Arquivo mensais:março 2013

Congresso vai comunicar Dilma sobre derrubada de vetos nesta quarta


Por  Gabriela Guerreiro na Folha

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), vai comunicar oficialmente amanhã a presidente Dilma Rousseff sobre a decisão do Congresso de derrubar os vetos à lei dos royalties do petróleo. Após receber a mensagem de Renan, Dilma tem o prazo de 48 horas para promulgar a decisão.

Se a presidente não cumprir o prazo, a Constituição determina que Renan faça a promulgação da lei dos royalties –que foi retomado pelos congressistas após a derrubada dos vetos.

Com a promulgação, as novas regras de distribuição dos royalties do petróleo entram em vigor. A derrubada dos vetos faz com que Estados produtores, como Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo, percam receita com o novo modelo –que propõe uma divisão mais igualitária desses recursos entre todas as unidades federativas.

A nova divisão transfere recursos de Estados e municípios produtores para os que não produzem petróleo.

Rio e Espírito Santo são os mais prejudicados com a derrubada do veto porque, como produtores de petróleo, perdem receita se a distribuição dos royalties for feita de forma igualitária.

Fumaça preta na reforma ministerial de Dilma

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Com dificuldades para acomodar os interesses de todos os partidos, a presidente Dilma Rousseff pede mais tempo ao vice, Michel Temer, para concluir as mudanças nos ministérios; os peemedebistas querem mais espaço, mas a Secretaria da Aviação Civil, que ficaria com o partido, é também disputada pelo PSD, de Gilberto Kassab; o PR, liderado por Anthony Garotinho, não se contenta com o comando da Valec e do Dnit e quer um ministério poderoso, como os Transportes; o PDT, por sua vez, exige a queda do ministro Brizola Neto; mexer nos ministérios é mais difícil do que eleger um novo papa?

No Brasil 247

 Eleger um papa talvez seja mais fácil do que acomodar todos os interesses da gigantesca base aliada da presidente Dilma Rousseff, numa reforma ministerial. Ontem, no primeiro dia do conclave no Vaticano, os arcebispos de Milão, Angelo Scola, e de São Paulo, Odilo Scherer, foram os nomes mais votados, mas nenhum conseguiu os dois terços necessários para que fumaça branca sinalizasse o “habemus papam” ­– o que pode ocorrer nas três votações previstas para esta quarta-feira. Também ontem, depois de se reunir com o vice-presidente Michel Temer, em Brasília, a presidente Dilma Rousseff pediu mais tempo para concluir sua esperada reforma ministerial.

O jogo com o PMDB parecia estar já acertado. Dilma convidaria o presidente do partido em Minas, Antonio Andrade, para assumir o comando da Agricultura. O titular da pasta, Mendes Ribeiro, assumiria a Secretaria de Assuntos Estratégicos, deslocando seu atual chefe, Wellington Moreira Franco, braço direito de Temer, para a poderosa Secretaria de Aviação Civil.

Tudo combinado, nada resolvido. A aviação civil é uma área cobiçada também pelo PSD, do ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Com um partido forte na Câmara, Kassab vem sendo cortejado tanto por Dilma quanto por Eduardo Campos, do PSB, e os líderes da legenda já avisaram ao Planalto que o Ministério da Pequena Empresa, que está sendo criado por Dilma para abrigar Guilherme Afif Domingos, é pouco para o partido. Ou não o suficiente para garantir a adesão automática à reeleição da presidente em 2014.

Complicada ainda é a situação do PDT, que também conversa com Eduardo Campos. Os dois principais caciques do partido, o presidente Carlos Lupi e o sindicalista Paulinho da Força exigem a demissão do ministro Brizola Neto e propõem o nome do deputado Manoel Dias (PDT/SC). Mas Dilma resiste e ainda desperta desconfiança no partido, uma vez que seu ex-marido, Carlos Araújo, voltou à sigla para, entre outras coisas, articular a candidatura do ex-prefeito de Porto Alegre, Alceu Collares, à presidência do partido, contra Lupi.

