Arquivo mensais:abril 2013

MST protesta em todo o país para relembrar o Massacre de Eldorado dos Carajás

Manifestantes ocupam prédios públicos no Abril Vermelho, mês de lutas do movimento para lembrar o episódio

Da Agência Brasil

Ações devem ocorrer em 1,8 mil cidades (Foto: Marcello Casal Jr./Arquivo ABr)

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) inicia hoje (17) várias manifestações pelo país para marcar a luta contra a violência no campo e assassinatos de agricultores. As ações vão ocorrer em 1,8 mil cidades.

Os protestos fazem parte do Abril Vermelho, jornada de lutas do MST para lembrar o Massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, quando 21 trabalhadores rurais foram mortos em um confronto com a Polícia Militar do Pará.

Em Pernambuco, 12 rodovias foram bloqueadas, segundo o movimento. Em Porto Alegre, a Secretaria Estadual de Educação foi ocupada por sem-terra que pedem maior investimento governamental na educação. Em Fortaleza, os manifestantes ocuparam a sede do Departamento Nacional das Obras contra as Secas, para negociar a situação de camponeses afetados pela estiagem.

Em Brasília, os sem-terra, em parceria com servidores do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), distribuíram 2 toneladas de alimentos produzidos em acampamentos e projetos de assentamento. Foram entregues cerca de 800 sacolas com quiabo, feijão-de-corda, mandioca, batata-doce, chuchu, abóbora e abobrinha verde. Para Reginaldo Marcos Aguiar, diretor da Associação dos Servidores da Reforma Agrária em Brasília, a parceria é para mostrar “que a luta por essa reforma não é só uma luta política, mas também tem o objetivo de deixar claro que os assentamentos da reforma agrária, do Incra e da agricultura familiar produzem alimentos de qualidade, sem agrotóxico e sem causar mal a quem os consome”.

Por volta das 10h, cerca de 500 sem-terra marcharam na Esplanada dos Ministérios em memória aos trabalhadores mortos no Massacre de Eldorado dos Carajás. No ato, eles carregavam caixões e cruzes.

Integrantes do movimento participaram de uma reunião no Ministério da Justiça (MJ). Segundo o representante do MST no Distrito Federal, Diego Moreira, o grupo cobrou “agilidade nos processos de julgamento e condenação dos mandantes e executores de crimes no campo”. “Chega de impunidade.” Em resposta, o ministério informou que vai conversar com os tribunais e o Conselho Nacional de Justiça para buscar atender a reivindicação do movimento.

No Rio de Janeiro, os sem-terra protestaram em frente à Superintendência Estadual do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para exigir um plano emergencial para assentamento de 150 mil famílias em todo o país. Cantando músicas e carregando bandeiras e com os dizeres “Chega de Violência no Campo” e “Queremos Reforma Agrária Já”, o grupo, com cerca de 200 pessoas, começou a passeata no bairro da Glória, na zona sul, e seguiu até a sede da companhia Vale, no centro da cidade, onde se juntou à manifestação organizada pela Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale. A manifestação foi acompanhada por homens da Guarda Municipal e parou o trânsito na região.

De acordo com um dos representantes do diretório nacional do MST, Marcelo Durão, os trabalhadores querem retomar as negociações com o governo. “Estamos neste mês de abril inteiro cobrando da presidenta Dilma Rousseff uma medida em relação aos assentamentos. A discussão pela reforma agrária está parada, então é importante nós acionarmos, tanto o Poder Judiciário como o governo para termos a obtenção de terras e a realização desses assentamentos”, disse Durão.

Segundo dados do Incra, o número de famílias assentadas no estado do Rio chegou a 92 no ano passado, contra 113 em 2011.

 

Qual é o futuro do desenvolvimento do Brasil?

Por Luiz Antonio Cintra na Carta Capital

Contêiners são preparados para exportação no Porto de Paranaguá (PR). A situação da indústria é o foco do fórum em Campinas. Foto: Divulgação

Contêiners são preparados para exportação no Porto de Paranaguá (PR). A situação da indústria é o foco do fórum em Campinas. Foto: Divulgação

As incertezas internacionais, a recente piora da situação externa brasileira, a perda de competitividade dos produtos manufaturados fabricados no País, aparentemente sem volta possível, a precária situação regional e a crise sem solução na Zona do Euro dominaram o primeiro dia do seminário Desafios e Oportunidades para o Desenvolvimento Brasileiro, que continua nesta terça-feira e na quarta-feira no Instituto de Economia da Unicamp, com transmissão ao vivo pela internet.

