Arquivos anuais: 2013

Quantas questões cabem no Vale Cultura?

O Vale Cultura passa pelo desafio de desenhar sua aplicação nos mais diferentes contextos brasileiros através de uma delimitação do usufruto, levando em consideração o quadro de acesso cultural demonstrando pelas pesquisas nacionais

Por Ana Maria Amorim no Brasil der fato

Um modelo de tíquete cultural fornecido pelo Estado para ampliar o acesso à cultura está em pauta desde a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura. As questões que essa ação implicam, também. Assinado por Mata Suplicy, atual ministra da Cultura, o Vale Cultura será regulamentado até o meio deste ano, definindo o que cabe e o que não cabe na fruição deste cartão. Esta questão, como era de se esperar, não foi facilmente resolvida até o momento, tropeçando no conceito de cultura e na diversidade do país.

Desde a gestão de Gilberto Gil, no primeiro quadriênio do Governo Lula, a cultura passou a enfatizar a concepção antropológica. O conceito de cultura foi ampliado, ultrapassando a visão de bens culturais ou de belas-artes para integrar as diversas expressões culturais e modos de viver e fazer do povo brasileiro. Essa ideia foi fundamental para perceber a política cultural como integrante da cidadania, sem negar os aspectos simbólicos do campo da cultura e sem exclui-la de um projeto de desenvolvimento. O que esta definição traz de questão é a aplicabilidade, e este é um dos desafios para a implementação do Vale Cultura.

O conceito e sua aplicação tanto formam um gargalo que foi por onde passaram as primeiras discussões em torno do Vale Cultura. De início, um discurso elitista defendia o campo das chamadas belas-artes como fim do tíquete. O Vale serviria para ouvir um concerto de música clássica, mas não deveria integrar os bailes funk. Essa restrição conceitual veio como primeiro estardalhaço midiático. Em seguida, o problema já estava no alargamento conceitual. No embalo das críticas, muito foi utilizada a frase da ministra ao informar que o Vale Cultura poderia ser utilizado para compra de revistas e de pacotes de televisão fechada.

O próprio vídeo institucional do Vale Cultura, contudo, já fazia a sua própria delimitação. Ambientado em um museu, o vídeo intercala depoimentos sobre o acesso a equipamentos culturais, mostrando que 87% dos brasileiros não frequentam o cinema, 90% dos municípios não têm cinema, teatro, museu ou espaços multiuso, 92% dos brasileiros nunca foram aos museus e 78% jamais assistiram a um espetáculo de dança. O vídeo defende o Vale Cultura como um mecanismo de acesso a artes visuais, cênicas, audiovisual, música e ao patrimônio artístico nacional, prevendo o investimento de R$ 7 bilhões por ano no consumo cultural.

Relacionando as diversas visões de como deve ou não deve ser feito o uso do Vale Cultura, tem-se um impasse. A visão antropológica, que representou grandes avanços nas políticas culturais brasileiras, traz dificuldades para implementação: como usar o Vale Cultura em um modo de viver? Como enfrentar o quadro de defasagem ao acesso aos equipamentos culturais com um Vale que amplia para a comunicação ou para outros setores a possibilidade de uso? Entretanto, conforme mostra o vídeo institucional, qual o uso do Vale Cultura nos 90% dos municípios que não possuem estrutura cultural senão o consumo de bens culturais como DVDs, revistas e pacotes de TV?

As dificuldades do Vale Cultura, assim como a de qualquer outra política, cultural ou não, passam diretamente pela complexidade do país. Se o Vale Cultura incorpora a compra de revistas em bancas, poderá ele representar uma mudança no acesso aos espetáculos musicais, por exemplo? Se o Vale Cultura, por outro lado, exclui os pacotes de televisão a cabo, o que ele pode trazer de fruição para os municípios sem quaisquer equipamentos culturais? O Vale Cultura é incapaz de responder a todas as demandas que envolvem as políticas culturais brasileiras, porém, se perdido em sua aplicabilidade, pode ser apenas mais um instrumento de manter os alarmantes índices de acesso à produção cultural no país.

