Arquivo mensais:abril 2013

Embargos do Mensalão: Mais 250 dias ou Fux vai matar no peito?

O que se espera, diante dos ‘embargos de declaração’ eventualmente interpostos pelos advogados de defesa da AP 470, é que não registre, no conjunto do STF, aquilo que o Ministro Luiz Fux já disse uma vez, e agora possa vir a repetir contra ele próprio: ”Deixa comigo que eu mato no peito”.
“Sr. Presidente, a colocação topográfica dos embargos de declaração no capítulo de recurso torna absolutamente inequívoca a natureza jurídica desse meio de impugnação. De sorte, que a própria lei estabelece que a interrupção dos embargos de declaração interrompe o prazo para a interposição de qualquer recurso, inclusive dos embargos de declaração”.
Luiz Fux, junho de 2006

O Supremo Tribunal Federal resolveu duplicar o prazo para os recursos dos réus na AP 470, conhecida como “mensalão”.

Veiculada assim, genericamente, a notícia elide um aspecto jurídico fundamental.

Quantos dias, de fato, disporão os réus para apresentarem, respectivamente, cada qual o seu recurso, que recebe o nome de ‘embargos de declaração’?

Trata-se do poder de interromper o prazo para outros recursos. Esse é o efeito intrínseco aos embargos de declaração, por força de lei.

Esse poder interruptivo “zera” o prazo para outros recursos, ou seja, devolve-lhes o prazo original integralmente.

A questão essencialmente jurídica, e algo complexa, não é inédita.

Ela já foi objeto de exame pelo hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux, quando ainda ministro do Superior Tribunal de Justiça.

Vejamos seus fundamentos de forma mais acessível.

O que são exatamente os embargos de declaração?
Os embargos de declaração são um tipo de recurso cujo efeito, em regra, não tem o poder de modificar a decisão atacada.

Seu objetivo legal é o esclarecimento de fatos, o enfrentamento de omissões ou a solução de alguma contradição que um julgado possa ter.

Como são vinte e cinco réus condenados, em um acórdão que se estima que terá mais de dez mil páginas, convenhamos, há muito a ser esclarecido. Existirão inúmeras contradições, ademais de omissões que terão que ser enfrentadas.

Como se conta o prazo dos embargos de declaração?
Esse é o ponto crucial do debate.

A evidência do quão séria é a questão abordada aqui remete a um voto do então ministro do Superior Tribunal de Justiça, Luiz Fux, no julgamento do Recurso Especial nº 330.090-RS, em 7 de junho de 2006 (https://ww2.stj.jus.br/revistaeletronica/ita.asp?registro=200100780616&dt_publicacao=30/10/2006) .

A transcrição abaixo das palavras do ministro Fux inclui trechos grifados para facilitar o entendimento:

“Sr. Presidente, a colocação topográfica dos embargos de declaração no capítulo de recurso torna absolutamente inequívoca a natureza jurídica desse meio de impugnação. De sorte, que a própria lei estabelece que a interrupção dos embargos de declaração interrompe o prazo para a interposição de qualquer recurso, inclusive dos embargos de declaração”.

Trocando em miúdos: significa que cada réu da AP 470 disporá de um prazo individual de dez dias para apresentar os seus embargos de declaração.

Esses prazos, em regra são comuns. Isto é, todos venceriam dez dias depois da publicação do tal acórdão de dez mil páginas.

Entretanto, cabe perguntar com base no que nos dizia o então ministro do Superior Tribunal de Justiça, Luiz Fux, em 2006: se, no décimo e último dia do prazo, um só réu apresentar embargos de declaração, o que ocorre com relação aos prazos cabíveis dos demais réus, ou mesmo do Ministério Público Federal?

A resposta da lei é clara e o será também a do atual ministro do STF, Luiz Fux, zeloso de sua coerência.

O prazo dos demais réus e o do próprio Ministério Público Federal é interrompido, inclusive para a interposição de embargos de declaração.

