Arquivo mensais:fevereiro 2013

Com a ajuda de Vargas, Bresser desconstrói FHC

Por Paulo Henrique Amorim no Conversa Afiada

O que separa Vargas e Bresser de Fernando Henrique é o nacionalismo.


Em dezembro de 1994, já eleito presidente, FHC alegou restar “um pedaço do nosso passado que ainda atravanca (sic) o presente e retarda o avanço da sociedade. Refiro-me ao legado da Era Vargas, ao seu modelo autárquico e ao seu Estado intervencionista.” (Folha (*), 18/dez/1994)

Em 1999, o ex-presidente avaliou seu primeiro mandato como o início da superação da Era Vargas: “Eu disse … quando fui eleito, que queria botar fim na Era Vargas … Acho que estamos de viver sob o mando do que Getúlio fez.” (in Saretta, F. – “O jornal O Estadão de S. Paulo e Getúlio Vargas” – Encontro Nacional de Economia Política, 9, 2004, Uberlândia, 2004, p.4)

Essas inesquecíveis afirmações – um misto de megalomania, arrogância e tiro no pé – foram extraídas de “A Era Vargas – Desenvolvimentismo, economia e sociedade”, organizado por Pedro Paulo Zahluth Bastos e Pedro Cezar Dutra Fonseca, Editora Unesp, Instituto de Economia da Unicamp, e Centro Internacional Celso Furtado, 2011, São Paulo.

Ali está, também, “Getúlio Vargas: o estadista, a nação e  democracia”, ensaio de Luis Carlos Bresser-Pereira, p. 93.

Bresser quer provar que Vargas foi o maior estadista brasileiro do século XX e, na História brasileira, só se compara a José Bonifácio.

Trata-se de um ensaio de “teoria política”, em que “importa saber como a ação política de Vargas se relacionou com a construção da nação e do Estado brasileiro, e, em consequência, com a revolução industrial e nacional, e com a transição de um Estado oligárquico para um democrático.”

“Vargas tem muitos adversários: desde os remanescentes da oligarquia exportadora paulista e dos intelectuais de esquerda da Escola de Sociologia da Universidade de São Paulo até os neoliberais de hoje cuja hegemonia desde 1991 levou o Brasil novamente à condição de quase colônia.”

Fernando Henrique, como se sabe, se enquadra em duas das três categorias de adversários de Vargas: ele foi da Escola de Sociologia da USP e de esquerda, a ponto de usar o método marxista de análise – embora, depois, numa entrevista ao Mino, dizer que tinha retirado a informação na segunda edição de um de seus (ilegíveis) livros.

E, como se sabe, o Farol de Alexandria foi o patrono e teólogo do neolibelismo (**).

E só não devolveu o Brasil à posição de colonia – depois de tirar os sapatos -, porque foi destruído por um terremoto de nome “Lula”.

Nessas duas condições – ex-esquerdista e neolibelista (**) – ele serviu aos interesses da oligarquia exportadora paulista e suas ramificações na Avenida Paulista, onde o casarão do barão do café se converteu em arranha-céu de banqueiro.

Bresser-Pereira rompeu com o PSDB de Fernando Henrique, quando chegou à conclusão de que o PSDB era irremediavelmente entreguista.

(Conta-se que Bresser foi a um cartório para se desligar formalmente, inequivocamente,  do partido entreguista.)

O importante ensaio de Bresser pode ser lido nesse timbre: os teóricos da “dependência associada” fracassaram e Vargas está vivo.

Os que tiraram o sapato se baseavam numa pesquisa de meia sola do próprio Fernando Henrique para provar que o Brasil não tinha burguesia.