E se tudo isso não bastasse, há ainda o PR, liderado na Câmara dos Deputados pelo deputado Anthony Garotinho (PR-RJ). Dilma propôs à sigla entregar não um ministério, como o dos Transportes, mas o comando de uma estatal, a Valec, que cuida das ferrovias, e do Departamento Nacional de Infraestrutura dos Transportes, o Dnit. Ocorre que tanto a Valec como o Dnit foram esvaziados nos primeiros anos do governo Dilma e perderam espaço para a EPL, Empresa de Planejamento e Logística, a EPL, comandada pelo economista Bernardo Figueiredo. Por isso, os líderes do PR têm repetido o mesmo mantra: “queremos ministério”.

Por isso mesmo, a melhor definição da reforma ministerial, prometida, mas não realizada, foi feita pelo deputado André Figueiredo (PDT/CE), que lidera seu partido na Câmara dos Deputados. “Podia ter uma chaminé no Planalto para ficarmos sabendo quando a reforma ministerial vai sair. Por enquanto, só fumaça preta”.

Quem será o novo papa? Que diferença vai fazer?

papas kotscho  Quem será o novo papa? Que diferença vai fazer?João paulo 1º, Bento 16 e João Paulo 2º

Enquanto os 115 cardeais que vão eleger o novo papa se trancam na Capela Sistina, a imprensa do mundo inteiro continua especulando sobre os favoritos para assumir o lugar de Bento 16. Quem será o novo papa?

Desde o último dia 11 de fevereiro, segunda-feira de Carnaval, quando o mundo foi surpreendido pela renúncia do papa alemão, algo que não acontecia na igreja há 600 anos, parece que o destino da humanidade está sendo jogado em Roma, tal a avalanche do noticiário religioso nestes últimos dias.

À pergunta que todos se fazem, acrescento outra: Que diferença vai fazer nas nossas vidas a escolha do novo papa, seja ele quem for? Afinal, os cardeais votantes foram todos nomeados por Bento 16 ou pelo seu antecessor, João Paulo 2º, ambos da mesma escola que deu a guinada conservadora na igreja.

Faz muito tempo que as ordens emanadas do Vaticano já não comandam a vida nem do estimado 1,2 bilhão de católicos existentes no mundo, entre eles, este velho escriba, que era correspondente do Jornal do Brasil na Europa em 1978, ano em que tivemos três papas (Paulo 6º, João Paulo 1º e João Paulo 2º).

Junto com o correspondente do jornal em Roma, Araújo Neto, querido amigo já falecido, fiz a cobertura do enterro dos dois primeiros e a eleição dos dois João Paulo.

Naquela época, a Igreja Católica ainda desempenhava um papel importante na geopolítica mundial e nos usos e costumes da maioria dos seus seguidores, o que explicava toda a comoção provocada pela sucessão de um papa.

Em 1978, como agora, também havia especulações de vaticanistas e outros “istas” sobre os favoritos no conclave, mas nenhum dos dois eleitos estava entre eles.

Sob o título “Em Canale D´Agordo, já se sabia de tudo. E se rezou contra”, o JB deu uma página inteira sobre a história dos Luciani e da magnífica região do Veneto, de onde viera João Paulo 1º, o breve, como previu seu irmão Edoardo. A abertura da matéria:

Só os vaticanistas, a Igreja e o resto do mundo foram surpreendidos com a eleição de Albino Luciani para suceder Paulo VI. É esta, ao menos, a conclusão a que se chega após uma rápida viagem pela Veneza dos papas (Luciani é o terceiro papa vêneto, só neste século) e uma tarde de conversas com os moradores de Canale D´Agordo, pequena aldeia onde Albino nasceu. Entre eles, seu irmão mais novo, Edoardo Luciani, pai de nove sobrinhos do novo papa.

“Prepara teu vestido preto, porque teu cunhado vai ser o novo papa e nós teremos que ir a Roma”, sentenciou Edoardo à mulher, Marinelli Antonieta, assim que soube da morte de Paulo 6º.

Desde o último inverno, quando o novo papa esteve com o irmão na aldeia, a família Luciani não só desconfiava do destino de Albinocomo temia por ele. 

“Sabendo que o papa estava muito doente e dificilmente conseguiria atravessar o inverno, meu irmão pediu para que rezássemos bastante para que ele não fosse eleito seu sucessor”, conta-me o mestre-escola aposentado Edoardo, 62 anos, na sala de visitas do sobradão.