O evento é organizado pela Rede Desenvolvimentista, núcleo de debates e pesquisas criado por pesquisadores e professores ligados principalmente ao IE-Unicamp, Universidade Federal do Rio de Janeiro, outras universidades federais e FGV-SP, com apoio do Centro de Estudos Estratégicos (CGEE), Oscip conveniada ao Ministério de Ciência e Tecnologia.

A ideia do grupo é discutir estratégias de médio e longo prazo de desenvolvimento nacional, com ênfase na centralidade da indústria e na diversificação da matriz econômica no sentido de uma maior participação dos setores intensivos em conhecimento. Remam, portanto, contra a maré de uma conjuntura extremamente favorável ao agronegócio e às exportações de commodities de baixo valor agregado, como o minério de ferro, apesar da proximidade ideológica com a atual equipe econômica.

“É preciso reconhecer que nos últimos anos estamos cada vez mais dependentes do preço das commodities”, afirmou André Biancarelli, atual coordenador da rede e professor do IE-Unicamp, na mesa que avaliou com a situação externa da economia brasileira. “O mais provável é que nos próximos anos o setor externo não seja nem alavanca do crescimento, já que não está no horizonte uma opção de crescimento do tipo export led (focada nas exportações, como as asiáticas), mas tampouco funcionará como um bloqueio, como já ocorreu em outros momentos da história da economia brasileira. Ou seja, não está no horizonte uma crise cambial clássica”, afirmou Biancarelli. Daniela Prates, também do IE-Unicamp, foi mais pessimista: chamou a atenção para os efeitos perniciosos e de longo prazo decorrentes da valorização cambial e a consequente piora da balança comercial, com o déficit crescente de manufaturados.

Com viés heterodoxo ligado ao pensamento de figuras como Celso Furtado, Maria da Conceição Tavares, Carlos Lessa, Luiz Gonzaga Belluzzo, Delfim Netto, Samuel Pinheiro Guimarães (presente ao encontro em Campinas) e Bresser-Pereira (que participará de uma mesa na quinta-feira), serão discutidos temas como o mercado de trabalho, desigualdade e políticas sociais, estratégias de desenvolvimento, fontes de financiamento e políticas econômicas capazes de enfrentar a maré internacional de instabilidade e a maré nacional da soja.

A programação completa e a transmissão online estão acessíveis no site da Rede Desenvolvimentista (http://www.reded.net.br/), que também terá em breve a íntegra dos debates.

Energias limpas: tanto, e tão pouco…

 

 

 

 

 

Por Antônio Martins no Outras Palavras

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Consciência social e avanços tecnológicos ampliam, em todo o mundo, uso do sol e ventos, na geração de eletricidade. Mas é preciso fazer muito mais, alerta novo relatório

Uma notícia ótima, outra muito preocupante. Primeiro: um estudo da Agência Internacional de Energia (IEA), divulgado hoje (17/4) voltou a apontar rápido crescimento na geração de energia a partir de fontes limpas. Entre 2011 e 2012, a produção de eletricidade a partir de células solares cresceu 21%; e a geração eólica, 12%.

O avanço foi motivado por avanços tecnológicos que reduziram o preço das fontes limpas, e principalmente pela consciência sobre os riscos do aquecimento global. Países como China, Índia e Brasil, destaca a agência, introduziram com velocidade as novas fontes. A China tornou-se líder mundial na geração limpa. No Brasil, a Associação Brasileira de Energia eólica acaba de informar que a capacidade instalada das usinas de vento cresceu 73% no ano — embora elas ainda sejam responsáveis por apenas 2% da eletricidade total produzida.