(Quando Fernando Henrique foi eleito, este ansioso blogueiro entrevistou Albert Hirschman, na Universidade de Princeton, para um “Globo Repórter” especial sobre o novo presidente. O ansioso blogueiro perguntou a Hirschman, professor e amigo de Fernando Henrique, o que achava da “teoria da dependência”. O professor alemão respondeu: “a própria eleição do autor da teoria é a prova de que ela não funciona”. O ansioso blogueiro teve que trocar alguns impropérios ao telefone para assegurar que a declaração constasse do encomiástico perfil.)

“O nacionalismo é essencialmente a ideologia da formação do Estado-nação; é a ideologia que um povo, sentindo-se capaz de se transformar em uma nação, usa para poder dotar-se de um estado com soberania sobre seu território,” diz Bresser.

“Nos 15 anos de seu primeiro Governo, são criadas a Companhia de Álcalis, e a Companhia Vale do Rio Doce (que o FHC e o Padim Pade Cerra venderam na bacia das almas – PHA); no seu segundo Governo, entre 1951 e 54, a Petrobras (que o Farol de Alexandria e o Cerra quase entregam à Chevron – PHA), a Eletrobrás e o BNDES.”

“Foi a primeira vez na histórica política do Brasil que um grande líder politico foi buscar as bases de sua legitimidade no povo, especificamente nos trabalhadores urbanos que já começavam então a se manifestar por meio de movimento sindicais.”

Vargas fundou o primeiro partido de massas do país, o Partido Trabalhista Brasileiro, que o jenio do Golbery desfigurou, mas que se refez no PT.

Vargas fez a CLT, a lei do salário mínimo.

Ao equipar o Estado, construir uma Nação com a incorporação dos pobres ao processo político, Bresser conclui que Vargas fincou as bases de regime democrático.

Democracia que os aliados do Fernando Henrique dinamitaram com o suicídio de Vargas, a tentativa de impedir a posse de JK – o sucessor de Vargas -, o Golpe contra Jango, Brizola, Lula e Dilma (o último, ainda em curso).

Clique aqui para ler “FHC: de Marx a Gabeira”.

(*) Folha é um jornal que não se deve deixar a avó ler, porque publica palavrões. Além disso, Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele achou da investigação; da “ditabranda”; da ficha falsa da Dilma; que veste FHC com o manto de “bom caráter”, porque, depois de 18 anos, reconheceu um filho; que matou o Tuma e depois o ressuscitou; e que é o que é,  porque o dono é o que é; nos anos militares, a  Folha emprestava carros de reportagem aos torturadores.

(**) “Neolibelê” é uma singela homenagem deste ansioso blogueiro aos neoliberais brasileiros. Ao mesmo tempo, um reconhecimento sincero ao papel que a “Libelu” trotskista desempenhou na formação de quadros conservadores (e golpistas) de inigualável tenacidade. A Urubóloga Miriam Leitão é o maior expoente brasileiro da Teologia Neolibelê.

A chegada dos novos tempos

 

Nesses dias tenho procurado expor os novos valores que passam a dominar a política brasileira. São ideias cujo tempo certo chegou, para usar a expressão de Abraham Lincoln.

O grande problema brasileiro é a falta de instituições que garantam a continuidade dessas novas ideias, desse novo tempo.

O primeiro problema sério é o Congresso e o modelo político.  Ninguém sabe a rigor quem é seu representante no Congresso. Existem deputados bancados por empresas, por setores, grupos ou corporações.

Na verdade, essa pulverização é própria da Câmara Federal que, espera-se, represente um leque variado de interesses setoriais ou regionais. O problema é o financiamento público de campanha que terminou por jogar nos braços dos grandes grupos a definição da lista de candidatos partidários (escolhe-se quem tem mais possibilidade de trazer financiamento para o partido). Ou seja, os agentes orquestradores das demandas deveriam ser os partidos políticos, definindo programas claros. Mas não existem.

Esse modelo levou aos governos de coalizão e a crises institucionais periódicas, lembra o leitor Igor Cornelsen, que vão do suicídio de Vargas, à renúncia de Jânio, ao golpe de 64, ao impeachment de Collor.

Outro ponto sensível é a questão do desenvolvimento.

Na Ásia, o modelo econômico é o mesmo, com a busca da industrialização, do crescimento, da inovação, do emprego qualificado. Entra governo, sai governo, mantem-se os mesmos valores e as mesmas linhas de ação.

No Brasil, depende do governo de plantão. FHC e o governo Lula (até a crise de 2008) vieram a reboque dos ventos internacionais. Só quando a crise internacional explodiu, o país conseguiu se livrar da inércia na política econômica.

Agora, tenta-se retomar o desenvolvimentismo, mas com enormes dificuldades em todas as áreas, em sistemas de controle, na mídia, nos setores ambientalistas, nas próprias empresas (muitas delas inconformadas com redução de margem). É só analisar o problema de definir um câmbio competitivo, dos custos do investimento e da falta de competitividade da empresa nacional.

Não se trata, portanto, de um sentimento capaz de garantir o projeto de desenvolvimento independentemente do presidente do momento.

A falta dessas ideias mobilizadoras torna o quadro político instável. Não existem partidos programáticos. O PSDB tentou ser socialdemocrata, tornou-se neoliberal no período FHC e hoje em dia não é nada. No PT convivem desde linhas de pensamento amplamente estatizantes até setores que buscam a social democracia.

Tem-se em Dilma Rousseff e Fernando Haddad um modelo socialdemocrata claro, com atuação indutora forte do Estado e parceria com a sociedade civil – empresas privadas, organizações sociais, etc. Mas seria um pensamento consolidado no partido? Não é certo.

São duas realidades desafiadoras. Numa ponta, a Internet avalanche de novas ideias que brota das discussões públicas nas redes sociais; novos grupos sendo incluídos no debate. Na outra, um aparato institucional anacrônico, dos partidos políticos às máquinas estaduais e federal, passando pelos demais poderes – incluindo a mídia.

Este será o desafio das próximas décadas: criar instituições suficientemente dinâmicas para absorver o novo.

Maquiavélico, Ratzinger acua oposição a Bento 16

Sucessor de João Paulo 2º, que mudou o mundo, Joseph Ratzinger muda a Igreja com homilia histórica em missa um dia após anunciar sua renúncia; maior teólogo da velha geração do cardinalato, papa apontou “divisão no corpo eclesial”, “hipocrisia religiosa” e busca por “aplauso e aprovação”; ataque direto aos adversários; Bento 16 colheu aplausos de 5 mil pessoas ao vivo; ele será o primeiro sumo pontífice em quatro séculos que deixará a Santa Sé andando – e não deitado num caixão coberto de glórias; tornou-se o maior eleitor de sua própria sucessão e, de quebra, avisou que vai nomear o futuro presidente do Banco do Vaticano

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Por Marco Damiani  no Brasil 247

Gênio! Primeiro papa da era moderna a renunciar ao pontificado, o alemão Joseph Ratzinger ao projetar a morte anunciada, no dia 28 de fevereiro, de seu alter ego Bento 16 será o primeiro sumo sacerdote a sair andando da Praça de São Pedro com destino a uma residência pertencente à própria Igreja – e não, como todos os demais, desde a única renúncia registrada anteriormente, no século 16, deitado, coberto de glórias, dentro de um caixão. Nenhum daqueles papas mortos ressuscitou. Ratzinger, ao contrário, irá recuperar sua própria vida, deixando atrás de si envergonhados e humilhados todos os que contra ele praticaram a costumeira luta interna que corre solta na Santa Sé.

Fala, sobre o gesto papal, o teólogo suíço Hans Küng:  ”A decisão de Bento 16 merece grande respeito, é legítima, compreensível e também corajosa. Nunca esperei que este papa conseguisse me surpreender, algum dia, de maneira tão positiva”, disse o estudioso, com quem Ratzinger teve mais de uma polêmica. O registro é da professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, Maria Clara Lucchetti Bingemer.

Traído por seu mordomo, Paolo Gabriele, que divulgou à mídia, no ano passado, um pesado lote de  seus documentos pessoais, e após ser informado por um triunvirato de cardeais octagenários escolhidos a dedo – o espanhol Julián Herranz, 82 anos; o italiano Salvatore De Giorgi, 82 anos, e o eslovaco Jozef Tomko, 88 anos — que a Cúria Romana resistiria firmemente às suas ordens de transparência administrativa nos negócios do Vaticano, Bento 16 começou, então, a agir como Ratzinger. Joseph Ratzinger, o cardeal que fora o braço forte de Karol Wojtila, Papa João Paulo 2º, diante dos seus pares, como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, possibilitando ao chefe a tranquilidade necessária na retaguarda para fazer nada menos do que derrubar o comunismo e mudar o mundo em definitivo. Uma espécie de secretário-geral da Igreja, astuto a tal ponto que, sustentando o papa polonês, fez-se o primeiro papa alemão da história. Molezinha?

Ontem, na última missa de seu pontificado com data para expirar, voltou a ser Bento 16 e deu uma aula a seus traidores. Abriu, como nunca antes, o verbo quase divino. “Jesus denunciou a hipocrisia religiosa, o comportamento que quer aparecer, a atitude que busca o aplauso e a admiração”, disse ele, diante de cinco mil fiéis. “O rosto da igreja é, às vezes, deturpado pela divisão no corpo eclesial”, cravou, falando abertamente na luta interna que, suspeita-se ainda hoje, pode ter matado, por envenamento, o antecessor de seu antecessor, o sorridente Albino Luciano, por apenas 33 dias João Paulo 1º (http://virtualia.blogs.sapo.pt/28262.html).

Ao encerrar a missa inesquecível, na qual lições de moral, de ética e de política deverão ainda ser estudadas ao longo da história – “mesmo nos nossos dias, muitos estão prontos para rasgar-se as vestes diante de escâdanlos e injustiças, naturalmente cometidas por outros, mas poucos parecem disponíveis para agir sobre seu próprio coração, sua própria consciência e suas próprias intenções” –, Bento 16 foi aplaudido como um super star. Um mártir em vida que irá ele próprio retirar de seu dedo o anel de Pedro para que seja moldado a outro.

Na saída planejada com mágoa e segredo – apenas seu irmão Georg, segundo a revista italiana Panorama, teria dividido com Ratzinger as angústias e preparações para o gesto crucial, a partir de uma conversa em 17 de dezembro –, Bento 16 não deixou barato. Ele já anunciou, por meio do secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone, que vai nomear o futuro presidente do Banco do Vaticano. Bertone, ironicamente o segundo homem na estrutura da Santa Sé, é acusado de ter feito pressão para que fosse demitido do cargo Ettore Gotti Tedeschi, pessoa de confiança do papa e membro da Opus Dei – a poderosa ordem que teve papel relevante com João Paulo 2º e continuou tendo com Joseph Ratzinger. Gotti Tedeschi, acusado de má gestão, sem maiores especificações, foi afastado em maio do ano passado.

Bento 16 teria admitido, segundo a Panorama, “talvez pela primeira vez”, após ler os relatos de seus três cardeais de confiança sobre as resistências às mudanças, “ter descoberto uma face da Cúria vaticana que jamais tinha imaginado. Antes do Natal começou a pensar seriamente em sua renúncia”.

Está feito, mas está em curso. Com sua saída em grande estilo único, Ratzinger vai influenciar diretamente no conclave de sua sucessão. É possível prever uma forte radicalização entre os cardeais. Os perdedores de hoje irão puxar a corda para mais conservadorismo, talvez lutando pela nomeação de um italiano afeito às intrigas tradicionais da Santa Sé. A corrente renovadora, de Ratzinger, tentará os varrer para baixo dos tapetes da Igreja, lançando o nome do novo sobre o novo — nunca antes na história a Igreja tivera, afinal, um papa alemão. As chances de um brasileiro emplacar, com nosso jeito conciliador de sermos e estarmos, residem na síntese desse embate. Pode ser, mas diante de tanta agitação o prudente parece ser os cardeais optarem por um ou mais passos atrás. Estão grogues com a saraivada de golpes de Ratzinger, essa é a real.

Ao retirar-se para um casa da Igreja perto de Roma, já é certo que Ratzinger, pela força moral alcançada de imediato por sua renúncia, continuará sendo uma referência para a Igreja e o mundo. Uma sombra para o próximo papa. Um teólogo influente e admirado. Talvez um Papa do B, um sumo pontífice paralelo. Como Lula está para Dilma, captaram? Um gênio da política interna do Vaticano, sem dúvida. Se o Papa João Paulo 2º mudou o mundo, como mudou, Bento 16 está mudando a Igreja.

A distribuição da renda dez anos depois

Por João Sicsú na  Carta Capital

Após dez anos de governos do PT, pode-se detectar uma importante melhora no perfil da distribuição da renda no País. Não vivemos em nenhum paraíso. Muito longe disso. Mas, em contrapartida, a situação é muito melhor que a do final dos anos 1990 e início dos anos 2000.

Fonte: SCN/IBGE

Fonte: SCN/IBGE

 

O índice de Gini foi reduzido. Este índice mede a distribuição da renda e varia entre 0 e 1. Quanto mais próximo de 1, maior a desigualdade e quanto mais próximo de zero, maior a igualdade. O Gini brasileiro caiu de 0,585, em 1995, para 0,501, em 2011. Contudo, este é um número que ainda está distante dos índices de países tais como França (0,308) ou Suécia (0,244).

No início dos anos 1960, o Brasil possuía um Gini inferior a 0,5. Entretanto, os governos militares (1964-1985) adotaram um modelo de crescimento econômico com concentração de renda. O Gini subiu. Em meados dos anos 1990, com a queda da inflação, o índice de Gini sofreu uma redução.

O índice de Gini é calculado com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE. Mais de 96% das rendas declaradas na Pnad correspondem às remunerações do trabalho e às transferências públicas. Sendo assim, a desigualdade medida pelo Gini/Pnad não é adequada para revelar a distribuição da renda entre trabalhadores, de um lado, e empresários, banqueiros, latifundiários, proprietários de imóveis alugados e proprietários de títulos públicos e privados, de outro. O índice de Gini não revela a participação das rendas do trabalho e do capital como proporção do Produto Interno Bruto (o PIB, que é o valor de todos os serviços e bens que são produzidos).

Além do Gini, é preciso analisar a distribuição funcional da renda: capital versus trabalho. O processo de desconcentração da renda que está em curso no Brasil vai além da redução do índice de Gini. Ocorre, principalmente, devido ao aumento da participação dos salários como proporção do PIB.

Fonte: IBGE

Fonte: IBGE

 

Houve uma trajetória de queda da razão salários/PIB de 1995 até 2003, quando caiu a um piso de 46,23% (incluindo as contribuições sociais dos trabalhadores e excluindo a remuneração de autônomos). A partir de então, houve uma inflexão na trajetória, que se tornou ascendente. O último dado divulgado pelo IBGE é de 2009. Neste ano, a participação dos salários alcançou 51,4% do PIB superando a melhor marca do período 1995-2003, que foi 49,16%.

São variadas as causas do movimento positivo de aumento da participação dos salários no PIB. O rendimento médio do trabalhador teve um aumento real significativo entre 2003 e 2012.  Houve um vigoroso aumento real do salário mínimo nos últimos dez anos. E houve redução dos juros pagos pelo governo aos proprietários de títulos públicos e redução dos juros cobrados das famílias pelos bancos.

