Arquivo mensais:março 2013

Argentina rejeita livre mercado para veículos

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Por Sergio Leo no Valor Econômico
O governo argentino decidiu rever o acordo automotivo com o Brasil para eliminar o dispositivo que prevê o livre comércio de carros, partes e peças a partir do segundo semestre. Além disso, quer obrigar as montadoras instaladas no Brasil a localizar parte de seu processo produtivo na Argentina. Esse é um dos pontos de atrito entre os dois países que seria tratado na reunião da semana passada entre as presidentes Dilma Rousseff e Cristina Kirchner, cancelada com a morte do presidente Hugo Chávez.

A possível paralisação dos investimentos da Vale na Argentina é outro ponto de atrito entre os dois países, elevado pelo governo Kirchner a assunto de Estado. A Vale deve decidir hoje, em reunião do conselho de administração, se mantém o projeto que prevê investimentos de US$ 6 bilhões em uma mina de potássio na Argentina. A tendência da diretoria é paralisar o projeto. Os argentinos ameaçam retaliar desapropriando a mina, onde a empresa já investiu US$ 1 bilhão aproximadamente. Tanto no caso da Vale como na discussão do regime automotivo, chama atenção a falta de uma proposta clara do governo argentino.

Nos últimos dias, em encontros preparatórios para a reunião das presidentes, as autoridades do país vizinho deixaram claro apenas que querem garantias de que será realizada na Argentina parte do processo produtivo dos automóveis beneficiados pelo programa de incentivos brasileiro, o Inovar-auto. Uma proposta mais detalhada seria entregue ao governo brasileiro até o encontro das duas chefes de Estado, mas a morte de Chávez deixou o tema em suspenso. O Inovar-auto já garante desconto no IPI para automóveis com produção no país proporcional ao conteúdo em partes e peças compradas regionalmente. Mas os argentinos querem garantias de que haverá compras no país.

Até Jesus renunciaria

"Nunca é tarde para se tomar uma atitude revolucionária. Papas pensarão duas vezes antes de carregar a cruz até o fim da vida", diz o filósofo Gianni Vattimo. Foto: AFP

“Nunca é tarde para se tomar uma atitude revolucionária. Papas pensarão duas vezes antes de carregar a cruz até o fim da vida”, diz o filósofo Gianni Vattimo. Foto: AFP

Professor da Universidade de Turim, onde ensina Filosofia Teórica e Hermenêutica, Gianni Vattimo foi eleito deputado europeu várias vezes e integra a legenda Italia dei Valori. Ávido leitor de Nietzsche e Gramsci, o filósofo diz que, diante dos fatos, até Jesus Cristo renunciaria e afirma sobre a renúncia de Ratzinger: “Nunca é tarde para um homem tomar uma atitude revolucionária”.

CartaCapital: O senhor considera a renúncia do papa um affair italiano. Por quê?
Gianni Vattimo: Várias questões com algum impacto na decisão da renúncia do papa são italianas. Os vazamentos de documentos papais, o caso conhecido como VatiLeaks, a envolver temas como a opacidade do IOR (Instituto para as Obras de Religião, o Banco do Vaticano) têm raízes em Roma. Ademais, o affair ocorreu na Itália.

CC: De que forma a política do Vaticano influenciou a atual crise italiana?
GV: A ingerência vaticana na política italiana corrompeu a atuação da Democracia Cristã (DC), legenda que chegou ao poder após a Segunda Guerra Mundial. Era então límpida, liderada por homens que haviam lutado contra o fascismo, também em nome de valores cristãos. E havia o Partido Comunista, fortíssimo. O PCI ficou fora do poder por motivos políticos, mas também devido a motivações religiosas, por ser um partido ateu. A Igreja Católica, força de direita, evitou a possibilidade da chegada ou permanência de agremiações de esquerda no poder. Para manter essa estrutura capitalista, o cristianismo contribui para corromper a política italiana. Antes você não podia ser cristão sem ser democrata-cristão, hoje não se pode ser progressista sem ser anticlerical. Na Itália, você só pode ser cristão se for anticristão.

