Arquivo mensais:abril 2013

O pacote de maldades na comunicação

Por Miguel do Rosário, do blog O Cafezinho

Quando o tema é comunicação, o governo Dilma, tão progressista em algumas áreas, converte-se no Dr.Jekyll de si mesmo. Se a metáfora de “O Médico e o Monstro” pode ser aplicada a qualquer indivíduo ou instituição, em virtude da inevitável dialética do ser, o problema das políticas públicas de comunicação social é que elas agem sobre o que há de mais nobre e mais duradouro numa sociedade: o espírito, a cultura, os valores, a moral.

Grande ironia da história: o capitalismo brasileiro emula regime stalinista e caminha para “imprensa única” (Foto: Reprodução/blog O Cafezinho)

A noção de que o Estado não deve participar do complexo processo político da comunicação embute a grande farsa liberal do Ocidente, que protege (hoje, nem tanto) as liberdades domésticas mas patrocina guerras e golpes em outros países para impor sua própria agenda de comunicação.

É o caso do Brasil.

O golpe de Estado de 1964 foi preparado com recursos financeiros, apoio logístico, suporte político e diplomático, do governo americano. Os estudos sobre seus preparativos junto à opinião pública, como o que fez René Armand Dreifuss (em “1964, A Conquista do Estado”), incluem sempre, além disso, as agências de publicidade norte-americanas.

Terminado o golpe, as empresas de mídia, pequenas, médias e sobretudo, as grandes, que o apoiaram, estavam mais fortes, mais ricas, mais influentes, e com grande público. As que se insurgiram contra a ditadura, destruídas. A mesma coisa vale para o concentrado setor de publicidade. As agências que protegiam os interesses norte-americanos expandiram-se durante a ditadura. As que não o defenderam, deixaram de existir.

Daí vem a democracia, trazendo com ela uma profunda crise econômica. Os anos 80 foram chamados, no Brasil, de década perdida. Os anos 90, por sua vez, começam num pesadelo e terminam com uma ilusão. A “estabilidade” do Plano Real vem junto com explosão dos juros, da dívida pública, da carga tributária, do desemprego; redução brutal das exportações; e desmantelamento da indústria. Um ambiente não muito propício, como se vê, para o florescimento de novos empreendimentos de mídia.

Em virtude desse histórico, é uma afronta ao bom senso que a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) pretenda instaurar critérios puramente “técnicos” na distribuição dos recursos federais. Ou seja, todos aqueles gigantes que se deram bem na ditadura, silenciaram sobre a tortura e sambaram sobre o cadáver da nossa democracia, ganham um troféu do governo.

É como se, terminada a II Guerra, o governo alemão resolvesse distribuir suas verbas publicitárias para o canal com maior público, ou seja, independente se fosse nazista ou não.

Não quero rechaçar os critérios técnicos. Entendo perfeitamente que a Secom precise deles. Mas eles precisam ser equilibrados pelo bom senso, pela compreensão das circunstâncias históricas, e pelo princípio do pluralismo. É preciso entender qualquer órgão de mídia como um agente político. O mito da imparcialidade deve ser enterrado bem fundo, porque é a maior mentira do pós-modernismo brasileiro.

Não é justo que o governo direcione mais da metade dos recursos publicitários para as Organizações Globo. E não só isso. É uma questão de acúmulo. Se uma empresa recebe R$ 500 milhões num ano, isso a ajuda a se fortalecer e se posicionar no mercado, facilitando a captação de anúncios privados. Se a mesma empresa recebe R$ 500 milhões durante um longo período de tempo, ela se torna uma potência, com poder de engolir seus concorrentes menores. A própria Secom informa que a Globo recebeu mais de R$ 6 bilhões em publicidade federal apenas nos últimos 10 anos.

Eu moro no Rio de Janeiro, onde o Globo, além de quebrar seus concorrentes locais, também engoliu todos os jornais de bairro. Ou seja, a segunda maior cidade do país vive o mais absoluto monopólio midiático no segmento de jornalismo de opinião, o que evidentemente nos causa um enorme dano cultural. Mesmo São Paulo vive uma situação melhor, porque tem dois jornais. Os dois são conservadores, mas são dois, concorrentes entre si, e um sempre pode divulgar uma atividade cultural com receio de que o outro o faça antes. Aqui no Rio, nem isso.

As maldades na área de comunicação, porém, vão além do cínico tecnicismo da Secom. Um amigo que trabalha no Senado me liga para pedir auxílio numa quixotesca luta para salvar a Voz do Brasil, o programa radiofônico público mais antigo do país. Senado e Câmara aprovaram a flexibilização do seu horário, o que, na prática, o jogará para as horas mais vazias da noite, esvaziando-o completamente. Mais uma vez, o lobby dos grandes grupos de mídia venceu. O meu amigo informa, contudo, que há uma chance: a equipe do senador Roberto Requião (sempre ele) escreveu um Projeto de Lei “tombando” a Voz do Brasil, incluindo aí o seu horário. Essa lei anularia a outra. O projeto foi parar nas mãos da senadora Ana Rita (PT-ES), mas esta foi orientada, segundo meu amigo, pelo Ministério das Comunicações, a bloquear o projeto como inconstitucional. A equipe do Requião insiste com ela de que o projeto é perfeitamente constitucional, e a situação agora está nesse impasse. Segundo minha fonte, a maioria dos deputados, sobretudo do baixo clero, é a favor da Voz do Brasil, porque é o único meio pelo qual podem expor seus projetos ao grande público nacional, mas têm medo de se manifestar em virtude do lobby dos grandes grupos. Mas se o projeto – de tombamento da Voz do Brasil – for a votação, ele tem chances de ser aprovado, e teremos salvo um bem público.

Por fim, há ainda uma outra “maldade” em curso: o Ministério das Comunicações tenta acabar com as rádios AM. Como todas as rádios serão digitalizadas, Paulo Bernardo defende a conversão de todas para FM, ao invés de criar também uma faixa digitalizada para AM, como existe em tantos lugares do mundo. A medida, porém, significaria o fim da maioria das pequenos rádios AM, em função da necessidade de equipamentos mais caros. Será mais um golpe contra a pluralidade informativa no país.