Liguei a televisão cinco minutos antes do cardeal Felici falar o nome do novo papa. Eu tinha certeza, estava seguro de que era meu irmão. Ele tinha medo de ser papa. Vivia aterrorizado com essa ideia”.

_ Mas por que essa ideia? E por que esse medo?

_É muito simples. Veja, eu sou mais novo do que ele quatro anos e já estou aposentado. Me doem as costas, sinto-me cansado. Agora, você imagine o Albino, numa idade em que precisava descansar, agora com essa vida de papa. Tem que acordar às quatro horas da manhã, trabalhar até as onze da noite, com tantos problemas que tem na Igreja, no mundo… Não, não é nenhuma maravilha de trabalho, não.

Se naquela época já havia problemas…

A premonição de Edoardo seria confirmada apenas 33 dias depois. O telefone tocou tarde da noite na minha casa em Bonn, capital da Alemanha na época. Era Dorrit Harazim, chefe dos correspondentes internacionais: “Kotscho, te prepara para voltar a Roma. O papa morreu!”.

Pensei que fosse trote, ainda brinquei: “Como assim? Morreu de novo?”.

Também ninguém apostava que dias depois seria eleito para o lugar de João Paulo 1º o cardeal polonês Karol Wojtyla, o primeiro papa não italiano em mais de 450 anos.

Aprendi a não dar palpite nestas horas. É melhor esperar a fumaça branca.

 

Pastor batista sobre Feliciano: “ele não representa os direitos humanos e a minoria”

Mais de 150 lideranças evangélicas assinam documento pedindo a saída de Marco Feliciano da presidência da CDHM

Por Igor Carvalho na Revista Fórum

Para Marcos Dornel a escolha do presidente da comissão deve ser feita com base no histórico de militância do deputado na área de direitos humanos (Foto: Flickr/Fora do Eixo)

A nomeação do deputado Marco Feliciano (PSC-SP) para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados continua rendendo críticas pelo Brasil. Nessa terça-feira (11), mais de 150 lideranças evangélicas pediram a substituição do pastor por um parlamentar mais “familiarizado” com o tema.

A Rede Fale pede aos deputados evangélicos da comissão – que, segundo o coletivo, são 12 dos 18 membros – que indiquem um novo nome. “Entendemos que este momento representa uma oportunidade concreta para a promoção e a defesa dos direitos dos mais vulneráveis e das minorias”, informou em nota.

Em entrevista à revista Fórum, o pastor da Igreja Batista Marcos Dornel teceu críticas ao parlamentar e pediu como representante “alguém que tenha histórico de luta com direitos humanos, que conheça o que foi a tortura no Brasil, saiba o que é trabalho escarvo, entenda que existe tráfico de pessoas, enfim, que tenha lutado por pautas da área de direitos humanos.”

Fórum - Como o senhor viu a eleição de Marco Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados?

Marcos Dornel - Foi uma forçada de barra, tinha que colocar alguém do PSC e acharam o pior nome. Fizeram uma reunião entre os evangélicos do partido, e o nome mais forte era o dele. Não vejo com bons olhos essa nomeação, as polêmicas causadas por ele nos prejudicaram. Estamos colocando em xeque, por causa de um cara que não tem histórico de luta pelos direitos humanos, toda uma nação, que é a nação evangélica. A minha vocação para ser pastor me mostra que tenho que olhar para as minorias, e Feliciano é midiático e alegórico, muito vaidoso, faz até chapinha no cabelo. Deveria cuidar do rebanho e menos da política.

Fórum Segundo Feliciano, uma “maldição recai sobre a África”. Em sua interpretação da Bíblia, como o senhor vê essa afirmação?
Marcos Dornel - Nós, teólogos, estamos nos revirando, porque em nenhum momento na Bíblia Deus joga uma maldição sobre uma raça ou um povo. Essa frase foi uma infelicidade do Feliciano. A própria palavra diz que todo aquele que crê em Deus é abençoado. A Bíblia diz que tudo que Deus criou é bom, então, se tudo é bom, todas as raças são boas. Você dizer que uma raça é amaldiçoada é uma besteira. Ele foi infeliz.