CC: A abdicação de Bento XVI teria sido um ato revolucionário, se ele, como diz o senhor, “o fez de forma consciente”?
GV: Ratzinger disse que o fez de forma consciente. Um papa pode se demitir com sua consciência, mas, certamente, toma a decisão com base naquilo que se espera dele como titular de sua função. Em muitos sentidos, demitir-se é hoje uma das melhores coisas que um papa da Igreja Católica pode fazer. Se Jesus Cristo estivesse vivo, ele provavelmente se demitiria. É quase impossível transformar a Igreja Católica em algo que se aproxime do cristianismo. Veja, eu não esperava esse gesto de um papa com quem não simpatizava por causa de seu conservadorismo. Ele fez, porém, algo extraordinário.

CC: Um papa conservador, responsável, entre outros, pelo fim da Teologia da Libertação na América Latina, pode se tornar revolucionário?
GV: Uma das razões pelas quais eu não simpatizava com Ratzinger era justamente essa, mesmo se o verdadeiro destruidor da Teologia da Libertação tenha sido João Paulo II. Mas nunca é demasiado tarde para um homem tomar uma atitude revolucionária. Papas pensarão duas vezes antes de carregar a cruz até o fim de suas vidas.

CC: Os cardeais estrangeiros querem saber mais detalhes sobre o conteúdo do dossiê preparado para o papa. Haverá mais transparência por parte da Igreja?
GV: O conteúdo do dossiê reduz-se a dois fatos principais: sexo e dinheiro. Sem o Banco do Vaticano, o celibato eclesiástico e o tabu contra a homossexualidade, entre outros, a Igreja Católica seria pura e santa. Outro absurdo: a proibição do sacerdócio feminino em um momento em que há cada vez menos padres.

Por que a direita odeia a América Latina

Por Emir Sader no Blog do Emir

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A direita odeia a América Latina. Antes de tudo porque sua mentalidade colonial e seus interesses a vinculam aos países do centro do capitalismo, aos Estados Unidos em particular, que tem uma relação histórica de conflitos com o nosso continente. A direita nunca esconde sua posição subserviente em relação aos EUA, adorava quando os países latino-americanos eram quintal traseiro do império, quando, por exemplo, na década de 90 do século passado, não expressavam nenhum interesse diferente dos de Washington e buscavam reproduzir suas políticas.

A direita não entende a América Latina, nem pode entender, porque sua cabeça é a da anulação diante do que as potencias imperiais enviam para nossos países, de aceitação resignada e feliz aos interesses dessas potencias.

Para começar, compreender a América Latina como continente e’ entender o que a unifica como continente: o fenômeno histórico de ter sido colonizada pelas potencias europeias e ter sido transformada posteriormente em região de dominação privilegiada dos EUA.

Daí a incapacidade da direita de entender o significado do nacionalismo e dos líderes nacionais, porque para a direita não há dominação e exploração imperialista, menos ainda o conceito de nação. Esses líderes seriam então demagogos populistas, que se valeriam de visões fictícias para fabricar sua liderança carismática, fundada no apoio popular.

A própria existência da América Latina como continente é questionada pela direita. Ressalta as diferenças entre o México e o Uruguai, o Brasil e o Haiti, a Argentina e a Guatemala, para tentar passar a ideia de que se trata de um agregado de países sem características comuns.

Não mencionam as diferenças entre a Inglaterra e a Grécia, Portugal e a Alemanha, Suécia e Espanha, que no entanto compõem um continente comum. Por quê? Porque tiveram e tem um lugar comum no sistema capitalista mundial: foram colonizadores, hoje são imperialistas. Enquanto que os países latino-americanos, tendo diferenças culturais muito menores do que os países europeus entre si, fomos colonizados e hoje sofremos a dominação imperialista.

