Arquivo mensais:março 2013

Dilma: “Assim, não tem prevenção que resolva”

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Em Roma, onde está para assistir missa inaugural do papado de Francisco, presidente defende “medidas um pouco mais drásticas” para tirar moradores de áreas de risco; ela telefonou para o governador do Rio, Sérgio Cabral, e determinou o envio à região serrana do Estado de tropas da Força Nacional de Defesa Civil; para Dilma, tragédia ocorreu não por falta de prevenção, mas porque pessoas insistem em ficar “em regiões em que não podem ficar”; 13 pessoas morreram nos deslizamentos causadas pelas chuvas do final de semana

Por Danilo Macedo na Agência Brasil

Brasília – A presidenta Dilma Rousseff ligou na manhã de hoje (18) para o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, oferecendo apoio federal às áreas atingidas pelas chuvas na serra fluminense. A informação foi confirmada pela assessoria da Presidência da República. Dilma está na Itália para participar amanhã (19) da missa que inaugura o pontificado do papa Francisco.

“Acho que vão ter que ser tomadas medidas um pouco mais drásticas para que as pessoas não fiquem nas regiões que não podem ficar. Assim, não tem prevenção que dê conta”, disse a presidente aos jornalistas, em Roma.

O governo do Estado informou que, além da presidenta, a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, também telefonou para o governador para oferecer o apoio necessário a Petrópolis e demais áreas afetadas pelas fortes chuvas dos últimos dias. Segundo a assessoria de Cabral, o governador explicou a situação e a Força Nacional de Defesa Civil já está se deslocando para Petrópolis.

Sérgio Cabral disse, em nota, que está recebendo informações atualizadas das regiões atingidas e está disponibilizando toda a estrutura necessária para o enfrentamento da situação. “Reforçamos o número de bombeiros militares com a ida do Grupamento de Salvamento. Colocamos todo o maquinário do Inea [Instituto Nacional do Ambiente], que já se encontra em Petrópolis, para as eventuais necessidades nas áreas atingidas. Todo o governo foi acionado”.

Segundo a Secretaria Estadual de Defesa Civil, chega a dez o número de vítimas de deslizamentos de encostas causados pela forte chuva que caiu na cidade entre a noite de ontem (17) e a madrugada de hoje.

Edição: Denise Griesinger

O ponto crítico do Inova Brasil

Por Luis Nassif em seu Blog

Lançado esta semana, o Plano Inova Brasil tentará focar em uma vulnerabilidade central do sistema de inovação brasileiro: a falta de instrumentos para investimentos em empresas inovadoras.

Tem a importância de mapear as diversas operações em andamento nas diversas instituições públicas, juntar os diversos agentes de inovação, nas áreas pública e privada. Mas tem uma perna fraca: os instrumentos de investimento e financiamento.

O novo desenho não assegura que a visão inovadora do sistema de tecnologia e inovação conseguirá se impor sobre hábitos e costumes consolidados, das instituições públicas financeiras.

É fato que criou-se uma porta de entrada única, através da qual as empresas serão trabalhadas com os diversos instrumentos de estímulo do setor.

Mas não ão há nenhuma garantia de que as instituições financeiras – especialmente o BNDES – mudarão sua forma de operar.

Sem a criação de novos instrumentos institucionais, será mais difícil que cada instituiçāo entre no jogo e saia de sua zona de conforto.

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Tome-se o caso do BNDES.

Historicamente, foi criado para financiar o novo, as novas atividades que surgiam no país. Mas sua atuação se enrijeceu. Não consegue atuar fora das formas tradicionais de concessão de crédito.

Nos últimos anos não faltaram recursos para setores de baixíssima agregação tecnológica, como os frigoríficos e empresas alimentícias. E muito pouco se bancou para empresas inovadoras.

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A incerteza ou risco é a característica maior da inovação. E exige formas de análise que fogem completamente à tradição  do banco.

Na empresa inovadora, não se vai buscar o ganho certo no financiamento ou na participação acionária: ou se conseguirá um ganho extraordinário ou uma perda. A inovação se dá sempre em produtos não testados, em soluções nunca prospectadas. E a cultura do banco não foi adaptada para esse modelo.

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Dois exemplos ilustram essa posição do banco.

A Opto Eletrônica é um dos orgulhos do país, em termos de empresa de alta tecnologia. Fundada por um físico, doutor pelo MIT, tornou-se uma empresa brasileira com produtos de relevância mundial. Fabrica lentes do satélite brasileiro e uma extensa gama de produtos de alta tecnologia.

Em 2008, tentou adquirir uma empresa nos Estados Unidos, muito maior do que ela mas que, devido à crise, estava com o mesmo valor. A compra da empresa permitiria a ela desovar no mercado americano uma linha avançada de produtos, já desenvolvidos no Brasil, mas sem canais de comercialização.

Foram cinco anos em vão atrás de apoio do BNDES. Todos os argumentos foram invocados para não conceder o financiamento, nem entrar no seu capital. Por fim, recomendaram à empresa buscar um fundo de investimento.

Atualmente a empresa padece com falta de capital de giro, sem recursos até para adquirir máquinas para atender às demandas de seus clientes e manter salários em dia.

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A BRF Foods precisava se desfazer de parte de seus ativos, para completar a fusão com a Perdigão. O BNDES adquiriu, então, R$ 2,5 bilhões em debêntures da Marfrig, para que ela adquirisse as empresas. Ou seja, não agregou um centavo à capacidade produtiva do país e menos ainda à inovação

Quando a empresa balançou, o banco converteu as debêntures em ações, registrando um prejuízo de R$ 1,2 bilhão.

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Aliás, a debênture conversível foi a maneira que o banco encontrou para continuar praticando o velho com cara nova.

A burocratização do risco

Se perguntar ao BNDES se quer dar dinheiro para inovação, ele dirá que sim. Aí terceirizará, aplicando recursos em algum fundo de inovação. Ou recorrerá à emissão de debêntures conversíveis, instrumento que nasceu para o banco lidar com risco sem se arriscar, e dentro do formato da grande empresa. O mesmo problema ocorre na Finep. Ela pode bancar dez projetos inovadores. Se um der errado, terá que prestar contas ao CGU.