Ou seja, os dez dias são ZERADOS e só voltarão a contar depois de publicado o acórdão dos embargos de declaração daquele réu que apresentou o primeiro recurso.

Publicado o novo acórdão, reinicia-se a contagem do novo prazo de dez dias para os demais réus, que tem resguardado o seu direito de apresentar os respectivos embargos de declaração.

Mais que isso.

Eles preservam o direito de apresentar embargos de declaração relativos àquele primeiro acórdão.

E assim sucessivamente.

A rigor, portanto, aquilo que o Ministro Luiz Fux defendeu como correto quando ainda Ministro do Superior Tribunal de Justiça poderá gerar sucessivos e legítimos embargos de declaração de cada um dos réus, sempre tendo como objeto o primeiríssimo acórdão (aquele que ainda nem foi publicado).

Um cálculo ligeiro dimensiona o que se tem pela frente.

Observada a coerência jurídica, se fosse possível ao Supremo Tribunal Federal julgar os embargos de declaração de cada réu, no mesmo dia de sua interposição, o derradeiro réu teria 250 (duzentos e cinquenta dias) para apresentar os seus embargos de declaração.

Sabe-se, no entanto, que um recurso como esse não será julgado em menos de quinze ou trinta dias.

Portanto, a espiral ascendente potencializa o limite dos 250 dias de tal forma que, talvez o último réu possa apresentar o seu recurso depois da Copa de 2014.

Exagero? Chicana processual? Escândalo?

Ao contrário.

Estamos diante de matéria vilipendiada em todo o processo da AP 470.
Trata-se do pouco lembrado e tão surrado devido processo legal, criteriosamente observado em 2006 pelo autor do Projeto de Código de Processo Civil que ora tramita nas instâncias legislativas: o Ministro Luiz Fux.

Alguém poderá objetar que o voto do Ministro Fux em 2006 foi dado em um caso que não envolvia uma questão criminal.

É verdade.

Mas em outra oportunidade o mesmo Ministro Luiz Fux, ainda no Superior Tribunal de Justiça, votaria igualmente a favor de se aplicar a mesma e devida regra interruptiva (o poder de ZERAR o prazo para os demais recursos, inclusive os próprios embargos de declaração) dos embargos de declaração.

Foi o que ocorreu no julgamento de uma ação penal, nos Embargos de Divergência em Resp nº 287.390-PR, em 18 de agosto de 2004 (https://ww2.stj.jus.br/revistaeletronica/ita.asp?registro=200101113680&dt_publicacao=11/10/2004).

Devido Processo Legal
Portanto, a tese jurídica do Ministro Luiz Fux não é circunstancial.

Ela é tecnicamente perfeita. Esfericamente coerente; pode e deve ser incorporada legitimamente ao arsenal dos advogados de defesa da AP 470.

A pendência que se coloca desse modo, não é de natureza jurídica.

O devido processo legal não mudou entre o Brasil de 2006 e o Brasil de 2013.

A lei e o Estado de Direito mantém-se em vigor.

Teria mudado, talvez, o entendimento do Ministro Fux – e o de seus pares do STF – em relação ao Estado de Direito? Dotando-o de uma singularidade política para tratar especificamente da AP 470, dos personagens e do ciclo histórico nela enredados?

Há razões para temer.

O Ministro Fux tem dispensado à coerência pessoal e institucional uma maleabilidade que o devido processo legal que equipara todos os cidadãos em direito e deveres não pode mimetizar.

Assistiríamos então à baldeação do Estado de Direito para o de Exceção, onde impera o arbítrio e a conveniência.

A conveniência política, pessoal e profissional de ministros do STF não pode impor sua supremacia dissolvente na lisura e na credibilidade que alicerçam e sustentam as decisões da máxima instância do Direito no país.

O que se espera, diante dos ‘embargos de declaração’ eventualmente interpostos pelos advogados de defesa da AP 470, é que não se registre, no conjunto do STF, aquilo que o Ministro Luiz Fux já disse uma vez, e agora possa vir a repetir contra ele próprio:

”Deixa comigo que eu mato no peito”.