A notícia alarmante está no próprio relatório da AIEA. O esforço feito nos últimos anos em favor das fontes renováveis é extremamente bem-vindo — mas muito insuficiente para reverter as tendências anteriores. É que, ao mesmo tempo em que sol e vento ampliaram sua participação, muito mais energia passou a ser gerada a partir do carvão. Entre 2000 e 2013, devido ao encarecimento do petróleo, usinas a carvão — as que mais produzem gases do efeito-estufa — geraram 45% mais energia, em todo o mundo. Foi suficiente para neutralizar as conquistas da eletricidade limpa, lamentou Maria van den Hoeven, a diretora-executiva da IEA.

Para alcançar avanços reais, será preciso restringir progressivamente o uso do carvão e petróleo acelerar ainda mais o uso dos ventos e sol. Infelizmente, as políticas “de austeridade” têm prejudicado o esforço. O The Guardian informa hoje que, devido a cortes de subsídios que estimulavam a conversão para fontes limpas, principalmente na Europa, os investimentos em energia solar e eólica caíram, no primeiro trimestre de 2012, para o patamar mais baixo nos últimos quatro anos.

Campos defende alta de juros para conter a inflação

No Brasil 247

Diogo Sallaberry/Futura Press/Fo: PORTO ALEGRE,RS,09.04.2013:EDUARDO CAMPOS/MEDALHA MÉRITO FARROUPILHA - O governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB, Eduardo Campos, recebe a Medalha do Mérito Farroupilha, distinção máxima da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, após c

Um dos principais críticos da política econômica do governo da presidente Dilma Rousseff (PT), o governador de Pernambuco e pré-candidato à presidência da República, Eduardo Campos (PSB), adotou um discurso mais ameno em sua passagem por Brasília (DF e defendeu um possível aumento da taxa de juros para segurar a inflação; “Estamos caminhando para ter aumento da taxa básica de juros, e isso não pode ser lido como um desastre. A política monetária tem que funcionar na direção de preservar exatamente uma conquista brasileira, que foi a contenção da inflação”

PE247 – Um dos principais críticos da política econômica do Governo da presidente Dilma Rousseff (PT), o governador de Pernambuco e pré-candidato à Presidência da República, Eduardo Campos (PSB), adotou um discurso mais ameno em sua passagem por Brasília (DF). Campos disse que o possível aumento da taxa de juros para segurar a inflação, que está acima da meta, não pode ser interpretado como um “desastre”. “Por todos os sinais que a gente lê na imprensa, estamos caminhando para ter aumento da taxa básica de juros, e isso não pode ser lido como um desastre. A política monetária tem que funcionar na direção de preservar exatamente uma conquista brasileira, que foi a contenção da inflação”, declarou.

Campos teve um encontro, nesta terça-feira (16), com senadores do bloco União e Força (PTB, PSC, PR e PPL), cuja iniciativa partiu do parlamentar da Casa, Armando Monteiro (PTB-PE), para discutir política econômica e temas como o Pacto Federativo e a redução de 13% para 9% do indexador das dívidas dos estados e municípios com a União.

De acordo com o pessebista, é necessário mais investimentos públicos e um marco regulatório para os setores portuário, elétrico e de petróleo e gás porque esta regulamentação gera consequências sobre o “processo decisório no mundo privado, sobretudo no momento em que outras nações começam a aparecer despontando na captação de recursos que antes estavam direcionados para investimentos diretos no Brasil”, afirmou.

Em meio à possibilidade do governo reduzir a meta do superávit primário, o que poderia implicar em um no afrouxamento fiscal, Campos diz não ver problemas, caso esta medida se concretize. “A gente tem que cumprir a meta fiscal, tem um tripé que segura a política econômica, que precisa ser mantido com toda a clareza”, declarou.

Segundo o jornal Valor Econômico, o gestor pernambucano defendeu uma aproximação entre governo, oposição, trabalhadores e empresários para debater o cenário econômico global. “A gente imagina sempre poder fazer mais. Temos de buscar no diálogo franco com o país, com todas as forças responsáveis, uma agenda que possa reconduzir o Brasil ao crescimento econômico”, disse. Campos mostrou-se preocupado com a aproximação entre Estados Unidos e União Europeia, já que os norte-americanos são os principais importadores de produtos brasileiros.