Circulando R$ 7 bilhões de reais por ano, cabe questionar as formas para que este montante seja utilizado, de fato, para o acesso cultural. Marta Suplicy, na última semana, voltou atrás sobre as TVs a cabo, retirando elas de possibilidade de consumo cultural. Quanto aos jogos eletrônicos, que também provocaram discussões em torno da cultura digital, coincidindo com a recente galeria do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque se dedicando aos tais jogos, a Ministra declarou que “nem pensar”. Sem poder responder a todas as desigualdades do país, mas justamente refletindo elas, o Vale Cultura passa pelo desafio de desenhar sua aplicação nos mais diferentes contextos brasileiros através de uma delimitação do usufruto, levando em consideração o quadro de acesso cultural demonstrando pelas pesquisas nacionais.

Fernando Ferro: “Barões da imprensa não têm o direito de nos calar”

Para o deputado Fernando Ferro (PE-PT), regulação da mídia britânica é exemplo a ser seguido pelo Brasil. Foto: Antonio Cruz/ABr

da assessoria de imprensa da Liderança do PT na Câmara dos Deputados, via e-mail

O deputado Fernando Ferro (PT-PE) discursou em plenário nesta terça-feira (19), sobre a decisão do parlamento do Reino Unido de promover a regulamentação da mídia naquele país. Para ele, a decisão foi um passo importante e pode ser seguida pelo Brasil. “Todas as democracias modernas têm alguns tipos de ajustes legais e jurídicos para os setores da mídia. O Brasil, para ter democracia de fato, precisa ter instrumentos de regulamentação dos seus meios de comunicação”, avaliou Ferro, que é vice-líder da Bancada do PT na Câmara.

Fernando Ferro disse que a regulamentação do setor da imprensa não pode ser confundida com censura, com ausência de liberdade de expressão. No Brasil, explicou, não se faz esse debate porque qualquer tentativa nessa direção é vista pelos “barões” da mídia como censura. “Esse é um debate que precisamos fazer. Os barões da imprensa não têm o direito de nos calar. Jornalistas e empresários amestrados querendo impedir o debate. Enquanto isso, o que se vê é a destruição de reputações, é o enxovalhamento de pessoas e fica tudo por isso mesmo”, reclamou Fernando Ferro.

O parlamentar petista lembrou que o processo no Reino Unido foi acelerado após escândalo envolvendo o magnata da imprensa britânica, Rupert Murdoch, dono do tabloide News of the Word, denunciado por práticas ilegais no exercício do jornalismo. Ferro traçou um paralelo entre o escândalo britânico e o caso brasileiro que teve como atores o jornalista e diretor da revista Veja, Policarpo Júnior, e o contraventor Carlos Cachoeira. “Eles fizeram investigações ocultas para atender interesses criminosos e interesses da mídia. O Brasil precisa impedir que esse tipo de delinquência fique impune”, enfatizou.

Para constituir o colegiado que vai mediar as decisões acerca dos procedimentos adotados pela imprensa britânica foram necessários debates que contaram com a participação dos três principais partidos: Conservador, de David Cameron, Liberal Democrata, da base governista, e a oposição representada pelo Partido Trabalhista. O novo órgão regulador foi aprovado pelo Parlamento Britânico na segunda-feira (18).

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Íntegra do discurso

SR. FERNANDO FERRO (PT-PE. Sem revisão do orador.) – Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, quero ressaltar a importância de uma iniciativa tomada pelo Parlamento do Reino Unido, qual seja a definição de uma legislação que regulamenta os meios de comunicação daquele país.

O debate surgiu a partir do escândalo envolvendo denúncias de espionagem, provocadas por um magnata, Rupert Murdoch, o que levou à criação da Comissão Leveson no Reino Unido para discutir o papel da mídia.
O paralelo no Brasil é o de Policarpo-Veja/Cachoeira, em que também fizeram espionagem e investigações ocultas com o fim de atender a interesses criminosos e ao sensacionalismo de setores da mídia.