Mudando a lógica

Para que o plano dê certo, o Plano pretende juntar todos os instrumentos de apoio às empresas inovadoras. Hoje em dia elas conseguem recursos carimbados do CNPq e das Fundações de Amparo à Pesquisa para pontos específicos: contratação de pesquisadores a fundo perdido, por exemplo. Se quiser romper com o modelo atual, os editais terão que deixar claro que as empresas apoiadas terão que trazer grandes ideias e as apostas estão sujeitas a grandes ganhos ou a perdas totais.

Zona do conforto

A aposta tem que ser firme, amparando com bolsas, investimento de risco, depois, apoio ao capital de giro, quando for necessário. Se o critério de apoio não for o do alto potencial de risco, não se sairá do lugar e o BNDES e Finep continuarão usando instrumentos tradicionais travestidos de alguma sigla nova. Tem que se ter um conceito claro que tire as instituições da zona de conforto.

Prominp – 1

A parte mais sólida do movimento de inovação está se dando no pré-sal, no âmbito do Prominp (Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural), capitaneado pela Petrobras, e incluído no Plano Inova Brasil. Há o mesmo modelo de atuação, com a criação de câmaras e conselhos compostos por órgãos do governo e do setor privado, fornecedores da Petrobras.

O Prominp – 2

O grande diferencial do Prominp é a possibilidade da Petrobras garantir a demanda. A cada ano, a Organização Nacional da Indústria do Petróleo – que reúne as principais associações do setor, Petrobras e Ministérios – define os desafios tecnológicos do ano. Identificam-se as empresas candidatas. Engenheiros da empresa, da Petrobras e de institutos de pesquisa desenvolvem o piloto. Aprovado, é incorporado nas plataformas e refinarias.

O Prominp – 3

Quando não existe tecnologia nacional, fazem-se rodadas de negócios em outros países, atraindo fornecedores com interesse em montar parceria no Brasil. A cenoura são os enormes projetos demandados pelo pré-sal. O BNDES não tem dificuldade em financiar a cadeia produtiva, porque a garantia são os contratos da Petrobras. Para outras áreas, terão que ser buscados novos instrumentos.

Belo Monte acumula 15 processos movidos pelo Ministério Público

Por  André Borges no Valor

Ruy Baron/Valor

BRASÍLIA - A hidrelétrica de Belo Monte, em construção no rio Xingu, no Pará, acumula 15 processos iniciados a partir de ações ajuizadas pelo Ministério Público Federal (MPF) no Pará.

O MPF publicou hoje na internet o conteúdo integral de sete dos 15 processos. Os demais processos serão publicados à medida que a digitalização do material for concluído. O objetivo, segundo os procuradores, é “permitir à população acesso fácil e rápido a informações sobre a obra mais cara do país”.

Os processos já publicados, informa o MPF, tratam de “diversas ilegalidades, como a tentativa de repassar para o Estado do Pará a realização de um licenciamento que deve ser feito na esfera federal, a aceitação de estudos incompletos sobre os impactos ambientais e a não apresentação, no tempo legal, da avaliação ambiental integrada dos impactos na bacia do Xingu”.

Há casos ainda que denunciam “o aproveitamento de recursos hídricos em terras indígenas mesmo sem regulamentação, a utilização de licenças não previstas na legislação, o não cumprimento de medidas obrigatórias de prevenção e redução dos impactos, os riscos de remoção de povos indígenas e a violação aos direitos da natureza e das gerações futuras”.

O MPF tem criticado a morosidade da Justiça em julgar os processos. Dos 15, apenas o primeiro teve julgamento definitivo pela Justiça. “Por isso, o conteúdo integral dos demais processos publicados pelo MPF está atualizado até a última tramitação processual”.

(André Borges | Valor)

 

A única verdade é a realidade


A primeira coletiva de imprensa do porta-voz do papa Francisco foi para separá-lo de Jorge Mario Bergoglio, acusado pela entrega de sacerdotes à Escola de Mecânica da Armada (ESMA). Como os testemunhos e os documentos são incontestáveis, o caminho escolhido foi o desacreditar quem os divulgou, qualificando o jornal Página/12 como “esquerdista”. As tradições se conservam: é a mesma coisa que Bergoglio disse de Jalics e Yorio diante daqueles que os sequestraram. O artigo é de Horácio Verbitsky.

Por Horácio Verbitsky na Carta Maior

Buenos Aires – Em seu primeiro encontro com a imprensa depois da eleição do jesuíta Jorge Mario Bergoglio como Papa da Igreja Católica Apostólica Romana, seu porta-voz, o também jesuíta Federico Lombardi, descartou como velhas calúnias da esquerda anticlerical, difundidas por um jornal caracterizado pelas campanhas difamatórias, as alegações sobre a atuação do ex-provincial da Companhia de Jesus durante a ditadura argentina e, sobretudo, o papel que desempenhou da desaparição de dois sacerdotes que dependiam dele, Orlando Yorio e Francisco Jalics. Ao mesmo tempo, meios de comunicação e políticos argentinos de oposição incluíram a nota “Um ersatz”, publicada aqui no dia seguinte da eleição papal, entre as reações do kirchnerismo pela entronização de Bergoglio. Também um setor do governo preferiu aclamá-lo como “argentino e peronista” (a mesma consiga com que, a cada setembro, se homenageia José Rucci) e negar os fatos incontestáveis.