O governador aproveitou para falar, também, sobre o projeto em tramitação na Câmara que visa limitar a transferência de recursos do fundo partidário e do tempo de Rádio e TV para os novos partidos. Campos não vê com bons olhos a matéria. “Agora seria um casuísmo, uma agressão, quando há partidos surgindo e tentando coletar o número de assinaturas exigido, já com parlamentares que desejam tomar essa direção, em torno da senadora Marina Silva, que tem expressão no pensamento brasileiro e no pensamento global”, observou.

A criação, portanto, do Mobilização Democrática (MD), que pode apoiar Eduardo em 2014 e é fruto da fusão do PPS com o PMN, somada à fundação do Rede Sustentabilidade, da ex-ministra de Meio Ambiente e presidenciável Marina Silva, pode vir a beneficiar o gestor ao fazer com que a disputa seja definida em um segundo turno.

Sobre a cultura do estupro

Expressão indica que a sociedade não só tolera como incentiva a violência contra mulheres por meio da violência sexual, mas vai além: é um processo para constranger pessoas a se adequarem a papéis de gênero

Por Cynthia Semíramis na Revista Fórum

Uma expressão que vem se tornando bastante frequente quando se fala em violência contra mulheres é que vivemos em uma “cultura do estupro”, na qual a sociedade incentiva a violência sexual contra mulheres. Porém, essa visão é bastante restrita para os dias atuais, embora fosse perfeitamente compreensível na época de sua criação, que ocorreu nos grupos de sensibilização das décadas de 1960 e 1970.

Esses grupos não tinham uma pauta fixa, mas variável, improvisada à medida que as demandas surgiam. Como se tratava de uma época de mudança de mentalidade, eram bastante comuns discussões sobre questões sociais. O intercâmbio de informações entre os grupos gerou mobilização suficiente para pressionar por direitos civis, incluindo mudanças legislativas e políticas públicas para mulheres.

Nesse período, os grupos eram exclusivamente masculinos ou femininos e problematizavam principalmente as relações heterossexuais. As mulheres discutiam como lidar com uma sociedade que reprimia sua sexualidade e negava direitos. Os homens discutiam como os estereótipos acerca da masculinidade (como a pressão para ser sempre autoritário, não chorar, e tratar mulheres como subordinadas) limitavam suas vidas e dificultavam o relacionamento com as mulheres.

No início da década de 1970, nos Estados Unidos, o estupro era considerado uma doença, uma anomalia, uma “necessidade” masculina, uma mentira ou culpa da vítima. Esses conceitos foram questionados à medida que os comentários das pessoas nos grupos de sensibilização apresentavam visões completamente diferentes sobre o tema.

Estupro como relação de poder

O grupo New York Radical Feminists destacou-se nessa área, produzindo palestras e conteúdo que inspiraram cineastas e escritoras. Dentre os trabalhos produzidos merecem destaque o documentário Rape Culture (Cultura do estupro), de Margaret Lazarus e Renner Wunderlich, e o livro de Susan Brownmiller Against Our Will: Men, Women and Rape (Contra a nossa vontade: homens, mulheres e estupro), ambos de 1975.

O documentário foi importante porque apresentou diversos pontos de vista em relação ao estupro, dando voz às vítimas, estupradores e pessoas que trabalhavam em centros de atendimento às vítimas. Também fez uma análise da abordagem midiática em casos de estupro, concluindo que a cultura da época endossava a violência sexual contra mulheres.

O livro de Susan Brownmiller apresenta um histórico detalhado sobre o estupro. São expostas inclusive questões raciais (a origem da mentira de que homens negros seriam “naturalmente” estupradores) e observações sexistas em livros jurídicos (um autor sugeria desprezar denúncias de estupro porque as mulheres “têm tendência a mentir”).

Brownmiller concluiu que o estupro não é um crime relacionado a sexo ou desejo sexual. O estupro se refere a uma relação de poder: trata-se de um processo de intimidação pelo qual todos os homens mantêm todas as mulheres em um estado de medo permanente.

A violência doméstica se enquadra nesse raciocínio, pois mulheres são tratadas como propriedade masculina e essa relação se manifesta por meio do espancamento e do estupro marital. Estupros em casos de escravidão e de guerra (inclusive religiosa) também se encaixam nessa teoria, pois são uma forma de subjugar por meio da violência sexual. E o conceito de feminicídio (homicídio de mulheres que não obedecem aos cânones sociais) claramente deriva dessa observação de que a cultura legitima a violência contra mulheres.