Quem são os donos da Terra?

Tucanos começam a temer pela saída de Serra

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No Brasil 247

Primeiro foi o ex-presidente Fernando Henrique, que chamou “de erro de condução local” a escolha do novo presidente do PSDB em São Paulo em detrimento do serrista Andrea Matarazzo; agora, é o governador Geraldo Alckmin que diz não ter gostado da decisão; “A minha posição sempre foi clara: deve haver entendimento, uma executiva em que todos participem. Era a oportunidade do Andrea ser presidente do partido”, lamentou; Serra estaria de malas prontas para ingressar no Mobilização Democrática, criado por Roberto Freire

SP 247 - O ex-presidente Fernando Henrique considerou “erro de condução local” a forma como os tucanos de São Paulo fizeram a substituição da liderança do partido, que levou o vereador Andrea Matarazzo, o mais serrista de todos os tucanos, a retirar sua candidatura ao diretório paulista do partido. Agora, é a vez de o governador Geraldo Alckmin lamentar, numa indicação de que os tucanos começam mesmo a temer pela saída do ex-governador José Serra do partido para o recém-criado Mobilização Democrática, do deputado Roberto Freire (PE).

Preterido, Matarazzo acusou três secretários de Estado tucanos de terem usado a máquina do governo Alckmin para influenciar o resultado da disputa. O nome escolhido em seu lugar foi o do ex-deputado Milton Flávio, que é subordinado a José Aníbal na Secretaria de Energia do Estado. Nesta quinta-feira, Alckmin falou para tentar aplacar os ânimos. “Não gostei da decisão”, disse o governador, após anunciar a ampliação do programa Via Rápida para o Emprego, no Parque da Juventude, zona norte de São Paulo.

“A minha posição sempre foi clara: deve haver entendimento, uma executiva em que todos participem. Era a oportunidade do Andrea ser presidente do partido”, defendeu Alckmin, que foi acusado por tucanos ligados a Serra de se omitir na disputa interna, o que teria facilitado a articulação contra Matarazzo conduzida pelos secretários estaduais José Aníbal, Bruno Covas (Meio Ambiente) e Julio Semeghini (Planejamento).

Questionado sobre a ação de seus secretários, Alckmin negou apoio à articulação: “O que eu recomendei: o Andrea presidente, mas todos façam um bom entendimento. Agora, eu não sou coronel para ficar obrigando as pessoas a votar. Acho que não foi uma boa decisão”. Após o episódio, Matarazzo insinuou que pode deixar o partido, e seu destino pode ser o Mobilização Democrática, resultado da fusão entre PPS e PMN, que também pode ser o destino de Serra. O ex-governador, aliás, já foi convidado e estuda migrar de sigla.

 

EUA: como evitar a pior resposta ao terror

Novamente atingido, país pode amedrontar-se e restringir liberdades que marcaram sua história. É o que planeja quem praticou atentados

Runners continue to run towards the finish line as an explosion erupts at the finish line of the Boston Marathon

Por Bruce Schneifer, no The Atlantic | Tradução: Antonio Martins

À medida em que os detalhes sobre as bombas de Boston aparecem, é fácil ficar apavorado. Seria fácil sentir-se impotente e reivindicar de nossos líderes eleitos algo – qualquer coisa – capaz de nos fazer sentir seguros.

Seria fácil, porém errado. Devemos sentir raiva – e empatia com as vítimas – sem, contudo, nos aterrorizar. Nosso medo é o que os terroristas mais desejam. Ele iria ampliar sua vitória, quaisquer que sejam seus objetivos, quem quer que sejam eles. Não precisamos nos sentir impotentes, nem amedrontados. Temos todo o poder, e há uma atitude a adotar, para tornar o terror ineficaz: a recusa a ficar aterrorizado.