A Inglaterra, portanto, construiu um instrumento de regulamentação. Todas as democracias modernas têm regulamentação de mídia. Aqui no Brasil sequer querem fazer esse debate. Fala-se em censura, tolhimento de liberdade. Um escândalo! E nós aqui, Parlamentares, vimos, em vários momentos, pessoas sendo enxovalhadas pela mídia. Alguém se lembra do escândalo envolvendo a Ministra Erenice Guerra? Aqui alguém sabe que ela foi inocentada das acusações que vieram da Veja e da Folha de S.Paulo? Ninguém sabe. E é isto o que se faz neste País: demolem, destroem uma reputação e fica por isso mesmo, porque os meios de comunicação não prestam contas a ninguém.

Por isso eu defendo que o Brasil para ser uma democracia de fato tem que ter instrumento, sim, de regulamentação. Na Inglaterra constituiu-se esse instrumento. Dele participam três setores, a imprensa, com um terço de representantes, um jornalista, e figuras de saber notório, para compor esse órgão regulador, onde o cidadão, qualquer pessoa pode recorrer, pedir o direito de resposta para defender a sua reputação.

Portanto, esse é um debate que nós temos que fazer aqui sem ter medo, porque a imprensa determina, ou os barões da imprensa. Querem nos submeter aqui a não ter direito de falar em nada. Aí, ficam jornalistas amestrados e políticos amestrados a interesses empresariais, a grupos de mídia, querendo impedir esse debate. Pelo menos o direito do debate nós temos que ter, para acabar com essa história de se destruir reputação, de se caluniar e ficar por isso mesmo.

Por isso eu quero que o Brasil aprenda com o Reino Unido e aprenda com as democracias modernas. Em todas elas há instrumentosde regulamentação. Aqui no Brasil quando se fala isso: É a censura que quer voltar, tolher a liberdade de expressão.Não confundir liberdade de expressão com liberdade de empresa, que, lamentavelmente…

OAB e AJUFE reagem aos novos insultos de Barbosa

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Presidente do STF, Joaquim Barbosa, falou o que quis e ouviu o que não quis. Depois de atacar relações de “conluio” entre juízes e advogados, numa reunião do Conselho Nacional de Justiça, ele foi repreendido pelo presidente da Associação dos Juízes Federais, Nino Oliveira Toldo. “A imprensa divulgou que o ministro tem uma namorada advogada. Como é que fica isso?”, indagou. O presidente da OAB, Marcus Vinícius Furtado, foi irônico: “A ouvidoria da OAB está à disposição do ministro para denunciar casos de lobby envolvendo advogados”. Incapaz de conter suas agressões, Barbosa até hoje não respondeu a uma nota dos magistrados, que motivou também seu ataque a um jornalista do Estado de S. Paulo

No Brasil 247

Incapaz de manter relações civilizadas com seus pares no Poder Judiciário, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, mais uma vez, falou o que quis e ouviu o que não quis. Ontem, numa reunião do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o ministro novamente atacou colegas da magistratura, de forma generalizada. “Há muitos (juízes) para colocar para fora. Esse conluio entre juízes e advogados é o que há de mais pernicioso. E sabemos que há decisões graciosas, condescendentes, fora das regras”, afirmou.

A resposta não tardou a chegar. “A imprensa divulgou que o ministro tem uma namorada advogada. Como é que fica isso?”, indagou. Toldo refere-se a Handra Amorim, de 24 anos, que, além de advogada, pretende prestar concurso e seguir carreira no Supremo Tribunal Federal.

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Marcus Vinícius Furtado, por sua vez, foi irônico. “A ouvidoria da OAB está à disposição do ministro Joaquim Barbosa e de quem quer que seja para denunciar casos de lobby envolvendo advogados. A Ordem é contra qualquer tipo de relações promíscuas e tem seu Código Ético Disciplinar para ser aplicado nesses casos, não importa quem seja: advogados, filhos de advogados, parentes e até amantes”.