Em todos esses exemplos fica nítida a relação de poder: as mulheres não têm vontade própria, sendo consideradas propriedade dos homens. E a respeitabilidade masculina só é obtida na medida em que a mulher pode ser coagida a seguir as regras sociais e obedecer ao pai ou marido. A coação é feita criticando as mulheres que não aceitam se submeterem a essas regras e culpando as vítimas de crimes sexuais. Com medo de serem hostilizadas e violentadas, acabam se submetendo à autoridade masculina para evitar mais violência.

Cultura do estupro para manter papéis de gênero

Atualmente, a compreensão é de que não se deve opor homens a mulheres, como fez Brownmiller, pois o problema está na estrutura social antiquada que determina papéis de gênero fixos: homens deveriam agir de determinada forma; mulheres, consideradas inferiores a eles, deveriam agir de forma diferente para evidenciar essa inferiorização e deveriam se subordinar aos homens. Às pessoas caberia simplesmente acatar e se enquadrar nos papéis predeterminados.

Nessa estrutura, a forma utilizada para constranger mulheres a se submeter aos homens está no controle do corpo e de sua sexualidade: deveriam ser virgens ou sexualmente recatadas, não deveriam usar determinadas roupas ou frequentar certos locais. E a punição para as que não aceitassem era a legitimação da violência por meio de hostilidade e, em casos extremos, estupro e morte. Ou seja, a cultura do estupro é o processo de constrangimento social que garante a manutenção dos papéis de gênero. Não é uma ação individual (como se todo homem odiasse mulheres), mas uma convenção social que mantém determinados papéis e estruturas sociais.

Esse constrangimento social não é direcionado somente às mulheres, mas a toda pessoa que não se enquadre no modelo. Os homens heterossexuais perceberam isso nos grupos de sensibilização dos anos 1960, quando questionavam os estereótipos acerca da masculinidade e eram hostilizados por não serem “masculinos o suficiente” para a cultura da época. Em tempos recentes, homossexuais também perceberam que desde a infância foram moldados para agir de acordo com papéis de gênero que desprezam sua liberdade, forçando-os a uma heterossexualidade compulsória. Quando não se adequam são ridicularizados, estuprados e agredidos até a morte. Mulheres lésbicas enfrentam os mesmos problemas, agravados pela ameaça de estupro corretivo para que a violência sexual as “transforme em heterossexuais”. Ao contrário do que parecia na década de 1970, a cultura do estupro não é uma questão apenas de violência contra mulheres heterossexuais.

Generalizações inadequadas

A cultura do estupro é bastante criticada por generalizar, transformando todos os homens em estupradores e todas as mulheres em vítimas passivas. Esse tipo de generalização é inadequado e não beneficia a ninguém. Ele perpetua a história da Chapeuzinho Vermelho que deve se precaver contra todos os homens, como se cada um deles fosse o Lobo Mau à espreita para seduzi-la e destruir sua reputação, forçando-a ao isolamento social.

Outro problema de tratar a mulher sempre como vítima é hostilizá-la quando ela recusa este papel, desprezando sua autonomia para decidir o melhor jeito de lidar com a violência que sofreu.

Há alguns anos o caso de Natascha Kampsuch gerou comoção por duas vezes. Primeiro, quando se descobriu que ela foi retirada à força de sua família, estuprada e mantida em cárcere privado dos 10 aos 19 anos. Quando conseguiu fugir, o agressor se suicidou. Em seguida, foi bastante criticada ao publicar suas memórias e expor estratégias de resistência, mostrar o agressor como uma pessoa comum (e não um monstro) e contar como conseguiu superar os traumas.

Guardadas as devidas proporções, no Brasil há o caso de Geisy Arruda, hostilizada pelos colegas de faculdade por causa de um vestido curto. Ela se recusou a continuar no papel de vítima e foi criticada por não ter se escondido, procurando lucro e projeção social como compensação pela hostilidade que sofreu.

A generalização cria uma guerra dos sexos inútil, que gera desconfiança e perpetua estereótipos: infantiliza as mulheres e despreza suas possibilidades de resistência ou de mudança de papéis, além de ignorar os inúmeros casos em que os homens são vítimas de violência sexual ou são injustamente acusados de terem-na cometido.