É difícil, porque o terrorismo é concebido exatamente para amedrontar as pessoas – muito além das proporções do perigo real. Uma vasta pesquisa sobre o medo e o cérebro ensina que tendemos a exagerar as ameaças que são incomuns, espetaculares, imediatas, aleatórias – neste caso, envolvendo até crianças – sem sentido, horríveis e escandalosas. O terrorismo pressiona todos os botões do medo, com força, e tendemos a exagerar a reação.

Nossas mentes não devem nos enlouquecer, Ainda que as notícias perdurem por semanas, é preciso reconhecer as coisas como são: foi um evento raro. Esta é a definição precisa de notícia: algo incomum – neste caso, algo que quase nunca acontece.

Basta lembrar o pós 11 de Setembro, quando muitos previram que ataques semelhantes ocorreriam com frequência. Nunca se repetiram, e não foi porque as autoridades aeroportuárias passaram a confiscar facas, nos aeroportos. O FBI desarticulou, de fato, redes terroristas e cortou seu financiamento, mas as ameaças também eram exageradas. A TV e o cinema sugerem que é fácil explodir qualquer coisa. Na verdade, promover atos terroristas é muito mais difícil do que a maioria das pessoas crê. Novamente atingido, país pode amedrontar-se e restringir liberdades que marcaram sua história. É o que planeja quem praticou atentados É difícil de encontrar gente disposta a praticá-los; organizar um plano entre elas; encontrar os materiais necessários; fazer tudo funcionar. Como grupos coletivos, os terroristas são estúpidos, e cometem erros bizarros. Os grandes cérebros do terror são outro mito dos filmes e dos livros e das histórias em quadrinhos.

Os terroristas do 11 de Setembro tiveram sorte.

Se é difícil para nós ter isso em mente, será ainda mais árduo para nossos líderes. Eles temerão que, se forem honestos sobre a impossibilidade de garantir segurança absoluta, sobre a inevitabilidade do terrorismo, ou sobre a importância de defender alguns dos ideais norte-americanos mesmo diante de adversidades, serão rotulados como “dóceis diante do terror”. E temerão o voto contrário dos norte-americanos. Talvez estejam certos, mas onde estarão os líderes destemidos? Onde foi parar a ideia segundo a qual “a única coisa a temer é o próprio medo”.

O terrorismo, mesmo o dos grupos islâmicos radicais, dos extremistas de direita e de agentes solitários, não é uma “ameaça existencial” contra nossa nação. Mesmo os eventos de 11/9, embora muito horrendos, não produziram dano existencial à nação norte-americana. Nossa sociedade é mais robusta do que parece, pela leitura dos jornais. Precisamos começar a agir levando isso em conta.

Há atitudes que podem nos tornar mais seguros, a maior parte dos quais relacionada a investigação, inteligência e respostas emergenciais. Mas nunca seremos 100% seguros, diante do terrorismo. É algo que precisamos aceitar.

O sucesso deste ataque depende muito menos do que ocorreu em Boston de que das nossas reações nas próximas semanas e meses. O terrorismo não é, principalmente, um crime contra pessoas ou propriedades. É um crime contra nossas mentes, que se serve das mortes de inocentes e da destruição de propriedade como cúmplices. Quando reagimos orientados pelo medo, mudamos nossas leis e políticas para tornar nosso país menos aberto. Nesse caso, os terroristas vencem, mesmo que seus ataques fracassem. Mas quando nos recusamos a ser aterrorizados, quando não recuamos diante da face do terror, os terroristas fracassam, ainda que seus ataques tenha êxito.

Não vamos glorificar os terroristas e suas ações, considerando-as parte de uma “guerra contra o terror”. Guerras envolvem duas partes legítimas. Neste caso, há apenas uma parte legítima; na outra, estão criminosos. Eles devem ser encontrados, presos e punidos. Mas precisamos ser vigilantes para não enfraquecer as liberdades que tornam os Estados Unidos grandes, simplesmente porque estamos amedrontados.

Realçar o que ocorreu, mas não se aterrorizar. Ser destemido – e apoiar os líderes que também são. É a forma de derrotar os terroristas.

