Arquivo mensais:junho 2013

Brasil precisa importar 200 mil toneladas de feijão, diz ministro

Por Pedro Peduzzi na Agência Brasil

Brasília – Com a redução a zero da alíquota de importação do feijão, o governo federal pretende importar 200 mil toneladas até o final de outubro, segundo o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Antônio Andrade. O feijão-branco não está incluído na lista.

De acordo com o ministro, poucos países têm condições de vender o produto ao Brasil, além da Argentina, China e do México. “Há dificuldades porque [o feijão] está mais para hortifrutigranjeiro. Não dá para estocar, porque perde qualidade. Devemos importar 112 mil toneladas, mas precisamos [ao todo] de 200 mil”, disse hoje (25) o ministro. Na próxima quinta-feira (27), ele se reunirá com secretários de quatro estados produtores – Bahia, Goiás, Minas Gerais, além do Distrito Federal – para estudar medidas de incentivo à produção.

A quebra da safra de feijão no Brasil se deve à seca que atingiu principalmente o Nordeste – em especial o oeste da Bahia –  e Minas Gerais. “O problema do feijão sempre foi cíclico. Variação do preço muito alto. O ideal é que vá direto da lavoura para a panela”, completou Andrade momentos antes de participar da reunião do Conselho Nacional de Política Energética, no Ministério de Minas e Energia.

Edição: Talita Cavalcante

Proposta de Dilma é de ‘regime autoritário’, afirma Fernando Henrique Cardoso

Por Fábio Zambeli na Folha

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem à Folha que a proposta de realização de plebiscito para a reforma política, feita por Dilma Rousseff, é própria de “regimes autoritários”.

“As declarações da presidente são inespecíficas e arriscadas, pois, para alterar a Constituição, ela própria prevê como. Mudá-la por plebiscito é mais próprio de regimes autoritários”, afirmou FHC.

No domingo passado ele havia criticado, no programa “Canal Livre”, da TV Bandeirantes, a conduta do governo e do Congresso Nacional diante da recente onda de protestos.

Na ocasião, o tucano disse que tanto o poder Executivo como o Legislativo deixaram de ser a “caixa de ressonância” dos anseios da população.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no programa "Canal Livre", da TV Bandeirantes
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no programa “Canal Livre”, da TV Bandeirantes

Segundo FHC, todas as discussões se fecharam dentro do Palácio do Planalto e isso fez com que aumentasse o desprestígio das instituições públicas os brasileiros.

“Houve um encolhimento da agenda nacional”, disse o ex-presidente, dando exemplos de questionamentos feitos durante seus dois mandatos. “Houve [recentemente] a mudança na lei do petróleo. Ninguém debateu. Isso não era assim. Quando quebramos o monopólio do petróleo, foi uma briga danada. Havia um debate nacional”, afirmou.

FHC ainda criticou a falta de direcionamento das reivindicações da população durante os protestos.

Citando o colunista da Folha Moisés Naím, o ex-presidente disse que, se não houver uma reforma institucional, não haverá objetivo concreto alcançado.

“É preciso que haja mudança institucional para que haja um maior engajamento, mas não se conseguiu isso até hoje”, afirmou o tucano

Familiares de mortos e desaparecidos dão ultimato à Comissão da Verdade

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Além de reunião com Dilma, grupo pediu depoimentos públicos, reorganização metodológica e volta de Claúdio Fonteles

por Marsílea Gombata na Carta Capital

A Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos deu um ultimato à Comissão Nacional da Verdade. Em reunião de caráter urgente, parentes de vítimas da ditadura pediram mais transparência nos trabalhos do órgão, assim como uma reestruturação metodológica.

Segundo Maria Amélia Almeida Teles, que compõe a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, o grupo pediu ainda uma audiência pública com a presidenta Dilma Rousseff, na qual pretende debater a falta de participação dos parentes de vítimas nas investigações.