A reconciliação
Desde a Alemanha, onde Jalics vive retirado em um monastério, o líder provincial jesuíta alemão disse que o sacerdote havia se reconciliado com Bergoglio. Jalics, por sua vez, hoje com 85 anos, esclareceu que se sentia reconciliado com “aqueles acontecimentos, que para mim são assunto encerrado”. Ainda assim, reiterou que não faria comentários sobre a atuação de Bergoglio no caso. A reconciliação, para os católicos, é um sacramento. Nas palavras de um dos maiores teólogos argentinos, Carmelo Giaquinta, consiste em “perdoar de coração o próximo pelas ofensas recebidas” [1], o que só indica que Jalics já perdoou o mal que fizeram a ele. Isso diz mais dele do que de Bergoglio. Jalics não nega os fatos que narrou em seu livro “Exercícios de meditação”, de 1994:

“Muita gente que sustentava convicções políticas de extrema-direita via com maus olhos nossa presença nas vilas pobres. Interpretavam nossa presença ali como um apoio à guerrilha e se propuseram a nos denunciar como terroristas. Nós sabíamos de que lado soprava o vento e quem era o responsável pelas calúnias. De modo que fui falar com a pessoa em questão e expliquei que estava jogando com as nossas vidas. O homem me prometeu que diria aos militares que não éramos terroristas. Por declarações posteriores de um oficial e trinta documentos aos quais tivemos acesso mais tarde pudemos comprovar, sem lugar para dúvidas, que esse homem não só não havia cumprido sua promessa, mas, ao contrário, havia apresentado uma falsa denúncia aos militares”.

Em outra parte do livro acrescenta que essa pessoa tornou “crível a calúnia valendo-se de sua autoridade” e “testemunhou ante os oficiais que nos sequestraram que havíamos trabalhado na cena da ação terrorista. Um pouco antes eu havia manifestado a essa pessoa que estava jogando com nossas vidas. Devia ter consciência de que nos mandava a uma morte certa com suas declarações”.

Em uma carta que escreveu em Roma em novembro de 1977, dirigida ao assistente geral da Companhia de Jesus, padre Moura, Orlando Yorio conta o mesmo, mas substitui a referência a “uma pessoa” por Jorge Mario Bergoglio. Nove anos antes que o livro de Mignone e 17 anos antes do de Jalics, Yorio conta que Jalics falou duas vezes com o provincial que “se comprometeu a frear os rumores dentro da Companhia e tomar a iniciativa de falar com gente das Forças Armadas para testemunhar nossa inocência”. Também menciona as críticas que circulavam na Companhia de Jesus contra ele e Jalics: “Fazer orações estranhas, conviver com mulheres, heresias, compromisso com a guerrilha”. Jalics conta em seu livro que, em 1980, queimou aqueles documentos probatórios do que chama de “o delito” de seus perseguidores. Até então, ele os conservava com a secreta intenção de utilizá-los. “Desde então me sinto verdadeiramente livre e posso dizer que perdoei de todo o coração”.

Em 1990, durante uma de suas visitas ao país, Jalics se reuniu no instituto Fé e Oração, da rua Oro 2760, com Emilio Fermín e sua mulher, Angélica Sosa. Disse a eles que “Bergoglio se pôs a que, uma vez posto em liberdade, permanecesse na Argentina, e falou com todos os bispos para que não o aceitassem em seu diocese pois teria se retirado da Companhia de Jesus”. Tudo isso não é o Página/12 quem diz, mas sim Orlando Yorio e Francisco Jalics. Quem quer destruir a Igreja, então?

Cada volume da minha História Política da Igreja na Argentina inclui uma advertência: “Estas páginas não contém juízos de valor sobre o dogma nem o culto da Igreja Católica Apostólica Romana, mas sim uma análise de seu comportamento na Argentina entre 1976 e 1983 como ‘realidade sociológica do povo concreto em um mundo concreto’, segundo os termos de sua própria Conferência Episcopal. Em troca, sua ‘realidade teológica do mistério’ [2] só diz respeito aos fieis, que merecem todo meu respeito”.

Em defesa da tradição
A qualificação deste diário pelo porta-voz do Vaticano como sendo de “esquerda anticlerical” revela a continuidade de arraigadas tradições. É o mesmo que o agora papa fez há 37 anos com seus sacerdotes, ainda que naquele momento isso implicasse um grave perigo. As acusações contra Bergoglio foram formuladas pela primeira vez antes que o Página/12 existisse. Seu autor foi Mignone, diretor do órgão oficial da Ação Católica, Antorcha, fundador da União Federal Democrata Cristã e vice-ministro da Educação na província de Buenos Aires e na Nação.

Nenhum desses cargos podia ser alcançado sem a benção episcopal. Em seu livro “Igreja e ditadura”, de 1986, Mignone escreveu que os militares limparam “o pátio interno da Igreja, com a aquiescência dos prelados”. O vice-presidente da Conferência Episocpal, Vicente Zazpe, revelou que pouco depois do golpe a Igreja acordou com a Junta Militar que, antes de deter um sacerdote, as Forças Armadas avisariam o respectivo bispo. Mignone escreveu que “em algumas ocasiões a luz verde foi dada pelos próprios bispos” e que a Armada interpretou a retirada das licenças de Yorio e Jalics e das “manifestações críticas de seu provincial jesuíta, Jorge Bergoglio, como uma autorização para agir”. Para Mignone, Bergoglio é um dos “pastores que entregaram suas ovelhas ao inimigo sem defendê-las nem resgatá-las”.

Duas décadas depois encontrei por acaso as provas documentais que Mignone não conheceu e que confirmam seu enfoque do caso. O fato de Bergoglio ter ajudado outros perseguidos não é uma contradição: o mesmo foi feito por Pío Laghi e inclusive Tortolo e Victorio Bonamín.

Cronos
Nestas páginas se aprofundou o caso quatro anos antes que o kirchnerismo chegasse ao governo. A primeira nota, publicada em abril de 1999, “Com el mazo dando”, dizia que o novo arcebispo portenho “segundo a fonte que se consulte é o homem mais generoso e inteligente que já rezou missa na Argentina ou um traidor maquiavélico que traiu seus irmãos em função de uma ambição insaciável de poder. Talvez a explicação resida em que Bergoglio reúne em si dois trações que nem sempre andam juntos: é um conservador extremo em matérias dogmáticas e possui uma manifesta inquietude social. Em ambos os aspectos se parece com quem o indicou para comandar a principal diocese do país, o papa Karol Wojtyla”.