No fim de fevereiro deste ano, Barbosa concedeu entrevista a jornalistas estrangeiros e disse que os juízes brasileiros têm mentalidade pró-impunidade. Em resposta, recebeu no dia 2 de março, uma nota de três associações de magistrados, em que foi duramente criticado por sua conduta “generalista”, “preconceituosa” e “desrespeitosa”.

Recentemente, ao ser questionado sobre essa nota pelo jornalista Felipe Recondo, do Estado de S. Paulo, Joaquim Barbosa foi, mais uma vez, Joaquim Barbosa. Chamou o jornalista de “palhaço” e o mandou “chafurdar no lixo”. Ontem, ao comandar a reunião do CNJ, ele foi ele próprio: Joaquim Barbosa.

A imprensa não é intocável

Os jornais brasileiros noticiam com cautela o acordo partidário que aprova a lei que regulará o funcionamento da mídia na Inglaterra

Por Luciano Martins Costa, do Observatório da Imprensa

Os jornais brasileiros noticiam com cautela, nas edições de terça-feira (19/3), o acordo partidário que aprova a lei que regulará o funcionamento da mídia na Inglaterra (ver, neste Observatório, “Partidos chegam a acordo sobre novo sistema de regulação”).

Apenas o Globo registra o fato na primeira página e dedica a ele quase uma página inteira, com um quadro mostrando didaticamente os pontos-chave da nova legislação. O Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo preferem destacar os aspectos políticos da medida.

A iniciativa surgiu na cauda do escândalo que levou ao fechamento do jornal News of the World, do empresário australiano Rupert Murdoch

A iniciativa surgiu na cauda do escândalo que levou ao fechamento do jornal News of the World, do empresário australiano Rupert Murdoch, envolvido em grampeamento ilegal de comunicações e outras irregularidades. A criação de um órgão dedicado a monitorar o funcionamento de jornais, revistas e sites noticiosos, depois de séculos de autorregulação, dividiu a imprensa britânica, colocando em lados opostos os jornais independentes e liberais, como o GuardianIndependent e Financial Times e, do outro, os títulos conservadores, com destaque para aqueles pertencentes a Murdoch.

Em caso de descumprimento das normas, as publicações que aceitarem a nova regulação podem sofrer multas correspondentes a até R$ 3 milhões, além de serem obrigadas a publicar pedidos de desculpas a pessoas que se sentirem vitimadas por seus conteúdos. A adesão ao novo órgão será voluntária, mas os que ficarem de fora estarão submetidos a multas mais altas, o que o transforma num dos sistemas mais rigorosos do mundo, segundo avaliação da imprensa.

A nova instituição não vai atingir blogs pessoais, mas os portais e sites que reúnem blogs noticiosos estarão incluídos.

As queixas de vítimas da imprensa serão analisadas gratuitamente por um conselho de arbitragem, e elas não terão que pagar despesas com advogados.

Embora não esteja ainda claro como a mídia será estimulada a aderir ao controle externo, especula-se que serão definidas penas muito mais severas para órgãos de comunicação que não aceitarem a nova regra e forem acusados de distorcer informações, causando prejuízos morais ou financeiros a pessoas e empresas.

Manifestações de representantes do Partido Conservador, do Trabalhista e do Liberal Democrata, as maiores agremiações políticas da Grã Bretanha, indicam que a iniciativa será aprovada sem problemas, quebrando o mito de que a imprensa é intocável.

Uma nova Escola Base?

Embora tenha surgido de um evento extremamente grave, no qual um dos tabloides de Murdoch se envolveu em atos criminosos para aumentar seu público, a criação de uma instância externa para mediar as relações da imprensa com a sociedade cria um precedente importante a ser considerado em outros países.

A questão da liberdade de imprensa costuma ser confundida com liberdade de expressão, e, no caso dos jornais populares da Inglaterra, sempre serviu de proteção para comportamentos abusivos. A criação do órgão regulador derruba o mito de eficiência dos sistemas de autorregulação e abre espaço para abordagens mais racionais sobre a amplitude de ações da imprensa em geral.

