Arquivo mensais:abril 2013

Ministro da Justiça diz que redução da maioridade penal é inconstitucional

Por Elaine Patricia Cruz na Agência Brasil

São Paulo – O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse hoje (11), em São Paulo, que o seu ministério é contra a diminuição da maioridade penal. Segundo Cardozo, no seu entendimento, a redução é inconstitucional. “A redução da maioridade penal não é possível, a meu ver, pela Constituição Federal. O Ministério da Justiça tem uma posição contrária à redução, inclusive porque é inconstitucional. Em relação a outras propostas, eu vou me reservar o direito de analisá-las após o seu envio”, disse, após participar esta tarde de uma audiência pública na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) sobre programas federais de segurança.

A ideia de mudança na maioridade penal foi proposta hoje pelo governador de São Paulo Geraldo Alckmin. Ele declarou que pretende enviar ao Congresso Nacional um projeto para tornar mais rígido o Estatuto da Criança e do Adolescente. A proposta do governador é que adolescentes que tenham cometido crimes e tenham completado 18 anos não fiquem mais na Fundação Casa. O governador também defendeu penas maiores para os crimes graves ou reincidentes.

Alckmin se manifestou sobre o assunto ao ser perguntado pelos jornalistas sobre a morte de um jovem em um assalto quando chegava ao prédio onde morava, na zona leste da capital. O estudante Victor Hugo Deppman, de 19 anos, foi morto na terça-feira (16).  O agressor, um adolescente de 17 anos, completa 18 anos amanhã (12). Segundo o delegado André Pimentel, que fez a prisão, ele cumprirá pena socioeducativa, pois o crime foi cometido quando ainda era menor de idade.

O ministro da Justiça disse, em entrevista à imprensa, que ainda pretende conhecer a proposta do governador de São Paulo sobre a redução da maioridade penal. Ele também falou que não entende que o menor, que cumpre pena, tenha que ser encaminhado para um presídio em vez da Fundação Casa. “Temos uma situação carcerária no Brasil que, vamos ser sinceros, temos verdadeiras escolas de criminalidade em muitos presídios brasileiros. Há exceções, mas temos situações carcerárias que faz com que certos presos lá adentrem e, em vez de saírem de lá recuperados, saem vinculados a organizações criminosas. Toda essa situação tem que ser cuidadosamente pensada e analisada”, disse.

Alterada às 22h12 para acréscimo de informação

Edição: Aécio Amado

Como evitar novos ‘Fux’: a aposta argentina

Por Saul Leblon no Blog das frases

As revelações de ex-ministro José Dirceu sobre os bastidores da campanha de José Fux à Suprema Corte não são novas.

Tampouco singulares do percurso trilhado pela maioria dos integrantes daquela instituição.

Joaquim Barbosa, por exemplo.

Valeu-se de um encontro fortuito com Frei Betto para fazer chegar sua aspiração e seu currículo à Presidência da República, exercida por Lula.

Assim por diante.

Embora conhecido, o percurso de Fux nem por isso deixa de inspirar um misto de constrangimento e perplexidade pelo avançado despudor que revela no acesso a um posto, teoricamente, reservado à sobriedade e à isenção.

Relata Dirceu ter sido procurado em 2010 pelo então ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em garimpagem de apoios à indicação para o STF.

Seis meses após intenso assédio, o ex-chefe da Casa Civil aquiesceu em receber Fux no escritório de advocacia de um amigo, cujo titular, por certo, pode atestar a veracidade do encontro.

Pregoeiro de um leilão em que era a própria mercadoria, Fux teria ofertado a Dirceu o seu voto de absolvição no julgamento da AP 470.

Dirceu, por certo, tem testemunhos que podem reiterar seu relato.

O silêncio de Fux é eloquente.

O que ele fez de sua promessa é igualmente sabido e revelador.

Não cabe discutir o caráter dos escolhidos para o STF.

Mas o saldo do método não é dos melhores. E isso diz respeito à democracia.

Desvios de comportamento, que vão da vaidade efervescente, ao desequilíbrio ostensivo no exercício de um missão, em si, credora de predicados opostos, foram – tem sido – cumulativamente testemunhados pela sociedade.

Poucos, se é que cabe ombrear alguém à dignidade solitária do ministro Ricardo Lewandowski, declinaram da genuflexão desfrutável pelo enredo conservador montado em torno do julgamento da AP 470.

Fux, por certo, não foi um deles.