O conceito é o mesmo que expressei na quinta-feira quando a fumarola alvi-celeste comoveu todas as torcidas, de La Quiaca a Terra do Fogo. Aquela nota contrapunha a versão de Mignone com a de Alicia Oliveira, advogada do CELS e amiga de Bergoglio, cuja irmã trabalhava na vila de Flores, junta com a filha de Mignone e com os dois religiosos. “Disse a eles que tinham que ir embora e não deram bola. Quando foram sequestrados, Jorge averiguou que estavam com a Armada e foi falar com Massera, a quem disse que se os sacerdotes não fossem libertados, ele iria denunciar o que estava acontecendo. No dia seguinte apareceram em liberdade”.

Também incluía a refutação de um sacerdote da Companhia de Jesus: “A Marinha não se metia com ninguém da Igreja que não incomodasse a Igreja. A Companhia não teve um papel profético e de denúncia, diferentemente dos palotinos ou dos pasionistas, porque Bergoglio tinha vínculo com Massera.Não são apenas os casos de Yorio, Jalics e Monica Mignone, sobre cujo sequestro a Companhia nunca formulou a denúncia pública. Outros dois padres, Luis Dourrón, que depois deixou a batina, e Enrique Rastellini, também atuavam no Baixo Flores. Bergoglio pediu que eles fossem embora dali e quando se negaram a fazê-lo, os militares ficaram sabendo que ele não os protegia mais, o que foi o sinal verde para que eles fossem sequestrados”.

Esse sacerdote, que morreu há seis anos, era Juan Luis Moyano Walker, que havia sido amigo íntimo de Bergoglio. Em função dessa nota, Bergoglio me ofereceu sua própria versão dos fatos, na qual aparecia como um super-herói. Tanto ele como Jalics, a quem telefonei em seu retiro alemão, me pediram que atribuísse suas declarações a um sacerdote muito próximo a cada um deles. Bergoglio disse que viu Videla duas vezes e Massera outras duas. Na primeira reunião com cada um, ambos disseram a ele que não sabiam o que havia ocorrido e que iriam investigar. “Na segunda reunião, Massera estava cansado com esse jovem de 37 anos que se atrevia a insistir”. Segundo Bergoglio, tiveram esse diálogo:

“Eu já disse a Tortolo o que sabia”, disse Massera.

“Ao monsenhor Tortolo”, corrigiu Bergoglio.

“Olhe Bergoglio…”, começou Massera, incomodado pela correção.

“Olhe Massera”, respondeu no mesmo tom Bergoglio, antes de reiterar-lhe que sabia onde estavam os sacerdotes e reclamar sua libertação.

Limitei-me a transcrever o que Bergoglio disse, com a atribuição que me pediu. Mas até hoje não me parece verossímil esse diálogo com um dos governantes mais poderosos e mais cruéis, que o teria feito desaparecer sem nenhum escrúpulo. Ambos tinham em comum a relação com a Guarda de Ferro, o grupo da direita peronista no qual Bergoglio militou em sua juventude e ao qual Massera designou um interventor a partir do golpe, com o propósito de somá-lo à sua campanha pela herança do peronismo. Em 1977, a Universidade jesuítica de Salvador recebeu Massera como professor honorário, que levantou objeções a Marx, Freud e Einstein, por questionarem o caráter inviolável da propriedade privada, agredirem o “espaço sagrado do foro íntimo”, e colocarem em crise a condição “estática e inerte da matéria”. Massera disse que a Universidade era “o instrumento mais hábil para iniciar uma contraofensiva” do Ocidente, como se Marx, Freud e Einstein não fizessem parte dessa tradição.

Bergoglio tomou um cuidado especial neste dia, de modo que ninguém viu uma foto sua com Massera. Mas é inimaginável que o ditador tenha recebido a distinção sem que a cerimônia fosse autorizada pelo provincial jesuíta que delegou a gestão diária para uma associação civil conduzida pela Guarda de Ferro, mas manteve sob seu controle sua condição espiritual. Depois, Massera foi convidado a expor na universidade jesuítica de Georgetown, em Washington. O sacerdote irlandês Patrick Rice, que deixou a Argentina depois de ter sido sequestrado e surrado, interrompeu essa conferência exigindo-lhe explicações sobre os crimes da ditadura. Segundo Rice, o provincial estadunidense não teria convidado um personagem semelhante sem a aprovação, ou o pedido, do provincial argentino. Estes fatos comprováveis desmentem o diálogo fantasioso no qual o jovem Bergoglio teria desafiado o senhor da Esma.

Uma morte cristã
Em 1995, um ano depois do livro de Jalics, foi publicado “El Vuelo”, onde o capitão de fragata Adolfo Scilingo confessa que lançou trinta pessoas ainda vivas no mar a partir de aviões da Marinha e do governo, após drogá-las. Além disso, afirmou que esse método foi aprovado pela hierarquia eclesiástica por considerar o voo como uma forma cristã de morte e que os capelães da marinha consolavam aqueles que voltavam perturbados dessas missões, com parábolas bíblicas sobre a separação do joio do trigo.

Impressionado, retomei uma investigação que havia iniciado anos antes sobre a ilha do Tigre (“El Silencio”), na qual a Marinha escondeu 60 detidos-desaparecidos para que não fossem encontrados na ESMA pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Era propriedade do Arcebispado de Buenos Aires. Ali celebravam a graduação dos seminaristas todos os anos e o cardeal Juan Aramburu descansava nos finais de semana. O sacerdote Emilio Grasselli a vendeu à força-tarefa da ESMA, que a comprou com um documento falso e em nome de um dos prisioneiros. Mas não havia visto os títulos de propriedade até que Bergoglio me deu os dados precisos sobre o expediente sucessório de Antonio Arbelaiz, o administrador da Cúria que figurava como o dono. Isso mostra que ele não teve relação com esse episódio. Arbelaiz fez um testamento a favor da Cúria, que é onde foi parar o dinheiro que a Marinha pagou a Grasselli pela ilha, onde os 60 prisioneiros passaram dois meses encarcerados.

