Arquivo mensais:maio 2013

Boaventura de Souza Santos: “Querem criar o Estado de mal-estar social na Europa”

 

Segundo Boaventura, a Europa está deixando de ser um continente de primeiro mundo para tornar-se “um miniatura do mundo

Por Gilberto Costa, da EBC 

Santos questiona a racionalidade dos cortes dos gastos sociais que estão sendo feitos na Europa (Foto: Neil Cummings / Creative Commons)

A crise econômica está fazendo a Europa deixar de ser o continente em que as políticas sociais diminuem os efeitos das desigualdades econômicas e permitem uma boa qualidade de vida ao conjunto da população. “Querem criar o Estado de mal-estar na Europa”, critica Boaventura de Sousa Santos, o sociólogo português mais conhecido no Brasil, fazendo referência ao antigo welfare state [Estado de bem-estar] criado na Europa, a partir do final da Segunda Guerra Mundial (1945).

Segundo Boaventura, a Europa está deixando de ser um continente de primeiro mundo para tornar-se “um miniatura do mundo, com países de primeiro, segundo e terceiro mundos”. Ele se refere ao empobrecimento de alguns países e a falta de proteção aos cidadãos, como acontece em Portugal, Espanha e Grécia, mas com reflexos em todo o continente.

Para o sociólogo, o modelo de governança da União Europeia esvaziou-se e o projeto está desfeito de forma irreversível. Ele atribui ao “neoliberalismo” os problemas enfrentados pelo continente, como o desemprego. “Essa crise foi criada para destruir o trabalho e o valor do trabalho”, disse, ao encerrar em Lisboa um colóquio sobre mobilidade social e desigualdades.

Conforme os dados do Eurostat, há 26,5 milhões de pessoas desempregadas nos 27 países – contingente superior a toda a população na Região Sul do Brasil (Censo 2010). Para o sociólogo, parte das demissões ocorre por alterações nas regras de contratação. “Mudam os contratos de trabalho, mas não mudam os contratos das PPP”, disse se referindo às parcerias público-privadas contratadas entre governos e companhias particulares para a exploração de serviços como concessionários ou de infraestrutura.

Além da inflexão na economia e no plano social, Boaventura assinala transformações políticas, como o esvaziamento do poder decisório dos parlamentos, e dos lugares de “concertação social”, como os portugueses chamam os conselhos e pactos criados para diminuir conflitos entre empresários, trabalhadores e governo. Na opinião do sociólogo, em vez dessas instâncias, se impõe a vontade dos credores externos, como acontece em Portugal, segundo ele, por causa da Troika (formada pelo Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia).

Boaventura Sousa Santos diz que a ação direta da Troika leva à imobilidade do governo e questiona a racionalidade dos cortes dos gastos sociais que estão sendo feitos. Na Assembleia da República, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, disse que haverá convergência das pensões e aposentadorias de ex-funcionários públicos e ex-empregados privados. O chefe do executivo português afirmou que não é uma opção ajustar a economia e mudar direitos adquiridos. “O país tem que ajustar”, defendeu

A oposição critica, diz que a medida é inconstitucional, e reclama do governo por tratar a austeridade como inevitável. De acordo com o secretário-geral do Partido Socialista, António José Seguro, em menos de dois anos de mandato de Passos Coelho, 459 mil empregos foram cortados – quase a metade dos 952,2 mil desempregados contabilizados em março.

Concorrência desleal

China, Índia, Coreia do Sul e Bangladesh manipulam seus custos para ganhar mercado dos produtos brasileiros

ChinaHoje, de exportadores de calçados, vestuário, bicicletas, automóveis e inúmeros produtos da linha branca, transformamo-nos em importadores de produtos asiáticos. Foto: Mark Ralston/ AFP

A perda de dinamismo das exportações da indústria brasileira e a substituição da produção nacional por importações são o fruto de um cuidadoso descaso ideológico que comandou a política cambial durante duas décadas, a partir da segunda metade dos anos 80 do século passado. Foi um período em que a nossa economia se deixou conduzir conforme as “lições” do pensamento globalizante, segundo as quais os objetivos das políticas de crescimento deviam concentrar-se na busca da estabilidade macroeconômica e em garantir a credibilidade dos mercados financeiros. Os governos deveriam esquecer aquela “breguice” de planejamento da expansão da infraestrutura e de incentivos ao desenvolvimento industrial, principalmente. As tais ideias “modernizantes” foram praticadas sistematicamente, mesmo diante das evidências de que se estava destruindo o que havia de mais sofisticado em nossa manufatura, enquanto o abandono da infraestrutura produziu os enormes gargalos logísticos que respondem pelo substancial aumento do “custo Brasil”.