Marcelo Freixo: a luta por direitos humanos é a essência da nova luta de classes

Confira abaixo trechos da entrevista do deputado estadual e ex-candidato a prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Freixo (Psol), que faz parte da edição 121 de Fórum, em bancas. Na conversa, ele fala sobre o saldo político da sua campanha, rememora sua trajetória de militância e analisa a atuação do Estado na área da Segurança Pública.

Por Glauco Faria e Igor Carvalho na Revista Fórum Fotos de Guilherme Perez

Fórum – Como o senhor vê a formação da Rede Sustentabilidade, da Marina Silva?

Freixo – A minha relação com a Marina é pequena, nos conhecemos pouco, mas tenho muito respeito pela história dela, belíssima, é uma pessoa importante para a política e acho que tem espaço para um partido que propõe o que a Rede propõe. Não é o que proponho, particularmente não gosto, não me encaixo nesse negócio de dizer que não sou nem de direita, nem de esquerda; nem situação, nem oposição, mas isso não quer dizer que o partido não tenha espaço. O nosso inimigo político não é a Rede.

Fórum – Quem é esse inimigo político?

Freixo – No debate das cidades, por exemplo, quero gastar energia para enfrentar o que o PMDB representa hoje no Brasil, não com a Rede. Posso não concordar, mas enquanto projeto de país, projeto político, quero enfrentar a lógica do PMDB expressa por figuras como Henrique Alves, Renan Calheiros, e tantos e tantos outros, como Sérgio Cabral e Eduardo Paes. Enfrentar a Rede não faz sentido para a vida real das pessoas e para as bandeiras que a gente sempre defendeu. Enfim, acho que a Rede é bem-vinda, tenho grandes amigos que são simpatizantes, como o Luiz Eduardo Soares, que fez minha campanha. Imagina se eu vou brigar com ele…

O problema que vejo na Rede é que a única coisa que liga todas essas pessoas é a candidatura da Marina, uma candidatura que não será igual ao que foi em 2010, mas que é interessante porque traz temas importantes. Nesse sentido, acho perigoso um projeto nacional partidário que só tenha como liga uma pessoa, uma figura e uma candidatura. Isso não me agrada, mas é por isso que estou no Psol, que é difícil, tem seus próprios problemas – que não são pequenos –, mas tem a possibilidade de um programa.

Fórum – O senhor falou da lógica política do PMDB. E o PT, do qual saiu boa parte do Psol? Há setores do partido que têm o PT como esse principal inimigo, outros são mais próximos… Qual a sua posição?

Freixo – Nunca fui antipetista. É um erro do Psol se fizer isso. Na minha candidatura à prefeitura, tinha um setor do PT fazendo a campanha, no lançamento tinha bandeiras do partidos. Imagina se isso não é bom? É ótimo.

Conversei com o Lindbergh [Farias] sobre a possível candidatura dele ao governo do Rio, falei pra ele: “Antes de qualquer coisa, você precisa me dizer se vai ser um candidato do Cabral ou contra o Cabral. Isso você ainda não pode me dizer”. Hoje, aparenta ser um candidato contra os interesses do Cabral, mas se ele [Cabral] costurar e conseguir ser vice da Dilma, que é o que ele deseja, pode ser que o Lindbergh seja o candidato do Cabral e reforce esse projeto PT-PMDB que acho que, para o PT, foi a cova.

Fórum – E o que ele respondeu?

Freixo – Enfim… Deixa pra depois a resposta. Neste momento, as forças do PMDB se movem contra a candidatura do Lindbergh. Mas a gente sabe que há conversas que podem mudar esse cenário.

Nunca me tornei antipetista, e acho que o Psol não pode ter como projeto ser antipetista. Vivemos ali 20 anos ou mais, imaginar que não sobrou nada… Acho que o PT fez uma opção de governabilidade que não foi a nossa, e por isso estamos em outro partido, que se contrapõe a essa lógica política que o PT adotou, representada pelo PMDB, desde os tempos de Sarney pra cá. Se o PT está junto com o PMDB, tem de ser enfrentado, porque representa a mesma política hoje, por exemplo, no Rio de Janeiro. Tanto é que tem muito choque entre o Lindbergh e o Pezão, mas não largaram os cargos. Os arranjos de poder são mais fortes que esses compromissos.

Fórum – Hoje, o senhor pensa só na prefeitura ou pode sair candidato a governador em 2014?

Freixo – Não saio candidato a governador em 2014 porque não podemos dar um passo errado nessa hora, e o projeto não é eleitoral somente, a eleição é um instrumento de um projeto de cidade. Sou um militante de direitos humanos muito antes de ser parlamentar, se deixar de ter mandato, vou voltar a ser militante como sempre fui. Eleição é meio, não é fim. A gente não tem estrutura para fazer essa campanha para o governo e tem uma possibilidade de fazer um debate para 2016, que é muito concreto. Em 2014, temos de consolidar esses comitês, o partido como instrumento dessas lutas. O meu desejo é sair para deputado estadual porque não quero sair da cidade.

Fórum – Como começou sua militância na área dos direitos humanos, mais especificamente nos direitos dos presos? Essa área está um pouco abandonada, devido, por exemplo, à escolha do Marco Feliciano (PSC) para presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara?

Freixo – É, a infelicidade do Feliciano… Nasci em Niterói, uma cidade vizinha do Rio de Janeiro, e comecei a militar em movimento de moradores da zona norte, Movimento Cultural Comunitário do Fonseca, que era do bairro em que eu morava, um bairro de periferia e que, naquela época não tinha cinema, teatro, nenhum equipamento de cultura. Se você olhar os equipamentos de cultura nas grandes cidades, vai observar que estão concentrados nas áreas mais privilegiadas, e não é diferente no Rio de Janeiro; na zona norte e na zona oeste quase não tem.

Tinha 17 anos, e ali foi minha primeira experiência de militância, na zona norte, com cultura. Sempre fui boleiro, gostava demais de futebol e fazia parte de um time que jogava dentro do presídio, era o único campo de futebol do bairro. A gente alugava o campo e, quando faltava alguém, um preso jogava; o juiz era sempre um preso. Aliás, brinco sempre que lá nós tínhamos o único juiz que ninguém chamava de ladrão por mais que isso pudesse fazer o mínimo de sentido [risos].

