os fatos. Quando finalmente o fez, em 2010, os ativistas de direitos humanos caracterizaram suas respostas como evasivas. Na última quarta-feira (13/3), Verbitsky falou a “Democracy Now” sobre o passado do novo Papa, e também sobre seu perfil.

 

Horácio Verbitsky: um jornalista de rara profundidade e um ativista pelos direitos humanos

Horácio Verbitsky: jornalista de rara profundidade e ativista pelos direitos humanos

Amy Goodman: Para começar, gostaria que você nos contasse o que acha importante para entendermos o perfil do novo Papa, Francisco.

O principal a se entender sobre Francisco I é que ele é um conservador populista, ao mesmo estilo de João Paulo II. É um homem de posições conservadoras fortes em questões de doutrina, mas com um toque popular. Prega em estações de trem, nas ruas. Vai até os bairros pobres para rezar. Não espera as pessoas irem até a igreja, vai até elas. Mas a mensagem é absolutamente conservadora. Ele opôs-se ao aborto, à lei do casamento homoafetivo. Lançou uma “cruzada contra o mal”, quando o Congresso estava aprovando esta lei, exatamente no mesmo estilo de João Paulo II. Isso é o que considero ser a característica principal do novo papa.

Juan González: Bem, talvez este conservadorismo seja característica comum de muitos cardeais consagrados nos dois últimos papados. Mas no caso de Bergoglio, existe também a questão de seu papel, ou das acusações sobre seu envolvimento na “Guerra Suja”, na Argentina. Você, que fez diversas reportagens investigativas sobre o tema, poderia nos dizer algo a respeito?

É claro. Ele foi acusado por dois padres jesuítas de tê-los denunciado aos militares. Faziam parte de um grupo sob direção de Bergoglio. Ele tornou-se o superior provincial da ordem, na Argentina, quando ainda muito jovem. Foi o provincial jesuíta mais novo da história: aos 36 anos [em 1972]. Durante um período de grande atuação política na Companhia de Jesus, ele estimulou o trabalho social dos jesuítas. Mas quando o golpe militar derrubou o governo de Isabel Perón, ele mantinha contato com os militares e pediu aos jesuítas para interromperem a ação social. Como recusaram-se a fazê-lo, deixou de protegê-los, e permitiu que os militares soubessem que eles não estavam mais sob proteção da Companhia de Jesus. Eles foram sequestrados e o acusam por esta ação. Ele nega. Ele disse a mim que tentou libertá-los, que falou com os ex-ditadores Videla e Massera para libertá-los.

Durante um longo período, ouvi duas versões: a versão dos dois padres sequestrados, que foram soltos depois de seis meses de tortura e cativeiro, e a versão de Bergoglio. Essa foi uma questão controversa e divisiva no movimento de direitos humanos a que pertenço, o Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS). O presidente fundador do CELS, Emilio Mignone, afirmou que Bergoglio era cúmplice dos militares. Uma advogada do CELS, Alicia Oliveira, que era amiga de Bergoglio, conta outra parte da história, que Bergoglio os ajudou. Essas são as duas versões.

Mas durante a pesquisa para um dos meus livros, encontrei, no arquivo do ministério de Relações Exteriores da Argentina, documentos que, segundo entendo, encerram o debate e mostram o duplo padrão que orientou Bergoglio. O primeiro documento era uma nota na qual ele pedia ao ministro a renovação do passaporte de um desses jesuítas, sem que tivesse necessidade de voltar à Argentina. O segundo, é uma nota do oficial que recebeu a petição, recomendando a seu superior, o ministro, a recusa da renovação do passaporte. E o terceiro documento é uma nota do mesmo oficial, dizendo que esses padres tinham ligação com a subversão – era assim que os militares caracterizavam qualquer pessoa envolvida com a oposição do governo, política ou armada –; que ele havia sido preso na ESMA; e que essa informação fora dada pelo Padre Jorge Mario Bergoglio, provincial superior da Companhia de Jesus.

Isso significa, no meu entendimento, um duplo padrão. Ele pediu o passaporte para o padre em uma nota formal, com sua assinatura; mas, em privado, disse o oposto, e repetiu as acusações que fizeram os padres ser sequestrados.

Amy Goodman: Você pode explicar o que aconteceu a estes padres, Orlando Yorio e Francisco Jalics?

Ambos, quando soltos, estavam drogados, confusos. Foram transportados de helicóptero para a periferia de Buenos Aires e abandonados. Quando encontrados, dormiam sob efeito de drogas, em péssima condição. Haviam sido interrogados e torturados. Um dos interrogadores aparentava ter conhecimento de questões teológicas, o que levou um dos padres, Orlando Yorio, a pensar que seu próprio provincial, Bergoglio, estivesse envolvido no interrogatório.

O cardeal Bergoglio, que costumava usar o metrô de Buenos Aires. Para Verbitsky, "ele vai aos bairros pobres, mas mensagem é absolutamente conservadora".

O cardeal Bergoglio, que costumava usar o metrô de Buenos Aires. Para Verbitsky, “ele vai aos bairros pobres, mas mensagem é absolutamente conservadora”.