Fórum - Mais de 150 lideranças assinaram uma carta de repúdio ao Feliciano, o senhor concorda?
Marcos Dornel - Eu me incluo nessa faixa de rejeição ao nome dele como presidente, nós estamos repudiando esse cara. A comissão deve ser presidida por alguém com histórico de luta pelos direitos humanos, que conheça o que foi a tortura no Brasil, saiba o que é trabalho escravo, entenda que existe tráfico de pessoas, enfim, que tenha lutado por pautas da área de direitos humanos. Não sou contra porque ele é um líder religioso, mas sim porque ele não tem qualquer experiência no assunto. Marco Feliciano não representa as minorias. Aliás, se existe uma diferença entre elite e pobres na igreja, o Feliciano representa essa elite.

Fórum - 
Há, no discurso do Marco Feliciano, uma deturpação dos valores da Bíblia?
Marcos Dornel - Olho para o Felicano e vejo um pastor que só prega sobre prosperidade. Jesus ensinou para nós que mais importante é ser, o Marco prega que devemos ter. Pregamos uma igreja que reparte, a igreja do comum, é a igreja que Jesus diz: “Se você tem dois quilos de arroz, dê um a quem não tem”, é uma igreja que está ao lado das minorias. Os direitos humanos não tem que defender o pobre por ele se pobre, mas sim por ele ter dignidade humana, é isso que a Bíblia prega. Um cara que prega que só é próspero quem tem casa na praia, tem o carro do ano, isso não é direitos humanos, isso é direito de quem tem.

Fórum - O senhor acredita que esse fato possa estimular o preconceito contra os evangélicos?
Marcos Dornel - Nunca tivemos a oportunidade de debate nesse país, podemos, hoje, mostrar o que Cristo nos pregou. Agora, com esse cidadão na presidência, tudo pode se voltar para trás, porque todo o trabalho de igrejas evangélicas vai por água baixo. Estamos vendo uma mini-guerra religiosa no meio das igreja evangélicas, já estamos desgastados por conta desses pastores midiáticos. Ressalto, não é por ele ser evangélico, mas é que ele não representa os direitos humanos e as minorias.

Empresas brasileiras nos EUA passarão a ser fiscalizadas pela Receita

Acordo vai permitir que Receita fiscalize empresas brasileiras nos EUA

Por Daniel Lima na Agência Brasil

Brasília – Publicado hoje (13) no Diário Oficial da Uniãodecreto legislativo que aprova o texto de um acordo entre os governos brasileiro e norte-americano para o intercâmbio de informações tributárias, que foi celebrado entre os dois países em 20 de março de 2007.

Segundo informou a Receita Federal, após sancionado pela presidenta Dilma Rousseff, o acordo permitirá que o fisco dos Estados Unidos faça consultas sobre cidadãos norte-americanos que estejam no Brasil, podendo ocorrer o mesmo com cidadãos brasileiros naquele país.

A aprovação do texto é uma antiga reivindicação da Receita Federal, que passará a fiscalizar melhor empresas brasileiras nos Estados Unidos e, inclusive, combater a lavagem de dinheiro.

Esses acordos são comuns entre países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que vinha cobrando a participação brasileira, informou a Receita.

Pelo decreto ficam sujeitos à aprovação do Congresso Nacional quaisquer atos que possam resultar em revisão do referido acordo.

Cachoeira e Policarpo agiram na sombra para derrubar Renan

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É o que mostra a jornalista Tereza Cruvinel; colunista do jornal Correio Braziliense, ela conta que linha de passe entre contraventor e jornalista levou a publicação, na revista Veja, de matéria que deixou verdade de lado para comprar versão fantasiosa de espionagem a senadores que teria sido feita por Renan .; documentos secretos do Senado, ao quais Tereza teve acesso, mostram que verdade poderia ter sido facilmente apurada; matéria “O Jogo Sujo de Renan” ajudou então senador Demóstenes Torres a acuar corregedor Romeu Tuma e levar Renan à renúncia

Por Brasil 247

Um das mais bem informadas jornalistas de Brasília, a jornalista Tereza Cruvinel, colunista do jornal Correio Braziliense, acaba de dar um furo. Ela teve acesso a um documento secreto do Senado Federal, carimbado como sigiloso, do qual surge mais uma forte impressão digital da parceria Carlinhos Cachoeira, o contraventor, e Policarpo Jr., o editor-chefe da revista Veja. A trama aponta muito mais para um caso de polícia do para um trunfo editorial.