No período 1981-1984, quando enfrentávamos os momentos mais dramáticos da segunda fase da crise de preços do petróleo, a participação das exportações brasileiras com relação ao mundo era de 1,2%, igual àquela da Coreia e da China. Durante o primeiro mandato de FHC, uma política cambial alienante levou o País, em 1998, à beira do “default”, o que representou séria ameaça à sua reeleição. Esta foi salva graças a um “socorro” do FMI feito às pressas sob a intervenção política intempestiva do governo americano. Chegamos assim à dramática queda do valor das nossas exportações para apenas 0,9% do comércio mundial. Para quê? Para esconder “artificialmente” a taxa de inflação!

Nos primeiros anos do século XXI houve um princípio de recuperação em nossas exportações, graças à maior oferta dos produtos da nossa agropecuária e da mineração, e em razão do aumento dos preços no comércio mundial, devido à extraordinária expansão da economia chinesa, principalmente, e de alguns de seus parceiros asiáticos.

Em 2012, o Brasil exportou 242,6 bilhões de dólares, a Coreia 548,2 bilhões e a China 2,05 trilhões, respectivamente, 10, 20 e 80 vezes mais do que em 1984! O quadro nesta página dá uma ideia do que aconteceu.

A composição atual das nossas exportações sugere que elas serão menos elásticas no futuro em resposta ao aumento da renda mundial, do que aquela dos países que exportam produtos industrializados. Nossa indústria luta para reconquistar alguns espaços nos mercados externos, mas em circunstâncias extremamente difíceis, porque, além de a economia de antigos e bons clientes (Comunidade Europeia e associados principais) estar submersa numa terrível crise de emprego, o próprio mercado doméstico padece com a inundação de produtos estrangeiros a preços de dumping.

Hoje, de exportadores de calçados, vestuário, bicicletas, automóveis e inúmeros produtos da linha branca, transformamo-nos em importadores. E muitas de nossas fábricas não têm como enfrentar a concorrência de produtos chineses, indianos, coreanos, de Bangladesh, com seus preços manipulados por mil expedientes e subsídios embutidos. São duas as causas principais que explicam a continuidade dessa desleal competição com a nossa indústria: 1. Permitimos a desorganização do sistema de tarifas efetivas protegendo os setores de insumos básicos. 2. Permitimos que se produzisse uma forte valorização do câmbio, pelo aumento dos salários nominais muito acima da taxa de câmbio nominal.

Há pelo menos quatro anos, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas (Abimaq) defende duas providências fundamentais para o aumento dos investimentos e a recuperação do desenvolvimento industrial: 1. Construir as condições para uma flutuação organizada do câmbio nominal. 2. Comprometer-se com as políticas monetária, fiscal e trabalhista que conduzam à moderação salarial e reduzam seus eventuais efeitos inflacionários.

Brasil disputa espaço na Comissão Interamericana de Direitos Humanos

Por Renata Giraldi na 

Agência Brasil

Brasília – Autoridades e especialistas brasileiros estão em uma corrida contra o tempo. Em pouco menos de um mês haverá eleições para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), relativas ao período 2014-2017. Criada há 54 anos, a comissão vinculada à Organização dos Estados Americanos (OEA) é responsável pela promoção e proteção dos direitos humanos.

O Brasil lançou como candidato o ex-ministro Paulo de Tarso Vannuchi a uma das três vagas que abrem este ano. As eleições ocorrerão durante a 43ª Assembleia Geral da OEA, em Antígua, Guatemala, de 3 a 6 de junho.

A exemplo do que foi feito na campanha do embaixador brasileiro Roberto Carvalho de Azevêdo, que venceu as eleições para a Organização Mundial do Comércio (OMC), no Ministério das Relações Exteriores, Itamaraty, foi montado um grupo de trabalho para a campanha com integrantes de setores considerados essenciais – América do Sul, ações sociais e direitos humanos, além de divulgação e imprensa.