Amy Goodman: Segundo este padre, o próprio Bergoglio teria feito parte de seu interrogatório?

Ele me disse que teve a impressão de que seu próprio provincial, Bergoglio, estava presente durante o interrogatório, no qual um dos interrogadores sabia bastante sobre questões teológicas. Quando solto, ele foi a Roma, onde viveu sete anos, antes de voltar à Argentina. Ao regressar, ligou-se à diocese de Quilmes, na Grande Buenos Aires, cujo bispo era um dos líderes do ramo progressista da igreja argentina, oposto ao de Bergoglio. Então, Orlando Yorio denunciou Bergoglio. Eu recebi seu testemunho quando Bergoglio foi eleito arcebispo de Buenos Aires. E também entrevistei Bergoglio, que negou as acusações, dizendo que defendeu os padres.

Orlando Yorio colocou-me em contato com o outro padre, Francisco Jalics, que vivia na Alemanha. Ele confirmou a história, mas não quis ser mencionado em minha matéria, porque preferia, segundo disse, não lembrar dessa triste parte de sua vida e perdoar. Acrescentou que havia passado muitos anos ressentido com Bergoglio, mas estava disposto a perdoar e esquecer. Quando publiquei meu livro sobre o caso, um jornalista argentino que havia sido discípulo de Jalics falou com ele e pediu que contasse a verdadeira história. Jalics respondeu que não iria nem afirmá-la, nem negá-la.

Juan González: Gostaria de indagar sobre outro padre que se envolveu com a Guerra Suja, Christian von Wernich, um antigo capelão do Departamento de Polícia na Argentina.

Ele foi condenado, e ele está na cadeia, em prisão comum. Mas a igreja argentina, durante o mandato de Bergoglio, não o puniu, em termos canônicos. Ele foi condenado pela justiça humana mas, pelos padrões da igreja, continua a ser um padre. Isso também diz algo sobre Bergoglio e a igreja argentina.

Juan González: Von Wernich estava envolvido em assassinatos, torturas e sequestros. Você poderia detalhar alguns dos crimes pelos quais foi condenado?

Von Wernich era parte ativa nas torturas e assassinatos. Foi condenado não apenas como cúmplice, mas como participante dos crimes. Estava presente durante sessões de tortura. E não há apenas um capelão envolvido, existem alguns outros que estão sob julgamento nesse momento. O capelão Regueiro está sob prisão domiciliar, por ser idoso. O capelão Zitelli, da província de Santa Fé, esteve presente em sessões de tortura. Vários capelões foram parte da Guerra Suja.

Amy Goodman: Gostaria de ler parte de um despacho do Departamento de Estado dos EUA, revelado pelo WikiLeaks, que faz referências ao padre Christian von Wernich, condenado em 2007 por cumplicidade em muitos casos de assassinato, tortura e prisões ilegais na Argentina durante o período militar. O texto observa que a condenação deu-se, cito, “no momento em que alguns observadores consideraram o Cardeal Primaz Católico Romano Bergoglio um líder da oposição ao governo de Kirchner, devido a seus comentários sobre questões sociais; o caso von Wernich poderia também ter efeito, alguns acreditam, de minar a autoridade moral de Igreja (e, por extensão, do Cardeal Bergoglio), ou sua capacidade de comentar questões políticas, sociais ou econômicas”. Horacio, você poderia comentar?

Podemos analisar este documento por partes. Primeiro, o Departamento de Estado considerou Bergoglio o chefe da oposição ao governo Kirchner. Eu concordo com esta avaliação. O Departamento de Estado também fala sobre a condenação do padre von Wernich ter, como possível objetivo, o de minar a posição de Bergoglio. Isso não é verdade, no meu entendimento. A condenação do padre von Wernich é uma consequência de um movimento que começou muito antes dos Kirchner chegarem ao poder e tem sua própria lógica judicial, não se subordina a um calendário político.

Amy Goodman: Gostaria de perguntar sobre o tema do ocultamento de prisioneiros políticos, quando uma delegação de direitos humanos foi à Argentina. Você pode relatar o episódio, as alegações e o eventual papel de Bergoglio?

Não, neste episódio Bergoglio não teve intervenção alguma. Quem agiu foi o cardeal que chefiava a igreja em Buenos Aires. À época, Bergoglio não era arcebispo. Quando a Comissão Interamericana de Direitos Humanos veio à Argentina, para investigar alegações de violação de direitos humanos, a marinha retirou 60 prisioneiros da ESMA e os levou a uma vila, usada pelo Cardeal Aramburu nos fins de semana. Este imóvel, na periferia de Buenos Aires, era também o local onde se celebrava, a cada ano, o final dos estudos, no seminário católico. A Comissão Interamericana visitou a ESMA, e não encontrou os prisioneiros que supostamente estariam lá.

Bergoglio não teve intervenção alguma no episódio. Na verdade, ele ajudou-me a investigar o caso. Deu-me a informação precisa sobre onde estavam os documentos atestando que a vila era propriedade do Arcebispado de Buenos Aires.