Esses elementos de caracterização são desconhecidos pela direita, para a qual o mundo é compostos por países modernos e países atrasados, sem articulação como sistema, entre centro e periferia, entre dominadores e dominados.

Assim a direita nunca entendeu e se opôs sempre tenazmente aos maiores líderes populares do continente, como Getúlio, Perón, Lazaro Cárdenas, e hoje se opõe frontalmente ao Hugo Chávez, ao Lula, aos Kirchner, ao Mujica, ao Evo, ao Rafael Correa, à Dilma, ao Maduro, além, é claro, ao Fidel e ao Che. Não compreendem por que foram e são os dirigentes políticos mais importantes do continente, porque têm o apoio popular que os políticos da direita nunca tiveram.

Ainda mais agora, quando a América Latina consegue resistir à crise, não entrar em recessão, continuar diminuindo a desigualdade, e projetar líderes como Chávez, Lula, Evo, Rafael Correa, Mujica, Dilma, a incapacidade de dar conta do continente aumenta por parte da velha mídia. Sua ignorância, seus clichês, seus preconceitos a impedem de entender essa dinâmica própria do continente.

Só resta à direita odiar a América Latina, porque odeia os movimentos populares, os líderes de esquerda, a luta antiimperialista, a crítica ao capitalismo. Odeiam o que não podem entender, mas, principalmente, odeiam porque a América Latina protagoniza um movimento que se choca frontalmente com tudo o que a direita representa.

A transição esquecida no baú da América Latina

Por Saul Leblon no Blog das Frases

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Se existe aprendizado em política, a épica mobilização da sociedade venezuelana nos últimos dias não deve ser tratada como simples efeméride.
Muitos gostariam de restringi-la assim, nos limites de um cortejo emotivo.

Adeptos dessa tese conveniente não perfilam apenas no campo conservador.

O que se viu e se vê em Caracas impõem-se, no entanto, como uma biblioteca de reflexões estratégicas para os socialistas.

As homenagens póstumas a Hugo Chávez calam e imobilizam aqueles que há meses festejavam a mórbida contagem regressiva.

Ruminava na alma conservadora a esférica certeza de que a morte do líder bolivariano levaria à implosão quase instantânea do regime, iniciado há 14 anos com a primeira de uma série de vitórias eleitorais.

Não foi esse o recado do luto vermelho.

Ele recobre a Venezuela desde a 3ª feira passada com um manto de dor.

Mas também de prontidão política.

E de impressionante adesão a um projeto, frequentemente desqualificado como simples petropopulismo pela mídia dominante.

Partidos e movimentos progressistas de todo o continente tem algo a aprender com o avassalador amálgama que tomou conta das ruas venezuelanas.

A impressionante vitalidade daquilo que se imaginava menos abrangente e mais frágil do que tem se mostrado cobra um espaço de discussão na agenda progressista.

entrevista do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães à Carta Maior, feita por Dario Pignotti, vai nessa direção.

Pontua questões cruciais ensejadas por um movimento denso e abrupto, como costumam ser as rupturas de ciclo histórico.

Por exemplo.

Se os acontecimentos na Venezuela suscitarem no conservadorismo a percepção de que a via eleitoral ficou estreita demais para retomar o poder, que contrapesos poderiam –deveriam– ser acionados?

O embaixador Pinheiro Guimarães conhece bem as interações da luta geopolítica e não titubeia: exorta Dilma e Cristina a formarem os alicerces de um muro antigolpista na região.

É um primeiro indicativo.

A integração latino-americana agiganta-se em importância como vigia e fiador da nova fronteira da soberania no continente: a construção da justiça social.

Há mais que isso, porém.

Ao abordar a necessidade de um aparato popular para defender os avanços e conquistas acossados, Samuel Pinheiro resvala no tema tabu da luta socialista no continente.

Não qualquer continente.

Aquele em que a insurreição armada de Che Guevara fracassou, em outubro de 1967, na Bolívia.