Então, presídio sempre fez parte da minha rotina. Aí fiz Economia e, depois, História. Quando fiz História, já estava com muita vontade de dar aula, ser professor, e na faculdade vi um cartaz dizendo que precisavam de professores dentro de um presídio, para estágio. Na hora, falei: “Porra, eu quero”. Meu grande desejo de dar aula pesou, mas mais ainda por ser no presídio, porque remeteu a uma imagem de presídio que não era assustadora, não me trazia medo, e fui, então, dar aula. Ali, foi minha grande aula de militância e direitos humanos. O presídio era o Edgard Costa, onde fiquei anos e depois passei a coordenar um curso de Educação baseado no método Paulo Freire, que foi algo revolucionário na minha vida e na vida de alguns presos, na época.

Depois, fui trabalhar com prevenção à Aids no complexo da Frei Caneca, mas tudo nasceu ali, no Edgard Costa, e passei a ler o sistema prisional como o grande desafio dos direitos humanos no Brasil. O presídio é o espaço da nossa amnésia, das nossas contradições esquecidas. Se você olhar hoje os presídios, é algo impressionante, estive no Edgard Costa e disse para meu assessor: “Olha para o pátio, o que você vê?”, ele me disse: “É, tá cheio.” “Mas tá cheio do quê?”, eu perguntei. Eram jovens, cada vez mais jovens, todos negros ou pardos, pobres e de baixa escolaridade, é a pena de morte social consolidada, são pessoas excluídas há muito mais tempo, supérfluas, como diz o (Zygmunt) Bauman. Sobraram, não são mais “exército de reserva”, pois não servem a esse modelo de sociedade, não servem a essa economia, e tem ali o espaço do esquecimento destinado a eles.

O crescimento da população carcerária no Brasil mostra o quanto caminhamos nessa direção. De 1995 para cá, a população carcerária cresceu 345%, já somos a quarta população carcerária do mundo. É mais fácil olhar para o presídio e pensar o que cada um fez, a culpabilização individual, que é o mito da sociologia americana. O indivíduo erra, vai para um presídio, é consertado, e volta, é o mito da ressocialização, e não é isso que está em jogo ali.

Fórum – Quanto ao Feliciano…

Freixo – A luta por direitos humanos tem no sistema prisional o maior desafio, mas não só isso. Se pegarmos o número de homicídios no Brasil nos últimos anos, você vai ver que o de brancos diminuiu, e o de negros aumentou, consideravelmente. Então, há um processo, hoje, de genocídio da população jovem, negra e pobre no Brasil. Os números são de genocídio, e esses homicídios têm cor e endereço. A luta dos direitos humanos, hoje, tem de dar conta dessas contradições, é uma agenda que tem de ter as lutas LGBT, o espaço das populações quilombolas, o debate sobre a questão racial, é o espaço em que o Estado deve atuar e onde essas lutas são fundamentais. Elas não são fundamentais apenas para as ditas minorias, são importantes para a afirmação de um espaço democrático no país, fundamentais para um projeto de democracia que envolve quem não é gay, quem não é negro e quem não é pobre, mas que, de forma republicana, pensa no processo democrático.

Por isso, não se pode ter alguém ali [na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara] que negue e reafirme um processo de Estado violento contra essa população. Não podemos ter alguém que diz que a população negra é amaldiçoada porque vem da África, porque isso é muito grave. Não é uma questão de opinião, é você ter o braço do Estado que cuida desse processo democrático negado, ou seja, é o representante de todas as opressões no espaço de resistência a essas opressões. É inaceitável. Ele [Feliciano] é um charlatão, responde por estelionato, aparece lá com cartão de crédito pedindo senha, tem processo de sonegação… Enfim, essa é uma crítica, mas imagino que ele não seja o único que tenha esse tipo de problema no Parlamento brasileiro, o próprio presidente do Senado, há pouco tempo, foi afastado, acusado de favorecer empreiteiras. Mas Feliciano não pode representar a política que ele representa na Comissão de Direitos Humanos, não pode comandar a comissão.

Fórum – O senhor falou sobre o genocídio da população negra e pobre, que é também uma pauta dos direitos humanos em São Paulo. Há denúncias e algumas prisões que denunciam que grupos de extermínio estejam envolvidos com esses homicídios. E no Rio, quem está matando essa população?

Freixo – No Rio, tem o advento das milícias. Fui o presidente da CPI das Milícias, e sem dúvida ela contribuiu muito para o genocídio dessa população, até porque a milícia se coloca em lugares onde o Estado está leiloado. Não estamos falando do Estado paralelo, não defendo essa tese porque os paralelos não se encontram. São agentes públicos, com interesses privados, com domínio de território e agindo com os instrumentos públicos, ou seja, é um Estado leiloado a determinadas forças, não é paralelo. Tanto grupos de extermínio quanto milícias são braços de um Estado leiloado, mas tem uma tragédia no Rio de Janeiro, que é a guerra das facções, que é pobre matando esfarrapado e jovem negro matando jovem negro.

O grande debate das cidades, hoje, envolve quatro eixos: Estado, território, governança e soberania. Esses são os eixos que temos de juntar. O debate de território é crucial para mim, porque em alguns deles a barbárie é consentida.

Fórum – Em relação ao que o senhor falou da questão do encarceramento…

Freixo – O Estado penal, né? Para todo Estado mínimo, o Estado penal é necessário. O Estado que não garante direitos e se reduz no seu papel social, por outro lado, tem de ser um penal e policial, é o que vivemos hoje no Brasil. Para os setores supérfluos, dessa sociedade líquida do Bauman, o Estado penal é fundamental. Hoje, somos a quarta população carcerária mundial, só perdendo para os “libertários” americanos, a China e a Rússia.

Fórum – Mas tem gente que quer fortalecer esse Estado penal, temos várias iniciativas políticas de aumento de pena, mas queria que o senhor comentasse especificamente sobre o projeto de lei do deputado Osmar Terra (PMDB-RS)…

Freixo – Isso é um horror.

Fórum – Qual a sua avaliação em relação ao projeto? Por que o senhor acha que, quando temos um crime hediondo, ou midiático, aparece sempre alguém para propor aumento de pena?