“Já estávamos preocupados com o fato de as audiências serem sigilosas. Entendemos que o princípio da transparência exige publicidade das sessões”, ressaltou Amelinha, que foi torturada no início dos anos 1970. “A construção da verdade é uma construção coletiva, e a sociedade deve participar dela para que esta se cumpra como metodologia pedagógica junto à opinião pública.”

Um ponto enfatizado para o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias e a advogada Rosa Cardoso, integrantes da comissão presentes da reunião desta segunda-feira 24, é o fato de a Comissão “não priorizar” o depoimento de familiares ligados aos mortos e desaparecidos políticos – segundo Amelinha, a “razão dessa comissão”.

Ivan Seixas, outro integrante da Comissão de Familiares presente à reunião, classificou de “inconcebível” a “discriminação” sobre os o grupo. “Os familiares de mortos e desaparecidos não são apenas familiares, mas pessoas que apuraram esses crimes e, portanto, conhecem a estrutura da repressão”, protestou. “Nós nem sequer fomos ouvidos até agora. Exigimos que isso seja modificado já, para salvar a comissão e garantir que funcione até o final de mandato [em 2014]”, disse. Ele afirmou, no entanto, que os familiares só se darão por satisfeitos quando conseguirem levar tais reivindicações para a prsidenta Dilma, com quem pretendem discutir também método das investigações, o procedimento das apurações e as conclusões que levarão à construção das recomendações da Comissão Nacional.

Segundo Suzana Lisboa, que integrou a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos do governo federal, a reunião entre a CNV e os familiares, que inicialmente era para ser mensal e depois bimestral, teve uma primeira edição no ano passado e uma segunda só agora, na segunda-feira 24. “Pedimos uma audiência com a presidenta da República para expor nossa insatisfação e temos a expectativa de que a comissão seja recomposta, pois tem de ser um coletivo e não um grupo de pessoas no qual cada um faz o que quer”, afirmou.

Segundo o ex-ministro e advogado José Carlos Dias, a CNV reconheceu alguns erros e “assumiu a humildade de várias falhas que eventualmente está cometendo”. “Assumi publicamente uma crítica sobre o depoimento do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, em uma audiência pública transmitida pela internet, na qual se ouviu apenas uma vítima [o vereador Gilberto Natalini] quando deveriam ter sido ouvidas mais”, ressaltou. “Tratamos de realinhar nosso trabalho para maior aproximação entre o grupo dos familiares e o trabalho que a gente vem desenvolvendo”.

Na saída da reunião, a atual coordenadora da CNV, Rosa Cardoso, evitou falar sobre o resultado do encontro. “Ainda não metabolizamos essa questão. Ouvimos e estamos levando uma proposta para a presidenta. Ainda não discutimos entre nós”, declarou.

A coordenadora, segundo interlocutores presentes à reunião, teria acatado as reivindicações. “Ela deixou muito claro na reunião que a comissão é das vítimas e tem de ouvi-las”, contou Maria Amélia. “Além de ter reconhecido a necessidade de uma reorganização metodológica, Rosa Cardoso disse que a comissão não pode se manter neutra.”

Divergências internas. Um dos pontos reclamados pelo grupo de parentes de mortos e desaparecidos foi em relação às divergências internas. José Carlos Dias se disse cansado física e psicologicamente diante dos desgastes decorrentes das diferenças posições na Comissão Nacional. “Não é para ter esse desgaste que estamos tendo. Isso é muito desagradável. Temos de nos unir e caminhar para frente”, afirmou. “Se marido e mulher às vezes se separam, imagina como é com sete cabeças diferentes”.

O órgão tem enfrentado conflitos internos entre as visões de seus membros. Um grupo liderado por Paulo Sérgio Pinheiro defende que a CNV apresente suas conclusões apenas no relatório final. Já Rosa Cardoso – e também Cláudio Fonteles, que deixou a comissão na semana passada – acredita que o grupo deve produzir uma discussão pública sobre a ditadura, trabalhar com depoimentos públicos e dar maior visibilidade a todos os passos dos grupos de trabalho da comissão.