Aquele em que a via democrática de Salvador Allende para o socialismo foi massacrada, em setembro de 1973, no Chile.

Aquele em que , desde então, o socialismo passou a figurar no discurso progressista hegemônico –o que não implica negligenciar as posições minoritárias à esquerda dele– como a margem de um rio desprovida de pontes e embarcações de acesso.

Revezes históricos, seguidos de um ciclo de regressividade neoliberal, achataram o debate socialista na região. Lubrificaram o acanhamento de uns e a rendição mercadista de outros. Reduziu-se o socialismo a um horizonte imaginário pouco, ou nunca, articulado às ações da realidade presente.

A tese da radicalização da democracia política ocupou esse espaço como uma legenda-ônibus, recheada da difusa intenção de erguer pontes sobre um vazio estratégico.

Que está prestes a completar 40 anos.

Em 11 de setembro de 1973, o general Augusto Pinochet provou de forma sangrenta que a democracia representativa não comportava as esperanças de uma transição pacífica para o socialismo.

Ao contrário do que preconizava a Frente Popular liderada pelo PS e pelo PC chileno.

O que aconteceu no Chile, seu custo em vidas e acuamento histórico, desarmou a discussão sobre a transição para o socialismo latino-americano.

A coragem e a dignidade inexcedíveis de Salvador Allende e a de milhares de homens e mulheres que, a exemplo dele, perderam a vida e entes queridos no golpe, não estão em questão.

Mas o debate sobre os erros do processo e, sobretudo, a busca de alternativas, devem ser retomados à luz da nova realidade recortada por um duplo divisor: a emergência de um colar de governos progressistas na região e o desmanche planetário da ordem neoliberal.

O governo da Frente Popular de Allende ensejou certa prostração do Estado e da sociedade diante da reação beligerante dos interesses que nunca toleraram o seu projeto socialista.

Allende era o presidente de um governo minoritário no Congresso e na Câmara.

Invariavelmente traído por um centro democrata-cristão, que nunca hesitou em pregar os derradeiros pregos em seu caixão.

Allende endossou no seu cálculo político dois mitos: a propalada solidez de 100 anos de democracia congressual chilena e a decantada postura profissional do Exército do país.

Foi fiel as suas ilusões.

Desestimulou e proibiu a organização de milícias operárias de autodefesa. Prestigiou e nomeou para seu ministério generais ‘profissionais’ –um deles, Augusto Pinochet, era seu chefe do Exército quando deu o golpe.

Sujeitou-se ao desgaste do jogo parlamentar demitindo ministros e desautorizando iniciativas sob exigência do Congresso.

Finalmente, cedeu em questões nevrálgicas, como a da mídia, ao liberar 155 rádios do guarda-chuva da cadeia nacional.

Permitiria assim a difusão encorpada de uma campanha de insatisfação popular –em boa parte assentada na escassez deliberada de produtos– que daria o lastro ‘popular’ ao golpe.

Sabe-se que o processo chileno foi um dos temas frequentes das conversas entre Chávez e Fidel Castro ao longo da última década.

Faz sentido.

Nenhuma outra experiência de governo popular levou tão a sério o desafio de dilatar as fronteiras da democracia participativa, quando a revolução bolivariana na Venezuela.

A consistência dessa arquitetura tem um encontro com a hora da verdade a partir de agora.

Por certo há lacunas.

A inexistência de um partido enraizado e capaz de comandar o processo na ausência de Chávez é uma delas.

Mas a prontidão e a abrangência do que se viu e se vê nas ruas de Caracas nestes dias enseja um otimismo realista.

No mínimo, convoca o amplo leque de forças progressistas do continente a retomar o debate adormecido da transição para o socialismo.

À luz dos acontecimentos presentes e futuros na Venezuela, trata-se de recolocar na ordem do dias questões da teoria e da prática de uma transição que o ciclo de Chávez tirou do baú do esquecimento latino-americano.