Parece o caminho típico de uma operação de lavagem de dinheiro: Arbelaiz vende a Grasselli que vende a ESMA que compra com um documento falso e a hipoteca é levantada, pagando-se à Cúria, que é a herdeira de Arbelaiz. Em um de seus depoimentos à Justiça, Bergoglio reconheceu que falou comigo sobre o sequestro de Yorio e Jalics. Mas disse que nunca ouviu falar da ilha “O silêncio”. Sempre o jogo duplo, a admissão privada e a negativa pública.

Pelas costas
Durante a investigação encontrei por acaso no arquivo do Ministério de Relações Exteriores uma pasta com documentos que, na minha avaliação, terminam com a discussão sobre o papel de Bergoglio em relação às prisões de Yorio e Jalics. Busquei uma escrivã, que certificou sua localização no arquivo, cujo diretor na época, ministro Carlos Dellepiana, guardou em um cofre para impedir que fossem roubados ou destruídos. A história que essa pasta conta soa familiar. Ao ser posto em liberdade, em novembro de 1976, Jalics foi embora para a Alemanha. Em 1979 seu passaporte havia vencido e Bergoglio pediu à Chancelaria que fosse renovado sem que ele voltasse ao país. O diretor de Culto Católico da Chancelaria, Anselmo Orcoven, recomendou rejeitar o pedido “em atenção aos antecedentes do autor da petição”, que foram fornecidos “pelo próprio padre Bergoglio, signatário da nota, com especial recomendação de que o pedido não fosse atendido”.

Dizia que Jalics teve conflitos de obediência e uma atividade desagregadora em congregações religiosas femininas, além de ter ficado “detido” na ESMA junto com Yorio, “por suspeita de contatos com guerrilheiros”. Ou seja, as mesmas acusações formuladas por Yorio e Jalics (e corroboradas por muitos sacerdotes e laicos que entrevistei): enquanto aparentava ajuda-los, Bergoglio os acusava pelas costas.

É lógico que este fato de 1979 não serve de base para uma condenação legal pelo sequestro de 1976. O documento assinado por Orcoyen sequer foi incorporado ao processo, mas indica uma linha de conduta. Ligar o diretor de Culto Católico da ditadura a uma conspiração contra a Igreja seria um exagero. Por isso, Bergoglio e seu porta-voz calam sobre estes documentos e preferem desqualificar quem os encontrou, preservou e publicou.

[1] Carmelo Giaquinta: “Reconciliándonos con nuestra Historia”, organizado pelo Projeto “Setenta veces siete” e Editorial San Pablo, na 36ª Feira Internacional do Livro, Salão Roberto Arlt, 8 de maio de 2010.

[2] Conferência Episcopal Argentina (CEA), Plano Nacional de Pastoral, Buenos Aires, 1967, p. 14, cfr. Luis O. Liberti, Monseñor Enrique Angelelli. Pastor que evangeliza promovendo integralmente o homem, Editorial Guadalupe, Buenos Aires, 2005, p. 164.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

A geopolítica das armas

Por Gabriel Bonis na Carta Capital

Há ao menos três décadas, o rápido crescimento econômico chinês aponta para a futura retomada de um cenário global com duas potências econômicas e militares: os Estados Unidos e a China. E um sinal da consolidação deste quadro é a ascensão da China como o quinto maior exportador de armas convencionais do mundo, segundo relatório do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), publicado na noite deste domingo 17, ao qual CartaCapital teve acesso com exclusividade no Brasil. Essa é a primeira vez desde o fim da Guerra Fria que o top 5 não é formado apenas por EUA e outros quatro países europeus.

O estudo ainda mostra que o volume das transferências mundiais das principais armas convencionais (aviões de combate, tanques, veículos armados, helicópteros, artilharia, mísseis, entre outros) aumentou 17% entre os períodos de 2003-2007 e 2008-2012. Os EUA seguem como o maior fornecedor global nos últimos cinco anos, com 30% das exportações, seguidos por Rússia (26%), Alemanha (7%), França (6%) e China (5%). É a primeira vez que o Reino Unido não está nesta lista desde 1950.

Foto: Mashleymorgan/Flickr

Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, a China está entre os cinco maiores exportadores de armas. Foto: Mashleymorgan/Flickr

Entre os dois quinquênios analisados, as exportações de armas convencionais chinesas subiram 162%, com acordos que têm estabelecido o país como um significativo fornecedor mundial. A maior parte das vendas foi para a Ásia e Oceania (74%). Somente o Paquistão ficou com 55% das exportações do país. “A China sempre foi uma grande exportadora de armas leves, mas não tinha uma indústria militar muito desenvolvida. Mas há mais de uma década existe um investindo forte para dar suporte a esse crescimento militar ajudado por um desenvolvimento industrial e tecnológico”, explica Gunther Rudzit, especialista em segurança e professor da Faculdade Rio Branco, em São Paulo.

Esse avanço militar chinês reflete uma possível corrida armamentícia em países asiáticos e da Oceania, responsáveis por 47% das importações mundiais no setor nos últimos cinco anos, um aumento de 35% em relação ao período anterior. Além disso, os cinco maiores importadores são todos da Ásia: Índia (12%), China (6%), Paquistão (5%), Coreia do Sul (5%) e Cingapura (4%).

Em grande parte, esses Estados compram armas chinesas para lidar com tensões e conflitos de fronteiras marítimas com a própria potência asiática.

A busca por sistemas de defesa na região, acredita Paul Holtom, diretor do programa de transferências de armas do SIPRI, pode ser uma compensação pela defasagem provocada na crise asiática dos anos 90. Mas também está relacionada à ascensão militar chinesa. “Os países sempre levam em conta como a China vai agir, o que também influencia fornecedores como os EUA a comercializar mais equipamentos avançados que no passado.”