A saída de Fonteles é interpretada como uma perda para a comissão de familiares, que, durante a reunião, fez um apelo por seu retorno.

Passe Livre diz ao Planalto que mobilidade urbana é direito, não mercadoria

No Viomundo

Foto: Marcelo Camargo/ABr

CARTA ABERTA DO MOVIMENTO PASSE LIVRE SÃO PAULO À PRESIDENTA

À Presidenta Dilma Rousseff,

Ficamos surpresos com o convite para esta reunião. Imaginamos que também esteja surpresa com o que vem acontecendo no país nas últimas semanas.

Esse gesto de diálogo que parte do governo federal destoa do tratamento aos movimentos sociais que tem marcado a política desta gestão. Parece que as revoltas que se espalham pelas cidades do Brasil desde o dia seis de junho tem quebrado velhas catracas e aberto novos caminhos.

O Movimento Passe Livre, desde o começo, foi parte desse processo. Somos um movimento social autônomo, horizontal e apartidário, que jamais pretendeu representar o conjunto de manifestantes que tomou as ruas do país. Nossa palavra é mais uma dentre aquelas gritadas nas ruas, erguidas em cartazes, pixadas nos muros. Em São Paulo, convocamos as manifestações com uma reivindicação clara e concreta: revogar o aumento.

Se antes isso parecia impossível, provamos que não era e avançamos na luta por aquela que é e sempre foi a nossa bandeira, um transporte verdadeiramente público. É nesse sentido que viemos até Brasília.

O transporte só pode ser público de verdade se for acessível a todas e todos, ou seja, entendido como um direito universal. A injustiça da tarifa fica mais evidente a cada aumento, a cada vez que mais gente deixa de ter dinheiro para pagar a passagem.

Questionar os aumentos é questionar a própria lógica da política tarifária, que submete o transporte ao lucro dos empresários, e não às necessidades da população.

Pagar pela circulação na cidade significa tratar a mobilidade não como direito, mas como mercadoria. Isso coloca todos os outros direitos em xeque: ir até a escola, até o hospital, até o parque passa a ter um preço que nem todos podem pagar.

O transporte fica limitado ao ir e vir do trabalho, fechando as portas da cidade para seus moradores. É para abri-las que defendemos a tarifa zero.

Nesse sentido gostaríamos de conhecer o posicionamento da presidenta sobre a tarifa zero no transporte público e sobre a PEC 90/11, que inclui o transporte no rol dos direitos sociais do artigo 6o da Constituição Federal.

É por entender que o transporte deveria ser tratado como um direito social, amplo e irrestrito, que acreditamos ser necessário ir além de qualquer política limitada a um determinado segmento da sociedade, como os estudantes, no caso do passe livre estudantil.

Defendemos o passe livre para todas e todos!

Embora priorizar o transporte coletivo esteja no discurso de todos os governos, na prática o Brasil investe onze vezes mais no transporte individual, por meio de obras viárias e políticas de crédito para o consumo de carros (IPEA, 2011). O dinheiro público deve ser investido em transporte público!

Gostaríamos de saber por que a presidenta vetou o inciso V do 16º artigo da Política Nacional de Mobilidade Urbana (lei nº 12.587/12) que responsabilizava a União por dar apoio financeiro aos municípios que adotassem políticas de priorização do transporte público. Como deixa claro seu artigo 9º, esta lei prioriza um modelo de gestão privada baseado na tarifa, adotando o ponto de vista das empresas e não o dos usuários.

O governo federal precisa tomar a frente no processo de construção de um transporte público de verdade. A municipalização da CIDE, e sua destinação integral e exclusiva ao transporte público, representaria um passo nesse caminho em direção à tarifa zero.

A desoneração de impostos, medida historicamente defendida pelas empresas de transporte, vai no sentido oposto. Abrir mão de tributos significa perder o poder sobre o dinheiro público, liberando verbas às cegas para as máfias dos transportes, sem qualquer transparência e controle. Para atender as demandas populares pelo transporte, é necessário construir instrumentos que coloquem no centro da decisão quem realmente deve ter suas necessidades atendidas: os usuários e trabalhadores do sistema.