Em guerra com os fatos imprensa latina se desmoraliza dia após dia

Por Eduardo Guimarães no Blog da Cidadania

Os noticiários políticos e econômicos dos grandes meios de comunicação brasileiros e os do resto da América Latina deram mais um passo no processo de desmoralização em que mergulharam há cerca de uma década e no qual vão mergulhando cada vez mais fundo.

Logo após o anúncio da morte do ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez, a grande imprensa brasileira foi tomada por um acesso inexplicável de fúria e rancor.

A virulência do noticiário brasileiro se mostrou inexplicavelmente redobrada em relação a alguém que acabara de falecer, o que deveria gerar, se não respeito, ao menos prudente comedimento.

Não foi o que ocorreu. As “análises” dos telejornais – sobretudo os da Globo – sobre a Venezuela pós Chávez retrataram um país mergulhado no caos, na pobreza e na violência.

Imprudente, a dita “imprensa” corporativa pareceu nem suspeitar de que milhões de venezuelanos colocariam suas versões em xeque indo às ruas em comoção pela partida de um líder amado pela esmagadora maioria daquele povo.

Suponho que muitos devem ter presenciado cenas que presenciei nos últimos dias envolvendo pessoas de classe média pouco politizadas e que, como exceção, ainda dão crédito ao que os grandes veículos dizem sobre política, seja sobre a nacional ou a internacional

Muitos estão surpresos com a comoção e o carinho que os venezuelanos estão dedicando a um líder político eternamente acusado pelas mídias brasileira, latina, americana e europeia de tudo de ruim que se possa imaginar.

A pergunta mais recorrente que tem sido vista, é: se Chávez era tão ruim, por que seu povo demonstra tanta dor com a sua partida?

Esse fenômeno não ocorre só no Brasil. Como já foi dito, a grande mídia internacional também sempre vendeu essa história de que Chávez “destruiu” a Venezuela “em 14 anos de governo”, premissa que se choca com o que está sendo visto no país vizinho.

Timidamente, alguns poucos “colunistas” daqui e de toda parte tentam explicar o fenômeno alegando que os povos latinos são ignorantes e, assim, não conseguem avaliar o quanto Chávez era ruim.

Esse, porém, é um discurso perigoso pelo qual só os extremistas midiáticos de direita ousam enveredar. Os mais moderados preferem insinuar.

Apesar de a Venezuela ter produzido os maiores avanços sociais da última década na América Latina, para os “colunistas”, “editorialistas” e até “repórteres” dos grandes veículos de toda parte, isso pouco importa.

Apegam-se aos problemas econômicos que aquele país enfrentou devido à crise econômica internacional, já que depende muito do comércio exterior, ou da exportação de petróleo. E sempre ignorando que os problemas não chegaram ao povo que apoiou Chávez e que hoje chora por ele por ter melhorado drasticamente de vida sob seu governo.

A incompatibilidade sobre o que dizem as grandes mídias e a realidade, porém, não se resume a esse episódio. Aqui no Brasil, a mídia acaba de sofrer nova grave desmoralização por questões econômicas.

Na última quinta-feira, caiu o último de três cavalos-de-batalha midiáticos sobre a economia brasileira lançados entre o fim do ano passado e o começo deste: a produção industrial.

Em janeiro, a indústria brasileira, contrariando todas as previsões midiáticas, cresceu 2,5%. Pouco antes, os alarmismos sobre racionamento de energia e sobre um surto de inflação iminente já tinham caído.

O risco de racionamento que foi vendido como altamente provável, sumiu do noticiário. E a inflação sofreu um tombo sobretudo devido ao barateamento da energia elétrica.

Porém, para usar uma surrada frase de efeito, o fracasso parece que subiu à cabeça da direita midiática. Quanto mais suas previsões furadas se desmoralizam, mais ela reincide nelas.

A crença da direita latina na estupidez popular chega a ser messiânica.