Freixo – Bom, é isso, o Estado penal é fundamental para sustentar o Estado mínimo, mas todo projeto político precisa de legitimidade, por isso falo da luta político-pedagógica. Ontem, no debate com a juventude, levei uma matéria que dizia assim: “Noite de tiros e explosões na zona sul do Rio.” O subtítulo era: “Vizinhos dos morros não conseguem dormir e ao amanhecer têm medo de sair de casa.” O morro deve ter dormido bem pra cacete, né? Era o título da matéria. Todas as pessoas entrevistadas moravam perto do morro, porque não tem problema no morro, ele é o problema. A eliminação da dignidade do outro é fundamental para o processo de hegemonia e de legitimidade desse Estado penal, e a produção do medo é didaticamente fundamental para legitimá-lo, porque o medo faz com que o supérfluo não precise cometer um crime para ser tratado como criminoso.

A produção do medo é a essência da criminalização da pobreza, porque precisamos criminalizar os territórios pobres para que o Estado possa ser totalitário, para manter essa ordem sem que me incomode internamente. Porque, se não tenho compromisso ético com ele, não sou um deles, ele é o outro. Hannah Arendt disse o seguinte: “Pior do que a rivalidade e a oposição, é indiferença.” A indiferença mata, a rivalidade não; a rivalidade você pode vencer, mas você reconhece o outro; na indiferença, você anula o outro. É esse o processo pedagógico que temos de enfrentar.

A polícia entra na favela e cinco pessoas morrem, isso cria uma grande comoção? Não. Porque, na nossa cabeça, essas pessoas já foram julgadas, julgadas pelo nosso medo. “Polícia entra na USP e mata cinco”. Toda a imprensa vai para lá. Que merda é essa? A dignidade tem endereço, a decência humana tem endereço, é de classe. Por isso, a luta por direitos humanos é a essência da nova luta de classes hoje. Porque não está na relação capital e trabalho, está entre quem é humano e quem não é. Quando um sujeito diz: “Direitos humanos para humanos direitos” é porque ele está dizendo que existe uma categoria que não é humana. Há uma busca de legitimidade do extermínio, seja físico ou moral. A Comissão dos Direitos Humanos é importante por isso, não pode ter alguém que legitima essa hegemonia, que pedagogicamente reforce essa anulação do outro, por isso que é grave. Acho que esqueci de falar algo…

Fórum – O projeto de lei do Osmar Terra.

Freixo – É a mesma coisa. Hoje, você tem o crack que serve a esse papel, é a demonização das drogas. Trabalha-se na lógica da culpa individual, da responsabilização individual da droga; se você é um drogado, isso é problema seu, muitas vezes espiritual, e aí a cura é espiritual, do tratamento religioso, das OSs [Organização Social] ou dessas casas de reabilitação que, no Rio de Janeiro, fazem parcerias. Vai ver o escândalo que é aquilo.

Qual é o grande problema? O debate sai da área de Saúde, não é mais um debate de saúde pública. A partir do momento em que se trabalha na lógica de culpar o indivíduo, cria-se uma grande comoção, porque fica aquele negócio do “meu filho pode ser um deles”. Ao contrário da morte na favela, o debate da droga leva à conclusão de que isso pode acontecer com o seu filho, “o crack pode consumir o seu filho”. O crack parece uma coisa que anda por aí e pode pegar seu filho. Todo mundo sabe que isso é dramático e ninguém quer ter uma pessoa dependente, seja de álcool ou de droga em casa, isso é um drama, um horror, mas é um problema de saúde pública. Então, não se investe nos consultórios públicos, nos Caps [Centro de Atenção Psicossocial], o Rio de Janeiro tem três Caps AD [Álcool e Drogas], somente três, e isso não entra em nenhuma pauta jornalística. Mas entram as operações para matar “cracudo” na Maré.

Qual é, então, a política pública? E aí o mandato do nosso vereador no Rio de Janeiro, Renato Cinco (Psol), tem essa prioridade política e está fazendo um trabalho político excelente, pedagógico, essencial. Vá nos abrigos para onde essas pessoas são levadas, de quem é o convênio? Quem está atendendo? Qual é a política de saúde? Quantos deles voltam para as drogas? Então, não se tem responsabilidade. Esse projeto é de um retrocesso brutal no que diz respeito às políticas públicas de saúde, é movido pela vitimização coletiva da sociedade contra as drogas, por isso digo que a luta política é pedagógica. “Ah, mas vocês acham que não tem nada demais a pessoa consumir crack?” Claro que tem, mas o que é mais eficaz? Qual o debate da eficácia da política? O debate da eficácia morre, porque não se tem esclarecimento.

Privatização trouxe sacrifícios aos brasileiros e lucros fantásticos a poucos, mostra Requião

No Blog do Senador Requião

O senador Roberto Requião disse nesta terça-feira (23), no plenário do Senado, que retomada das privatizações pelo Governo Dilma traz à lembrança do país os desastres da política de venda de bens públicos praticada pelos tucanos nos anos 90. Conforme o senador, os brasileiros só perderam com a alienação de empresas estatais e citou “as tarifas estratosféricas” na telefonia como exemplos.

Requião deplorou que as lições do passado não sejam levadas em conta hoje, quando o governo privatiza aeroportos, poços de petróleo, portos. O senador desmontou ainda duas das principais argumentações dos neo-privatistas: o eficiência privada, em contraposição à administração pública; e a falta de recursos estatais para investimentos em infra-estrutura.

“Mentira que não há dinheiro. Quem financia as privatuizações, desde lá de trás, é o BNDES. E o banco é o que? Eficientes as empresas de telecomunicações? Eficiente a administração da ALL nas ferrovias privatizadas? Eficientes as empresas de pedágio, que só arrecadam? Ora, por favor!”, afirmou o senador.

TEXTO DISCURSO

Alimento para o cérebro

Por Rogério Tuma na Carta Capital
Nutrição. Estudo relaciona desempenho de premiados no Nobel à dieta rica em leite. Foto: IstockPhotoNutrição. Estudo relaciona desempenho de premiados no Nobel à dieta rica em leite. Foto: IstockPhoto

Desde os primórdios dos tempos, nossos ancestrais procuravam na natureza alimentos que pudessem turbinar o cérebro. Assim foi com a história do café, do chá de coca e do guaraná, entre muitos. Até os hominídeos, há 2 milhões de anos nas savanas africanas, utilizaram-se de dietas ricas em proteína baseadas na caça de hipopótamos e crocodilos para desenvolver seus cérebros mais rapidamente.