E a tal ponto, que empresta pertinência à dúvida.

O que mais teria prometido Fux, e a quem, ao longo de um julgamento que se tornou explicitamente político, com juízes banhando-se nus nas águas de uma sintonia eleitoral escrachada, sem pejo, nem apego decência?

O tempo não regenera os pilares trincados daquele espetáculo midiático, em que provas inexistentes foram supostas, e dúvidas incontornáveis foram torneadas em formato de condenação. (Leia aqui a edição especial da revista Retrato do Brasil, do jornalista Raimundo Pereira, sobre as falhas gritantes no julgamento).

A resistência do ministro Joaquim Barbosa ao legítimo direito de acesso aos votos e aos prazos de recursos pleiteados pela defesa do acusados, ademais de arbitrária, transpira suspeitas.

O conjunto empresta contundente atualidade ao debate ora em curso na Argentina.

A Presidenta Cristina Kirchner acaba de enviar ao Congresso seis projetos destinados a democratizar as instâncias do judiciário no país.

Um deles preconiza a eleição direta, pela população, de membros do Conselho da Magistratura.

O Conselho argentino julga desvios e desmandos de juízes e advogados.

Integrado por personalidades eleitas pelo voto direto, como preconiza a reforma, seu poder de quebrar o corporativismo e desguarnecer a impunidade no judiciário cresce significativamente.

Não por acaso, a oposição, que se valeu do Judiciário para barrar a Ley de Meios, já se manifesta contrária à mudança.

No Brasil, o Conselho Nacional de Justiça é recente, tendo sido criado apenas em 2004.

É formado por 15 membros:
nove integrantes dos Tribunais Superiores e das Justiças Federal, Estadual e do Trabalho;
dois integrantes do Ministério Público;
dois advogados;
dois cidadãos ‘com notável saber jurídico e reputação ilibada’.

O mandato é de dois anos. E as indicações são autorreferentes.

Como acontece no caso das agencias reguladoras, capturadas pelos regulados, os fiscalizados aqui tem influencia determinante na nomeação dos fiscais.

Uma das funções do CNJ, porém, é assegurar que os magistrados ‘julguem com imparcialidade’.

Fosse composto de personalidades eleitas pelo voto da sociedade, o que diria o CNJ do comportamento esvoaçante, digamos assim, de magistrados como o senhor Fux?

O desassombro do governo argentino sugere mais que isso.

A composição da Suprema Corte brasileira obedece a uma mecânica de indicação mais antidemocrática que a do Vaticano na escolha do Papa.

O caso do ministro Fux é ilustrativo de um vício de origem que acolhe as naturezas mais voluntariosas e melífluas. Nem por isso as mais condizentes com as expectativas e compromissos intrínsecos às obrigações daquela corte.

Por que não democratizar esse processo, se não pelo voto direto, imediato, ao menos para livra-lo das sombras de onde emergem os ‘Fux’ e assemelhados?

A ver.

Insurgente doméstica: Conheça a líder do movimento das empregadas nos EUA

Apontada pela TIME como uma das 100 pessoas mais influentes, a taiwanesa Ai-jen Poo é líder do movimento que reúne 10 mil domésticas nos EUA

Da Revista Samuel

Poo é presidente da maior entidade de domésticas, babás e diaristas dos EUA; são mais de 10 mil sindicalizadas

Ai-jen Poo é uma taiwanesa de 39 anos de idade que já conseguiu um feito notável: muitos apontam que ao organizar as trabalhadoras domésticas ela transformou o movimento pelos direitos trabalhistas nos Estados Unidos. Poo “sindicalizou” a atividade, tarefa considerada das mais difíceis. Nomeada pela revista TIME uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, ela hoje lidera uma associação nacional com mais de 10 mil babás, empregadas, diaristas e cuidadoras.

No Brasil, ainda está fresca a aprovação da PEC das Domésticas — que não faz mais do que estender aos empregados domésticos todos os benefícios já consagrados há décadas para os demais trabalhadores. Nos EUA, não é muito diferente. Desde 1935, esse tipo de trabalho esteve excluído da legislação laboral. O estado de Nova York voltou atrás há apenas três anos; e sob a mobilização liderada por Ai-jen Poo.

“Trabalhadoras domésticas [principalmente as que dormem no emprego] têm uma relação de identificação social complicada. Têm poucos laços com as suas famílias e comunidades de origem, e muito menos com as famílias para quem trabalham”, diz Poo, que demorou sete anos para conseguir organizar a categoria em Nova York, em entrevista concedida ao site norte-americano In These Times.