No último quinquênio, diversos países da região encomendaram ou anunciaram planos de adquirir armas de longo alcance e sistemas de suporte que os tornariam capazes de projetar poder muito além de suas fronteiras. No ano passado, a Rússia entregou um submarino nuclear à Índia, e a China inaugurou um porta aviões.

Submarinos nucleares estão entre os pedidos mais comuns de países na Ásia. Foto: Russian Trooper/Flickr

Submarinos nucleares estão entre os pedidos mais comuns de países na Ásia. Foto: Russian Trooper/Flickr

A Índia importou 59% mais armas no período, com compras de aviões de combate da Rússia e EUA. No sudeste asiático, as importações cresceram 169%, devido a tensões por fronteiras marítimas, especialmente entre China e Vietnã ou as Filipinas. “O mar ao sul da China é disputado entre muitos países e essa tentativa de ter vantagem em termos navais prevalece na lógica regional. Alguns pesquisadores chegam a comparar os atritos do sudeste asiático à Europa do início do século XX”, Rudzit.

Enquanto isso, a China revelou no ano passado uma série de sistemas de armas domésticos que diminuíram sua dependência externa, por isso sua importações caíram 47% entre 2008 e 2012. No mesmo período, houve aumento no volume de importação de armas das Américas (34%) e África (104%) e queda de 20% na Europa (países como Portugal e Espanha estão vendendo aviões de combate novos por não terem condições de mantê-los) e 7% do Oriente Médio.

Vendas de armas

Os dados do SIPRI são prévios à decisão dos EUA no ano passado em realocar grande parte de suas forças militares e marítimas rumo à Àsia, mas podem ser um indicativo da escolha norte-americana. Antes mesmo da decisão, a indústria de defesa norte-americana era uma das principais fornecedoras para a região. “Os EUA têm olhado a Índia como um mercado potencial, um país antes dominado por exportações da Rússia e países europeus”, explica Holtom.

A China, que fornece enorme quantidades de sistemas básicos para países de menor desenvolvimento, contudo, está entrando em mercados importantes para países europeus e os EUA. “É interessante notar que, há alguns anos, a Rússia montou um grupo de estudos sobre a indústria de defesa chinesa para saber se ela competiria com a russa em médio prazo”, lembra Holtom.

“A China está se desenvolvendo em áreas importantes, mas ainda há laços tradicionais muito fortes neste tipo de comércio. Ninguém deixa de comprar armas de um país facilmente, porque esse mercado é de relação política intensa e profunda”, completa Rudzit.

Maiores exportadores

Os EUA lideram a lista dos maiores exportadores de armas entre 2008 e 2012, com 30% do comércio mundial. O país vendeu armas para ao menos 85 países, além da Otan. A maior parte destes equipamentos foi comprada por Estados da Ásia e Oceania (45%), Oriente Médio (27%) e Europa (18%).

Foto:danielfoster437/Flickr

Foto:danielfoster437/Flickr

Segundo os dados, 62% das entregas foram de aeronaves, incluindo 49 aviões de combate como o F-35.

Em retirada do Iraque e do Afeganistão, os EUA venderam 4% de suas exportações para cada um destes países. Os itens inclusos nas negociações variam de tanques a veículos armados novos e de segunda mão.

A Rússia vem em segundo lugar na lista, com 26% das exportações no setor. Destas, 46% são de aeronaves e 20% de mísseis. Ásia e Oceania também são os maiores compradores, 65% do total. Além disso, o relatório mostra que o país foi responsável por 71% das exportações de armas convencionais para a Síria nos últimos cinco anos, incluindo o período de guerra civil do país do Oriente Médio.

Alemanha e França ocupam a terceira e quarta posições, respectivamente. Os dois países registraram quedas de 8% e 18% no período analisado.

Wikisprint: utopia latina em 20 de março

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Sul da Europa e América Latina preparam-se jornada de ação e conhecimento compartilhado. Veja como participar, onde e por quê

Por Bernardo Gutierrez | Tradução: Gabriela Leite no Outras palavras

Um coletivo indígena de Chiapas enlaçado com um espaço de co-working de Quito. Uma plataforma de crowdfunding de Barcelona trabalhando com o movimento de dados abertos de Montevidéu. Uma cooperativa grega inspirando coletivos artísticos de Caracas (e vice versa). Um grupo hacktivista de Madri, retroalimentando-se da permacultura das favelas do Rio de Janeiro. Uma comunidade de programadores de software livre de Buenos Aires colaborando com urbanistas de Lima. Coletivos culturais junto de hackers. Fundações com ativistas. Artistas copyleft e gestores de cooperação. Política em rede. Ecologia de código aberto. Open data. O sul da Europa, seus movimentos bottom up e horizontais, unido à enérgica América Latina. A #GlobalRevolution, a inovação social e o bem comum dialogando entre fronteiras. E ambos os lados do Oceano Atlântico unidos pelo peer-to-peer (P2P), uma topologia de rede aberta na qual cada nó está conectado ao resto sem passar por nenhum centro. O P2P – com sua abetura, descentralização e empoderamento coletivo – não é mais algo minoritário. É filosofia, tendência de trabalho, uma realidade sólida. O P2P é o sistema nervoso do mundo.

Não é apenas um começo poético. Tampouco um exagero geek. Este parágrafo pode ser realidade a partir do próximo dia 20 de março, quando o #Wikisprint da P2P Foundation será celebrado simultaneamente em vinte países, no que estou especialmente envolvido. O wikisprint, um processo de documentação coletiva e mapeamento de experiências, tem sua origem nas comunidades de programadores de Python, uma das linguagens mais populares de software livre. A prática estendeu-se a outros âmbitos, como à redação de livros coletivos. A respeitadíssima P2P Foundation realiza wikisprints para mapear experiências ao redor destes novos paradigmas. O wikisprint do próximo 20 de março servirá, por exemplo, para mapear experiências ao redor dos commons, da inovação aberta, da co-criação, da trânsparência, do co-projeto, da impressão 3D, das licenças livre… entre outras coisas. Vale a pena ler os critérios de inclusão na wiki da P2P Foundation. Neste documentoaberto está a lista de cidades confirmadas: qualquer pessoa pode adicionar a sua. Todos os fluxos circularão de alguma forma pelo site criado para a ocasião (wikisprint.p2pf.net) e por uma hashtag do Twitter #P2PWikisprint.