Segundo o pesquisador David Braun, antropologista da Universidade de Cape Town, na África do Sul, uma população de hominídeos no Quênia se alimentava de grande quantidade de animais, o que permitiu que pudessem desenvolver cérebros maiores e mais poderosos. Na região foram encontrados vestígios de verdadeiros açougues da época.

O leite também é considerado um alimento completo para o cérebro, rico em proteína e cálcio. Parece ser ingrediente necessário para se conquistar um Prêmio Nobel. Um estudo publicado em janeiro na revista New England Journal analisou o consumo per capita de leite e derivados em 22 países e somou dados de outra pesquisa publicada no ano passado na revista Practical Neurology sobre o consumo de chocolate. O resultado foi uma forte associação entre a ingestão dos dois alimentos e a existência de ganhadores do prêmio mais importante do mundo. A Suécia tem o maior consumo de leite per capita por ano, são 340 quilos, e o maior número de Prêmios Nobel, ou seja, 33. A Suíça vem em segundo lugar com consumo de 300 quilos de leite ao ano e 32 Nobéis. Em compensação, a China, o país que menos consome leite – apenas 25 quilos per capita por ano, tem o menor número proporcional de “Nobéis”.

O consumo de chocolate possui a mesma distribuição geográfica. Qual a razão? Não é porque os premiados do Nobel comemoram o mérito com chocolate quente, mas porque o leite é rico em vitamina D, importante para a memória, e os flavonoides do chocolate aumentam o desempenho cerebral, melhorando o humor e a atenção das pessoas.

O que fazem os chineses, se não consomem leite? Tomam chá-verde, que, segundo uma pesquisa do nutricionista Yun Bai, da Universidade Militar de Chongqing, possui a substância epigalocatequina-3- galato (EGCG), potente antioxidante que melhora as funções cerebrais. O pesquisador e colaboradores descobriram com um estudo do doutor Bai publicado na revistaMolecular Nutrition and Food Research que o chá-verde turbina a produção de células-tronco neuronais, melhorando a memória e a capacidade de reconhecer objetos.

Se você quiser escolher alguns dos alimentos que podem ajudar a lembrar das coisas, aqui estão algumas sugestões: grãos são uma boa fonte de energia. Como têm índice glicêmico baixo, liberam o açúcar que possuem lentamente, proporcionando energia estável para o cérebro por longo tempo. Peixes são ricos em vitamina D e ômega 3 tipo EPA e DHA, ambos importantes para preservar neurônios e prevenir a doença de Alzheimer. Mirtilo é grande fonte de vitamina C e um estudo da Universidade Tufts demonstrou que melhora a memória de eventos recentes.

Na salada, adicione tomates, ricos em licopenos, potentes antioxidantes que podem evitar a morte celular por oxidação. Semente de abóbora, importante fonte de zinco, que melhora o raciocínio, e de sálvia, que auxilia a memória.

Brócolis e outros verdes são fontes fartas de vitamina K, associada à melhora das funções cognitivas. A família de vitaminas B (tipo B1, B6 e B12) e o ácido fólico reduzem a atrofia cerebral e reduzem o risco de doenças cerebrovasculares.

Castanhas são ricas em vitamina E, que é antioxidante. Um punhado de castanhas ao dia ajuda na prevenção do Alzheimer, principalmente entre as mulheres.

Se ficar difícil para escolher entre essas opções, a saída é consumir um produto industrializado criado para turbinar seu cérebro. Atualmente, a indústria alimentícia tem desenvolvido drinques com alta concentração de vitaminas e precursores de neurotransmissores com o intuito de melhorar a cognição das pessoas e até melhorar a memória de quem sofre de Alzheimer.

Em SP, Jean Wyllys e Laerte se unem em ato anti-Feliciano

Por Marcelo Pellegrini na Carta Capital

Liderados pelo cartunista Laerte Coutinho e pelo deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), manifestantes contrários à atuação do pastor Marco Feliciano (PSC-SP) na Comissão de Direitos Humanos da Câmara realizam nesta quinta-feira 19, em São Paulo, a primeira sessão da comissão extraordinária em defesa das minorias, espécie de contraponto ao colegiado “oficial”. O grupo paralelo foi criada para discutir publicamente alguns dos temas engavetados por Feliciano na Casa.

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Cartaz de divulgação da Comissão

Organizada por um conjunto de entidades civis e coletivos, o ato irá funcionar como um “espelho avesso da CDHM”. Discutirá abertamente temas como união civil homoafetiva, regulação das profissionais do sexo e aborto. “Nós queremos propor uma agenda positiva que trabalhe o verdadeiro conceito de Direitos Humanos, sem distorcê-lo com os embates entre religiosos e laicos”, afirma Bruno Torturra, um dos organizadores do movimento Existe Amor em SP.

“A importância do ato é tentar ampliar a mobilização, demonstrando que o ataque aos direitos de uma parte da população, chamadas de ‘minorias’, significa um ataque à sociedade inteira”, afirmou Laerte, que estará presente no ato. “Não existem minorias, do ponto de vista de direitos civis. Trata-se sempre de todos”.

O local escolhido para abrigar a primeira sessão é a Praça Roosevelt, no centro de São Paulo. A escolha não foi aleatória. Enquanto a CDHM, por ordem de Feliciano, realiza sessões fechadas aos cidadãos, a de São Paulo vai no sentido oposto, convocando todos os interessados a participarem do debate.

Guinada. De acordo com o deputado Jean Wyllys, o debate em torno dos Direitos Humanos é o grande evento político brasileiro do século XXI. “Existe uma crescente participação e politização da sociedade em torno do tema”, afirma.

Para ele, a situação crítica pela qual se encontra a CDHM “oficial” colaborou para colocar lado a lado movimentos que nem sempre foram colaborativos entre si, como o movimento negro e das mulheres, por exemplo. “Graças ao deputado Marco Feliciano veio à tona um discurso antirrepublicano e fundamentalista que corria no subterrâneo”, argumenta Wyllys. “Agora, podemos unir os diversos movimentos sociais e combatê-lo publicamente”.