Para que a legislação pudesse ser finalmente promulgada, Nova York presenciou uma mobilização social que foi além de passeatas com empregadas domésticas. Muitas crianças com cartazes dizendo “respeite a minha babá” também estiveram presentes. Porteiros também apoiaram a causa; afinal, são eles que testemunham todos os dias as longas horas de trabalho que as babás e faxineiras têm que enfrentar.

A base de apoio foi tamanha que muitos patrões e patroas também encamparam as bandeiras. Perguntada se esse tipo de ligação é controversa ou problemática, ela nega: “na campanha pela dignidade humana, não existem aliados indesejáveis”.

A tarefa de mobilizar a categoria começou com Poo nos anos 90. Naquela época, trabalhadoras domésticas eram vistas como uma força marginal do movimento trabalhista nos EUA. Hoje, ela aponta que toda a força de trabalho nos país está sujeita às mesmas dinâmicas: isolamento, trabalho temporário, vulnerabilidade e insegurança no emprego.

“Se conseguirmos encontrar com sucesso quais modelos funcionam para as domésticas, podemos contribuir para o quadro geral e reinventar o movimento trabalhista no século XXI”, diz a líder taiwanesa.

Inflação deve cair ao longo do ano, acreditam analistas

por Gabriel Bonis na Carta Capital

A

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) dos últimos 12 meses ultrapassou em março o teto da meta de inflação do governo federal. Pressionado pela alta dos preços dos alimentos e da habitação, atingiu 6,59% ante os 6,5% da meta, conforme divulgado pelo IBGE nesta quarta-feira 10. Ainda assim, o índice deve ceder ao longo do ano.

“Este dado está carregado por um período em que houve muitos aumentos. É um problema do passado, mas o quadro inflacionário ficará apertado de qualquer forma  neste ano”, diz o economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, professor da Unicamp.

Um indicativo de um cenário de controle da inflação durante o ano é o IPCA de março. No mês, o índice ficou em 0,47%, contra 0,60% em fevereiro. O resultado ficou abaixo dos 0,5% esperados pelo mercado, algo que ocorreu pela primeira vez em nove meses. “Isso indica que [a trajetória de queda] deve continuar, pois a inflação tende a perder força com a entrada da safra agrícola nos próximos meses”, acredita o economista Antonio Carlos Alves dos Santos, professor da PUC-SP.

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No acumulado do primeiro trimestre do ano, a inflação está em 1,94%. E o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou naa quarta-feira 10 que o governo não poupará esforços para controlar o índice. “Estamos em uma trajetória de reduzir a inflação.”

Parte do resultado esperado pelo ministro pode vir da previsão de uma safra agrícola maior para este ano no País, diminuindo a pressão sobre os alimentos. O item teve alta de 1,14% em março, 1,45% em fevereiro e 1,99% em janeiro. As explicações incluem problemas climáticos, quebras de safra e maior demanda. Somente no mês passado, os alimentos responderam por 60% da variação da inflação, com destaque para as variações de mandioca (151,39%), tomate (122,13%) e batata inglesa (97,29%).

Nem mesmo a desoneração dos produtos da cesta básica, anunciada pela presidenta Dilma Rousseff, foi suficiente para evitar a alta dos preços. “É natural que uma desoneração no primeiro momento seja absorvida por margens de lucro na produção ou comercialização. Ao longo do processo é que a redução de impostos vai levar à queda de preços para o consumidor”, diz Almeida.

Com a incerteza sobre o rumo da inflação, o mercado já ventila como inevitável um aumento na taxa de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, atualmente em 7,25% ao ano. A previsão é que a taxa subiria para 7,5% em maio e fecharia o ano em 8,5%. Uma medida que deve ser analisada com cuidado. Segundo Almeida, o aumento da Selic poderia permitir que o processo de alta da inflação não se generalize, mas o crescimento poderia ser afetado. “A economia brasileira está muito fraca e o aumento dos juros vai deixá-la ainda pior. Trata-se de uma economia que cresceu apenas 0,9% em 2012, não está superaquecida. Aumentar juros em uma economia cambaleante pode ter efeito forte em um possível início de aquecimento.”