Essa reunião com a presidenta foi arrancada pela força das ruas, que avançou sobre bombas, balas e prisões. Os movimentos sociais no Brasil sempre sofreram com a repressão e a criminalização. Até agora, 2013 não foi diferente: no Mato Grosso do Sul, vem ocorrendo um massacre de indígenas e a Força Nacional assassinou, no mês passado, uma liderança Terena durante uma reintegração de posse; no Distrito Federal, cinco militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) foram presos há poucas semanas em meio às mobilizações contra os impactos da Copa do Mundo da FIFA. A

resposta da polícia aos protestos iniciados em junho não destoa do conjunto: bombas de gás foram jogadas dentro de hospitais e faculdades; manifestantes foram perseguidos e espancados pela Polícia Militar; outros foram baleados; centenas de pessoas foram presas arbitrariamente; algumas estão sendo acusadas de formação de quadrilha e incitação ao crime; um homem perdeu a visão; uma garota foi violentada sexualmente por policiais; uma mulher morreu asfixiada pelo gás lacrimogêneo. A verdadeira violência que assistimos neste junho veio do Estado – em todas as suas esferas.

A desmilitarização da polícia, defendida até pela ONU, e uma política nacional de regulamentação do armamento menos letal, proibido em diversos países e condenado por organismos internacionais, são urgentes.

Ao oferecer a Força Nacional de Segurança para conter as manifestações, o Ministro da Justiça mostrou que o governo federal insiste em tratar os movimentos sociais como assunto de polícia. As notícias sobre o monitoramento de militantes feito pela Polícia Federal e pela ABIN vão na mesma direção: criminalização da luta popular.

Esperamos que essa reunião marque uma mudança de postura do governo federal que se estenda às outras lutas sociais: aos povos indígenas, que, a exemplo dos Kaiowá-Guarani e dos Munduruku, tem sofrido diversos ataques por parte de latifundiários e do poder público; às comunidades atingidas por remoções; aos sem-teto; aos sem-terra e às mães que tiveram os filhos assassinados pela polícia nas periferias.

Que a mesma postura se estenda também a todas as cidades que lutam contra o aumento de tarifas e por outro modelo de transporte: São José dos Campos, Florianópolis, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, Goiânia, entre muitas outras.

Mais do que sentar à mesa e conversar, o que importa é atender às demandas claras que já estão colocadas pelos movimentos sociais de todo o país. Contra todos os aumentos do transporte público, contra a tarifa, continuaremos nas ruas! Tarifa zero já!

Toda força aos que lutam por uma vida sem catracas!

Movimento Passe Livre São Paulo

24 de junho de 2013

A proposta de pacto pela governabilidade

 

por   em seu blog.

O quadro político atual está assim.

  1. As manifestações mudaram totalmente  o foco das políticas públicas no país inteiro. Foi necessário um tremendo choque de realidade para que governantes colocassem, finalmente, o cidadão como centro maior das políticas públicas.
  2. As manifestações decretam o fim do modelo político-institucional criado pela Constituição de 1988 e colocam em xeque o modelo do presidencialismo de coalisão. E lançam no ar a grande questão: como garantir a governabilidade dentro da nova moldura político-partidária?
  3. Depois do choque sísmico da última semana, há um período de assentamento, com alguns tremores aqui e ali, dando margem à ação de provocadores, mas tendendo a refluir nos próximos dias.
  4. Há também um frenesi da classe política, buscando respostas para a crise. Falou-se em nova constituinte para referendar nova reforma política.
  5. Há analistas usando raciocínios dos anos 80 e 90 para explicar a atual crise de contemporaneidade. Até hoje usam penicilina para qualquer forma de infecção. Uns sustentam que a culpa é da política econômica, outros que é da corrupção. Ainda o mais lúcido dos oposicionistas, Fernando Henrique Cardoso definiu bem o momento: a crise é de todo o modelo e partido nenhum pode pretender tirar vantagem.

