O Botequim Desenvolvimentista de hoje traz um artigo novo de Cézar Manoel de Medeiros, Doutor em Economia pelo IE/UFRJ.
SUMÁRIO
I – Modelo de desenvolvimento em curso e convergências entre programas governamentais e estratégias empresariais de investimentos
II – Movimentos capazes de aumentar a formação bruta de capital fixo no Brasil
III – Novo Padrão de Financiamento de Longo Prazo em estruturação – Migração de aplicações financeiras de curto prazo para investimentos de longo prazo
I – Modelo de desenvolvimento em curso e convergências entre programas governamentais e estratégias empresariais de investimentos
Alguns movimentos em andamento no Brasil reúnem condições favoráveis para um novo ciclo de investimentos no Brasil a partir de 2013: – Em primeiro lugar, o próprio modelo de desenvolvimento em curso no Brasil baseado na estruturação de amplo mercado de massas através da inclusão e da ascensão social, que estimula o consumo, o que também, ao mesmo tempo, estimula investimentos. Quer dizer: o aumento da renda disponível resultante de aumento do nível de emprego, valorização do salário mínimo, elevações reais de salário médio, aumento das transferências de renda (Benefício de Prestação Continuada, Bolsa Família, Brasil sem Miséria, PRONAF, Luz para Todos, Minha casa minha vida, apoio a micro empreendedores individuais), além de crédito abundante dos bancos oficiais, resultam em aumento do consumo que cria mercados e estimula investimentos em bens duráveis, semiduráveis e não duráveis, que geram emprego e maior renda disponível para o consumo e assim sucessivamente.
A sustentabilidade deste modelo exige, no entanto, permanentes aumentos da produtividade, tanto da mão de obra, quanto do capital, para evitar pressões inflacionárias, o que exige, portanto, elevação e aceleração de investimentos.
Ademais, atender o consumo interno, em expansão e, ao mesmo tempo, evitar vazamentos pelo fornecimento resultantes de importações, é necessário aumentar a produção nacional, pelo menos no mesmo ritmo do crescimento do consumo interno.
O Governo brasileiro, desde 2005, voltou a exercer funções capazes de induzir, coordenar e participar, pragmaticamente, tanto de estímulos à expansão do consumo, quanto da promoção de investimentos necessários para elevar a produtividade e para evitar pressões inflacionárias.
Para aumentar a produtividade do capital, o Governo está implementando nova política industrial através dos programas “Brasil Maior”, da Estratégia Nacional de Defesa, do INOVA-EMPRESAS, do INOVA-PETRO, do INOVAR-AUTO (recentemente lançados pelo Governo), bem como do aperfeiçoamento dos planos-safra anuais, das desonerações fiscais e previdenciárias seletivas, bem como linhas de crédito pelos bancos oficiais em condições adequadas quanto a prazos e encargos financeiros.
O Governo Dilma além de acelerar os investimentos para a Copa (2014), liberou cerca de R$ 67 bi para investimentos municipais e estaduais (PROINVEST) e criou linhas de crédito para os Estados realizarem investimentos complementares ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e ao PNLI (Plano Nacional de Logística Integrada).
Para elevar a produtividade da mão de obra, o Governo está alocando recursos em importantes programas: FUNDEB, REUNI, PROUNI, FIES, PRONATEC em parceria com o Sistema “S”, “Ciências Sem Fronteiras” e, finalmente, de um ousado PNE – Plano Nacional de Desenvolvimento da Educação, recentemente aprovado pelo Congresso.
Em outras palavras: os programas em andamento possibilitam manter elevado nível de consumo, estimular a formação bruta de capital fixo em níveis capazes de evitar pressões inflacionárias, aumentar a produtividade e obter um crescimento do PIB próximo de 4% a 5% ao ano;
II – Movimentos capazes de aumentar a formação bruta de capital fixo no Brasil
Devem ser salientados também, alguns movimentos de grande importância que dizem respeito à elevação da eficiência de máquinas, de equipamentos e do processo da construção civil, movimentos que, inclusive, oferecem subsídios para a estruturação de políticas públicas visando acelerar a formação bruta de capital fixo no Brasil:
1- continuidade do emparelhamento tecnológico (catching up) de vários setores industriais e de serviços que têm à sua disposição, novos paradigmas tecnológicos que proporcionam obter maiores níveis de produtividade e de competitividade empresarial sem maiores dispêndios com PD&I. Neste sentido, cabe enfatizar que empresas contam com apoio governamentais mencionados;
2- máquinas e equipamentos com menores divisibilidades técnicas, que possibilitam minimizar ociosidades e responder, com maior velocidade, a estímulos fiscais como, por exemplo: depreciação acelerada para vários setores, a exemplo do complexo mínero-metalúrgico, da agroindústria, da matriz energética, entre outras cadeias intersetoriais que o Brasil reúne vantagens comparativas;
3- o declínio dos preços de investimentos em relação aos preços de bens e serviços finais em conjunto com a disponibilidade de adequadas linhas de créditos torna bastante atrativo adquirir maquinas e equipamentos. Além disso: a ociosidade e o crescimento de estoques, tanto no Brasil, quanto a nível global, permitem prever mais reduções de preços no setor de máquinas e equipamentos;
4- incorporações de TI&C (tecnologias de informação e de comunicação) em modernas máquinas e equipamentos possibilitam minimizar tempos e movimentos em vários setores: mineração, logística, construção civil, entre outros. No caso de edificações, a utilização de modernos equipamentos e de materiais de construção mais eficientes e mais baratos e, no caso da construção pesada, as adoções de novos métodos de terraplanagem e de pavimentação minimizam tempos e movimentos para acelerar instalações de usinas, de fábricas e de obras de rodovias, ferrovias, barragens, portos, aeroportos e logística integrada;
5- modernização estrutural de organizações empresariais através de alianças, fusões, aquisições e parcerias público privadas estratégicas, que elevam escalas, capturam sinergias e estabelecem relações mais estreitas entre fornecedores e clientes no território nacional, podem acelerar o adensamento e o enobrecimento de algumas cadeias intersetoriais.