O governo, diz ele, precisa acenar para o mercado – que está atento à inflação – e jogar com as expectativas, aumentando o juros ou deixando claro que se preocupa com o tema. Santos, por outro lado, acredita que o problema central não está sendo atacado: o elevado desequilíbrio entre a oferta e demanda agregada. “Neste caso, só há duas alternativas: reduzir gastos públicos ou aumentar os juros.”

Educação ajuda na queda do IPCA de março

Um dos itens que mais ajudaram a minimizar o IPCA em março foi a educação, que passou de uma variação de 5,40% em fevereiro, para apenas 0,56%. O grupo de transportes também contribuiu, ao sair de uma alta de 0,81% no mês passado para uma queda de 0,09% em março. Algo explicado pelo declínio de 16,43% das passagens áreas em março. A gasolina registrou variação de 0,09% em março contra 4,10% de fevereiro.

Com informações Agência Brasil.

OMC revisa para baixo previsões do comércio mundial em 2013

Por Renata Giraldi na Agência Brasil

Brasília – Após um fraco desempenho do comércio internacional em 2012, em decorrência dos impactos da crise econômica internacional principalmente em alguns países europeus, o ano começa com tendência de crescimento lento. A Organização Mundial do Comércio (OMC) avaliou para baixo as previsões sobre 2013. A projeção, segundo a OMC, é que o crescimento siga em nível moderado de cerca de 3,3% no ano.

O crescimento do comércio mundial caiu para 2 % em 2012, comparado com 5,2% em 2011. Em documento divulgado pelo órgão, os observadores advertem que os efeitos da crise em 2012 devem ser avaliados como um alerta sobre a fragilidade da economia global. A prioridade deve ser “reparar” as fragilidades, segundo a organização.

A forte desaceleração no comércio no ano passado foi atribuída ao crescimento lento nas economias desenvolvidas e aos repetidos episódios de incerteza sobre o futuro do euro. Pela avaliação da OMC, o crescimento da China deve se manter como o mais rápido em comparação a outras grandes economias, reduzindo assim as possibilidades de impacto da desaceleração.

As exportações permanecem, porém, limitadas pela fraca demanda na Europa. De acordo com os observadores da OMC, o ano de 2013 parece destinado a ser “quase uma repetição” de 2012, com expansão lenta do comércio e da produção, abaixo da média de longo prazo.

“Os acontecimentos de 2012 devem servir como mensagem, mostrando que as fraquezas estruturais das economias que sofreram com a crise econômica não foram completamente curadas, embora ocorra progresso significativo de recuperação em algumas áreas. Reparar essas fissuras deve ser a prioridade em 2013 “, analisou o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy.

Pelo estudo, o crescimento do comércio em 2013, de 3,3%, está abaixo da média de 5,3% dos últimos 20 anos e também em tendência de baixa, registrada no período de 1990-2008, que foi 6%. De acordo com os analistas da OMC, a incerteza na zona do euro (17 países que adotam a moeda única) devido à crise econômica e seus impactos reduziu as importações da União Europeia em 2012 e afetou os parceiros comerciais.

Lamy ressaltou que deve haver um esforço conjunto para o fortalecimento do sistema multilateral de comércio. “O comércio pode ser, mais uma vez, um motor de crescimento e uma fonte de vitalidade para a economia mundial, e não apenas um barômetro de instabilidade. O caminho está aberto diante de nós, tudo o que precisamos é a vontade de segui-lo”, disse ele.

O estudo da OMC pode ser acessado na página da organização

Dilma presenteia os barões da mídia

Decreto beneficia diretamente os setores de jornais, revistas, livros, rádio, televisão e internet ao reduzir contribuições sociais das empresas. “Estima-se que o setor de mídia venha a economizar R$ 1,2 bilhão por ano a partir de janeiro de 2014, quando o benefício entra em vigor”, revela o jornalista Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa.

Altamiro Borges* no Blog do Miro

Na sua perigosa política de desoneração da folha de pagamento, o governo Dilma anunciou nesta semana um presentão para os donos da mídia.

Globo, Veja, Folha e Estadão, entre outros veículos, nem festejaram a bondade presidencial, já que o seu esporte favorito é atacar o governo, ocupando o lugar da oposição demotucana.

Segundo o sítio Meio&Mensagem, o ministro Guido Mantega baixou duas medidas que reduzem os tributos das empresas de comunicação, acatando proposta do senador Francisco Dornelles.

O decreto beneficia diretamente os setores de jornais, revistas, livros, rádio, televisão e internet. Ele reduz as contribuições sociais das empresas, de 20% da folha de pagamento para 1% a 2% do faturamento.