Combatendo a cultura do estupro

A discussão sobre a cultura do estupro já tem cerca de quarenta anos. Não há como ignorar que o mundo mudou bastante nesse período. As mulheres cada vez mais obtêm a igualdade de direitos e questões relacionadas à liberdade sexual são cada vez mais garantidas pelo Estado.

No Brasil, os termos sexistas da legislação criminal foram abolidos em 2005. Em 2009, uma nova lei retirou o crime de estupro da seção de crime contra os costumes, para enquadrá-lo nos crimes contra a liberdade sexual, reconhecendo o direito da vítima de direcionar sua sexualidade de acordo com sua vontade – e não segundo a prescrição social. O crime de estupro também foi alterado de forma a reconhecer que se trata de uma relação de poder, inclusive considerando que tanto mulheres quanto homens podem ser vítimas de estupro.

As modificações na legislação demonstram que, ao menos em relação ao Estado, a cultura do estupro vem sendo sistematicamente eliminada. Embora vários dos avanços legislativos dos últimos anos derivem de condenações do Brasil nas cortes internacionais de direitos humanos, o que importa é a pressão exercida por essas condenações e pelos movimentos sociais para que o Estado, com todo o seu aparato e poder de coerção, atue para que essas práticas sejam modificadas. A estrutura social se modifica para encampar a igualdade entre homens e mulheres e garantir a liberdade sexual de todas as pessoas.

Porém, as práticas sociais mudam lentamente. Publicidade, jornalismo, novelas e outros produtos midiáticos ainda creem estar no século XIX e agem contra a lei divulgando conteúdo que legitima racismo e violência contra mulheres e homossexuais. É necessário combater isso por meios legais e também com manifestações mais incisivas de movimentos sociais. Mas é importante lembrar que ações contra a cultura do estupro devem compreender as mudanças dos últimos anos e reconhecer que se trata de uma disputa em torno de papéis de gênero.

Grupos exclusivamente femininos ou masculinos podem existir para questões específicas, mas é melhor que coexistam com grupos mistos. O diálogo se amplia, as polarizações são matizadas e ao invés de tratarem o homem ou a mulher como inimigos, como muitas pessoas vêm fazendo, é possível perceber que todas as pessoas têm uma causa em comum: lutam para que os papéis de gênero deixem de ser opressores, e que a liberdade e a autonomia de todas as pessoas sejam efetivamente respeitadas.

Não é possível atualmente ter medo ou demonizar os homens, sejam eles heterossexuais ou não: eles são aliados das mulheres na luta contra a cultura do estupro porque também fazem parte e sofrem com a estrutura social que os engessa em papéis de gênero.

Venezuela: autocrítica e história

Por Saul Leblon no Blog das Frases

A vitória apertada de Maduro na Venezuela teve o efeito de uma ducha fria sobre a consciência progressista continental.

Não se deve fechar os olhos às falhas evidenciadas pelo safanão das urnas.
É preciso despir a soberba, mas sem troca-la pelo diagnóstico circular da ‘barafunda chavista’.

A autocrítica consequente aponta caminhos sem abstrair a história.

Os despachos de Gilberto Maringoni e Vinicius Mansur, direto de Caracas, trazem uma informação que serve ao mesmo tempo de alívio e alerta para a verdadeira natureza dos desafios que se colocam ao governo Maduro.

O problema da Venezuela, ao contrário da Argentina, por exemplo, não é falta de divisas.

O país exportou US$ 97 bilhões, em 2012, contra importações de US$ 59 bi.

O saldo de US$ 38 bi foi quase duas vezes e meia superior ao do Brasil.

O ponto é que o país não conseguiu transformar uma economia superavitária em sistema produtivo eficiente, capaz de atender a boa parte da demanda, gerar empregos de qualidade, produzir receita fiscal e maior equilíbrio de preços.

Celso Furtado dizia sobre a própria Venezuela nos anos 50: ‘a pior coisa que pode acontecer na história de um país é uma chuva de dinheiro’. Antecipou-se assim o patrono dos economistas brasileiros ao conceito de ‘doença holandesa’, qualificado mais tarde.

Chove dinheiro na Venezuela há décadas.

