Arquivos anuais: 2013

Joaquim Barbosa imagina ser D. Pedro II

por Mauricio Dias na Carta capital

Na ausência de um monarca, desde o dia 15 de novembro de 1889, o Supremo Tribunal Federal tenta hoje se firmar como o Poder Moderador do Brasil, embora a República não seja uma monarquia e nem Joaquim Barbosa, presidente do STF, seja um Bragança.

Esse é o sintoma mais claro, no entanto, do que vem sendo chamado, em todo o mundo, de “judicialização da política”. Os exemplos são muitos e já existe farta literatura a respeito, a exemplo do livro Judicialização da Política (22 Editorial), organizado pelo -professor Luiz Moreira, doutor em Direito e Mestre em Filosofia pela UFMG.

Atenção. Qualquer semelhança é mera coincidência. Foto: Nelson Jr./ SCO/ STF

Atenção. Qualquer semelhança é mera coincidência. Foto: Nelson Jr./ SCO/ STF

“O Supremo não está acima das demais instituições republicanas. Essa supremacia judicial é provocada”, explica Moreira.

Para ele, o episódio da suspensão da lei dos royalties do petróleo “por decisão solitária da ministra Cármen Lúcia” leva diretamente a essa tentativa de o Judiciário constituir-se como o poder “que detém a última palavra sobre os assuntos da República”.

Na visão dele, o ponto que merece “maior reflexão” é o da legitimidade da medida, já que “é a segunda vez que o Congresso manifesta sua vontade, sendo a última na forma de derrubada de veto da presidenta Dilma”.

Na Constituição está a sustentação do que ele diz. O Artigo 52, inciso X, diz que é privativa do Senado a suspensão “no todo ou em parte, de lei declarada inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal”.

Moreira despeja polêmica: “A Constituição traçou um paralelo entre a declaração de inconstitucionalidade de lei pelo Plenário e o veto do presidente da República, mas conserva a distinção à origem do Poder”.

Como poder político, o veto do presidente, ele entende, tem vigência imediata. Já o veto do STF só tem início “com o assentimento do Senado, que precisa aprovar”.

“Até que haja manifestação expressa do Senado, a lei continua em vigor,  pois o STF não detém legitimidade que a soberania popular confere aos poderes estatais”, explica.

Luiz Moreira completa: “O STF, por manobra interpretativa, invocou o instituto da ‘Mutação Constitucional’ para dizer que o inciso X do art. 52 não mais se aplica. É caso típico de invasão de competência do Senado. Ora, como não se aplica se nem sequer houve questionamento sobre sua higidez?”

O inciso XI, do artigo 49, torna tarefa exclusiva do Congresso “zelar pela preservação de sua competência legislativa em face da atribuição normativa dos outros poderes”.

Assim, no entender dele, haveria na Constituição forte conotação democrática, situando o protagonismo na soberania popular.

Segundo Moreira, o Congresso “errou ao estender a decisão que tomou aos contratos já firmados. Muito embora o Congresso seja soberano seria recomendável que a lei dos royalties conservasse o direito dos entes da Federação. Já tendo firmado contrato de exploração, nos termos da legislação em vigor, o Espírito Santo, o Rio de Janeiro e São Paulo assumiram compromissos considerando as receitas dali decorrentes. É o chamado ato jurídico perfeito”.

Quanto a todos os demais campos de petróleo e as reservas do pré-sal, a decisão do Congresso seria perfeita sob o ponto de vista jurídico, afirma Luiz Moreira.

Andante mosso

Índices de Dilma Rousseff

Índices de Dilma Rousseff

Os dois Brasis I
Números da pesquisa CNI-Ibope são a referência mais recente do abismo existente entre o “Brasil de baixo” e o “Brasil de cima”, para usar expressões recolhidas na poesia de Patativa do Assaré.

Em baixo prospera, em meio às dificuldades da economia, a “confiança” na presidenta. Ela alcançou porcentual (75%) superior ao obtido nos três meses de governo (74%). Número, àquela altura, bafejado pela esperança (gráficos).

Já o resultado de agora é amparado por um porcentual de 79% de “aprovação da maneira de governar” de Dilma que se contrapõe a apenas 17% de desaprovação.

Nesse Brasil de baixo, vive-se a sensação do bem-estar.