No Brasil, esse debate se restringe às áreas de atuação dos três principais diários de circulação nacional e ignora a ação dos títulos chamados populares, muitos dos quais pertencem às mesmas empresas que editam os grandes jornais. Na periferia do jornalismo representado por FolhaEstadão e Globo, circulam centenas de publicações que não atendem aos mais básicos requisitos de responsabilidade, produzindo conteúdos semelhantes aos que levaram ao fechamento do News of the World. Tais jornais costumam alugar suas páginas para grupos políticos durante os períodos eleitorais e formam redes dedicadas a espalhar boatos e dossiês que influenciam os resultados das urnas.

Além disso, convém manter na memória o caso da Escola Base, ocorrido em 1994, quando praticamente toda a imprensa – em São Paulo, a exceção foi o extinto Diário Popular – entrou no delírio de um delegado de polícia, que acusou os donos de uma escola infantil de abusar de crianças.

Atualmente, está em curso outro caso que pode representar uma reincidência da mídia: trata-se da acusação feita a uma médica, apontada como chefe de um esquema de prática de eutanásia num hospital de Curitiba. Embora a polícia aponte evidências, há dúvidas suficientes para aconselhar a imprensa a evitar a condenação antecipada das pessoas acusadas.

E se a polícia estiver errada?

“Existe uma mentalidade racista ainda muito aprofundada no nosso país”

Douglas Belchior, ativista do movimento negro, fala sobre as fotos racistas tiradas durante o trote aos calouros de Direito da UFMG

Por Felipe Rousselet na Revista Fórum

(Reprodução/Facebook)

Na última sexta-feira, 15, duas fotografias tiradas durante o trote aos calouros do curso de Direito da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) causaram uma imensa repercussão negativa nas redes sociais.

Uma das fotografias exibe uma caloura caracterizada como uma negra acorrentada a um jovem branco, com uma placa com os dizeres “Caloura Chica da Silva”; e a outra mostra um calouro amarrado a uma pilastra enquanto quadro rapazes posam fazendo uma saudação nazista.

De acordo com a vice-reitora da UFMG, Rocksane de Carvalho Norton, a universidade tomou conhecimento das fotos e irá punir os responsáveis pelas mesmas. “A direção da Faculdade de Direito vai iniciar um processo de apuração dos fatos e ficar responsável pela aplicação das penalidades que sejam cabíveis ao caso”, disse em entrevista ao portal G1.

A reportagem da revista Fórum ouviu o ativista do movimento negro e membro da Uneafro (União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora), Douglas Belchior, que falou sobre o trote da UFMG, abordando o racismo no Brasil, a política de cotas e a eleição do deputado Marco Feliciano (PSC) para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.

Como você avalia as polêmicas fotos tiradas durante o trote do curso de direito da UFMG?

Douglas Belchior - Apesar dos avanços que a gente tem, eles são pequenos diante do desafio do combate ao racismo, porque a sociedade brasileira é racista. Existe uma mentalidade racista ainda muito aprofundada no nosso país.

Com esse tipo de ação, a cada ano, a cada trote, percebemos um outro momento de exposição desse sentimento. Se, por exemplo, em programas matutinos, em programas de comédia, cotidianamente a gente tem a exposição da figura negra fazendo papel de ridículo, ou sendo menosprezada, ou sendo objeto de chacota e motivo de risos, imagina o que acontece em espaços mais conservadores como esse.

Na verdade, é mais uma demonstração do quanto a gente precisa combater o racismo enquanto mentalidade e enquanto valores na nossa sociedade. E não é só por meio de políticas públicas, que são importantes, mas fundamentalmente com a eleição desse tema como algo prioritário para a formação de um novo homem e de uma nova mulher.

Precisamos trabalhar isso na mentalidade. Afinal, foram 388 anos de escravidão e mais 125 anos em que o povo negro tem sua cidadania negada e continua no mesmo espaço social que sempre viveu desde o início da história oficial do Brasil. Existe uma permanência e esse tipo de episódio revela isso.

Algumas pessoas que se manifestaram sobre as fotos nas redes sociais afirmaram que se tratava de uma brincadeira e que não seria um ato de racismo. Como você analisa este tipo de afirmação?