Desde meados da semana passada, Vannuchi intensificou sua campanha para a comissão. Ele começou com viagens aos países mais próximos do Brasil e, depois vai ampliar. No último dia 7, ele apresentou a candidatura a diplomatas de 21 embaixadas com representação em Brasília. O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, acompanhou a reunião.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos acompanha os fatos em todos os países das Américas e costuma fazer advertências sobre situações consideradas inadequadas, como ocorreu com Honduras, devido a violações e transgressões registradas em presídios brasileiros.

Além do brasileiro, concorrem ao posto James Cavallaro (Estados Unidos), Erick Roberts Garcés (Equador), Javier de Balaúnde López de Romaña (Peru). Tentam a reeleição José de Jesús Orozco Henríquez (México) e o atual presidente da comissão, Rodrigo Escobar Gil (Colômbia).

A comissão é formada por sete integrantes eleitos pela Assembleia Geral da OEA para um mandato de quatro anos, com direito a uma reeleição. Integram OEA 23 países e todos têm direito a voto. Cada país vota em três candidatos. Não é possível fazer uma conta sobre o mínimo necessário de votos.

Edição: Beto Coura

Maioridade penal

Políticas voltadas a jovens infratores

 

O Brasilianas.org desta semana, às 20h, abordará o tema da maioridade penal que, no Brasil, segue as orientações da Organização das Nações Unidas, de 18 anos. O assunto voltou ao debate nos principais meios de comunicação após a morte de um jovem de 19 anos, na porta de casa, durante assalto praticado por um adolescente de 17. O agressor estava prestes há completar 18 anos, mas, como no momento do crime era menor de idade, cumprirá pena socioeducativa de até três anos na Fundação Casa.

O incidente deu respaldo para o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB-SP), levar ao Congresso Nacional um projeto de lei que prevê punições mais rígidas para menores de 18 anos. A proposta, assinada pelo deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), amplia a pena máxima em casos de reincidência em infrações de crimes considerados hediondos, como estupro e assassinato, de três para oito anos.
O PL também aumenta a punição para adultos que aliciarem menores de idade a cometerem crimes. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, já se posicionou contrário ao projeto de lei, considerando a redução da maioridade penal inconstitucional. Por outro lado, levantamento recente realizado pelo Datafolha apontou que 93% dos paulistanos querem maioridade penal aos 16 anos. Em 2006, o mesmo levantamento revelava que 88% dos paulistanos aprovavam uma redução da maioridade penal para os 16 anos de idade.
Para compreender se a redução da maioridade penal é a saída para aplacar crimes graves cometidos por menores de 18 anos, bem como a situação das instituições de recuperação de crianças e adolescentes infratores,

o programa Brasilianas.org convida o presidente da Associação Paulista do Ministério Público, Felipe Locke Cavalcanti, contrário à redução da maioridade; o especialista em Direito Penal,Yure Melo, favorável a penas mais rígidas a menores de 18 anos; e a coordenadora-adjunta do Núcleo de Pesquisas do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e Pesquisadora da Unesp de Marília, Alessandra Teixeira.

  

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Apresentação: Luís Nassif

Diretor: Pola Galé
Produtores: Aline Penna, Lilian Milena e João Paulo Caldeira
Pauta: Lilian Milena e João Paulo Caldeira

“Pedreiros do futuro”

 

 Por Ellen Viana na Revista fórum

 

Ontem, ao conversar com meus alunos sobre o futuro, fui surpreendida por respostas, até certo tempo atrás, impossíveis de serem ouvidas em sala de aula.Estávamos falando sobre sonhos, desejos e profissões do futuro e cada um deles falou sobre sua expectativa de vida e sobre o que gostariam de ser quando crescerem. Uma boa parte quer ser médica, outra parte quer ser engenheira, enfermeira e, para a minha alegria, ou tristeza talvez, não identifiquei algum querendo ser professor. Naquele momento, percebi um sinal de que o valor (ou a falta de valor) do professor é sabido até mesmo pelos pequenos. A comunidade na qual se localiza a escola que trabalho tem altos índices de violência em comparação com as demais da capital maranhense. Nela, a droga virou moeda de troca e a lei do silencio é a única cumprida à risca pela população.

Protesto, em Brasília, alerta necessidade de combate ao crack (Foto: Antônio Cruz/ABr)

Continuando a conversa com eles, descobri que alguns alunos gostariam muito de ser pedreiros… ”Uau! Nossa! Que estranho!” Nada contra a profissão, mas… (momento de reflexão). Eles não deveriam sonhar em serem engenheiros também assim como os outros? ”Por que sonhar com uma profissão tão árdua e de pouca remuneração”?