Não é por outra razão que os partidos de direita e os de extrema esquerda que lhes servem de linha auxiliar vão minguando tanto no Brasil quanto no resto de uma América Latina que hoje é a região que mais avança econômica e socialmente em um mundo à beira do abismo.

A direita midiática parece não entender nada. Ao menos é o que dão a entender as suas “análises” desconectadas da realidade.

Incapaz de perceber que, para os povos da região, é assustador que avanços sociais sejam tratados como fatos secundários, subjacentes a critérios sobre as economias que não influem diretamente em suas vidas, a direita chafurda em um discurso catastrofista.

Aqui mesmo no Brasil, o tal de “pibinho” foi alvo de grandes apostas da direita midiática, como se alguns pontos percentuais a menos no Produto Interno Bruto pudessem anular o pleno emprego e o crescimento da renda que se vê nos países governados pela centro-esquerda.

No Brasil, porém, o governo Dilma nada de braçada. Poucos apostam nas chances da oposição no ano que vem, ainda que alguns colunistas se entreguem a devaneios. Já na Venezuela, a oposição direitista trabalha para perder de pouco a eleição do sucessor de Chávez.

Ainda no Brasil, o PSDB e o DEM, os principais partidos de oposição, encolheram assustadoramente no Legislativo, ainda que mantenham alguns governos estaduais importantes. Todavia, no quartel-general tucano, São Paulo, as expectativas não parecem promissoras.

Note-se que o parágrafo acima encontra concordância inclusive entre os analistas da grande mídia mais partidários do PSDB e do DEM. Entre outros jornalistas umbilicalmente ligados ao PSDB, a colunista da Folha de SP Eliane Cantanhêde concorda comigo.

É fácil entender a razão desse processo de desidratação da direita midiática latino-americana. Está sem outro discurso que não seja sobre “corrupção” ou o de negar todos os avanços que a região experimentou na última década.

No Brasil, particularmente, o discurso oposicionista-midiático sobre os avanços do país é ainda mais delirante, pois se alterna entre negar os fatos e, logo em seguida, aceitar os avanços mas atribuí-los ao governo Fernando Henrique Cardoso.

Nesse aspecto, vira e mexe eclode uma campanha midiática tentando “ressuscitar” FHC.

Na eleição para prefeito de São Paulo em 2012, a campanha de José Serra ensaiou pôr o ex-presidente na telinha para “avalizar” o candidato tucano, mas logo que viu o resultado ruim dessa estratégia, abandonou-a.

Até hoje, mais de dez anos após a primeira eleição de Lula, a direita midiática ainda não percebeu que ele só chegou ao poder por conta da revolta dos brasileiros com o estelionato eleitoral praticado por FHC em 1998, estelionato que, inclusive, foi endossado pela mídia.

Apesar de os jovens com vinte anos ou menos não terem memória sobre o governo FHC, pais, avós, amigos, professores etc. lembram muito bem de como era ruim este país até 2002 e sabem muito bem quanto o Brasil avançou na década passada. E transmitem o conhecimento aos jovens.

Não existe hoje na América Latina, portanto, um projeto político viável à direita. E mesmo as aventuras golpistas acalentadas por tantos na região, como as experiências em Honduras e Paraguai, não se mostram promissoras e desestimulam novas aventuras iguais.

Vejamos o caso da Venezuela: a saída de Chávez da cena política não aumentou as chances da oposição. Assim, não adianta extirpar um Chávez ou um Lula, porque a consciência política na América Latina já ganhou dinâmica própria.

Até as apostas em criminalização de líderes de centro-esquerda parecem fadadas ao fracasso.

No Brasil, quem aposta em que a criminalização de Lula irá render dividendos políticos, engana-se. Vista como única chance pela direita midiática para vencer em 2014, será entendida como golpe dos ricos contra os pobres, o que elegerá Dilma ainda mais facilmente.

Em resumo, o que está construindo a hegemonia da centro-esquerda na América Latina é a distância abissal que separa a direita midiática do povo. Essa direita trata a volta por cima no emprego e na renda como fatos secundários.