Espera-se que da discussão em praça pública seja elaborado um documento a ser encaminhado para a Câmara dos Deputados. O documento será entregue ao presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB), e poderá ser levado adiante pela Frente Parlamentar de Direitos Humanos e Minorias, criada há pouco mais de um mês. O grupo conta com a participação de 178 deputados, entre eles Jean Wyllys.

A Sessão da Comissão Extraordinária é organizada por um coletivo de indivíduos em torno do movimento Existe Amor em SP, com a participação dos grupos Pedra no Sapato e Conectas – organização internacional de direitos humanos fundada em São Paulo, com status consultivo no Conselho de Direitos Humanos da ONU.

‘Eleições no Paraguai foram um remendo, mas não uma solução’

A avaliação é de Gustavo Codas, jornalista, economista paraguaio e analista internacional, que conversou com o ‘Blog do Zé’ diretamente de Assunção. Para ele, as eleições que deram a vitória ao Partido Colorado no Paraguai mostram que a democracia do país tem limites muito estreitos e que as forças conservadoras têm mecanismos para bloquear a vontade popular de mudança.
No Blog do Zé

As eleições que deram a vitória ao Partido Colorado no Paraguai mostram que a democracia do país tem limites muito estreitos e que as forças conservadoras têm mecanismos para bloquear a vontade popular de mudança. A avaliação é de Gustavo Codas, jornalista, economista paraguaio e analista internacional, que conversou com o Blog do Zé diretamente de Assunção.

Ele associa a vitória dos colorados ao golpe que derrubou o presidente Fernando Lugo no ano passado. O golpe enfraqueceu os liberais, que apoiaram a queda de Lugo. E agora eles pagam o preço. “É possível que o PLRA [partido dos liberais] enfrente uma crise profunda. Sua representação no Senado caiu de 14 para 12 cadeiras. Perdeu alguns bastiões regionais. Se desmoralizou com o golpe, com seu governo ilegítimo e corrupto e com o resultado eleitoral”.

Leia a seguir a nossa conversa com Gustavo Codas, que também trata do avanço da esquerda no Senado nestas eleições:

Em que medida o golpe que tirou Lugo do poder contribuiu para esse retorno dos colorados ao poder? 
A decisão do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA) de dar o golpe de Estado parlamentar junto com o Partido Colorado (também conhecido como Associação Nacional Republicana, ANR) e outras forças conservadoras menores provocou uma ruptura profunda dos setores de esquerda e setores independentes com os liberais. Além disso, os liberais, depois do golpe, perseguiram a esquerda com um discurso anticomunista e demissões em massa de funcionários públicos. O golpe também provocou descontentamento em alas liberais que estavam fechados com a aliança com Lugo. Tudo isso enfraqueceu inevitavelmente o PLRA para disputar com condições de ganhar dos colorados. Para piorar, o governo liberal surgido depois do golpe, com o ex-vice-presidente Federico Franco como novo titular, em pouco tempo mostrou uma faceta de corrupção e sinecurismo [algo próximo do nepotismo; quando se emprega alguém no poder público para ganhar apoio] que desgastou sua política eleitoral. Paralelamente, a ANR fez dois movimentos combinados. Lançou como candidato presidencial um empresário “bem-sucedido” que permitiu angariar votos independentes. E com uma ordenada disputa interna de candidaturas proporcionais e regionais, organizou sua unidade. O PRLA trocou a chance de governar junto com a esquerda e independentes legitimamente por um governo ilegítimo “puro sangue” de pouco mais de um ano. Os colorados sabiam o que faziam. Os liberais acreditavam que dessa maneira impediriam o crescimento da esquerda e a subordinar a seu projeto.

Os liberais pagaram o preço pelo apoio à queda de Lugo?
É possível que o PLRA enfrente uma crise profunda. Sua representação no Senado caiu de 14 para 12 cadeiras. Perdeu alguns bastiões regionais. Se desmoralizou com o golpe, com seu governo ilegítimo e corrupto e com o resultado eleitoral. Não descarto que o bipartidarismo se rompa pela decadência do PLRA.

Ao mesmo tempo temos um avanço da esquerda, chegando à terceira força política do país, pelos dados que temos até agora. Foi surpresa? Já dá para traçar alguma perspectiva para a esquerda, já pensando em 2018?

As esquerdas chegam em condições de ocupar um terceiro espaço que dispute o bipartidarismo conservador de mais de cem anos. Não é a primeira vez. No fim da ditadura Stroessner (1954-1989), no começo dos anos 90, houve um forte avanço progressista (chegou a ter 23% dos votos para presidente em 1993). Não prosperou. O lugar foi ocupado por dois projetos conservadores, o partido do recentemente falecido general Lino Oviedo e o partido Patria Querida, de empresários católicos conservadores que trataram de construir uma nova direita. Esses dois partidos estão em via de extinção de acordo com os resultados desta eleição. Mas o progressismo destas eleições apareceu dividido em duas ofertas. A Frenta Guasú, cujo principal referência é Fernando Lugo. Teve 10% dos votos para senadores. E Avança País, cujo principal referência é seu candidato presidencial, Mario Ferreiro. Pelo sistema de distribuição de vagas, Frente Guasú elegeu cinco senadores, e o Avança País, dois. Por outro lado, para presidente, o desempenho da AP foi maior que o da FG, com Anibal Carrillo. Somadas “matematicamente”, as esquerdas tiveram algo como 15% dos votos. Se tivessem se juntado, provavelmente teriam tido mais, já que parte do eleitorado progressista rechaçou a divisão ocorrida e se absteve. Agora há duas vertentes do progressismo, FG e AP, com representação parlamentar. Também há uma terceira que não conseguiu votos suficientes, mas que tem presença em organizações sociais e civis, o movimento socialista feminista Kuña Pryenda (Plataforma de Mulheres). Termos que esperar para ver se haverá vontade e condições de trabalharem juntos na luta social e na luta institucional, o que não se conseguiu na disputa eleitoral.

Agora o Paraguai deve voltar ao Mercosul. Mas fica a pergunta: as eleições foram suficientes para apagar essa “mancha” da queda de Lugo?
Estas eleições foram um “remendo”, mas não uma solução. O golpe mostrou que a democracia paraguaia tem limites muito estreitos. Que as forças conservadoras têm mecanismos para bloquear a vontade popular de mudança. Aceita, que haja alternância de “cores” no governo, mas não alternância de “projetos” de governo. Isso somente um fortalecimento dos setores progressistas e uma Constituinte poderiam mudar. Agora, Cartes foi o primeiro candidato conservador que já no fim do ano passado dizia que tinha de voltar para o Mercosul sem impor condições. Creio que buscam saídas pragmáticas de um lado e de outro.