Foi evidente minha cara de surpresa na frente dos meus alunos, mas a conversa prosseguiu com a minha argumentação da necessidade deles sonharem mais alto, pensarem em uma profissão melhor. Muitos riram do meu esforço de demovê-losda ideia. Fiquei sem entender!!

A manhã passou normalmente entre assuntos de arte e relatos de vida. Atéque, ao final da aula, um daqueles, que sonham em ser pedreiro, teve dó de mim e resolveu explicar o motivo de muitos quererem essa “profissão”.

- Tia, a senhora sabe o que é e o que faz um pedreiro?

Eu respondi do alto do meu grande conhecimento (Achava eu…):

- Ora… Pedreiro é o profissional que trabalha na construção civil, que faz cimento, casa, etc.. Você não acha que é pouco pra quem tem sonhos? Não deverias tentar ser doutor, criaturinha?

Ele deu um sorriso e respondeu:

- Tia, pedreiro é quem vende pedra de Crack. Aqui na comunidade, quem vende mais pedras ganha mais, tem “participação nas vendas”. A senhora não vê alguns alunos com celulares de última geração e cordão da moda? Compram com o dinheiro da “comissão” da venda.

Neste momento, meu mundo desabou completamente. Vi que meus anos de estudo não adiantaram ao saber que estava perdendo alguns alunos para o tráfico e que os seus sonhos estavam sendo destruídos por um “comércio” mais vantajoso, porém,arriscado. Para que serviria meu diploma neste momento? Como modificar a ideia de que esse dinheiro era legal? Fazê-los saber que suas vidas valem mais do que um celular da moda ou um pesado cordão pendurado no pescoço? Como sacudi-los para que pudessem ver a realidade?

Saí de lá com a sensação de luto, de peso, de impotência. E essa sensação se agrava ao sabermos que a maioria destes meninos, que sonham com as “vantagens” do tráfico, tem em suas famílias traficantes poderosos e que alimentam nestes pequenos esses sonhos. Não quero e não vou desistir de usar a arte para que eles possam ver a vida de outra cor; vou somar-me a quem mais se incomodar com essa realidade para podermos, através de uma educação decente, que não segrega ou exclui, colorir a vida destes “aspirantes a pedreiros”, fazendo-os ver que as cores do mundo são melhores quando pelos olhos da legalidade e da esperança. Que seus sonhos podem levá-los mais longe do que uma ”boca de fumo” e que ser “doutor”, em uma comunidade mergulhada no tráfico, será uma vitória do bem contra o mal.

Hoje, vou tirar meu diploma da parede, guardá-lo em alguma gaveta, pois ali não me serve de referência, afinal, ainda estou impotente diante da realidade destes meninos. No dia em que eu conseguir fazer com que pelo menos um deles mude de ideia, talvez eu tenha coragem de exibir meu diploma outra vez… Talvez!

São Luís, março de 2013.

* arte educadora da rede municipal e estadual de ensino.

STF: termina hoje prazo para recurso de condenados no mensalão

Por Thais Leitão na Agência Brasil

Brasília – Termina hoje (2) o prazo para que os condenados no julgamento da Ação Penal 470, o processo do mensalão, apresentem recursos ao Supremo Tribunal Federal (STF). Até ontem (1º), seis de um total de 25 protocolaram embargos declaratórios na Suprema Corte.

O embargo declaratório é usado para esclarecer pontos da decisão que não foram bem delimitados pelos ministros no julgamento. Alguns advogados usam o instrumento para tentar alterar o teor das decisões, mas isso raramente ocorre no STF. Os ministros entendem que os embargos declaratórios servem apenas para pequenos ajustes.

primeiro a apresentar o recurso ao STF foi o advogado Rogério Lanza Tolentino. Também recorreram à Corte, Marcos Valério, considerado o principal articulador do esquema e condenado a mais de 40 anos de prisão e à multa de cerca de R$ 2,78 milhões pelos crimes de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, evasão de divisas e peculato; o publicitário Cristiano Paz, ex-sócio de Marcos Valério; o deputado federal Valdemar Costa Neto; o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e Simone Vasconcelos, ex-diretora financeira da SMP&B, condenada a mais de 12 anos de prisão por lavagem de dinheiro, corrupção ativa, evasão de divisas e formação de quadrilha.

Concluído em dezembro do ano passado, após mais de quatro meses de trabalho, o processo do mensalão é omaior julgado em toda a história do STF. Além do grande impacto político, a complexidade da ação penal vem da própria estrutura do processo. Originalmente com 40 réus, a ação produziu mais de 50 mil páginas e demandou a oitiva de 600 testemunhas. O julgamento durou 53 sessões e consumiu 204 horas de funcionamento do plenário, monopolizando o trabalho do STF no segundo semestre de 2012 – em geral, a Corte leva até quatro sessões para julgar casos mais complexos.

Dos 40 réus iniciais, três não chegaram a passar por julgamento. Dos 37 réus que foram julgados, 25 foram condenados e 12 absolvidos. A Corte decidiu que 11 deles devem cumprir a pena em regime inicialmente fechado, 11 em regime semiaberto, um em regime aberto e dois tiveram a pena substituída por medidas restritivas de direito, como pagamento de multa e proibição de exercício de função pública. Ao todo, as condenações somaram 273 anos, três meses e quatro dias de prisão, e as multas superaram R$ 20 milhões em valores ainda não atualizados.

Edição: Talita Cavalcante

1º de Maio: falta um palanque para o Brasil

Por Saul Leblon no Blog das frases

A dificuldade conservadora de chegar ao eleitor popular é um dado real que explica a composição postiça de alguns palanques desse 1º de Maio.
Bem cotados entre as elites e os endinheirados, com robusta veiculação na mídia e forte ancoragem no judiciário, os presidenciáveis do campo conservador ainda assim rastejam.

Falta-lhes o essencial: identidade popular.

Ressentem-se de um percurso histórico que os conduza ao coração do povo com a naturalidade com que Lula o frequenta e compartilha com seus parceiros.

Sem esse passaporte, as urnas ameaçam frustrar novamente seus planos de poder em 2014.

Na impossibilidade de simular o lado da história que não é o seu, buscam a bala de prata redentora nas falhas reais ou impingidas ao governo.

Não tem sido mais felizes aí.

A inflação dos alimentos sustentou a ‘ola’ conservadora em direção ao voto popular nas últimas semanas.

Murchou.

A mídia dissimula, mas os preços no atacado recuam.

A oscilação do índice da FGV, em abril, foi de apenas 0,15%.

No caso dos preços ao consumidor (IPCA) houve deflação de 0,12% no mês.

As commodities despencam no mercado mundial.

Nada disso rendeu a mísera equivalência de uma das muitas manchetes destinadas ao tomate que agora perdeu seu tempero eleitoral.

Outra ponte ‘popular’ , a do apagão, precipitaria escaladas ansiosas em fevereiro.

Tudo arrastado pelos aguaceiros de março.

O Brasil não terá dificuldades de suprimento elétrico em 2013 ou em 2014.

Mas o país está longe de ser o palco iluminado das virtudes douradas.

O longo parto de um novo ciclo de investimento ilustra as fragilidades de um Estado feito para não funcionar.

Engessado pelo desmonte neoliberal, persistiu erroneamente assim.

Enredado em um cipoal de interditos, recursos suspensivos, manobras de bastidores e agencias reguladoras inoperantes.

O conjunto triplica o tempo e o custo necessários ao tijolo assentado na obra pública.

Nessa arapuca, o Estado quando cede é cúmplice. Se não cede é inoperante.

O conservadorismo pouco ou nada tem a acrescentar nesse quesito também.

Ainda fresca na memória nacional, o que ele produziu nesse campo revelou-se um desastre de proporções ferroviárias.

Não é só uma metáfora.

Cerca de 2/3 dos 28 mil km de trilhos federais foram sucateados e pilhados no ciclo tucano de privatizações da logística brasileira.

O dado é do Tribunal de Contas da União.

Neste 1º de Maio, Paulinho, da Força, lustra uma nova bala reluzente: arrenda aos presidenciáveis Aécio e Campos a bandeira da restauração do ‘gatilho salarial’ .

Um artefato com calibre sob medida para reavivar a brasa da inflação cadente.

Convenhamos, algo impróprio a quem vive de acusar o PT de populismo.

A dificuldade conservadora de erguer pontes com o voto popular explica a tensão política respingada na guerrilha cotidiana do noticiário.