Reunião da Unasul vai discutir tensão depois de eleições na Venezuela


Renata Giraldi* na Agência Brasil

Brasília – A tensão na Venezuela, em decorrência das eleições presidenciais ocorridas no domingo (14), é o tema principal de uma reunião de urgência convocada para hoje (18) pelos líderes da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), em Lima, no Peru. A presidenta Dilma Rousseff confirmou presença. Depois, ela segue para Caracas, capital venezuelana, para a cerimônia de posse do presidente eleito Nicolás Maduro. No total, oito pessoas morreram e 70 ficaram feridas nos confrontos depois do pleito.

A reunião ocorre em Lima porque o presidente do Peru, Ollanda Humala, comanda temporariamente a Unasul. Integram a Unasul os seguintes países: Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai (suspenso do bloco), Venezuela, Chile, Guiana e Suriname. O Panamá e o México são países observadores do grupo.

O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Congresso peruano, Víctor Andrés García Belaunde, disse que o desafio da reunião é “convencer” as partes em conflito na Venezuela a buscar um “diálogo franco e sincero para salvar a democracia e assegurar a governabilidade”.

O parlamentar se refere a Maduro e ao grupo de oposição, liderado por Henrique Capriles, derrotado nas eleições, pois nos últimos dias os incidentes envolvendo aliados de ambos os lados se agravaram gerando momentos de tensão e violência na Venezuela.

O ministro das Relações Exteriores do Peru, Rafael Roncagliolo, disse que as discussões de hoje terão uma “agenda aberta” sobre a situação na Venezuela. O chanceler lembrou que os países da América do Sul e o México reconheceram os resultados das eleições na Venezuela.

“Parece-nos importante analisar juntos a situação, assim teremos avaliados também situações passadas e montamos uma agenda aberta para ter oportunidade de ter um diálogo conjunto”, ressaltou. “Evidentemente há uma situação difícil e nós queremos ajudar no que for possível”, disse o chanceler.

*Com informações da agência pública de notícias do Peru, Andina.

Edição: Talita Cavalcante

No Roda Viva, Sergio Guerra evidencia diferenças entre PT e PSDB

Conversa com o representante tucano foi didática no que diz respeito ao cenário de disputa eleitoral que se desenha entre os dois partidos

Por Marcelo Hailer na Revista Fórum

Foi ao ar na noite de anteontem, segunda-feira (15), entrevista do presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, ao programa “Roda Viva”, exibido pela TV Cultura. A conversa com o representante tucano foi pra lá de didática no que diz respeito ao cenário de disputa eleitoral que se desenha nos diretórios dos principais partidos brasileiros e principalmente ao deixar clara as diferenças programáticas entre o PT e o PSDB, fator que a imprensa hegemônica teima em apagar com a intenção de ajudar os tucanos a voltarem à presidência da República.

No primeiro bloco, foi discutida a candidatura de Aécio Neves (PSDB-MG) à presidência, que deve ser também o próximo presidente da sigla tucana, e de que maneira a aventada candidatura de Eduardo Campos (PSB-PE) pode ajudar ou atrapalhar Aécio. Sérgio Guerra não titubeou em afirmar que a candidatura do “socialista” em nada atrapalha os tucanos, pelo contrário, ajuda a equilibrar a disputa no nordeste, onde o PT tem forte eleitorado. Portanto, o tucano deixa evidente a principal função da candidatura Campos: retirar votos de Dilma Rousseff (PT) e fazer dobradinha com o candidato tucano.

Posteriormente, Guerra é questionado pelos entrevistadores a respeito da alta popularidade da presidenta Dilma, a qual o representante tucano afirmou que não será transformada em votos, pois, acredita que o povo “está acordando” e que a seca, que neste momento assola o nordeste, vai ser crucial. Guerra também deixou claro dois objetivos do PSDB às próximas eleições: disputar a hegemonia petista no norte e nordeste e manter a hegemonia no estado de São Paulo, o qual ele afirmou estar em “risco” por conta dos muitos anos de poder dos tucanos na seara paulista. Porém, a única coisa que ele não soube responder é qual será o discurso adotado, disse que este ainda vai ser estudado e formulado.