Em suma, o modelo de desenvolvimento e os programas governamentais em curso, bem como os fatores elencados sintetizam importantes estímulos para viabilizar investimentos em relação ao PIB no Brasil e podem subsidiar a estruturação de políticas publicas para orientar e estimular investimentos empresariais.
III – Novo Padrão de Financiamento de Longo Prazo em estruturação – Migração de aplicações financeiras de curto prazo para investimentos de longo prazo
O momento é oportuno para viabilizar o financiamento de referidos movimentos.
A elevada disponibilidade de excedentes financeiros nos mercados domésticos e internacionais; os lucros acumulados pelas instituições financeiras e empresas estatais e privadas, nacionais e estrangeiras; as elevadas rentabilidades obtidas pelos fundos de aposentadoria complementar e pelos fundos de investimentos; os crescentes rendimentos das classes a, b e c; podem ser canalizados para estruturar novos fundos de investimentos e para viabilizar lançamentos de títulos mobiliários (debêntures, ações resgatáveis, etc.) de modo a dinamizar o mercado de capitais e, ao mesmo tempo, evitar aplicações financeiras especulativas.
O Brasil já dispõe de instrumentos capazes para canalizar recursos para investimentos: a configuração do sistema financeiro em grandes conglomerados ou Bancos Universais contemporâneos; empresas estatais e privadas, nacionais e estrangeiras, capazes de gerar fundos próprios; seguradoras e administradoras de previdência privada complementar em pleno crescimento.
Os BUC’S (Bancos Universais Contemporâneos) atuam em todos os segmentos do mercado financeiro (banco comercial, operações cambiais, financeira, leasing, banco de investimentos, seguradoras, empresa de administração de previdência complementar, administração de consórcios imobiliários e bens duráveis, gestão de fundos de investimentos, etc.) reunindo, portanto, plenas condições para capturar o excesso de liquidez no mercado internacional proporcionado pela flexibilização monetária quantitativa (quantitative easing) nos Estados Unidos e Reino Unido, e pelo programa de transações monetárias diretas (OMT) do BCE na região do Euro, os excedentes financeiros resultantes de lucros acompanhados por instituições financeiras e de empresas estatais e privadas, nacionais e estrangeiras, e por fundos de aposentadoria.
A redução de taxas reais de juros, a redução do custo de capital e a criação de linhas de créditos adequadas quanto a prazos e encargos financeiros, estimulam a migração de recursos aplicados com rendimentos baseados na SELIC e em CDI para investimentos de longo prazo que garantem taxa de retorno superior a 8% a.a. É iminente, portanto, que os fundos de aposentadoria que tem compromissos atuariais a taxas de 5% a.a. e outros fundos de investimentos administrados pelos bancos, acelerem a migração de suas aplicações financeiras em projetos com taxas de retorno previstas pelas concessões para investimentos em infraestrutura.
O elevado nível de incertezas resultante da previsão de duradoura crise internacional exige pragmatismo para viabilizar a expansão de investimentos no Brasil, particularmente em infraestrutura, em elevação de competitividade industrial, em implementação de ousada Estratégia Nacional de Defesa e em integração física (infraestrutura regional) entre os países da UNASUL.
Neste contexto, cabe salientar, que o governo, particularmente nas primeiras licitações de projetos estratégicos de infraestrutura, organize a constituição de parcerias entre os bancos oficiais, os fundos de pensão das estatais, das empresas públicas e a EPL – Empresa de Planejamento e Logística – recentemente criada, e empresas estrangeiras, para estruturar SPE´s – Sociedades Para Propósitos Específicos – visando implementar PPP´s – Parcerias Público Privadas – estratégicas, o que sinalizaria a mitigação de riscos para novas licitações.
Cabe, todavia, chamar atenção, que acelerar a operacionalização das proposições, é absolutamente imprescindível garantir a eficiência da gestão pública via capacitação do aparato administrativo-institucional de modo a impedir desvios na alocação de recursos e no cronograma de execução de cada programa.