Os dois Brasis II
Já no de cima, um número de 8% tem expectativa negativa “para o restante do governo”. Porcentual quase igual aos 7% da população que julgam o governo entre “ruim” e “péssimo”.

Eles enfrentam no presente o otimismo de 65% da população quanto aos dois anos restantes da administração petista.

O espelho do porcentual de pessimistas, onde se juntam
um bom número de empresários e a oposição, é o mal-estar divulgado diariamente pela imprensa conservadora. Estratégia para alimentar a expectativa da derrota de Dilma em 2014.

Para eles, a esperança está morta. O pessimismo será o último a morrer.

Diversão ou cultura?
Ao estender e, posteriormente, retirar a permissão do uso do Vale Cultura para canais fechados (pagos), a ministra Marta Suplicy desfez, supõe-se, suspeição de que a decisão inicial não significava compromissos com a televisão.

Agora, após dar e tirar, a ministra precisa clarear o conceito de cultura que tem para nortear o ministério que comanda.

Tutu à mineira
Com a projetada candidatura de Fernando Pimentel ao governo de Minas, em 2014, os  eleitores tendem a “misturar” o voto, à revelia das coligações oficiais. Em 2006, votaram “Lulécio”: Lula presidente e Aécio governador.

Em 2010, apostaram no “Dilmasia”: Dilma presidenta e Anastasia governador. Em 2014, não haverá surpresa se parte do eleitorado votar “Pimentécio”: Pimentel governador e Aécio presidente.

É um tutu misturado com condimentos petistas e tucanos.

Águas profundas I
A Assembleia Geral dos acionistas da Petrobras, em abril, deve reunir os grandes advogados societários do País. Serão protagonistas de um grande contencioso.

Uma articulação entre acionistas minoritários brasileiros e estrangeiros planeja eleger seus próprios representantes no Conselho de Administração da companhia.

Ali há fundos de investimento como o FSBA, da Flórida, o Aberdeen, da Escócia e o F&C, de Londres. Integram 16 grupos que administram ao equivalente ao PIB brasileiro: mais de 2 trilhões de dólares.

Petrobras. Os minoritários do conselho, contra Gerdau. Foto: Leonid Streliaev

Petrobras. Os minoritários do conselho, contra Gerdau. Foto: Leonid Streliaev

Vão tentar destituir do conselho os empresários Jorge Gerdau e Josué Gomes da Silva de vagas destinadas aos minoritários.

Águas profundas II
Os fundos estão convencidos de que os empresários Jorge Gerdau e Josué Gomes, filho do ex-vice-presidente José Alencar, defendem os interesses da União, a acionista majoritária.

A iniciativa é uma reação ao que consideram “desmandos na companhia”. A Petrobras, atenta, prepara-se para evitar que a manobra prospere na Assembleia Geral.

Os fundos têm apoio da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), composto
de 50 gestoras de recursos.

Política: Eduardos
Eduardo Campos (PSB), governador de Pernambuco, eventual candidato a presidente em 2014, tem feito duros ataques, ao que se supõe, à política tradicional.

Um esforço pessoal dele em nome da “superação da velha política”. Não se pode supor que, às vésperas de completar 48 anos, esteja mirando a idade dos políticos e, sim, a práticas condenáveis: corrupção, nepotismo, empreguismo etc. Campos não atirou a esmo. Mirou e atingiu as ações da presidenta Dilma para fortalecer a base governista redistribuindo ministérios aos aliados.

Esse comportamento do governador pernambucano gera uma dúvida.

Terá sido outro Eduardo Campos aquele que, em 2011, pediu apoio aos aliados governistas para fazer da mãe, Ana Arraes, então deputada, ministra do Tribunal de Contas da União?

E os tribunais de Contas, parece, exercem um fascínio na família. Para o de Pernambuco, o governador indicou e nomeou como conselheiros um primo, João Campos, e um primo da mulher dele, Marcos Loreto.

Campos propõe hábitos novos. Ele precisa, antes, abandonar hábitos velhos.

“A saída é frear a Economia. É demitir mesmo”

:

A frase acima é do economista Alexandre Schwartsman (esq.), ex-diretor do Banco Central e um dos pit bulls do sistema financeiro na defesa dos juros altos; assim como ele, Ilan Goldfajn (dir.), economista-chefe do Itaú Unibanco, também defende, abertamente, mais desemprego para conter a inflação; “não dá para fazer omeletes sem quebrar os ovos”, diz; será que existe o risco de que esse discurso seja ouvido em Brasília?