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Ontem à noite, a presidente Dilma Rousseff sua proposta de construção de cinco pactos no país. Um pacto por responsabilidade fiscal; outra pela reforma política com plebiscito popular para uma Constituinte exclusiva; um pacto pela saúde, outro pela educação pública, outra pelo transporte.

Logo após, o presidente do PSDB, senador Aécio Neves, soltou uma nota aceitando a proposta de debate da presidência da República com governadores e prefeitos.

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Por trás de todas essas movimentações, a constatação de que não interessa a ninguém responsável a desestabilização do regime. E que todos os partidos, políticos e instituições estão no mesmo barco, devendo uma resposta conjunta ao país.

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As manifestações trouxeram um personagem velho-novo para o campo político: provocadores, que parecem ter emergido das tumbas do tempo. Ontem mesmo, em um evento na FGV-São Paulo, foram lembradas as bombas em bancas de revista e no jornal O Estado de S. Paulo, nos estertores do regime militar.

Momentos de lusco-fusco político são propícios à participação de agitadores. Daí a importância desse pacto de governabilidade.

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Não basta apenas recorrer a remédios antigos – como a Constituinte – para trabalhar questões contemporâneas: a necessidade de radicalizar a participação popular nas políticas públicas, fruto dos novos tempos de redes sociais.

Esta é a construção coletiva a desafiar os analistas, os especialistas nas novas mídias, os cientistas políticos que consigam fugir do enquadramento dos modelos convencionais de democracia representativa, sem avançar de forma imprudente nas ferramentas de democracia direta. E, também, a nova opinião pública que emerge da Internet, para que não se deixe enganar pelos que, em outros tempos, eram denominados de “pescadores de águas turvas”.

A Grande Oportunidade

O Brasil está diante de uma grande oportunidade diante da iniciativa da presidenta Dilma, que reconheceu a energia democrática que vinha das ruas. Esse movimento pode ser o motor do aprofundamento da democracia no novo ciclo político que se aproxima. Caso contrário, a direita tudo fará para que o novo ciclo seja tão excludente quanto os velhos ciclos que durante tantas décadas protagonizou. E não esqueçamos que terá a seu lado o big brother do Norte, a quem não convém um governo de esquerda estável em nenhuma parte do mundo.

por Boaventura de Sousa Santos na Carta Maior

A história ensina e a atualidade confirma que não é nos períodos de mais aguda crise ou privação que os cidadãos se revoltam contra um estado de coisas injusto, obrigando as instituições e o poder político a inflexões significativas na governança. Sendo sempre difíceis as comparações, seria de esperar que os jovens gregos, portugueses e espanhóis, governados por governos conservadores que lhes estão a sequestrar o futuro, tanto no emprego como na saúde e na educação, se revoltassem nas ruas mais intensamente que os jovens brasileiros, governados por um governo progressista que tem prosseguido políticas de inclusão social, ainda que minado pela corrupção e, por vezes, equivocado a respeito da prioridade relativa do poder económico e dos direitos de cidadania.

Sendo esta a realidade, seria igualmente de esperar que as forças de esquerda do Brasil não se tivessem deixado surpreender pela explosão de um mal-estar que se vinha acumulando e que as suas congêneres do sul da Europa se estivessem a preparar para os tempos de contestação que podem surgir a qualquer momento. Infelizmente assim não sucedeu nem sucede. De um lado, uma esquerda no governo fascinada pela ostentação internacional e pelo boom dos recursos naturais; do outro, uma esquerda em oposição acéfala, paralisada entre o centrismo bafiento de um Partido Socialista ávido de poder a qualquer preço e o imobilismo embalsamado do Partido Comunista.

O Bloco de Esquerda é o único interessado em soluções mais abrangentes mas sabe que sozinho nada conseguirá.