O motivo é sabido: o petróleo abundante reduziu a economia a um entreposto de embarques de óleo e desembarque de tudo o mais que uma nação consome.

A oligarquia apropriava-se dos frutos dessa baldeação estéril, internalizando um padrão de vida dissociado da pobreza da maioria do povo.

Grosseiramente, pode-se dizer que o chavismo inverteu essa relação.

Mas não conseguiu, ainda, mudar a dinâmica macroeconômica.

Parte expressiva da receita da estatal Petroleos de Venezuela (PDVSA) passou a financiar programas sociais, planos habitacionais, subsídios e serviços públicos antes inexistentes, ou de precariedade imaginável.

O que muitas vezes se denomina ‘dilapidação da PDVSA’ consiste nessa inversão de circuito de uma riqueza natural que antes beneficiava poucos; agora passou a irrigar a vida da maioria.

Entre 40% e 60% da receita do Estado venezuelano dependem do petróleo e da estatal PDVSA, que tem participação pelo menos 50% em todos os contratos de joint-venture.

A dependência do Estado venezuelano em relação a PDVSA é preocupante, mas não é inédita.

Cerca de 50% da receita da Rússia vem do setor petrolífero. No México, a Pemex garante 30% do caixa do Estado.

O orçamento da Venezuela é estruturado com um preço de referência do petróleo sempre subestimado, com grande margem de segurança.

Um imposto criado em 2008 captura até 60% do lucro extraordinário obtido quando o preço do barril ultrapassa os US$ 70 , por exemplo.

Esse plus não entra no bolo de recursos partilhados com estados e municípios, uma vez que a petroleira não paga imposto sobre ele, reduzindo a receita fiscal.

O dinheiro extra, praticamente um orçamento paralelo, é destinado diretamente aos programas sociais.

Há problemas de transparência, mas eles não invalidam o mecanismo.

Distorções podem ser superadas com a criação de um conselho suprapartidário e o escrutínio do congresso para os gastos. Um pouco como o Brasil modelou o fundo do pré-sal.

O fato é que o engrenagem funcionou.

Tanto assim que nem mesmo o conservadorismo nega os avanços sociais registrados desde 1999.

O caprilismo, a exemplo de assemelhados brasileiros, assegura: ‘o que é bom será mantido – mas é possível fazer mais e melhor’.

A fórmula esperta embalou a campanha oposicionista nas eleições do último dia 14.

Quem não quer? Ficar com o que dá certo, descartar equívocos e ter mais?

A realidade, essa bruxa má, complica os contos de fadas.

As primeiras descobertas de petróleo, no início do século passado, rapidamente tornariam a Venezuela um prato suculento aos olhos do apetite estrangeiro.

Por volta da 1ª Guerra mundial, o país já se destacava como o maior exportador de petróleo do mundo. Hoje está entre as maiores reservas conhecidas do planeta.

Até a chegada de Chávez ao poder, em 1998, o circuito dessa riqueza irrigou o metabolismo seleto de bolsos e contas de uma minoria local e forânea.

A elite venezuelana dominou o país ao longo de décadas; nunca fez um esforço significativo de convergência incremental da riqueza e das oportunidades.

Acusa-se o chavismo de não ter reduzido essa petrodependência em 14 anos.

A nacionalização da PDVSA, iniciada em 2002, só se concluiu em 2007.

Antecedida de cinco anos de uma sangrenta disputa com interesses que hoje embalam Capriles.

A emergência social e política permanente condicionou a velocidade dos programas e investimentos sociais à frente do fomento à produção.

O indutor das circunstâncias deu vida a um pujante mercado de consumo de massa, parte do qual, possivelmente, puniu o seu criador nas urnas.

O poder de compra venezuelano na faixa de renda até dois salários mínimos (R$ 1300,00) é um dos maiores da América Latina.

O país erradicou o analfabetismo; tem hoje a 5ª maior população universitária do planeta.

Uma fatia dos votos adicionados à base natural de Capriles no dia 14 talvez advenha desses novos sujeitos políticos. Descontentes com a velocidade insatisfatória das mudanças estruturais, a um custo sabido em inflação, escassez, empregos pouco atraentes, corporativismos etc.