No Brasil 247

Os pit bulls do sistema financeiro estão nervosos. Enfurecidos. Exigem, de qualquer maneira, uma ração maior de juros, que poderá trazer, como resultado imediato, um aumento do desemprego. E já nem fazem mais questão de esconder os seus propósitos. Pedem, abertamente, a demissão de trabalhadores, como forma de reduzir o consumo e tentar fazer arrefecer a inflação.

Um desses personagens é Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, que depois teve curta passagem como economista-chefe do Santander, onde nem mesmo os espanhóis conseguiram administrar seus excessos verbais. Schwartsman exige demissões já. “A saída é frear a economia”, afirma. “É demitir mesmo”, completa, sem deixar claro se essa recomendação valeria para ele ou para pessoas próximas.

Mais contido na forma, mas não no conteúdo, o economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, que também passou pelo BC, adota o mesmo discurso. “A inflação não cai num passe de mágica. Não cai porque o Banco Central resolve falar mais duro. Cai com o encontro do crescimento da oferta com o crescimento da demanda. É preciso fazer escolhas. Não dá para fazer omeletes sem quebrar os ovos”, diz ele, repetindo uma frase da ex-ministra Zélia Cardoso de Mello.

A posição desses dois economistas, no entanto, é questionada pelo ex-ministro Delfim Netto, um dos mais próximos conselheiros da presidente Dilma Rousseff. “A empregada doméstica virou manicure ou foi trabalhar num call center. Agora, ela toma banho com sabonete Dove. A proposta desses gênios é fazer com que ela volte a usar sabão de coco aumentando os juros”, afirma.

Em Brasília, até agora, tem prevalecido uma outra estratégia de política econômica. Com a redução dos juros, o governo federal, que é o maior devedor da economia, passa a ter uma folga fiscal, que permite desonerar vários setores da economia. Graças a isso, foram reduzidos impostos incidentes sobre a cesta básica e também reduzidas as tarifas de energia.

De todo modo, o latido dos pit bulls para que o Banco Central adote o remédio antigo de alta dos juros é cada vez mais forte.

Carta da 7ª Marcha pode abrir diálogo com Dilma

O documento é composto por 12 reivindicações que resgatam e atualizam as deliberações aprovadas por mais de 80 mil trabalhadores na Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat)

Por Luiz Carlos Motta no Brasil de fato

Passados nove dias da realização da 7ª Marcha das Centrais Sindicais e dos Movimentos Sociais, a Presidenta Dilma Rousseff sancionou o Projeto de Lei (12.790) que Regulamenta a Categoria Profissional de Empregados no Comércio, a principal bandeira empunhada pelos mais de mil comerciários ligados à nossa Federação, que participaram ativamente do movimento, dia 6 de março, em Brasília (DF). Com mais de 50 mil manifestantes, das mais variadas categorias de trabalhadores, essa foi a maior e mais consistente das Marchas rumo a Brasília organizadas pelas Centrais.

Os princípios fundamentais da Marcha constam na Carta assinada, conjuntamente, pelas Centrais. O documento é composto por 12 reivindicações que resgatam e atualizam as deliberações aprovadas por mais de 80 mil trabalhadores na Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), realizada em 2010, no Estádio do Pacaembu, capital paulista. O objetivo da Marcha, totalmente cumprido, foi entregar esta Carta, pelas mãos dos dirigentes das seis Centrais, ao presidente do Senado (Renan Calheiros), da Câmara (Henrique Alves) e do Supremo Tribunal Federal (Joaquim Barbosa).

Com o presidente Paulinho da Força e com o secretário-geral da Central, Juruna, compus a comissão de sindicalistas recebida pela Presidenta Dilma no Palácio do Planalto, no próprio de 6 de março, quando também entregamos a Carta reivindicatória à chefe do Executivo Federal, com a qual esperamos ter aberto uma frente de diálogo. Durante a audiência a Presidenta assinou decreto que internaliza a Convenção 151 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A medida estabelece a negociação coletiva entre Servidores e Governo. Conforme lembrou o presidente Paulinho sobre uma carreta de 18 rodas, o palanque da Marcha, muitas reivindicações da pauta trabalhista estão em debate no Congresso, como o fim das demissões imotivadas (Convenção 158 da OIT), do Fator Previdenciário e a redução da jornada semanal de trabalho.

 

Mil comerciários

Foi assim, “vitaminados” com o poder de unidade na ação da 7ª Marcha das Centrais (Força, CUT, UGT, Nova Central, CTB e CGTB), que os sindicatos filiados à Federação dos Comerciários do Estado de São Paulo presentes clamaram, por meio de faixas e palavras de ordem, que a Presidenta Dilma sancionasse a Regulamentação da Categoria Comerciária, vitória obtida no dia 15 de março, um dia histórico para os comerciários.

Portanto, desde o dia 15 de março, data da promulgação da lei, os mais de 12 milhões de comerciários que atuam em todo o Brasil – 2,5 milhões deles no Estado de São Paulo – têm como garantia, sem prejuízo das demais normas trabalhistas, as seguintes normas:

1) Registro de Comerciário na Carteira Profissional.

2) Jornada de trabalho com 8 horas diárias e 44 semanais que, somente mediante Convenção Coletiva ou Acordo, poderá ser alterada.

3) Admissão da jornada de seis horas para o trabalho realizado em turnos de revezamento, sendo vedada a utilização do mesmo empregado em mais de um turno, salvo negociação de trabalho; alterações, somente com consulta prévia aos Sindicatos dos trabalhadores.

4) Manutenção da fixação dos pisos salariais por meio de Convenção ou Acordo Coletivo.

5) Os sindicatos patronais e dos comerciários poderão incluir em suas Convenções e Acordos, cláusulas voltadas a programas e ações de educação, formação e qualificação profissional.

6) Foi instituído o 30 de outubro como o Dia do Comerciário.

 

Mobilização

Durante todos os trâmites do processo no Congresso, a apreensão para o seu progresso aumentava a cada novo passo dado nas Comissões de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio; Trabalho, Administração e Serviço Público; e Constituição e Justiça. A mesma expectativa aconteceria no Senado e, por fim, no Palácio do Planalto. De modo unitário, o movimento sindical comerciário brasileiro se mobilizou e acompanhou de perto as votações da matéria no Congresso, chegando até dois dias antes para se organizar e visitar gabinetes.

Ocorreram várias transferências da votação da matéria. Mas nunca perecemos. Sempre mantivemos pressão e forte expectativa para que o texto fosse aprovado conclusivamente em suas devidas Comissões. Este “corpo a corpo” na Capital Federal foi precedido por contatos dos sindicalistas junto aos parlamentares e lideranças partidárias, além das presidências da Câmara e do Senado. Portanto, a conquista desta tão esperada reivindicação é resultado da união do movimento sindical comerciário brasileiro, por meio da atuação no Congresso Nacional da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC), suas Federações Filiadas, e da Força Sindical, com a presença indispensável do deputado federal Paulinho da Força.

Luiz Carlos Motta é presidente da Federação dos Empregados no Comércio do Estado de São Paulo (Fecomerciários) e tesoureiro da CNTC e da Força Sindical Tel. 3060-6600. www.fecomerciarios.org.br – presidencia@fecomerciarios.org.br

Crescem os conflitos pela água em 2012

Em nota pública, Comissão Pastoral da Terra aponta que perto de 185 mil pessoas estiveram em conflitos por água no país

Roberto Malvezzi (Gogó),da CPT

Como era absolutamente previsível, cresceram de forma substancial os conflitos pela água em todo o Brasil em 2012, totalizando 115 conflitos, em 19 estados da União, envolvendo cerca de 184.925 pessoas. Uma das razões fundamentais, sem dúvida, é o registro dos conflitos acontecidos em função da seca (36), embora a própria Comissão Pastoral da Terra (CPT) reconheça que esse registro está aquém do real acontecido e em acontecimento, já que a longa estiagem não acabou.

Mas, a estiagem sozinha não explica o avanço dessa modalidade de conflito. Se abstrairmos os 36 conflitos registrados especificamente como oriundos da seca, mesmo assim totalizam 79, portanto, 11 a mais que em 2011.

Outra indicação séria que a seca não é a razão única do crescimento dos conflitos pela água é que aqueles registrados como oriundos da estiagem se concentram em apenas seis estados, sendo cinco do nordeste e um da região sul (Santa Catarina). Porém, quando nos debruçamos sobre os conflitos de água em geral, então eles abrangem 18 estados da federação. Dessa forma, podemos dizer que os conflitos pela água já adquiriram efetivamente uma dimensão nacional.

Os conflitos mais específicos, gerados pela seca, em muito diferem dos conflitos das longas estiagens do passado. Contam-se na história 41 “grandes secas”, a começar pela primeira registrada pelo Padre Fernão Cardin, de 1583/1585.

Já não temos as intensas migrações, a mortalidade infantil, os saques, as frentes de emergência e tantas outras situações aberrantes que caracterizaram socialmente um fenômeno que é natural. Porém, persistem as ocupações de bancos, órgãos públicos, fechamento de estradas, etc., normalmente para reivindicar políticas públicas e obras estruturantes que empoderem a população para os períodos de estiagem prolongada.

As secas acontecem todos os anos. A cada três décadas os períodos se emendam e elas se tornam mais prolongadas. É o que acontece no momento.

Já quando olhamos especificamente para a tabela dos conflitos pela água de forma geral, então eles estão presentes em todo o território nacional por outras razões: destruição e poluição de mananciais, impedimento de acesso à água, apropriação privada, não cumprimento de procedimentos legais. Esses problemas são causados em sua maioria esmagadora pela construção de hidrelétricas, barragens e açudes, mineradoras, comandados por empresários e ações dos governos estaduais e federal. Há um fenômeno não captado pelos dados que é a apropriação privada dos aquíferos subterrâneos, particularmente no Oeste Baiano, e também das águas de superfície para finalidade de irrigação. Mesmo assim, está evidenciado pelos números quem são os causadores dos problemas e quem são as vítimas.

O Brasil está desencadeando um processo paradoxal relativo à água: por um lado prossegue no rumo da privatização dos serviços de água; da construção de grandes obras que afetam o acesso das populações à água; da poluição de mananciais; da eliminação de mananciais pelo desmatamento e intenso uso da água para fins econômicos, principalmente a irrigação. Por outro lado desencadeou também um processo de abastecimento de água pelo Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB), no programa “Água para Todos” e no programa “Oferta de Água”, que inclui também a finalidade econômica. Vem daí a implementação de adutoras de médio e grande porte, sistemas simples de abastecimento para populações rurais, captação de água de chuva para beber e produzir, etc.

Esse paradoxo é por uma razão simples: a falta de visão sistêmica dos gestores nacionais os impede de relacionar a lâmpada com o interruptor, ou seja, não conseguem estabelecer uma política que permita o acesso à água e que também preserve os mananciais. A ganância do capital – hidronegócio –, apoiada pela política dos governos, desequilibra uma gestão que necessariamente deveria ser holística.

Com essa política os conflitos pela água vão estar em linha ascendente.

CONFLITOS EM 2012 NÚMEROS ESTADOS FAMÍLIAS PESSOAS
SECA 36 6 5.201 26.005
ÁGUA 79 5+13=18* 31.784 158.920
TOTAL 115 19 36.985 184.925

*Cinco estados registraram tanto conflitos por seca quanto pela água; 13 só conflitos pela água – Total 18. Um, Alagoas, registrou só conflitos pela seca, perfazendo um total de 19 estados envolvidos nessa categoria de conflito.

Foto: ABr

Brasil e China assinam amanhã acordo para troca de moedas

Por Daniel Lima e Kelly Oliveira na Agência Brasil

Brasília – O Brasil e a China vão assinar amanhã (26) acordo de troca de moedas. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, participarão da solenidade de assinatura do acordo de swap de moeda com o Banco Central da China (People’s Bank of China) em Durban, na África do Sul.

Também será celebrado memorando de entendimento entre o Ministério da Fazenda do Brasil e o Ministério das Finanças da China. Após a solenidade, os ministros darão entrevista coletiva sobre os acordos, ao meio-dia, no horário local (7h horário de Brasília).