Douglas Belchior - É uma outra característica do racismo brasileiro, que é o viés da graça, da risada, o viés do engraçado. Não só em relação ao racismo, mas com um carácter de chacota, uma dimensão das opressões que vivemos no Brasil. A formulação de piadas racistas, de termos, de situações, a reprodução disso nos espaços da cultura popular, da comédia.

Não só em relação aos negros, mas também em relação à mulher, que continua sendo tida como aquela que “nasceu para trabalhar na cozinha” ou “precisa contar só até seis, porque não existe fogão de sete bocas”. Ou ainda o uso do elemento da homofobia como objeto para riso. É um subterfúgio, uma forma de diminuir o impacto da opressão, colocar como uma brincadeira, algo menor. Como se fosse parte da nossa cultura menosprezar essa população.

Isso reafirma o racismo. A cultura brasileira se criou de maneira a negar o racismo que é explícito nas relações cordeais e nessas relações do riso, da graça.

Esse foi o primeiro ano em que a UFMG adotou o sistema de cotas no seu vestibular, reservando 13,62% das vagas para cotistas.  Você acredita que a ampliação da política de cotas evitaria que episódios como este se repitam?

Douglas Belchior - Não me recordo agora qual a população de negros no estado de Minas Gerais, mas desconfio que seja maior que esses 13,62% que você está me falando. A reivindicação que o movimento negro faz em relação às cotas é a reserva de vagas proporcional ao percentual da presença negra no estado. Não há dúvidas de que se o sistema de cotas garantisse maior oportunidade motivaria mas negros a fazê-lo.

Aquele velho debate: cotas é apenas uma política reformista, compensatória, ou tem um papel histórico no processo. Nós achamos que as cotas têm um papel histórico no processo de tomada de consciência, no processo de combate ao racismo, da mentalidade racial brasileira.

Veja só, um negro dentro desta universidade [UFMG], garante uma reação negativa a este tipo de acontecimento. A presença negra pode gerar uma reação diferente de quando não existe um negro ali, uma reação diferente daquela provocada entre os que são solidários. Não tenho dúvida nenhuma que o sistema de cotas, colocando os negros em espaços sociais onde ele nunca esteve, aumenta nossa chance de reação e exposição desse tipo de situação.

Você tem vários exemplos de que negros, quando estudam e chegam a ser doutores, advogados, médicos, suportam muito menos a opressão racial e denunciam mais. O sistema de cotas, portanto, é um propulsor de denúncias contra o racismo.

É disso que a gente precisa. O Brasil precisa deixar de ser o país do racismo velado e passar a ser o país, ao menos, do racismo reconhecido. É só reconhecendo a doença que nós podemos tratá-la. E cotas é um passo neste sentido.

Quais outras medidas poderiam evitar tais manifestações racistas?

Douglas Belchior - Existe uma medida muito importante, fundamental, a lei 10639/03, de 2003, que fez dez anos agora. As políticas reparatórias de compensação são importantes, mas existem políticas estruturantes, que mexem com a mentalidade a médio e longo prazo.

Você imagina que o garoto que está naquela foto não deve ter mais que 20 anos, pelo menos essa foi a minha impressão. Portanto, há dez anos ele estava no ensino fundamental. Imagina se este menino, desde os 10 anos de idade, tivesse sido atendido por uma política educacional que promovesse a diversidade, que ensinasse os valores do povo negro, a sua cultura, e a importância disso tudo para a formação do Brasil, com certeza a sua mentalidade seria diferente do que é hoje.

Se a escola valorizasse a diversidade e aplicasse a lei 10639/03, que institui a obrigatoriedade do ensino da história da África, dos africanos, da sua cultura, e da sua importância para a formação do país. Certamente, esse menino teria outra postura na sociedade. Portanto, a lei 10.639/03 possui uma papel fundamental na estrutura, na estruturação das relações sociais no Brasil.