De acordo com a coluna de Tereza desta terça-feira 12, a revista Veja, em reportagem assinada por Policarpo e Alexandre Oltramari, de 10 de outubro de 2007, passou por cima de informações veridicas, que poderiam ser checadas facilmente, para divulgar uma versão fatasiosa, feita por um adversário do então presidente do Semado, Renan Calheiros.

O texto “O Jogo Sujo de Renan” afirmava que o sujeito da matéria havia montagem um esquema de espionagem contra seus pares, com direito a câmeras de vídeo instaladas num hangar de Brasília, quando o fato apurado formalmente pelo então corregedor do Senado, Romeu Tuma, falecido em 2010, dizia exatamente o cotrário. O material de Veja, “que incendiou o plenário”, como lembra a colunista do Correio Braziliense, foi estratégico para que o então senador Demóstenes Torres abrisse suas baterias contra Renan. Mesmo após a absolvição do senador pela acusação de uso de dinheiro de um empresário para o pagamento de despesas particulares, o então presidente do Senado não resistiu à série de críticas e renunciou ao cargo.

Abaixo, a íntegra da coluna de Tereza Cruvinel:

Dedo de Cachoeira

Autor(es): Tereza Cruvinel

Correio Braziliense – 12/03/2013

Um documento arquivado pelo Senado como “sigiloso” aponta a ação do bicheiro Carlinhos Cachoeira e seu grupo na urdidura de uma das denúncias que levaram o senador Renan Calheiros a renunciar à presidência do Senado em 2007: a de que ele teria montado um esquema para espionar os senadores Demóstenes Torres, que veio a ser cassado após ser desmascarado como agente político do bicheiro, e Marconi Perillo, hoje governador, citado como envolvido pelo relator da CPI do Cachoeira, Odair Cunha, no relatorio derrotado por uma coalizão entre PMDB, PSDB e DEM.
O documento, ao qual a coluna teve acesso, é a íntegra do depoimento do empresário e ex-deputado goiano Pedrinho Abrão ao então corregedor do Senado, Romeu Tuma, já falecido. Tuma pediu seu arquivamento, sem divulgá-lo, pressionado pelo DEM, partido de Demóstenes, que ameaçava processá-lo por infidelidade partidária, tirando-lhe o mandato, por ter migrado para o PTB. Curiosamente, nessa época, o DEM moveu ação semelhante contra o hoje ministro Edison Lobão, que trocara o partido pelo PMDB, mas poupou Tuma.

No depoimento, Abraão, que é dono de um hangar em Goiânia, nega taxativamente ao corregedor que o então assessor de Renan, Francisco Escórcio — que fora senador como suplente e hoje é deputado federal — tenha lhe pedido autorização para instalar câmeras no hangar e captar imagens comprometedoras dos dois senadores. Se aparecessem usando jatinhos de empresários, por exemplo, Renan poderia chantageá-los.
Em outubro de 2007, o então presidente do Senado, que já fora absolvido da acusação de ter despesas particulares pagas por um empresário, enfrentava outras denúncias, como a de usar laranjas em seus negócios. No dia 10, a revista Veja publicou matéria, assinada pelos repórteres Policarpo Junior e Alexandre Oltramari, sob o título “o jogo sujo de Renan”. Afirmava que ele montara um esquema para espionar seus pares chefiado pelo assessor Escórcio. Que este fora a Goiania e se reunira com Abraão, pedindo-lhe para instalar duas câmeras em seu hangar, com o que ele não teria concordado. A reportagem transcreve falas de Abraão mas registra, no final, que ele confirmou ter os senadores como clientes e conhecer os envolvidos, negando porém ter participado de reunião com este objetivo.

Num plenário incendiado pela reportagem, Demóstenes fez um discurso indignado. O DEM e o PSDB apresentaram ao Conselho de Ética a quinta representação contra Renan. As outras envolviam a sua vida privada mas esta, de que espionava os colegas, fez com alguns deles lhe retirassem apoio. Ele contestou, depois demitiu o assessor mas, temendo perder o mandato, renunciou à presidência em dezembro.
Logo depois da reportagem, no dia 16, Tuma foi a Goiânia colher o depoimento de Abraão, que teria sido esclarecer mas foi arquivado, pela razão já citada. O então corregedor resume para Abraão o que Demóstenes declarou no Senado, dizendo ter ouvido dele, Abraão: “Ele me contou que Escórcio disse estar lá em missão relativa ao Maranhão mas que precisava também me flagrar, e ao Perilo, voando de forma ilegal. Pediu-me para instalar duas câmeras”.
Ouvindo isso, Abrão declara ao corregedor, segundo a transcrição: “Não foi dessa forma, senador.” E resume o encontro ocorrido no escritório do advogado Eli Dourado, negando ter havido qualquer abordagem sobre instalação de câmeras: “Conversamos muito sobre avião, se eu voava, e tal, e sobre algo que me surpreendeu, que o Heli iria ser advogado da Roseana. Falamos também da minha cirurgia, como emagreci 60 quilos e tal.”

Abrão relata a Tuma que Demóstenes o visitara dias antes, afirmando já saber que Escórcio lhe propusera a arapongagem e que ele se negara a colaborar. “O Demóstenes veio para mim com um ímpeto…me especulando como promotor”. Esclareceu que não ouviu proposta em tal sentido e teria acrescentado que o hangar já tem mais de 60 câmeras instaladas. “E tudo filmado por segurança, certa vez roubaram um avião aqui. Então, se eu quisesse fazer ou contribuir com alguma arapongagem, seria a coisa mais simples”.

A versão de Escórcio, hoje deputado, é coerente com o depoimento de Abraão a Tuma: “A conversa foi banal. Eu fui a Goiânia contratar o Heli Dourado para mover a ação eleitoral que veio a garantir a posse de Roseana. Na conversa, alguém mencionou Pedrinho Abraão, com quem tive boa convivência no Congresso. Pedi o numero dele e liguei. Ele se propôs a ir lá me rever. O que eu não sabia, e vim a saber, é que, por ser assessor do Renan, tivera meu telefone grampeado pelo esquema deles. Deduziram que meu encontro com Pedrinho Abraão era alguma armação”. A coluna não conseguiu ouvir Renan.
Essa história ocorreu há cinco anos. Demóstenes foi cassado, Renan voltou ao cargo e enfrenta protestos. Mesmo assim, é importante “apurar” o passado. Nossa história recente está cheia de narrativas imperfeitas, que ainda serão revisitadas. Falta ainda conhecer melhor o papel de Cachoeira e seu esquema em muitas delas.

O Ditador remontado

Por Elias Thomé Saliba na Carta Capital

“Os historiadores são gente do tipo que descobre não somente os fatos enterrados sob a terra, mas até aqueles nas profundezas do oceano, e os revelam ao mundo.” Ganha um doce quem adivinhar o autor dessa definição do ofício do historiador. Sim, é dele mesmo, Ióssif Vissariónovich Djugachvíli, mais conhecido pelo sobrenome adotado posteriormente, Stalin. Vindo de quem veio, a definição surpreende, sobretudo porque foi escrita pelo personagem do século XX que mais censurou, distorceu, omitiu e destruiu as fontes históricas sobre o seu passado e o passado do seu povo. Essa paranoia silenciadora marcou de tal forma a historiografia que somente a partir do fim da década de 1980, com o fim da União Soviética, os fatos submersos naquelas “profundezas do oceano” começaram a vir à tona.

Ainda assim, os historiadores precisaram de várias décadas, de infinita paciência e longas pesquisas para desentranhar o universo das falsidades, da vilania e até mesmo do folclore sobre a vida de Stalin. A cada ano surgiam novas pistas, como o diário da mãe de Stalin, Ekaterina (Keké), que só permaneceu porque Stalin nunca soube da existência dele, ou os depoimentos de testemunhas, as quais, após 1991, resolveram finalmente falar ou, o que é pior, alterar seus depoimentos anteriores. Depois ainda surgiram arquivos inesperados, como os de Baku, no Azerbaijão, que documentam os assaltos a bancos coordenados por Stalin na juventude. Por isso, ao menos para aqueles historiadores decentes, que não costumam ir com tanta sede ao pote, a reconstrução da vida de Stalin é um empreendimento desanimador e cheio de pistas falsas.

À tona. A pesquisa de Lilly Marcou, contra a paranoia silenciadora

À tona. A pesquisa de Lilly Marcou, contra a paranoia silenciadora

Lilly Marcou, historiadora francesa de origem romena, demorou quase 30 anos para compor A Vida Privada de Stalin (Zahar, 259 págs., R$ 54,90 e R$ 34,90 o e-book). Embora não seja tão bem documentada quanto o mais recente O Jovem Stalin, de Simon Sebag Montefiore, é a mais equilibrada, abrangente e escrupulosa biografia da vida privada de Stalin. Ou melhor, da progressiva supressão da vida privada, título que melhor definiria a trajetória desse personagem.

A reconstrução de sua vida, do nascimento até março de 1917, é mais detalhada e bem menos folhetinesca do que nas biografias anteriores, até por se utilizar bastante de testemunhos orais, com o objetivo de revelar a face mais humana do conspirador bolchevique. Até completar 35 anos, Stalin viveu quase toda a juventude entre as prisões e o exílio. Sua passagem pela aldeia de Kostino, ao norte da Sibéria Central, é dramática e ele escapa por pouco de morrer de tuberculose. Isolado de seus contatos no partido e paralisado em suas ações, não tinha outra coisa a fazer senão adaptar-se à indigência cotidiana e à solidão na Sibéria. Procurou ler, estudar línguas e escrever, incluindo seus trabalhos sobre as nacionalidades.

Em resumo, Stalin esteve longe de ser aquele revolucionário emigrado, vivendo na Europa como Lenin, Trotski, Plekhanov, Zinoviev e tantas outras figuras do marxismo russo, para os quais a miséria ou o obscurantismo intrínseco às massas camponesas, durante o período czarista, eram conceitos filosóficos ou políticos. Foi o único dos principais bolcheviques de primeira hora a impregnar-se de maneira íntima e cotidiana do infortúnio dos pobres. Marcou demonstra o quanto esse longo e cruel exílio parece tê-lo endurecido ainda mais, o que repercutirá na maneira como ele conceberá a luta contra aqueles com quem não concordava.

Na segunda metade da década de 1920, Stalin viveu a vida tradicional de um chefe de família. Exceto pelos meses no balneário de Sotchi, para curar-se do reumatismo articular no braço e de outras mazelas do seu tempo de siberiano, viveu com a família na sua dacha em Zubalovo, confraternizando nos aniversários ou divertindo-se na sala de bilhar, seu jogo preferido.

Embora Marcou revele aos leitores todos os detalhes e versões, não embarca facilmente no folclore a respeito de todos os casos amorosos de Stalin. “Por enquanto, nenhum arquivo ou confidência familiar permite respostas definitivas”, afirma a historiadora, para a frustração dos leitores curiosos. Analisa e ainda pondera a respeito de todas as versões do suicídio de Nadejda Alliluyeva, a segunda mulher de Stalin. O suicídio tornou-se objeto de controvérsia porque o líder soviético liberou para a imprensa em 1932, em nota, uma lacônica “morte súbita”, enquanto para os filhos disse que ela apenas morrera de apendicite aguda, proibindo-os de tocar no assunto.

A mentira engendrou versões rumorosas, cada uma mais fantasiosa que a outra: a guarda pessoal de Stalin, a seu mando, a matara, porque ela o teria flagrado com outra mulher. Talvez o sionismo internacional houvesse tramado a morte. Ou ela teria se suicidado por manter um caso amoroso com o primeiro filho de Stalin, Iacha. A imaginação mórbida sempre floresce em sociedades desinformadas. De qualquer forma, Stalin viveu o episódio como uma vergonha e uma traição e nunca conseguiu processar a morte da sua segunda mulher. O luto não parecia consumado, uma vez que ele pessoalmente parecia sempre procurar de maneira obsessiva por um culpado.