Apesar de que inicialmente o #wikisprint seria desenvolvido apenas na Espanha, aproveitando a visita de Michel Bauwens, fundador da P2P Foundation, o intercâmbio de informação e as conexões humanas estenderam a convocatória a toa a América Hispânica. Também se uniram o Brasil, a Grécia e a Itália. Redes, pessoas e instituições, unidos pelo P2P. Contudo, no #wikisprint do próximo 20 de março, possivelmente um dos maiores da história, vai haver muito mais que um mapeamento. A inércia colaborativa gerou um riquíssimo roteiro. Durante o #wikisprint haverá todo o tipo de atividades. Debates, conferências, projeções, self media, oficinas, visualizações de redes, vídeos…

Por que é importante o próximo wikisprint da P2P Foundation? Por muitos motivos. O primeiro: visibilizar processos que as grande mídas e governos ocidentais ignoram. A Espanha, um dos países mais castigados pela crise macroeconômica, é uma das pontas da lança do mundo em rede, do P2P, dos commons, das novas lógicas horizontais, da economia colaborativa. E os meios de comunicação em massa ignoram uma realidade facilmente comprovável com dados. A Espanha é o país do mundo com o maior número deespaços de co-working per capita (terceiro em números absolutos). O país lidera, com muita distância, o movimento das moedas sociais. A Espanha em 2010 já tinha mais obraslicenciadas com Creative Commons que os Estados Unidos. A Espanha é o quarto país do mundo em número de fab labs (que não se resume apenas ao mundo da impressão 3D, mas é em si um sintoma).

Além disso, a cultura copyleft contagiou, na Espanha, a arquitetura, a agricultura, a comunicação e a advocacia. Lá opera a maior rede do mundo de Wi-Fi alternativa, Guifi.net, que incentiva os nós compartilhados. E lá nasceu o projeto Lorea, a maior sementeira global de redes sociais livres. E se ainda for pouco, o movimento transversal 15M-Indignados está catapultando os processos de participação políticos-sociais-comunicativos e revitalizando os commons urbanos e rurais. Por que a grande mídia ignora essa realidade? Por que apenas associam a P2P a “pirataria”?

Pelo mesmo motivo que escondem o que está acontecendo na Grécia, atingida pelas exigências neoliberais da “Troika”: por medo. Ignorados pelos grandes meios de comunicação, os gregos estão construindo um novo paradigma da economia do bem comum, um mundo coletivo alimentado pelas redes. Não é casualidade que a P2P Foundation tenha uma versão em grego. Por outro lado, a Itália, que é governada por um tecnocrata, também tem muito a dizer neste novo mundo em rede. Italianos são a placaArduino (no caso open hardware mais popular), os pensadores Toni Negri (que preconizava em Multidão a irrupção do crowd) e Franco Berardi ‘Bifo’, experiências tão novas quanto oOpen P2P Design ou o mal compreendido MoVimento 5 Stelle (M5S). Em seu lugar, Portugal, que ainda não havia confirmado sua participação no #wikisprint, está vendo como seu governo migra ao software livre.

Por que não criar uma aliança tecnopolítica entre os cidadãos do Sul da Europa e da América Latina? Possivelmente, a América Latinha tenha o melhor ecossistema para criar um novo protótipo de mundo. Governos, em geral, orientados à esquerda, ao social. Uma intensa história ao redor da propriedade coletiva e o trabalho colaborativo. Uma forte inércia social, analógica e digital. Na América Latina está o único país do mundo que protege a Wikileaks (o Equador). Na América Latina, concretamente na cidade brasileira Porto Alegre, nasceram o Orçamento Participativo e o Fórum Social Mundial. Na América Latina, muitos governos usam software livre. Na América Latina, os zapatistas iniciaram o caminho da tecnopolítica e do hacktivismo dos 99%. Na América Latina (na Argentina de 2001), as trocas e assembleias renasceram das cinzas do capitalismo. Na América Latina ainda existem práticas tradicionais de trabalho comunal, como o ayni (Bolívia), o tequio (México) e a mingua (Equador) em total sintonia com as redes P2P ou com os commons.

O crowd, o colaborativo, está no DNA da América Latina. A raça cósmica, profundamente mestiça, de que já falava o pensador mexicano José Vasconcelos em 1925, pode salvar os europeus dos tubarões de Frankfurt e de Wall Street. E por isso é tão importante o #wikisprint do próximo 20 de março. Um wikisprint, que unirá os movimentos e inovadores sociais do sul da Europa com a América Latina, o território onde pode nascer um novo mundo em rede, sustentável, orientado para o bem comum.

A utopia latina, isso sim, caminha em paralelo às distopias. O neoliberalismo quer transformar a América Latina em um novo espaço de consumo insustentável. O capital inventa siglas (como os BRICS, que juntam Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul) para seduzir. Para impor. E alguns governos estão caindo na armadilha do “consumo, logo existo”. O risco é gigantesco: que os governos latino-americandos identifiquem progresso com consumo, com mercado, exclusivamente com propriedade privada ou com Estado vertical. Por isso, o #wikisprint de 20 de março é mais que um #wikisprint. É um grito coletivo. Um novo espaço de diálogo. Uma nova topologia de mundo. O primeiro passo em um processo planetário que pode começar a mudar as regras do jogo.


Bernardo Gutierrez (@bernardosampa) é jornalista, escritor e consultor digital. Pesquisa o mundo P2P e as novas realidades da cultura open source. Fundador da rede de inovação Futura Media.net

“Mãe Dilma” amplia proteção ao consumidor

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Depois de reduzir os juros, as tarifas de energia e os impostos da cesta básica, presidente anuncia hoje plano para reforçar os mecanismos de defesa nas relações de consumo; compromisso já foi firmado com o presidente do Congresso, Renan Calheiros, para colocar em votação todos os projetos que existam nessa direção; “a defesa do cidadão é a agenda da presidente e do Congresso”, disse Renan ao 247

No Brasil 247

Após anunciar medidas em benefício geral dos consumidores, como a redução dos juros nos bancos, da tarifa de energia elétrica e dos impostos dos produtos da cesta básica, a presidente Dilma Rousseff anuncia nesta sexta-feira 15, Dia Mundial dos Direitos do Consumidor, um pacote de medidas nesse sentido. O comércio e os prestadores de serviço são o principal foco do governo, que pretende ampliar a fiscalização, fortalecer os Procons e tornar as punições mais rigorosas no geral.

O compromisso já foi firmado com o presidente do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL), para colocar em votação todos os projetos que existam nessa direção. “A presidente Dilma tem o nosso compromisso e vamos mapear e votar todos os projetos que tramitam nas duas casas para ampliar a defesa do consumidor. A defesa do cidadão é a agenda da presidente e do Congresso”, disse Renan ao 247. O senador participa do anúncio das medidas, ao lado de Dilma, no Palácio do Planalto.

O modelo das punições adotado pelo governo será o da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), que impõe pesadas multas às teles. O setor de telefonia móvel é visto como um dos principais vilões quando o assunto é relacionamento com os consumidores. No ano passado, a telefonia celular foi a campeã de reclamações nos Procons do País, com 9,1% dos mais de 2 milhões de queixas registradas. O governo quer que a ANS (Agência Nacional de Saúde) seja igualmente dura em relação aos planos de saúde e hospitais.

Consciência do consumidor brasileiro tem aumentado, diz coordenador do Idec

Heloisa Cristaldo, da Agência Brasil – Desde o pronunciamento do presidente norte-americano John Kennedy, em 15 de março de 1962, a data tem sido referência para os direitos do consumidor em todo o mundo. Na ocasião, Kennedy defendeu quatro direitos fundamentais dos consumidores: à segurança, à informação, à escolha e a ser ouvido. Vinte e três anos depois, a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) adotou os direitos do consumidor como diretrizes das Nações Unidas, instituindo o Dia Mundial dos Direitos do Consumidor, comemorado nesta sexta-feira 15.

Em entrevista à Agência Brasil, o coordenador executivo do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Fulvio Gianella Júnior, disse que o nível de consciência do brasileiro sobre os seus direitos como consumidor tem crescido nos últimos anos. Hoje, além de buscar mais os institutos de defesa, ele tem procurado diretamente os fornecedores.

“Podemos reparar que aumentou o grau de pessoas reclamando seus direitos, como se vê nos rankings do Procon, do Sindec [Sistema Nacional de Informações de Defesa do Consumidor]. Essa situação mostra duas coisas: os consumidores estão mais conscientes e reclamando mais seus direitos”.

Em 2012, 2,03 milhões de consumidores foram atendidos nas unidades do Procon, distribuídos em 292 cidades do país. De acordo com o Sindec, essa quantidade representa um aumento de 19,7% em relação a 2011, quando 1,6 milhão de consumidores recorreram ao sistema.

A telefonia celular foi o serviço com mais reclamações nos Procons (9,17%), seguido por bancos comerciais (9,02%), pelos cartões de crédito (8,23%), pela telefonia fixa (6,68%) e pelas financeiras (5,17%). O setor com maior demanda foi o financeiro (banco comercial, cartão de crédito, financeiras e cartão de loja), com 23,85%. Com o ranking dos procons, também foi possível constatar um aumento de demandas no setor de telecomunicações (telefonia celular, telefonia fixa, TV por assinatura e internet), que saltou de 17,46% em 2011, para 21,7% dos registros em 2012.

Fulvio Gianella Júnior destacou a preocupação das entidades de defesa do consumidor com a ascensão de milhões de brasileiros à classe C, o que gerou maior possibilidade de consumo. “Nos últimos dez anos, 30 a 40 milhões de pessoas aumentaram sua capacidade de consumo. Essa é uma grande preocupação, porque são pessoas que antes consumiam pouco e passaram a ter um poder aquisitivo maior”.

Gianella Júnior lembrou que esse novo consumidor vai ao mercado querendo consumir outros bens a que não tinha acesso, o que pode levar a uma compra pouco consciente. “Primeiro, porque elas não têm tantas informações a respeito de seus direitos e são até vítimas de práticas abusivas pelo mercado”, explicou.

Segundo o coordenador, o brasileiro é o tempo todo bombardeado pela sociedade de consumo, desde a infância. “‘Compre isso’, ‘Isso é importante’, ‘Você só é cidadão se consumir tal coisa’. Isso está sendo introjetado nas pessoas. A partir do momento em que tem condições de alentar sua necessidade de consumo, muitas vezes o faz sem nenhuma consciência crítica e aí causa uma série de problemas, como o superendividamento e o comprometimento da renda familiar. Além disso, crianças desde cedo já são submetidas [ao apelo para consumir]“.

Entre as maiores queixas dos consumidores estão as compras em comércio eletrônico. De acordo com Gianella, muitos problemas enfrentados pelos cidadãos já estão previstos no Código de Defesa do Consumidor, que completou 22 anos em setembro do ano passado.

Dados do site Reclame Aqui mostram que até fevereiro deste ano o sistema registrou 346.469 reclamações, um crescimento de 35% em relação ao mesmo período do ano passado. Os setores com mais queixas foram os das lojas virtuais,de telefonia, fabricantes de eletrodomésticos, compras coletivas, TV e TV por assinatura, bancos e financeiras, cartão de crédito e lojas de departamento.

“Recomendo que sempre se verifique a idoneidade da loja virtual [na qual] você vai comprar. Considere se ela tem uma loja física, veja se tem contatos para resolver problemas. Verifique em redes sociais as reclamações feitas sobre a loja para ter certeza se ela já teve problemas com outros consumidores. É necessário tomar alguns cuidados”, orienta Gianella.