Coincidentemente, essa lei avançou nos últimos dez anos, mesmo período em que as políticas de cotas avançaram, apesar de todo barulho. A gente avalia que o sistema de cotas é o “mal menor” que a burguesia vê. A lei 10639/03, que estrutura a educação em uma leitura que valoriza a diversidade, com certeza traz muito mais prejuízos aos racistas e à burguesia brasileira.

Como estamos falando de violações de direitos humanos, neste caso o racismo, como o movimento negro avalia a eleição do deputado Marco Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados?

Douglas Belchior - A gente percebe um avanço e algumas vitórias dos movimentos sociais, dos movimentos de luta pelos direitos das mulheres e contra o racismo nestes últimos anos. Houve algum avanço no sentido de leis, por mais que não sejam aplicadas como gostaríamos e ainda não gerem os resultados que esperamos, mas são avanços importantes que provocam uma reação muito raivosa, muito poderosa. Isso tem de ser considerado. À medida que temos mais espaços para gritar e exigir nossos direitos, também a reação dos racistas, dos homofóbicos e machistas tendem a ganhar força

A eleição do Feliciano é, sem dúvida nenhuma, um sinal desse avanço dos setores conservadores, ocupando esses espaços e visando que novos avanços aconteçam. Com certeza isso tem de ser considerado, mas é também um recuo das forças progressistas, no caso, o PT e o PC do B, que abriram mão deste espaço. Abdicaram com a leitura de que setores da economia, ou do agronegócio, seriam mais estratégicos do que esse.

Sem dúvida nenhuma essa eleição é uma reação à luta dos movimentos por parte dos conservadores e, por outro lado, a nossa representação progressista tem recuado. Não existe desculpa para o PT e o PC do B terem aberto mão deste espaço. Não existe lugar vazio na política e os caras ocuparam este espaço.

Governo estuda repasse direto da União para municípios atingidos pela seca

Por Ivan Richard na Agência Brasil

I

Brasília – A presidenta Dilma Rousseff deve anunciar novas medidas para o socorro às cidades nordestinas atingidas pela seca na próxima semana, disse há pouco a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, durante entrevista ao programa Bom Dia, Ministro. Entre as medidas que deverão ser anunciadas em viagem de Dilma ao Nordeste, estão a liberação de mais recursos e o repasse direto do governo federal para as prefeituras.

“Provavelmente, na chegada da presidenta Dilma [da Itália], algumas medidas devem ser anunciadas. Poderão ser nas duas pontas: tanto de gestão, como de mais recursos. Isso tudo está subordinado às conversas que teremos ao longo do dia de hoje e à chegada da presidenta Dilma”, disse a ministra, durante o programa de rádio, produzido pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, em parceria com a Empresa Brasil de Comunicação.

De acordo com Ideli, parlamentares dos estados do Nordeste estarão reunidos hoje (20) com a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e com ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, para relatar as dificuldades que os prefeitos estão tendo para obter os recursos repassados pelo governo federal para o enfrentamento da seca.

“O ministro da Integração Nacional está dizendo que uma das questões que eles [os prefeitos] mais estão reclamando é que os recursos, que foram repassados para os governos estaduais, estão tendo execução muito lenta, dificuldade para a perfuração dos poços e para a contratação dos caminhões-pipa”, relatou Ideli.

Segundo a ministra, uma das alternativas que podem ser adotadas pelo governo seria o repasse direto da União para as prefeituras por meio do cartão da Defesa Civil. “É uma situação que temos que compensar, uma situação crítica de falta de água, para que os municípios tenham condição de enfrentar esse desastre natural”, reforçou Ideli.

Edição: Denise Griesinger

Leonardo Boff, teólogo e escritor

Um dos acontecimentos mais comentados no mundo na última semana será o assunto do É Notícia. Kennedy Alencar recebe o teólogo e escritor Leonardo Boff para falar sobre a eleição do papa Francisco.

Veja a segunda parte

Teólogo fala sobre a hegemonia dos italianos na bancada dos cardeais e comenta sobre as pretensões brasileiras no colegiado.


Na terceira e última parte Boff comenta sobre o conclave e os mecanismos para a eleição do novo papa.