O maior eleitor da centro-esquerda latino-americana é a direita midiática. Se fosse mais comedida, se respeitasse mas o povão, seria muito mais difícil derrotá-la. A arrogância da elite branca e midiática latino-americana é a sua maior inimiga.

Rovai: Paulo Bernardo, ministro de Comunicações ou das teles?

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Em visita a São Paulo, Paulo Bernardo se comportou como um garoto de recado das teles. Foto: Agência Brasil

por Renato Rovai, em seu blog 

Paulo Bernardo esteve ontem em São Paulo para uma audiência com o prefeito Fernando Haddad. Ao sair, afirmou: “O prefeito me disse que tem abertura para discutir (na Câmara Municipal) mudança na legislação. Ele me falou da intenção da prefeitura de estabelecer políticas públicas na área de comunicação, por exemplo, uma rede de wi-fi na cidade”.

E acrescentou: “Eu disse ao prefeito: ‘você quer uma rede de wi-fi na cidade, mas se fizer uma rede chinfrim, o pessoal vai fazer uma festa, inaugura, dali a dois meses vai começar a reclamar que a internet é muito lenta. Vão falar mal de quem? Vão falar do Fernando Haddad”.

Se tivesse lido essa declaração em outro veículo e assinada por outro jornalista, duvidaria. Mas o texto é do talentoso amigo Eduardo Maretti e foi publicado na Rede Brasil Atual, que até onde sei não tem nada contra Paulo Bernardo e nem contra Haddad. A propósito, Paulo Bernardo nos idos tempos foi ligado ao movimento sindical bancário e era um petista de quatro costados. E hoje, a quem serve Paulo Bernardo?

O PT aprovou recente resolução defendendo a regulamentação da área de comunicação e questionando os 60 bilhões de isenção (que Bernardo diz serem 6 bilhões) para as teles. E Bernardo, que se diz petista, fez de conta que não era com ele. Agora Bernardo vem a São Paulo defender as teles e tentar colocar reio no governo municipal porque este quer distribuir wi-fi grátis na cidade.

Vem em nome das teles ou do governo federal? Qual é o papel de um ministro? Incentivar políticas públicas ou tentar impedi-las em nome de interesses privados?

Dilma sabia que Paulo Bernardo viria a São Paulo com esta missão hoje? Isso foi discutido em âmbito federal?  Foi Dilma quem solicitou a ele que fizesse lobby tentando impedir a cidade de abrir o sinal da internet em alguns pontos?

Entrei em contato com algumas pessoas que estão na equipe do secretário Simão Pedro (Obras e Serviços) e que estudam formas de criar condições para lançar uma política pública de banda larga na cidade. Quando lia os trechos da reportagem, a perplexidade era imensa. Em nenhum momento a equipe do ministro ou assessores dele procuraram assessores da prefeitura que estão trabalhando no tema. Ou seja, Bernardo não tem nenhum elemento para dizer que o plano é chinfrim. Mas mesmo assim saiu atacando-o porque as teles estão morrendo de medo que se implantado com sucesso em São Paulo, um plano desses as fará perder parte do mercado que as alimenta com monstruosos lucros operando um serviço de péssima qualidade.

Entre outras coisas, no projeto de wi-fi grátis de São Paulo discute-se que onde o sinal for aberto aproximadamente 1 mil pessoas possam vir a se conectar ao mesmo tempo tendo uma banda superior a 1 Mbps. Bem diferente do PNBL chinfrim que Paulo Bernardo falou que ia implantar, mas que virou plano de negócios das teles. Hoje, o governo federal e a Telebrás só entram onde as teles não têm interesse em operar.

O ex-bancário, sindicalista, petista e agora ministro, trabalha para o governo e para a sociedade brasileira? Porque se é isso, melhor refletir sobre a visita de ontem a São Paulo, onde se comportou como um garoto de recado das teles.