Mas a semelhança entre as esquerdas dos dois lados do Atlântico termina aqui. As do Brasil estão em condições de transformar o seu fracasso numa grande oportunidade. Se as aproveitarão ou não, é uma questão em aberto, mas os sinais são encorajadores. Identifico os principais. Primeiro, a Presidente Dilma reconheceu a energia democrática que vinha das ruas e praças, prometeu dar a máxima atenção às reivindicações dos manifestantes, e dispôs-se finalmente a encontrar-se com representantes dos movimentos e organizações sociais, o que se recusara fazer desde o início do seu mandato. Resta saber se neste reconhecimento se incluem os movimentos indígenas que mais diretamente têm afrontado o modelo de desenvolvimento, assente na extração de recursos naturais a qualquer preço, e têm sido vítimas constantes da violência estatal e pára-estatal e de violações grosseiras do direito internacional (consulta prévia, inviolabilidade dos seus territórios).

Segundo, sinal da justeza das reivindicações do Movimento Passe Livre (MPL) sobre o preço e as condições de transportes, em muitas cidades foram anulados os aumentos de preço e, nalguns casos, prometeram-se passes gratuitos para estudantes. Para enfrentar os problemas estruturais neste setor, a Presidente prometeu um plano nacional de mobilidade urbana. Sendo certo que as concessionárias de transportes são fortes financiadoras das campanhas eleitorais, tais problemas nunca serão resolvidos sem uma reforma política profunda. A Presidente, ciente disso e do polvo da corrupção, dispôs-se a promover tal reforma, garantindo maior participação e controlo cidadão, e mais transparência às instituições. Reside aqui o terceiro sinal.

Creio, no entanto, que só muito pressionada é que a Presidente se envolverá em tal reforma. Está em vésperas de eleições, e ao longo do seu mandato conviveu melhor com a bancada parlamentar ruralista (com um poder político infinitamente superior ao peso populacional que representa) e com suas agendas do latifúndio e da agroindústria do que com os setores em luta pela defesa da economia familiar, reforma agrária, territórios indígenas e quilombolas, campanhas contra os agrotóxicos, etc. A reforma do sistema político terá de incluir um processo constituinte, e nisso se deverão envolver os sectores políticos das esquerdas institucionais e movimentos e organizações sociais mais lúcidos.

O quarto sinal reside na veemência com que os movimentos sociais que têm vindo a lutar pela inclusão social e foram a âncora do Fórum Social Mundial no Brasil se distanciaram dos grupos fascistoides e violentos infiltrados nos protestos e das forças políticas conservadoras (tendo ao seu serviço os grandes meios de comunicação), apostadas em tirar dividendos do questionamento popular. Virar as classes populares contra o partido e os governos que, em balanço geral, mais têm feito pela promoção social delas era a grande manobra da direita, e parece ter fracassado. A isso ajudou também a promessa da Presidente de cativar 100% dos direitos da exploração do petróleo para a educação (Angola e Moçambique, despertem enquanto é tempo) e de atrair milhares de médicos estrangeiros para o serviço unificado de saúde (o SUS, correspondente ao SNS português).

Nestes sinais reside a grande oportunidade de as forças progressistas no governo e na oposição aproveitarem o momento extra-institucional que o país vive e fazerem dele o motor do aprofundamento da democracia no novo ciclo político que se aproxima. Se o não fizerem, a direita tudo fará para que o novo ciclo seja tão excludente quanto os velhos ciclos que durante tantas décadas protagonizou. E não esqueçamos que terá a seu lado o big brother do Norte, a quem não convém um governo de esquerda estável em nenhuma parte do mundo, e muito menos no quintal que ainda julga ser seu.