Para além do tabuleiro que está sendo configurado para a disputa à presidência da República, a partir da metade para o fim da entrevista, Sérgio Guerra foi emparedado pelo jornalista da revista IstoÉ, Delmo Moreira, que foi direto ao perguntar: qual é a diferença programática entre PSDB e PT e como os tucanos pretendem apresentar isso ao eleitor? Pois, como bem colocou o jornalista, as críticas que os tucanos fazem, o DEM também o faz, que é apostar nas mazelas e em um liberalismo clássico. Ao que Guerra informou que o “DEM tem as suas propostas e o PSDB também vai construir as suas”. Disse tudo e não disse nada.

E, pasmem, quem dá a voadora mortal em Sérgio Guerra é a colunista da Folha de São PauloEliane Cantanhede, que pergunta ao representante tucano se o PSDB não “estaria andando pra trás” ao não renovar as sua lideranças e cita a cidade de São Paulo como exemplo, quando os tucanos optaram por Serra candidato e perderam para Fernando Haddad, que era taxado como mais um “poste” de Lula. Guerra, é claro, minimizou as críticas e afirmou que o PT também não está se renovando, que a capital paulista é um caso particular e voltou a afirmar que a “hegemonia” tucana em São Paulo está em “risco”.

O presidente nacional do PSDB demonstrava séria dificuldade em apresentar o pensamento político de seu partido, mas, na metade da entrevista, os jornalistas da bancada do “Roda Viva”, já sem paciência, iniciaram um bombardeio de perguntas sobre temas muitos específicos, tais como: redução da maioridade penal, ao qual o representante do PSDB disse ser favorável e ainda completou que o seu partido atua no sentido de fortalecimento da política de cárcere, no caso, construindo novos presídios; voltou a falar sobre o virtual candidato à presidência da República Eduardo Campos e o classificou como “amigo”; e a cereja do bolo veio com a questão sobre o líder da bancada evangélica no Congresso Nacional, o deputado João Campos (PSDB-GO), que, entre outras coisas, é autor do projeto de lei que defende o direito aos psicólogos a praticarem a “conversão” de orientação sexual, sendo mais claro, a “cura gay”. Para Sérgio Guerra, João Campos “é um ótimo parlamentar”.

A entrevista foi didática no sentido de deixar claro, mesmo que ele tenha afirmado que ainda está sendo construído, o discurso a ser adotado pelo partido para fazer frente à candidatura de Dilma Rousseff. O programa a ser elaborado, se seguir a tônica apresentada no Roda Viva, é um PSDB mais à direita do que nunca e com a falácia de que irão manter os programas sociais efetivados até aqui. Não podemos ainda subestimar as candidaturas de Campos (PSB) e de Marina Silva (se ela conseguir todas as assinaturas pra fundar a sua Rede), porém, este trio, ao que tudo indica, vai formar um grande bloco de oposição a Dilma Rousseff e é óbvio que não se pode ignorar o potencial de votos de todos eles juntos…

Por fim, ainda resta mais de um ano para se definir o quadro eleitoral de 2014, mas a cada dia que passa as diferenças programáticas ficam cada vez mais evidentes e o que se nota até aqui é que, apesar de todos falarem em “mudança”, ainda não se escutou uma proposta de mudança efetiva, a tecla batida é a mesma em todos: manter os programas sociais e mudar… Mas mudar o quê? Muito provavelmente os candidatos acabem por se diferenciar em temas como casamento igualitário, política de cárcere, drogas, abortos, ou seja, o que tem acontecido desde a eleição desde 2010 e que no ano passado foi tema decisivo para a eleição de Fernando Haddad à prefeitura da cidade de São Paulo.

A conferir…

Marcelo Hailer é jornalista e mestrando em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP