Arquivo mensais:março 2013

Chávez, intelectualismo vendido e falsos dogmas democráticos

Por Miguel do Rosário n’o Cafezinho

Tentava falar com meu amigo Theofilo Rodrigues sobre o coquetel que estamos organizando nesta quinta-feira em nome de nossa humilde e ainda informal organização blogueira no estado do Rio (e para o qual todos os leitores estão convidados), quando ele me cortou: Chávez acaba de morrer! Corri para a televisão para confirmar a informação. Mas logo renuncei ao desejo de assistir a qualquer coisa sobre o tema. Só punha os olhos na tv, quando passava pela sala, para ver cenas documentais, e ainda sim esforçando-me em fechar os ouvidos a qualquer comentário dos âncoras. Mesmo assim, ouvi algumas coisas, não necessariamente equivocadas. As multidões nas ruas de Caracas forçaram um respeito inicial na Globonews. Que evidentemente não duraria muito, taí meu cuidado para não contaminar os ouvidos. Hoje, já refeitos do susto, inchados de pressentimentos eufóricos, veremos os grandes grupos de mídia entoando um coro único, ou antes um grito, simultâneo e desafinado, de alívio, e ainda assim cheio de um rancor mal contido, ódio ideológico e, sobretudo, incompreensão histórica.

Daí que hoje eu decidi, em nome da minha saúde mental, fazer uma anti-análise de mídia. Não quero ler editoriais, colunas, artigos de nenhuma espécie. Depois os lerei, todos, mais tarde, como tenho feito nos últimos anos, com uma atenção nervosa, irritada, entrecortada por risadas de desprezo e crises de náusea. Mas hoje eu ansiava por um pouco de pureza. Não gostaria de escrever com irritação, não dessa vez, não sobre este assunto.

No entanto, tinha que ler alguma coisa para me inspirar. Pensar a história, a política, a morte, ou qualquer coisa, sem uma referência, é para mim como navegar sem bússola, sem estrelas. Então lembrei de uma primorosa conferência de Thomas Carlyle, transposta em livro, sobre os heróis políticos, que eu já usara, anos atrás, para escrever um post sobre Lula. Reli calmamente o capítulo, sublinhei algumas frases, meditei, e sinto-me agora um pouco mais seguro para comentar a morte de Hugo Chávez, um acontecimento que naturalmente provoca reverberações trágicas, transcendentais, políticas, até mesmo metafísicas, em toda a imensa América morena (aí incluindo os 30 ou 40 milhões de hispanos que vivem no Norte).

Não preciso ler os jornais porque já sei o que vão falar. Há anos que acompanho a evolução da guerra antichavista na imprensa. Durante a crise que levou ao golpe de 2002 na Venezuela, eu acompanhei, por vários meses, a imprensa local, lendo diariamente editoriais do Universal, do El Tiempo, e até de um site de análises políticas chamado Analisis.com. Todos antichavistas radicais. Era muito impressionante o grau de sofisticação daquele jornalismo político. Ou pelo menos foi o que me pareceu à época. Editoriais repletos de citações de grandes filósofos, escritos às vezes com alguma virtuose literária, ofereciam um espetáculo todavia deprimente de incompreensão social, radicalismo conservador, racismo e toda sorte de preconceitos antidemocráticos. Para mim, foi uma verdadeira aula de como o intelectualismo se vende facilmente ao poder da mídia e do dinheiro, e como, neste quesito, os governos são frágeis. Não foi à tôa que Vargas se matou e Jango aceitou tão docilmente um golpe de Estado. Não foi à tôa que o socialismo real, para ganhar força e se estabilizar, teve que vender parte de sua alma (e em seguida, sua alma inteira), em troca de uma vitória covarde, brutal – mas necessária do ponto-de-vista político, histórico e militar – sobre a opinião livre. Anos mais tarde, quando o demônio cobrou sua dívida, o socialismo começou a ruir. O capitalismo agora espera, morbidamente, o momento em que a China quitará seu débito com a liberdade, cujo pagamento o Partido Comunista conseguiu adiar, com muita astúcia, comprando títulos do Tesouro americano, de um lado,  e oferecendo produtos tecnológicos a baixo custo para sua classe média, de outro.

Entretanto, suspeito que não exista alma mais corrupta, vaidosa e tola do que a de um intelectual. Quando um escapa e ganha independência, em geral o faz em virtude de graves desordens, mentais ou físicas. O capital contrata os fortes e alija os fracos, doentes ou loucos; e mesmo assim, nem tanto. Há tempos que o mercado percebeu o potencial de muitos que antes o mundo considerava loucos.

Outro fator que pode salvar o intelectual é seu instinto, suas vísceras, seu coração, ou mesmo seu demônio ou anjo interior, seja lá do que quiserem chamar, mas que compõe o seu lado não-intelectual. Ou seja, o que pode salvar um intelectual é o que possui, em si, de não-intelectual.

Fiz essas digressões porque, para analisar o fenômeno Chávez com alguma criatividade, evitando tropeçar em clichês ideológicos, é preciso logicamente usar ferramentas intelectuais, sociológicas, mas ao mesmo tempo se afastar radicalmente de qualquer impostura, de qualquer pose. O que é quase impossível. Mas vamos tentar.

Nossa grande presunção  - sem a qual seria inviável esta análise –  será tentar  desfazer uma série de  erros monstruosos  na interpretação do mecanismo democrático, erros que, nas análises antichavistas, foram sistematicamente transformados em dogmas.

O primeiro deles é o mito do caudilho. A mitologia antichavista, essa falsa teoria democrática que vem deseducando milhões de leitores no continente, à esquerda e à direita, tenta estigmatizar o fenômeno da liderança. É a acusação do personalismo. Mas a doutrina democrática não é contra o personalismo. Muito ao contrário. A democracia é um regime eminentemente personalista.  Não elegemos nunca um conselho anônimo de sábios para nos dirigir, como talvez tenha existido na Antiguidade, mas uma liderança cujo rosto é divulgado em cartazes, santinhos, exposto diariamente no horário eleitoral. Isso em todas as democracias, dos EUA à França, da Islândia à Bolívia. Claro que há variações, a depender da tendência cultural de cada povo. No aeroporto de Washington, por exemplo, eu vi nas lojas todo o tipo de bugiganga com a cara de Obama: camisas, canecas, broches, bandeirolas, bonequinhos de Obama. No Brasil, isso seria considerado insuportavelmente cafona.

A democracia não é contra o personalismo da liderança política, um hábito ocidental antiquíssimo. Ela é uma forma que os povos encontraram para dar legitimidade ao carisma pessoal. Para confirmar, matematicamente, o carisma excepcional da liderança política. Chávez não apenas era um líder. A sua liderança era confirmada, e ampliada, periodicamente em eleições.

Isso é um problema? Talvez tenha seu lado negativo, com certeza tem aspectos positivos, mas é a maneira que a gente conhece para se organizar politicamente, desde priscas eras. No auge da democracia grega, tivemos Péricles, líder político, estrategista militar, amado por muitos, odiado por uns tantos.

A essência da democracia, portanto, é produzir lideranças. Em épocas mornas, estáveis, nascem ldieranças mornas, estáveis; em épocas explosivas, ardentes, desesperadas, nascem lideranças incendiárias. A cada momento histórico, numa democracia, corresponde a ascendência de um tipo de liderança.

Mas o povo, naturalmente, nem sempre acerta. E aí enveredamos pelo segundo erro teórico difundido, este de forma mais subreptícia, pelos meios de comunicação.

Durante décadas, a América Latina elegeu presidentes corruptos e insensíveis às angústias do povo, simplesmente porque se tratavam de pessoas que sabiam se portar como autoridades. Frequentavam as festas das elites, sabiam comer num restaurante cinco estrelas, e possuíam até mesmo os defeitos dos homens ricos, aquela timidez desastrada e insossa dos que jamais foram obrigados, pela vida, a desenvolver os talentos da graça e da sedução.  Fernando Henrique Cardoso é nosso melhor exemplo. Os presidentes que antecederam Chávez também. São lideranças típicas de povos ainda dominados pelo espírito de criadagem, ainda traumatizados por séculos de opressão. O criado apenas reconhece o rei se o ver com sua coroa, vestido com trajes suntuosos, vergado sob o peso de colares de ouro, caminhando com pose majestosa e contemplando o povo como só um rei sabe fazê-lo.  O criado ainda não está preparado para identificar, num líder, as virtudes interiores: a coragem,  a magnanimidade, a energia e a disposição de trabalhar em prol do país.  Carlyle vai mais longe e menciona também os preconceitos do “cético”, que entre nós poderíamos comparar aos da classe média: a obsessão por “formas regulares e respeitáveis”.

Segundo Carlyle, “é, no fundo, a mesma coisa que tanto o criado como o cético esperam: os adornos de alguma realeza reconhecida, que eles então reconhecerão! O rei que lhes aparece em estado rude e não formalístico não é rei.”

Um terceiro equívoco, talvez o mais grave, porque fundamenta a denúncia de que a democracia foi aniquilidada na Venezuela, é a acusação de que o chavismo dominou todos os poderes: Legislativo, Judiciário, Executivo. Não é bem assim. A democracia não proíbe, antes até estimula, que uma nova corrente de ideias, uma nova visão de mundo, atravesse todas as instituições. Nem a democracia proibe a luta política ou ideológica, ou seja, que as forças partidárias trabalhem para disseminar esta nova visão de mundo. É natural. Tem seus aspectos negativos, positivos, e tem seus exageros. Mas ainda é democracia. Além disso, é curioso constatar que as forças conservadoras da América Latina insuflam os judiciários a se insurgirem e confrontarem os Executivos, mas quando estes Executivos reagem, como é natural, e até mesmo necessário, então eles acusam um golpe contra a democracia!  Se o Legislativo e o Executivo tem prerrogativas constitucionais de demitirem e nomearem membros do Judiciário, então devem fazê-lo e isso é democracia. A busca maior de todo regime político é a estabilidade: em todo o mundo democrático, ou mesmo não-democrático, há uma luta para trazer um mínimo de homogeneidade entre a Justiça e o Executivo. Isso já ocorreu na Europa e nos EUA há cinquenta anos, ou mesmo antes, muitas vezes de forma violenta (em meio a guerras). Ou alguém duvida que Abraham Lincoln e seu partido hesitaram em nomear juízes amigos para os principais cargos do Judiciário?

Por último lugar, temos a questão da imprensa. Chávez é acusado de inimigo da liberdade de expressão e verdugo da mídia. É talvez a maior mentira de todas, desmentida diretamente pela simples leituras dos principais jornais venezuelanos e dos canais privados. Ele fechou um canal de TV porque este participou de um golpe de Estado. Se fosse nos EUA, os donos desse canal estariam na cadeia, talvez em Guantanamo. Se fosse em qualquer ditadura árabe pró ou anti americana, estariam numa masmorra infecta, ou já teriam sido fuzilados há tempos. A leviandade com que a nossa mídia tratou o golpe de Estado contra Chávez em 2002 não encontra outra explicação senão em seu espírito antidemocrático. Todos nós nos lembramos muito bem dos primeiros atos de Pedro Carmona, o golpista que assumiu o poder enquanto Chávez permanecia preso numa ilha: fechar o Congresso, fechar o Supremo Tribunal Federal, decretar Estado de Sítio. Tudo com apoio da mídia local.

Em sua sistemática campanha contra a política como ela é, contra a democracia como ela é, as mídias latino-americanas criaram um arremedo doentio da doutrina democrática, que não existe, uma doutrina falsa. Produziram, explorando as contradições inevitáveis de qualquer democracia capitalista, um exército de tolos, que repetem qual papagaios os editoriais que consomem dia após dia. Carlyle lembrava que “os ludibriados, na verdade, são muitos: mas de todos os ludibriados, não há nenhum tão tristemente situado como aquele que vive sob o injustificado terror de ser ludibriado”. Estes não acreditam em nada. São uma população de zumbis que a mídia cultiva carinhosamente, através de sua campanha sistemática para desacreditar as instituições democráticas.  Não confiam em ninguém, mas são sempre, sempre, rapidamente mobilizados por campanhas, explícitas ou discretas, da grande mídia. Quando alguém aperta um botãozinho na cobertura do Jardim Botânico,  todos aqueles que viviam repetindo bordões anti-política abrem desmesuradamente os olhos e começam a se comportar roboticamente na direção apontada pelo último editorial.

No meu antigo blog, eu costumava citar uma passagem de Spengler, em que ele fala dessa nova e terrível arma de manipulação, a imprensa: antes dela, os reis precisavam apelar para ameaças de morte e tortura para convencer seus cidadãos a participarem de suas guerras. Com o advento da imprensa, bastavam alguns editoriais para que toda uma população se encaminhasse alegremente, na direção de sua própria carnificina.

Chávez não censurou mídia nenhuma. Ele foi um dos primeiros, ao contrário, a identificar na mídia a ameaça contra o regime democrático, sobretudo em função de seu histórico de golpes, como aliás ficou provado em 2002. Isso não quer dizer que Chávez, ou o chavismo, não tenha cometido erros na sua relação com a mídia. O embate entre governos e corporações midiáticas ainda não está bem assimilado pelo pensamento democrático,  até porque o passado não ajuda. Mas se há embate, alguém terá de vencer, e depois lidar com essa vitória com magnanimidade, prudência e espírito democrático, pensando no futuro.  As vitórias do chavismo, assim como as do lulodilmismo, nas guerras de comunicação que travam contra corporações midiáticas em seus respectivos países, serão decididas nas urnas, no debate parlamentar e na justiça. Se merecerão alguma glória por isso, somente a história dirá.

 

Produção industrial sobe 2,5% em janeiro

Produção industrial sobe 2,5% em janeiro, maior alta em quase 3 anos

na Folha de São Paulo

A produção industrial cresceu 2,5% de dezembro para janeiro na comparação livre de influências sazonais (típicas de cada período) –o maior crescimento desde março de 2010 na comparação com o mês anterior–, divulgou nesta quinta-feira (7) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O resultado é uma boa notícia para o setor após a produção registrar leve variação positiva de 0,2% em dezembro ante novembro e queda de 1,3% em novembro ante outubro.

Em relação a janeiro de 2012, a alta é de 5,7%. É o mais expressivo crescimento na comparação anual desde fevereiro de 2011.

Segundo pesquisa da agência de notícias Reuters com 38 analistas, a expectativa era de que a produção industrial subisse 1,55% em janeiro ante dezembro e 4,45% na comparação anual.

Após quedas sucessivas desde novembro, período no qual reagiu negativamente ao fim gradual da redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e acumulou perda de 4,5%, o setor de veículos reagiu em janeiro diante de menores estoques e alta das vendas. O ramo teve o maior peso na alta da indústria.

Dos ramos pesquisados pelo IBGE, 18 tiveram alta e 9 registraram perdas de dezembro para janeiro –o que mostra uma tendência de crescimento espalhado entre os setores. Segundo o IBGE, a alta teve perfil generalizado e alcançou todas as categorias de uso.

“O que chama atenção no indicador de janeiro é o perfil mais disseminado do crescimento da indústria. Inicia-se o ano com um crescimento mais intenso e mais generalizado”, disse André Macedo, economista do instituto.

Segundo o técnico, há um contraste com os resultados ruins principalmente do último bimestre de 2012, que apresentou fraco desempenho.

SETORES

Entre os setores de melhor desempenho de dezembro para janeiro, destacam-se material eletrônico e equipamentos de comunicação (10,5%), farmacêutica (5,6%), máquinas e equipamentos (5,7%), refino de petróleo e produção de álcool (5,2%) e veículos e automotores (4,7%).

Outras contribuições positivas relevantes vieram de calçados e artigos de couro (13,8%), mobiliário (8,5%), produtos de metal (3,3%), metalurgia básica (1,9%), outros produtos químicos (1,5%) e alimentos (0,8%).

Os piores desempenhos foram registrados por fumo (-53,5%), indústrias extrativas (-6,6%) e outros equipamentos de transporte (-4,3%).

REVISÃO

O IBGE revisou os dados dos últimos meses de 2012 e estimou uma nova taxa para a indústria no ano passado. O dado originalmente divulgado que apontava queda de 2,7% foi alterado para redução de 2,6%.

Em clima de emoção, Caracas mostra impacto causado pela perda de Chávez

A cidade manteve-se silenciosa. Escolas e repartições públicas não foram abertas por causa do luto oficial de sete dias declarado pelo governo

Agência Brasil

Caixão é coberto por roupas de venezuelanos. A homenagem é feita nas ruas de Caracas, após sair do hospital militar (Edwin Montilva /Reuters)
Caixão é coberto por roupas de venezuelanos. A homenagem é feita nas ruas de Caracas, após sair do hospital militar

Caracas - No primeiro dia de luto após a morte de Hugo Chávez, Caracas refletia, nessa quarta-feira (6/3), o impacto causado pela perda do presidente, que esteve à frente do país por 13 anos. O movimento na cidade concentrou-se no trajeto de 8 quilômetros por onde passou o cortejo. O caixão foi levado do Hospital Militar, onde Chávez morreu, à Academia Militar, onde o corpo está sendo velado. Em clima de emoção, milhares de pessoas acompanharam o cortejo.

Debaixo de sol forte, o presidente foi lembrado em bonecos, com fotos, cartazes e nas roupas vermelhas, cor que elegeu para o seu governo. Entre os eleitores de Chávez ninguem queria comentar o futuro político da Venezuela, o tema era o próprio presidente e o que ele representou para o país.

A faxineira Ana Rodriguez, de 44 anos, levou flores para homenageá-lo. “Elas murcharam porque saí de casa às 6h e agora são 16h!”, lamentou. Ela disse que a notícia da morte doeu muito. “Meu coração está partido, acordei muito triste e nem consigo falar direito”, contou à Agência Brasil.

 

Durante velório autoridades da Argentina, Uruguai e Bolívia ficam ao lado do caixão do líder venezuelano (Handout/Miraflores Palace/Reuters)
Durante velório autoridades da Argentina, Uruguai e Bolívia ficam ao lado do caixão do líder venezuelano

O estudante Hanz Gomes, de 16 anos, disse que Chávez agora está mais vivo do que nunca e que cabe aos jovens continuar a revolução iniciada por ele. “Chávez é o nosso Che Guevara. Ninguém fez por nós o que ele fez. Eu o sinto comigo e sei que ele é imortal”, acrescentou.

Longe da Academia Militar, onde ocorre o velório, a cidade manteve-se silenciosa. Escolas e repartições públicas não foram abertas por causa do luto oficial de sete dias declarado pelo governo, e o comércio também não funcionou normalmente. Quase todas as lojas, restaurantes e supermercados estiveram fechados nessa quarta-feira (6).

A morte de Chávez também se refletiu na rede hoteleira de Caracas. Os hotéis estão quase todos lotados pelo grande número de pessoas que chegam à capital a fim de acompanhar o funeral.

Venezuelanos fazem homenagem nas ruas de Caracas próximo à Academia Militar, onde ocorre velório de líder (Tomas Bravo/Reuters)
Venezuelanos fazem homenagem nas ruas de Caracas próximo à Academia Militar, onde ocorre velório de líder

Várias equipes de jornalistas tiveram dificuldade para conseguir vaga em hotel. Michelle Begue, correspondente para a América Latina da emissora americana CCTV, disse que veio da Colômbia para cobrir o evento. “Eu só tenho hotel, porque já estava previsto que viria para ver como estava a indefinição política antes da morte de Chávez. Mas vários colegas não conseguiram hotéis de última hora”.

Os presidentes que estarão na cerimônia, prevista para esta sexta-feira (8), já começaram a chegar. O primeiro foi Evo Morales, da Bolívia, que acompanhou o presidente em exercício, Nicolás Maduro, em parte do cortejo até a Academia Militar. José Mujica, do Uruguai, e Cristina Kirchner, da Argentina, também já estão em Caracas. A presidenta Dilma Roussef, deve chegar hoje (7), por volta das 14h30 (horário local).

Sucessora de Sérgio Vieira de Melo na ONU diz que o legado do brasileiro deve ser reconhecido

Legado de Sérgio Vieira de Melo precisa ser reconhecido, diz subsecretária da ONU

por Luciano Nascimento na Agência Brasil

Brasília – Em seu último dia de visita ao Brasil, a subsecretária-geral para Assuntos Humanitários e diretora do Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha), Valerie Amos, disse que o legado deixado pelo brasileiro Sérgio Vieira de Melo precisa ser reconhecido. Para a chefe humanitária das Nações Unidas, o brasileiro, seu antecessor no cargo, personificava o projeto que a Organização das Nações Unidas (ONU) deve seguir. “Nós o perdemos há dez anos, mas eu penso que o seu legado permanece,” disse à Agência Brasil.

Reconhecido como um homem de ação e adepto do diálogo, Vieira ocupava o posto de secretário-geral adjunto para Assuntos Humanitários das Nações Unidas, quando foi morto no Iraque, após explosão de um caminhão-bomba, em 2002. A subsecretária lembrou que a obstinação, firmeza e carisma do brasileiro eram seus maiores aliados nas negociações em busca da paz. “Eu penso que o governo brasileiro segue a mesma linha,” completou.

No Brasil, Valerie participou ontem (5) do lançamento da Ação Humanitária Global 2013, no Palácio do Itamaraty. Ela fez um apelo em nome das agências das Nações Unidas e outros organismos humanitários para que os países contribuam com o levantamento de US$ 10,5 bilhões  para atender 57 milhões de pessoas em 24 países que sofrem com crises ou emergências. O governo brasileiro se comprometeu em doar US$ 1 milhão ao fundo internacional.

Valerie Amos voltou a destacar que o Brasil tem muito a contribuir com a ajuda humanitária. Especialmente compartilhando a experiência de seus programa de combate à fome e à miséria. “É muito importante perceber o papel que o país tem, não só em termos de contribuição financeira, mas de compartilhar as experiências internas, a exemplo do Fome Zero e da Segurança Alimentar,” ressaltou.

A subsecretária considera as situações da Síria, “com 1 milhão de refugiados em países vizinhos e 4 milhões dentro da Síria que são afetados diretamente”, da Somália, do Iêmen, Sudão, Afeganistão e Mali como as “mais urgentes.”

Ao comentar sobre a situação do Haiti, onde o governo brasileiro lidera uma missão de paz, Valerie acredita que o governo brasileiro é capaz de cuidar dos haitianos refugiados no país e disse que o país caribenho ainda merece atenção especial da comunidade internacional. “É importante prestar atenção nas pessoas que ainda moram em acampamentos e que ainda sofrem com os efeitos do terremoto e do cólera. É preciso olhar para essas pessoas com o pensamento de longo prazo, até que consigam, de fato, reconstruir seu país,” frisou.

A guerra invisível nas cidades brasileiras

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Erminia Maricato sustenta: poder econômico despreza Planos Diretores, evita debates, introduz políticas por conchavos; em SP, prioridade é urbanizar periferias 

Por Gisele Brito, na Rede Brasil Atual

A urbanista e professora da Universidade de São Paulo Erminia Maricato afirma que as forças que movem a especulação imobiliária põem em risco a promessa de renovação na maneira de se pensar a ocupação dos espaços na capital paulista, em contraponto com o que acena o prefeito Fernando Haddad. “O centro de São Paulo vive uma queda de braço há muito tempo. Há 30 anos ouvimos falar em moradia popular naquela região”, disse à Rede Brasil Atual, ao relatar que o mercado ignora a necessidade de moradia para famílias de menor renda.

Ela lembrou também que o sucesso de uma política urbana construída a partir do diálogo com a sociedade precisa levar em consideração também um fator que foge ao controle do prefeito: o crescente número de automóveis que “entopem” as ruas e que leva ao confronto entre o transporte público e o privado, ambos vorazes consumidores de recursos.

Ermínia Maricato foi secretária de Habitação de São Paulo na gestão de Luiza Erundina (1989-1993) e secretária executiva do Ministério das Cidades do governo Lula.

Ao comentar o chamamento ao diálogo feito por Haddad na última semana, Ermínia afirmou que o encontro foi importante e que espera que a sociedade aproveite o momento para organizar o debate sobre a cidade que espera ter no futuro. “O prefeito não pode tudo” Acompanhe os principais trechos da entrevista:

Você já disse algumas vezes que se deveria parar de discutir o Plano Diretor Estratégico (PDE) de São Paulo ecomeçar a pensar a política de urbanização da cidade de outras formas. A prefeitura iniciou há alguns dias as discussões para a construção de um novo PDE, num processo que pretende ser plenamente democrático. Mas na sua opinião, que importância terá essa discussão?

O Millôr (Fernandes, escritor e jornalista) soltou uma frase uma vez que era assim: os sábios discutem as incertezas, os ignorantes atacam de surpresa. O Plano Diretor é uma peça para os “sábios” discutirem. Ele é um fetiche na nossa sociedade, é um mito até para a mídia. Já temos vários textos sobre “a ilusão” do Plano Diretor. Porque se ele fosse colocado em prática, nenhuma cidade brasileira teria os problemas que tem, principalmente essa falta de controle sobre ocupação do solo.

O Plano Diretor propõe coisas como harmonia, alegria e tudo o mais. Porém, você tem um investimento do Orçamento Público que vai para o outro lado. Todo Plano Diretor fala que a prioridade é transporte público, mas aí se investe muita mais em pavimentação, em pontes, viadutos e túneis, tudo para o automóvel andar. Você está indo contra o Plano Diretor.

Muita gente acha que política urbana é obra – e não é. Política urbana é principalmente a orientação do uso e da ocupação do solo. Onde você vai manter a beira dos riachos e rios, onde você vai adensar moradia, onde vai ter metrô e trem. Mas no Brasil é obra. Porque está ligada com essa coisa de financiamento de campanha. Eu só tenho medo que esse Plano Diretor adquira essa característica do fetiche. A gente fica distraída e não percebe para onde realmente o investimento tá indo.

O urbanista João Sette também falou sobre a compra de terrenos na margem do Tietê por grandes empresas em um texto recente. Você já ouviu algo a respeito disso?

Sabemos que há muito capital privado comprando terreno na cidade em determinadas regiões. Nós temos um grupo de pesquisa no laboratório de habitação da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo) bem grande. E temos estudantes que estão monitorando o mercado imobiliário, as características dos terrenos que estão sendo adquiridos, tipologia, preços, quais são as empresas, os canteiros de obras. Estamos estudando o centro da cidade há muito tempo.

Seria fundamental que a universidade colocasse tudo isso a serviço da população, para diminuir o “analfabetismo” urbanístico. Mas tem uma parte da  academia que fala coisas que não interessam à população e tem outra que fala de um jeito que a população não entende. Mas a gente já tem um “approach” com movimentos sociais. Já temos um pouco este traquejo, de estar ligado à informação acadêmica e também a pessoas que são líderes de bairros, de movimentos interessantes.

A prefeitura de São Paulo e governo do estado anunciaram uma parceria para construção e reforma de 20 mil moradias no centro de São Paulo na semana passada. Como você avalia essa iniciativa? O que isso significa do ponto de vista dessa tentativa de democratização do Centro?

Eu, na verdade, estou na torcida. Estamos num país onde a segregação é tão forte… o centro de São Paulo é uma área que está numa “queda de braço” há muito tempo. Há 30 anos você tem projetos que falam em trazer moradia social para a região. Como o capital imobiliário não sabe trabalhar com a moradia social – pra famílias com renda abaixo de seis salários mínimos – não existe interesse.

Então, há um conflito no centro de São Paulo. Tem muitos mestrados, doutorados, livros que mostram estes conflitos nos últimos trinta anos. Quando o prefeito fala “nós vamos construir 20 mil unidades, ele está apostando em um espaço que seria um dos poucos nesse país em que teríamos uma democracia. E seria a melhor de trazer segurança para aquele lugar, para qualquer lugar.

É o contrário do que uma classe média ou uma elite conservadora pensa. A hora que você tem uma mistura, que você tem chance de andar de dia e de noite, porque de noite tem gente que mora lá, não é só um lugar de trabalhar. Tem uma mulher, chamada Jane Jacobs que escreveu um livro chamado A Morte e Vida das Grandes Cidades em que ela fala exatamente isso: o centro morre à noite e os subúrbios – ela está se referindo aos subúrbios americanos – morrem de dia.

Para o centro não morrer à noite, temos que ter moradia no centro. Ter o centro vivo é o que traz a segurança. Ela até fala “nos olhos da rua”. Os olhos da rua são os comerciantes, que estão abertos durante o dia, e de noite, a população. O livro é de 1961. Veja, há tanto tempo ela está falando isso, e a gente continua segregando.

Erminia Maricato, urbanista (©e-Arquiteto)Na última quinta-feira (27) você e outros urbanistas importantes estiveramcom o prefeito Fernando Haddad. Como foi a conversa? Ele perguntou a opinião de vocês sobre os projetos que a prefeitura tem apresentado?

Ele expôs o que tem sido feito, a suspensão do projeto Nova Luz, falou sobre o Arco do Futuro e as providências já tomadas para aumentar o número de corredores de ônibus. Falou também sobre a área de desenvolvimento urbano como um todo. A questão da inclusão social, da moradia social na área mais central da cidade … Ele queria ouvir um pouco o que a gente acha disso, foi uma conversa informal mesmo, interessante, descontraída.

O prefeito está bem intencionado, mas o quadro não é muito rosa, não. Por exemplo, esse “entupimento” de automóveis na cidade. Essa é uma coisa que não é o prefeito que define, quantos automóveis vão andar na cidade. Ele tem o poder de tornar o transporte público mais importante. Mas mesmo assim é uma disputa pelo transporte privado. Apostamos em um modelo tão irracional que é este de todos ficarem dentro de um automóvel e causar todos os males que o automóvel causa; de poluição, doenças, aquecimento global, depressão … porque aceitamos este modelo?

O prefeito não pode tudo. É isso que seria muito importante a sociedade discutir. Ninguém diz no Brasil que o automóvel é prioridade na mobilidade, você não acha isso escrito em nenhum lugar. Pelo contrário, você vai na legislação, na lei de mobilidade que foi aprovada este ano, e está lá que o transporte público é a prioridade. E não sai do papel. Agora, se a sociedade fosse mais esclarecida sobre quais são as forças que estão em jogo, e que às vezes precisamos criticar o prefeito, mas outras vezes, precisamos apoiar. Ou chegar no prefeito e falar: o que nós queremos é isso.

E como avaliar o que a prefeitura vem fazendo em termos de políticas urbanas?

Nós estamos sob uma intensa dominação das cidades brasileiras por parte de forças cuja principal preocupação não é o interesse público, pelo contrário. As grandes empreiteiras de infraestrutura estão entrando no mercado imobiliário – e há uma grande especulação imobiliária no país. Estamos diante de uma crise configurada para o interesse público. A maior parte das pessoas não tem condição de entrar no mercado imobiliário, nem com a ajuda de programas como o “Minha Casa, Minha Vida.”

Acho que esta situação precisa ser esclarecida para a população, a sociedade tem de se informar. Porque eu não vejo como o Executivo pode resistir a isso. A gente sabe o poder que o capital das grandes empreiteiras, o capital imobiliário – para não falar do setor automotivo – têm sobre as câmaras municipais. Como se vai controlar, regular isso? É muito difícil.

Agora, eu acho que a prefeitura tem de fazer o que a correlação de forças permite a ela fazer. Se tem a intenção de tornar a sociedade mais democrática, em primeiro lugar vem o transporte público. E parece que realmente ele (o prefeito Haddad) tomou iniciativas importantes; em segundo lugar é preciso democratizar o centro de São Paulo e suspender aquela coisa absurda e vergonhosa que era entregar patrimônio público quase de graça na mão das empreiteiras, como era na Nova Luz (projeto de intervenção urbana capitaneado pelo ex-prefeito Gilberto Kassab).

E o Arco do Futuro?

Eu acho que muita gente considera importante reabilitar certas áreas de São Paulo, mas meu ponto de vista – e foi isso que eu conversei na reunião –, é que existe uma dívida com a periferia. Os bairros das periferias precisam se transformar em bairros urbanos. Precisam ter qualidade, oferta de serviços, oferta de infraestrutura, o que existe em certos bairros bons da cidade. Não digo que precisa ser igual a Higienópolis, mas é óbvio que você precisa retomar a proposta dos CEUs (Centros de Educação Unificados), por exemplo. Com os CEUs, você leva para o bairro pobre um serviço moderno, civilizatório. Uma qualidade de esporte, de lazer e de ensino que é um antídoto contra a violência. A minha posição é essa. Não sou defensora irrestrita do Arco do Futuro.

Dá para dizer que estas medidas iniciais são importantes, mas são “centrocêntricas”? Muitas coisas concentradas no centro de São Paulo …?

A ideia é trazer para o centro parte da periferia. O pessoal que está defendendo o Arco do Futuro está pensando nisso. Você tornar estes espaços centrais mais democráticos. Porque é a região com melhores condições de mobilidade. Se isso fosse claramente possível eu apoiaria, mas eu temo que não seja. Porque o que tenho visto é que a sociedade brasileira tem um viés muito cruel de concentração de riqueza. Por exemplo: essa história de que pobre nas proximidades, abaixa o preço do metro quadrado. Porque ninguém quer pobre perto de casa. Se conseguir fazer um mix, eu acho ótimo. O secretário de Desenvolvimento Urbano (Fernando Mello) me explicou que eles estão fazendo também um levantamento dos recursos existentes na periferia. Estão com grupos intersetoriais em cada regional. O que é uma “super” novidade. Ter diversas secretarias no mesmo lugar para discutir a mesma coisa. Não adianta achar que desenvolvimento urbano vai se resolver sem a participação direta da área da Saúde, e principalmente sem a área de transporte. https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif

Caso barbosa: ANJ faz silêncio vergonhoso

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Experimente-se, por hipótese, trocar os personagens; em lugar do presidente do STF, Joaquim Barbosa, quem teria chamado de “palhaço” e mandado um jornalista “chafurdar no lixo” fora o ex-presidente Lula; como reagiria, então, a Associação Nacional dos Jornais, presidida por Carlos Lindenberg (à dir.)?; adotaria, como faz agora, a tática do avestruz?; o Estadão, veículo atingido, teria publicado o assunto apenas ‘no pé’ da sua primeira página?; e a turma da avenida Marginal, à sombra da Editora Abril?; dragões da ideologia dominante estariam relax em seus blogs?

No Brasil 247

Parem as rotativas! O ex-presidente Lula, num acesso de fúria contra a mídia da qual ele não aceita críticas, acaba de interromper um jornalista do Estadão, que apenas iniciava para ele uma pergunta. “Vá chafurdar no lixo como você sempre fez”, ofendeu ele ao profissional, sem meias palavras, para ao final disparar ainda um “palhaço”. Com sua típica falta de hombridade, Lula, mais tarde, ciente do verdadeiro atentado cometido às relações mais civilizadas e, na medida que atingiu a instituição imprensa, também à democracia, manda um assessor escrever uma nota na qual, sem nem mesmo citar o nome do profissional ofendido, alega que estava “cansado” e, pelo gesto, pede desculpa. Ponto final.

Qual teria sido a reação da Associação Nacional dos Jornais, que representa o patronato da mídia tradicional, caso tivesse sido Lula, verdadeiramente, e não na hipótese formulada aqui, o personagem dominante do episódio?

Certamente bem diferente do silêncio observado diante do escândalo patrocinado pelo verdadeiro protagonisa do caso real, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. Com medo dele, ou por afinidade ideológica, possivelmente, a ANJ se calou diante da ofensa cometida contra um de seus filiados.

O próprio veículo atingido, o centenário jornal O Estado de S. Paulo que se orgulha de sua história de combate contra a ditadura militar brasileira – a mesma que, quando chegou ao poder, em 1º de abril de 1964, contou com todo o apoio das opiniões e do noticiário da mesma publicação –, praticamente escondeu a notícia. E nem teve brios de escrever um editorial a respeito do ataque contra o livre exercício da sua atividade fim. O caso foi parar no chamado “pé” da primeira página, com texto com título interno de cinco colunas que não mereceu nem uma retranca – que é como os jornalistas chamam os textos com títulos independentes – auxiliar.

Fora do eixo mais diretamente envolvido pela baixaria de Barbosa, ainda não se conhecem as reações da turma de plantão na escolta dos interesses mais gerais da classe dominante, os dragões da Editora Abril. Ex-diretor do Estadão, o jornalista Augusto Nunes não parece ter-se interessado em teclar uma única linha sobre o caso. Com uma trajetória na imprensa infinitamente mais modesta, o centurião civista Reinaldo Azevedo vai lançando mão da tática do avestruz – cabeça enfiada num buraco para nada enxergar – e segue em frente. Os demais colunistas da mídia tradicional estão como ele. Sobre um episódio lamentável, uma postura na mesma medida. Não por outro motivo os jornais e revistas amargam queda em circulação e credibilidade.