Stalin 2

Obsessões e negligências. Nas horas vagas, Stalin lia e assistia a faroestes, mas o tempo era raro para a filha Svetlana

Culto e autodidata, apreciador de música e filmes de faroeste, político implacável com os inimigos e sempre predisposto a sacrificar em nome do ideal comunista qualquer coisa, família, amigos ou milhares de camponeses e soldados, Stalin ficou no poder por quase 30 anos.  Marcou não esconde nenhuma das violências abjetas perpetradas por ele, mas também não cai na paranoia de transformar as três décadas em um imenso gulag.

A pesquisadora documenta a rara capacidade de cálculo político de Stalin. Estabelecer afinidades com imperadores e czares permitiu ao tirano da Geórgia livrar-se dos compromissos vinculados às promessas originais de construção do socialismo, no fim impossíveis de ser cumpridas. Stalin expulsou a barbárie da Rússia por meios bárbaros, transformando-a numa potência industrial, mas isso ao custo de forjar uma sociedade traumatizada pela violência, desinformação e obscurantismo, que acabaram por chafurdá-la em todos os tipos de psicoses, obsessões e pavores.

Com a conivência criminosa da era Kruschev, que, a rigor, durou até Mikhail Gorbachev, todas as testemunhas se calaram. Algumas até 1966, outras até 1973, sua própria filha, Svetlana Alliluyeva, até 1991, quando confessou: “Ele foi um péssimo e negligente filho, do mesmo modo como foi mau pai e marido. Dedicava seu ser inteiro a outras coisas, à política e à luta. Pior do que isso: ele permitiu e estimulou que sua política destruísse e consumisse os seres amados”.

Após o terror da coletivização forçada e dos expurgos assassinos, a simbiose entre Stalin e a polícia secreta dominou sua vida privada de tal forma que em certos momentos ele chegou a perder completamente o controle das ações mais escusas. O que resultou literalmente no fim de sua vida privada. Quando veio a guerra, trabalhava 18 horas seguidas, dormindo no sofá do seu gabinete, de uniforme. “Stalin não manipulava apenas todos os cordões do front. Ele era o própriofront”, conclui Marcou.

Agraciado com o título de Homem do Ano, Stalin ganhou imagem de capa e a manchete de “salvador do mundo ocidental” na revista Time em 1942. Foi sua época de maior sucesso no Ocidente. Políticos, escritores, diplomatas e militantes, todos sucumbiam à mística da clausura, do mistério calculadamente dosado daquele homem dotado de uma força de sedução, calcada no domínio da conversa sigilosa, personalizada de acordo com o interlocutor. Naqueles anos, nunca foi severamente questionado sobre expurgos, julgamentos e execuções. Todos se inclinavam perante o revolucionário, ignorando deliberadamente o tirano.

Paradoxalmente, no mesmo momento no qual posou como um dos grandes vencedores da história, sua vida privada estava em farrapos. Foi também um excelente empresário do seu próprio personagem, a ponto de a ele sucumbir, rompendo, sem perceber, quaisquer laços com a realidade familiar. A inocência das pessoas que ele matava ou enviava para o desterro não o perturbava. Conforme radicalizava o terror, perdia qualquer noção de apego ou afeição, ou mesmo de piedade. “A gratidão é uma doença dos cães”, declarou certa vez.

Até as relações com a mãe, bastante deterioradas, esgarçaram-se. Quando ela morreu, em junho de 1937, ele não compareceu ao enterro, enviou apenas uma coroa de flores escrita em russo e georgiano. Uma anotação a lápis, em georgiano, no que restou do caderno de Keké, registrou o seguinte diálogo da mãe com o filho:

– Iosif, o que você é agora?

– Secretário-geral do Partido
Comunista.

– O que é isso?

– Mamãe, lembra-se do nosso czar?

– Claro!

– Pois bem. De certa forma, sou o novo czar.

E Keké, finalizando o diálogo, com aquela tristeza resignada:

– Pondo tudo na balança, você teria feito melhor virando padre.

Naquela confusão de vozes do passado, ainda brilhava uma última epifania de lucidez.