 

O Brasil é um crime contra o mercado

Por Saul Leblon no Blog das frases

O jornal ‘Financial Times’ acumula 125 anos de inoxidável convicção nas virtudes dos livres mercados.

Foi uma das trincheiras ideológicas na construção da hegemonia neoliberal que condicionou a sorte da economia e os destinos da humanidade nas últimas décadas, com os resultados conhecidos que dispensam reiterações.

Ao lado de outra referência no gênero, a também britânica revista ‘The Economist’, o ‘FT’ formaria uma espécie de unidade-mãe no sistema de difusão planetário da lógica das finanças desreguladas e de seus requisitos sociais e institucionais.

Entre eles, o escalpo dos direitos dos trabalhadores .

E sua contrapartida institucional: a asfixia fiscal do Estado, coibindo-o na tributação da riqueza; aprisionando-o na lógica do endividamento; sonegando-lhe o lastro político e econômico para defender a sociedade do assalto dos mercados.

Margareth Tatcher não teria existido como âncora simbólica dessa cosmologia sem as densas emissões da usina de reflexão que disseminou um pensamento, cuja indivisa abrangência mereceu em certo momento o epíteto de ‘único’.

As usinas do jornalismo britânico continuam fiéis aos seus alicerces.

Recentemente deram mostras disso ao fazer eco do conservadorismo brasileiro criticando Mantega. E ironizando Dilma na ‘guerra do tomate’.

Mas há uma diferença entre esse centro emissor e suas repetidoras locais.

Para pior.

Sem deixar de ser o que é, o ‘FT’, através de alguns editores, vem fazendo um streap-tease dos dogmas que ordenaram a pauta da economia nas últimas décadas.

E redundaram na pior crise sistêmica do capitalismo desde 1929.

Um artigo desta semana de um de seus editores, Wolfgang Münchau , sobre a demonização do gasto público, ilustra a disposição de eviscerar certos princípios que implodiram junto com o mercado das sub-primes, em 2008.

No caso das coligadas nacionais, ao contrário.

O apego à pauta velha transmitiria a um leitor desavisado a sensação de que 2008 não existiu no calendário mundial.

A baixa capacidade reflexiva, compensada por pedestre octanagem ideológica, forma o padrão desse dente vulgarizador de traços híbridos.

O Brasil tem um dos jornalismos de economia mais prolíficos do mundo; ao mesmo tempo, um dos menos dotados de discernimento histórico em relação ao seu objeto específico.

Aqui os desafios de um país em desenvolvimento são tratados como crimes contra o mercado.

Aliás, o Brasil é um crime contra o mercado.

Ampliar o poder de compra da população, gerar empregos, expandir o investimento público, erradicar a fome alinham-se na pauta dominante entre os ‘ingredientes da crise’.

Subir juro é aclamado como solução.

Os exemplos se sobrepõem como as folhas de um manual suicida.

A mais recente campanha da mídia local em defesa do choque de juros veio em linha com o recrudescimento das incertezas internacionais.

A Europa deriva , a China ensaia uma mutação para dentro do seu mercado; a convalescença norte-americana dá um passo à frente e outro atrás.

E o Brasil precisa de um choque de juros.

Porque o tomate rendeu um colar a uma senhora chamada Ana Maria Braga numa semana. E despencou de preço na outra.

Num momento em que o principal problema do capitalismo mundial é falta de demanda, o jornalismo especializado transforma em problema o trunfo do mercado interno.

Os mais afoitos, exortam a demissões em massa.

A ordem unida dos tacapes, em 2012, quando o governo não cumpriu a meta cheia do superávit primário –e agora, que o ‘anátema’ ameaça se repetir– atesta as diferenças de qualidade e discernimento entre a matriz e as repetidoras periféricas do pensamento mercadista.

As distâncias tendem a se aprofundar de forma doentia.

O calendário eleitoral adiciona novos antolhos a uma pauta que se apega cegamente à missão de interditar o debate e vetar as soluções para os desafios de uma nação em desenvolvimento.

A cantilena diuturna contra o investimento público, as obras públicas, os bancos públicos tenta adestrar a opinião da sociedade contra ela mesma.

E por tabela contra um governo que tenta –com as limitações reconhecidas pelo próprio– recolocar o Estado no seu papel.

O de indutor e planejador de grandes obras nacionais de infraestrutura. Cruciais para redimensionar a escala de uma logística desenhada para 1/3 da sociedade.

A recente reportagem do Fantástico sobre os atrasos e falhas na construção da Ferrovia Norte-Sul enquadra-se nesse esforço de desqualificação ideológica e eleitoral.

Calcula-se (há pareceres do TCU sobre isso) que 2/3 da malha ferroviária brasileira de 28 mil km foi dizimada no processo de privatização dos anos 90.

A informação não abona o inaceitável andamento de alguns projetos vitais ao desenvolvimento do país.

Mas recomenda cautela e foco no debate.

Se o objetivo é buscar alternativas eficientes , não se pode omitir o efeito deletério da privatização no setor.

Os trilhos da pauta dominante não comportam todos os fatos.

Os interditos reiteram um acervo de parâmetros e dogmas que a matriz de difusão original já trata, em alguns casos, como renomada gororoba.

Lixo neoliberal sem comprovação empírica ; não raro, ancorado em fraude, como se verificou na recente desmoralização da dupla ortodoxa Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart .

Campeões da ideologia da austeridade fiscal, a dupla guarneceu suas teses com o rudimentar artifício de eliminar dados incompatíveis com as premissas da demonização do gasto público‘.

Enquanto vozes liberais do ‘Financial Times’ se despem desse entulho, nosso jornalismo fantástico não se libera jamais dos velhos preconceitos.

Aprimora-se na arte fantasiosa de reduzir tudo o que não é mercado a um desastre de proporções ferroviárias.

Wolfgang Münchau , editor do ‘FT’, decididamente está longe de ser um sujeito antimercado.

Mas sobreviveria com suas ideias como repórter em qualquer uma das nossas vigilantes editorias de crimes contra o mercado?