Busca-se, a todo custo, saltar uma barreira superior a 19 milhões de empregos gerados nos últimos 12 anos.

Um aumento real de poder de compra do salário mínimo da ordem de 70%.

O crescimento ininterrupto da renda familiar, inclusive e sobretudo, no apogeu da crise internacional.

Um avanço da renda domiciliar maior que o do próprio PIB, graças às transferências dos programas sociais.

E o reconhecimento– pelo FMI—de que o Brasil foi o líder mundial na redução do desempregos em pleno colapso da ordem neoliberal, desde 2008.

Estorvo a ser exterminado com um choque de juros é tudo o que os professores banqueiros e os cofres simpatizantes de Aécio & Campos tem a dizer sobre esse legado.

A dificuldade conservadora em dialogar com esses fatos sobrecarrega o único trunfo que pode chamar verdadeiramente de seu.

Ou seja, a difusão diuturna da ideia de que o Brasil não vai dar certo, enquanto for governado pelas forças progressistas.

Em rota de colisão com a vivência de milhões de brasileiros, a estratégia da saturação busca corroer a supremacia dos fatos sobre as ideias.

Os fatos continuam a caminhar à frente das ideias.

Foi nisso que o PT apostou ao adotar a resignação enervante diante de uma estrutura de comunicação que sempre lhe foi hostil.

O dado novo é que talvez esse pragmatismo tenha se tornado ele próprio um pedaço do idealismo que sempre desdenhou.

Um ciclo de reordenação do desenvolvimento brasileiro se esgotou.

Exatamente porque foi bem sucedido, diga-se.

A expansão do poder de compra popular e a geração de milhões de empregos cobram agora a contrapartida de investimentos pesados, que os consolidem e ampliem o espaço da cidadania na vida nacional.

Escolhas e prioridades terão que ser pactuadas.

Rupturas e concessões são inevitáveis.

Queremos ter indústria? A que custo, com que ganhos?

O sistema público de saúde pode ir além, com os remendos e o esforço de gestão (mais com menos…)?

Ou será necessário, definitivamente, criar uma contribuição fiscal sobre o bolso endinheirado para dotá-lo da qualidade hoje indistinguível no horizonte de uma geração?

O consumismo é o ‘centro da meta’ de tudo o que queremos como convergência social propiciada pelo desenvolvimento?

Como ir além dele com a supremacia da semi-informação, da semicultura e da semidignidade marteladas insistentemente pelas concessionárias do sistema audiovisual brasileiro?

Como assegurar aos brasileiros uma formação que extrapole o adestramento pedestre vendido pelos gigantescos aparelhos de negócios que tomam de assalto o sistema educacional?

A produção de novos fatos do desenvolvimento não pode prescindir mais do debate de toda a sociedade sobre o país que queremos construir no século 21.

Não se trata de paralisar o Brasil para a formação de grupos de estudo .

Mas talvez não se possa mais avançar sem romper os limites de um sistema de comunicação que se notabiliza justamente por interditar o debate e demonizar as soluções requeridas ao passo seguinte da história brasileira.

O reconhecimento de que a coalizão derrotada em 2002, 2006 e 2010 é desprovida de um projeto crível de país nesse momento, não deve cevar a barriga da soberba no balcão do comodismo.

Os sinais de saturação de um ciclo já não partem apenas da economia.

A hipertrofia do judiciário dispara sucessivas sirenes de alerta.

Os conflitos e contradições do desenvolvimento já não encontram solução satisfatória nos trâmites e no timming no qual se arrastam a perder de vista.

Ou o país abre novos canais para o debate ecumênico e democrático de seus desafios, ou a vida política será assoalhada por impasses dissolventes.

A eles, o arbítrio enviesado do STF responderá como um bunker de última instância da ordem conservadora.

O IVC informa que em 2012 a visitação aos sites de conteúdo informativo explodiu no país: cresceu 39%. Já soma 25 milhões de visitantes/mês.

Evitar que essa enorme caixa de ressonância se reduza a uma réplica do que já existe impresso seria um primeiro passo encorajador na garantia de espaços ecumênicos para debater o futuro.

Esses temas talvez estejam ausentes dos palanques do Dia 1º de Maio.

Mas talvez sejam mais pertinentes aos trabalhadores do que os aplausos de encomenda a candidatos que condensam interesses imiscíveis com o significado da data.