Economistas do Ipea e da Unila (leia reportagem) indicam que dezenas de iniciativas estão em andamento para diversificar a estrutura produtiva nacional, com a participação do Estado, do setor privado e de empresas mistas com o Irã, China, Rússia e Índia.

É previsível que a gestão dessa corrida contra o tempo deixe a desejar num país jejuno em tradição produtiva.

Enquanto viveu, Chávez foi capaz de harmonizar esse desencontro de tempos históricos com o poder de seu carisma, sua fala fluente e popular.

Sua morte retirou uma rolha de contenção despejando no colo do chavismo um jorro de expectativas e urgências conflitantes.

É nesse trapézio sem rede que Maduro tenta se equilibrar ancorado numa pequena vantagem eleitoral, contestada por uma convergência de interesses de motivações diversas e até difusas.

O terreno nunca foi tão desfavorável ao governo. E nunca se exigiu tanto em poder de superação de um processo social transformador.

As críticas de esquerda às imperfeições do chavismo, ao abuso da oratória, à corrupção e à ineficiência por certo encontram respaldo na realidade.

Abstrair o peso da história, porém, pode sugerir que os homens tem o poder de comandá-la, sem levar em conta as circunstâncias.

Esse pecado seria fatal nesse momento.

As circunstancias indicam a necessidade de Maduro negociar rapidamente com os setores mais receptivos fora do seu arco de forças. E acelerar planos de cooperação e parceria com quem pode e deve ajuda-lo na velocidade requerida.

É o caso do Brasil.

Sem ampliar essa ossatura política, Maduro será um alvo estático entregue à pontaria incansável da artilharia local e internacional.

 

Cresce a cruzada contra o segredo bancário na UE

Por Gianni Carta na Carta Capital

O mínimo esperado de um politico a integrar o gabinete francês é que ele seja honesto. Mas, como sabemos, políticos, mundo a fora, são cada vez menos confiáveis. O ministro francês do Orçamento Jérôme Cahuzac, admitiu ter milhões de euros escondidos em uma conta numerada na Suíça.

E renunciou.

A história não terminou.

    Foto: 401K/Flickr

 

Agora, Cahuzac está sendo investigado por “lavagem de dinheiro” por conta dos proventos da evasão fiscal.

E foi justamente a demissão de ex-ministro do Orçamento a levar o presidente François Hollande a exigir que seus 38 ministros revelassem, na segunda-feira 15, seu patrimônio, ou, como a imprensa francesa diz, “Le Grand Déballage”, a grande revelação.

A revelação foi divertida devido aos contrastes: há ministros milionários e outros muito menos endinheirados.

Por exemplo, o ministro do Exterior, Laurent Fabius, declarou um patrimônio de 6,07 milhões de euros. Por sua vez, a ministra da Habitação, Cécile Duflot, do Partido Verde, admitiu ser dona de um automóvel Renault Twingo, modelo 1999, avaliado em 1,500 mil euros.

No entanto, a evasão fiscal do senhor Cahuzac provocou uma nova cruzada contra o segredo bancário na Europa.

Angela Merkel, a chanceler alemã, está, às vésperas de eleições no seu país, na liderança de um movimento para colocar um  fim de paraísos fiscais. Diante da crise do euro – provocada, segundo seus compatriotas, pela incompetência dos chamados países do sul da Europa – Merkel tem sido no mínimo ágil.

Semana passada, a chanceler alemã esteve no Reino Unido, e, ao lado do premier conservador David Cameron, reforçou o fato de que os paraísos fiscais em ilhas britânicas terão de ser monitorados. Cameron concordou.

A cruzada contra paraísos fiscais continua. Em 22 de maio, os ministros de Finanças da União Europeia (UE), debaterão o segredo bancário. A soma não é irrisória. Equivale a 1,000 bilhões de euros, ou a metade do Produto Interno Bruto (PIB) da França.

Nove países da UE reclamam uma nova legislação: França, Alemanha, Reino Unido, Espanha, Itália, Polônia, Holanda, Bélgica e Romênia.

Como diz o ministro das Finanças da França, Pierre Moscovici: “A luta contra a evasão fiscal tomou uma de dimensão planetária”.

No entanto, as resistências, epecialmente nos paraísos fiscais fiscais, persistem.