“Estima-se que o setor de mídia venha a economizar R$ 1,2 bilhão por ano a partir de janeiro de 2014, quando o benefício entra em vigor”, revela o jornalista Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa.

Para piorar, o governo não impôs qualquer contrapartida, como a manutenção do emprego dos trabalhadores.

Desde o final do ano passado, os impérios midiáticos têm desempregado centenas de profissionais. Nesta semana, o Estadão demitiu um quarto dos seus jornalistas.

Como antídoto contra a crise mundial, o governo desonera a folha de pagamento e não exige qualquer contrapartida. Baita presentão! Uma bondade, à custa dos cofres públicos, de R$ 1,2 bilhão.

Se a intenção é acalmar a ira dos barões da mídia, não passa de mais uma ilusão da presidenta Dilma no seu “namorico” com o principal partido da direita nativa. Lamentável! 

STF, Congresso e a Lei dos Royalties do Petróleo

Por Celso Roma na Carta Capital

O caso envolvendo a partilha dos recursos da exploração do petróleo e gás natural mostra os limites da capacidade da Justiça em interferir nas políticas públicas. O plenário do Supremo Tribunal Federal pode tomar três cursos de ação. Os dois primeiros implicam sentença cujos efeitos podem ser mitigados por ações negativas dos poderes Executivo e Legislativo.

Parlamentares apreciam vetos ao projeto de lei que divide os royalties do petróleo. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr

Parlamentares apreciam vetos ao projeto de lei que divide os royalties do petróleo. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr

Se o STF indeferir as Ações Diretas de Inconstitucionalidade impetradas por autoridades de três estados, em tese os interesses do Congresso Nacional prevaleceriam sobre os demais. Assim, a Lei 12.734, de 30 de novembro de 2012, é aplicada na íntegra, estabelecendo, para todos os contratos, um modelo igualitário de distribuição dos dividendos do petróleo.

Se o STF acolher a ação do governador de São Paulo contra a forma da lei, por alterar termos de contratos e compromissos fiscais em vigor, a decisão dos congressistas será acatada somente nos acordos futuros.

Em realidade, tanto a Presidência da República como os chefes de governo e as assembleias legislativas da região produtora de petróleo podem tomar medidas para reduzir os efeitos da aplicação total ou parcial da lei, reescrevendo contratos ou instituindo impostos para reverter a expectativa de perda de receitas.

O terceiro curso de ação do STF, por outro lado, exige respostas positivas dos poderes Executivo e Legislativo.

Se o STF julgar procedentes as ações do Rio de Janeiro e Espírito Santo, em favor de mudança na substância da lei, por considerá-la uma violação ao pacto federativo consagrado na Constituição de 1988, o impasse retorna à esfera da política.

Aos parlamentares compete propor, discutir e votar novo projeto de lei. À presidenta Dilma Rousseff cabe sancionar ou vetar o texto. Se houver veto, o Congresso deve apreciá-lo. Para evitar a obrigatoriedade de sanção presidencial, os parlamentares podem aprovar Proposta de Emenda à Constituição, a ser promulgada pelas Mesas da Câmara e do Senado.

Qualquer ato do Congresso pode ser questionado no STF, o que implica repassar o problema para a esfera da Justiça.

Se, em vez de lei ou emenda constitucional, o Congresso nada fizer, surge uma lacuna legal semelhante àquela observada no Fundo de Participação dos Estados e Distrito Federal.

Em fevereiro de 2010, o STF declarou inconstitucionais os critérios adotados para os repasses da União aos estados, do percentual do IR (Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza) e do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados).

Na ocasião, o STF também solicitou que os congressistas aprovassem, até o dia 31 de dezembro de 2012, nova fórmula para promover o equilíbrio socioeconômico entre os entes da federação. Vencido o prazo, o Congresso não cumpriu com o dever.

Para não lesar as finanças das administrações estaduais, sobretudo da região mais pobre do país, a Secretaria do Tesouro Nacional, vinculada ao Ministério da Fazenda, manteve nos primeiros meses deste ano, com a anuência do próprio STF, as transferências de recursos com base no antigo e ilegal rateio do fundo.

Uma decisão do STF quanto à Lei dos Royalties do Petróleo também não encerra o assunto.

O Judiciário pode ter a última palavra, mas, para que uma sentença seja efetivamente cumprida, o Executivo e o Legislativo precisam cooperar.

 

Celso Roma é cientista político e doutor pela USP