Confira, abaixo.

Os perigos das teorias frágeis

Wolfgang Münchau

‘Financial Times’

John Kenneth Galbraith rebaixou, celebremente, seu colega economista Milton Friedman ao dizer: “O azar de Milton foi que as suas políticas foram experimentadas”.

A mesma observação pode ser feita sobre Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff. Na Europa, em especial, autoridades pró-austeridade colocaram em prática políticas econômicas baseadas em suas análises, com consequências catastróficas, tanto humanas como econômicas. A tragédia dos dois economistas de Harvard não foi o mau uso das planilhas do Microso’FT’ Excel, mas o mau uso do Microso’FT’ PowerPoint. Eles exageraram seus resultados. Ao fazê-lo, seguiram a regra de ouro do jornalismo de tabloide: simplificar e, então, exagerar.

Desde a publicação em 2011 de seu livro “Oito Séculos de Delírios Financeiros – Desta Vez É Diferente”, que foi sucesso de vendas, e desde suas pesquisas subsequentes sobre a relação entre endividamento e crescimento, os professores não deixaram dúvidas: acreditam que os dados mostram haver um limite de endividamento de 90% do Produto Interno Bruto (PIB), a partir do qual o crescimento econômico decai rapidamente. Muitas autoridades interpretaram essa regra como uma convocação para reduzir as dívidas abaixo desse patamar, em nome do crescimento. Os professores Reinhart e Rogoff, portanto, tornaram-se a madrinha e padrinho intelectuais da austeridade.

A tese de que uma dívida acima de 90% do PIB inibe o crescimento embute dois mitos, o do limite e o da causalidade. Pesquisadores de Massachusetts mostraram que dados corrigidos revelam uma relação negativa moderada entre crescimento e dívida

Para vermos a enorme influência deles nos debates europeus, vale a pena citar uma parte do discurso de Olli Rehn, chefe econômico da Comissão Europeia, ao Conselho de Relações Exteriores, em junho de 2011: “Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff cunharam a “regra dos 90%”", disse. “Ou seja, os países com dívida pública superior a 90% de sua produção econômica anual crescem de forma mais lenta. Altos níveis de endividamento podem tirar espaço do dinamismo empresarial e da atividade econômica e, portanto, dificultar o crescimento. Essa conclusão é particularmente relevante em um momento em que os níveis da dívida na Europa estão agora se aproximando do limite de 90%, que os EUA já ultrapassou.”

É de se presumir que Rehn não leu os estudos originais, mais ambivalentes em suas conclusões, como costumam ser os estudos acadêmicos. Autoridades, como Rhen, estão sempre atentas ao surgimento de teorias que sejam plausíveis e estejam em linha com suas principais crenças. Na Europa, a maioria das autoridades não tem muito contato com macroeconomistas com enfoques inovadores. Claramente, a maioria das autoridades acha contrário à lógica um cenário em que governos gastem dinheiro em recessões. É algo que vai contra sua própria experiência, em especial, quando são de países da Europa Setentrional.

Elas podem ter lido a história da Grande Depressão, mas ainda assim acham que a resposta keynesiana é menos plausível do que a austeridade pró-cíclica. Então, para os responsáveis por políticas conservadoras, quando dois dos economistas mais respeitados do mundo aparecem dizendo-lhes que sua intuição sempre esteve certa, isso representa o melhor dos mundos. Surgia, finalmente, a mensagem que eles sempre quiseram ouvir.

A tese de Reinhart e Rogoff, da forma como as autoridades a compreendem, incorpora dois mitos separados. O primeiro é o da existência de um limite de 90%. O segundo é o da causalidade. O primeiro foi desacreditado na semana passada por Thomas Herndon, Michael Ash e Robert Pollin, pesquisadores da University of Massachusetts Amherst. Seus dados, corrigidos, mostram uma relação negativa bastante moderada entre crescimento e dívida. Economistas sempre vão brigar sobre abordagens estatísticas, por exemplo, se é mais aconselhável usar a média ou a mediana e outras questões do tipo. Ainda assim, não importa por qual ângulo se olhe, não há uma quebra estrutural na marca dos 90%. Não há quebra estrutural em nenhuma marca.

Isso é imensamente importante para a discussão de políticas econômicas. Desmonta a noção dos 90% como um número mágico – com o qual as autoridades europeias estão agora obcecadas, da mesma forma como costumavam estar com déficits orçamentários anuais que não excedessem os 3% do PIB, algo para o que não havia base teórica.

A redução de todo o quadro a um simples número foi acompanhada por um exagero sobre o impacto. A relação causal podia seguir a direção do alto endividamento rumo ao baixo crescimento, como sugerem os autores; ou o caminho contrário; ou em ambas as direções. Ou a relação pode ser enganosa. Ou algo completamente diferente pode ser a causa de ambos. Se a causalidade seguir o caminho contrário, a história é muito menos entusiasmante para quem propagandeia políticas econômicas. Também seria possível dizer: as pessoas são pobres porque não têm dinheiro. Se o seu crescimento é negativo, sua taxa de endividamento sobe pelo simples motivo que ela é expressa em relação ao PIB nominal.

As estatísticas não podem dizer o que causa o quê. Para isso é preciso uma teoria. Macroeconomistas, no entanto, não têm uma teoria sobre o nível ideal de endividamento. A única resposta conhecida é que isso depende – das taxas de juros reais, do crescimento, do tipo de economia, do regime cambial e de muitos outros fatores.

Diferentemente dos professores Reinhart e Rogoff, Friedman tinha uma teoria quando impulsionou o monetarismo no fim dos anos 1960 e nos anos 1970. Não havia erros de datilografia no equivalente às planilhas de Excel dos anos 1960. Ele tinha evidências empíricas sólidas. A teoria posteriormente falhou, mas é possível entender por quais motivos os presidentes de bancos centrais haviam comprado a ideia na época. A regra dos 90%, em comparação, é inacreditavelmente frágil. E mesmo já tendo sido refutada, vai continuar a direcionar o debate político por algum tempo.

Quanto aos professores Reinhart e Rogoff, suspeito que eles, também, vão ser lembrados principalmente pelo fato de que suas políticas econômicas foram experimentadas.

Postado por Saul Leblon às 07:08