Dilma propõe plebiscito para Constituinte exclusiva fazer a reforma política

por LUIZA DAMÉ e  CATARINA ALENCASTRO, no Globo Online

BRASÍLIA – A presidente Dilma Rousseff abriu na tarde desta segunda-feira a reunião com governadores e prefeitos das capitais com objetivo de definir uma linha de ação conjunta para melhorar os serviços públicos no país. A presidente destacou que busca soluções para as reivindicações que vem das ruas. Ela defendeu um plebiscito para uma Constituinte exclusiva para a reforma política, além de propor lei para a corrupção ser crime hediondo.

- Mais do que um debate estamos aqui para procurar soluções. Buscamos respostas, todas elas republicanas e participativas, aos problemas que inquietam e mobilizam o povo brasileiro – disse Dilma na abertura da reunião que convocou com todos os governadores, prefeitos das capitais e seus principais ministro – O povo está nas ruas dizendo que quer as mudanças, está nos dizendo que quer mais cidadania. Quer serviços públicos de qualidade, mecanismos mais eficientes de combate à corrupção – disse ainda a presidente Dilma.

Antes do encontro, a presidente recebeu no Palácio do Planalto representantes do Movimento Passe Livre, que iniciou a onda de protestos pelo país com o objetivo de reduzir as tarifas de ônibus.

A presidente listou quais são os cinco pactos que ela propõe agora: o primeiro ponto é a estabilidade fiscal; uma reforma política com a proposição de um plebiscito para uma Constituinte com fim exclusivo de tratar desse assunto; recursos e ações exclusivas para o SUS; plano para o transporte público, com o anuncio de desoneração de PIS e Cofins para o diesel e para a energia que move veículos da rede de transporte; e ações para a educação, com destinação de 100% dos recursos do pré-sal para o setor.

- Estamos passando por um inequívoco processo de mudança, talvez a mais ampla que o país já vivenciou – afirmou a presidente, que reforçou que é preciso ouvir o que dizem as manifestações nas ruas.

Ela deu destaque, dentro do pacto de reforma política, à definição de regras mais severas para corrupção, inclusive prevendo a possibilidade de que seja considerada crime hediondo, quando for dolosa.

Ela destacou que o que está acontecendo no país é reflexo de um processo de inclusão social, e que “agora o povo nas ruas quer mais”.

- Quer uma representação política permeável, uma sociedade em que o cidadão, e o não o direito econômico, esteja em primeiro lugar. É bom que o povo esteja dizendo isso em alto e bom som. Cabe a cada um de nós ouvir.

Dentro do primeiro pacto, de responsabilidade fiscal, Dilma destaca que o objetivo é garantir estabilidade econômica, com controle da inflação.

Sobre o segundo pacto, de reforma política, Dilma afirmou que o segundo pacto gira em torno da “construção de ampla e profunda reforma política, que amplie a participação popular e amplie o horizonte da cidadania”

- Todos nós já sabemos que esse tema entrou e saiu várias vezes na pauta do país, temos a iniciativa de sair do impasse – disse a presidente, que propôs um plebiscito popular para criar uma constituinte específica para a reforma política.

No terceiro ponto, a presidente colocou o SUS, e destacou que a classe médica não precisa se preocupar com a importação de médicos do exterior, já que será dado prioridade aos profissionais brasileiros antes de se oferecer postos de trabalho a profissionais de outros países.

- Não se trata de medida hostil a nossos médicos, mas uma ação emergencial em encontrar médicos em número suficiente e com disposição para as regiões mais remotas. Sempre oferecemos primeiro aos médicos brasileiros as vagas, só depois chamaremos os estrangeiros.

Dentro das medidas de mobilidade urbana – o quarto pacto, Dilma anunciou a aguardada desoneração do PIS e da Confins para o óleo diesel, que movimenta esses veículos do transporte público.

- Decidi destinar mais R$ 50 bilhões em investimentos para obras de mobilidade urbana e investir em metrôs, tivemos a incorreta opção de não investir em metrô.

Por fim, no pacto pela educação pública, a presidente reforçou que nenhuma nação se desenvolve sem educação em tempo integral, creches, ensino profissionalizante, e universidades, e afirmou que condição essencial nesse pacto é a boa remuneração dos professores.