Mantega e Tombini participam, em Durban, do encontro de cúpula do Brics, grupo formado por cinco países emergentes: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Amanhã (26), Mantega e Tombini têm reunião com ministros de Finanças e presidentes dos bancos centrais do grupo. O ministro participa ainda da reunião bilateral entre o Brasil e a China e de um jantar oferecido pelo presidente da África do Sul, Jacob Zuma, a líderes e ministros de Finanças dos Brics.

Mantega retorna ao Brasil na próxima quinta-feira (28) e Tombini volta na quarta-feira (27).

Em junho do ano passado, Mantega também anunciou que o Brics criaria um mecanismo de cooperação financeira. Os países do grupo acertaram a formação de um fundo comum de reservas internacionais e manifestaram intenção de assinar um acordo de swap (troca de moedas) entre si.

Edição: Juliana Andrade

Os 007 da ajuda humanitária

Por Riad Younes na Carta Capital

Como a morte de Osama Bin Laden influenciou a incidência de doenças graves e a mortalidade de crianças e adultos? Parece uma pergunta com apenas duas possíveis respostas. Ou aumentaram a guerra, os conflitos e as bombas no Oriente Médio, em decorrência da ação militar que o matou e assim muitas pessoas atingidas diretamente foram mortas. Ou o desfecho de Bin Laden não teve absolutamente nada a ver com a saúde dos cidadãos daquela região. Infelizmente, existe uma terceira realidade que foi recentemente constatada e descrita, e que alertou e preocupou autoridades em saúde pública e especialistas ao redor do mundo.

Confiança. A ação fez de médicos com seringa na mão de espiões em potencial, diz o documento. Foto: MiniMorgan

Em artigo publicado na The New England Journal of Medicine, a revista médica mais respeitada da área, dois cientistas americanos do Departamento de Saúde Pública da Universidade de Columbia, Nova York, e do Departamento de Emergência Médica de Harvard, Boston, os doutores L. F. Roberts e M. J. VanRooyen lançaram um alerta dirigido ao presidente Barack Obama. Clamam por neutralidade humanitária na área de saúde pública. A razão é muito clara. Na sua campanha para caçar Bin Laden, os militares americanos e os serviços de inteligência forjaram uma campanha de vacinação falsa. A CIA contratou um médico paquistanês, doutor Afridi, para ir de casa em casa com o propósito de vacinar as famílias. Também aproveitava para coletar pequenas amostras de sangue.

O secretário de Defesa americano Leon Panetta confirmou que a atuação de Afridi foi importante para chegar a Bin Laden. Afridi foi preso e sentenciado a 33 anos de prisão. Os problemas de saúde pública logo surgiram. O Paquistão expulsou os médicos e paramédicos estrangeiros envolvidos no programa Save the Children (Salvem as Crianças) que atuavam na região, suspeitos de trabalharem para a CIA. Alguns foram assassinados. Como resultado, a campanha de vacinação foi interrompida em províncias onde anualmente morrem mais de 100 mil crianças infectadas por doenças de fácil prevenção com vacinas disponíveis.

Em 6 de janeiro de 2013, reitores indignados de 12 universidades e faculdades de Saúde Pública americanas enviaram carta aberta ao presidente Obama, protestando contra a conduta dos serviços militares e de inteligência, que resultou em comprometimento de programas sérios de ajuda humanitária à população necessitada daquela região. Recomendaram fortemente que o governo americano suspendesse as ações militares disfarçadas de atividades de saúde pública. A seguinte frase da carta de protesto foi transcrita no artigo acima citado. “O trabalho de Saúde Pública Internacional constrói a paz e representa um dos meios mais positivos em que estudantes de Saúde Pública, no passado, presente e futuro, perseguem uma vida de serviço e de satisfação. Por favor, não permita que a porta do bem comum lhes seja fechada, por causa de interesses políticos e/ou de segurança que ignoram os tipos de impactos negativos sobre a saúde pública, como estes testemunhados no Paquistão.”

Os autores lamentam que ações como essas tornaram cada enfermeiro com seringa na mão um espião em potencial, cada ambulância ou avião de carga um transporte disfarçado de tropas. Milhões de pessoas ficam obviamente excluídas de ações humanitárias urgentes, sem relação alguma com credo ou nacionalidade. A política pode ser mais letal do que as próprias bombas, as guerras ou os conflitos. E as crianças são as primeiras vítimas. Sempre…