O índice de Gini/Pnad e a participação percentual das remunerações dos trabalhadores no PIB são medidas complementares. Ambas representam dimensões da desigualdade e do desenvolvimento socioeconômico do país. As duas medidas mostram que o desenvolvimento socioeconômico brasileiro está em trajetória benigna desde 2003-4. Elas mostram também que no período anterior (1995-2003) as rendas do trabalho perdiam espaço no PIB para as rendas do capital.

A recuperação do poder de compra dos salários foi o principal pilar da constituição de um imenso mercado de consumo de massas que foi constituído no Brasil nos últimos anos. Foi a formação desse mercado que possibilitou ao Brasil sair apenas com pequenos arranhões da crise de 2008-9. O desenvolvimento econômico e social brasileiro depende, portanto, do aprofundamento do processo distributivo em curso. Não existirá desenvolvimento sem desconcentração de renda.

Negociação da MP dos portos tem limite

União traça limite para a negociação da MP dos portos
Por Daniel Rittner, Francisco Góes e Fernanda Pires no Valor Econômico

Porto

Sob a ameaça de greves, pressão de empresários e diante de 646 emendas no Congresso, o governo não admite mexer em dois pontos fundamentais da medida provisória que alterou o marco regulatório dos portos: a liberação de novos terminais privativos sem a exigência de carga própria e a relicitação de terminais públicos arrendados à iniciativa privada antes de 1993.

Para evitar mudanças nesses dois pontos, o Palácio do Planalto mobilizará sua “tropa de choque” no Congresso e descarta a adoção de um substitutivo à MP 595, como almejam trabalhadores do setor e arrendatários de terminais públicos. O governo também não abre mão de centralizar em Brasília as decisões do setor. As Companhias Docas não serão mais responsáveis pelos novos contratos de arrendamento, que ficarão diretamente a cargo da Secretaria de Portos.

Os terminais privativos só podiam ser implantados se as empresas movimentassem cargas próprias, podendo até embarcar ou desembarcar mercadorias de terceiros de forma residual. Com a MP, a restrição acabou, provocando a ira de arrendatários de terminais públicos. Além disso, eles têm de pagar outorga à União e são obrigados a contratar mão de obra em regime especial nos órgãos gestores do trabalho portuário. Por isso houve resistência dos sindicatos, já que o crescimento dos portos tende a ocorrer sobretudo nos terminais privativos.

O governo se dispõe a analisar mudanças no texto em tramitação, como maior proteção aos trabalhadores nos terminais privativos, desde que haja consenso no setor. E deve mostrar-se aberto a discutir o pagamento de indenizações aos atuais arrendatários de terminais públicos com contratos anteriores a 1993 para levar adiante sua relicitação.

Em Santos, o maior porto do país, a expectativa é que, aprovada como está, a MP esvazie o complexo, já que ela permite a instalação de terminais privados fora do porto organizado, em áreas contíguas hoje inexploradas. O temor é que a MP estimule a autorização de terminais privados, promovendo a fuga de cargas.

Hoje representantes de centrais sindicais e dos trabalhadores portuários se reúnem com a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, para discutir as mudanças na MP.

Escassez pauta nova geopolítica dos alimentos

Por Lester Brown

INDIA-ECONOMY-CABBAGE

O mundo transita de uma era de abundância de alimentos para uma de escassez. Na última década, as reservas mundiais de grãos diminuíram um terço. Os preços internacionais dos alimentos cresceram mais que o dobro, disparando uma febre pela terra e dando lugar a uma nova geopolítica alimentar. Os alimentos são o novo petróleo. A terra é o novo ouro.

Esta nova era se caracteriza pela carestia dos alimentos e pela propagação da fome. Do lado da demanda, o aumento demográfico, uma crescente prosperidade e a conversão de alimentos em combustível para automóveis se combinam para elevar o consumo a um grau sem precedentes.

Do lado da oferta, a extrema erosão do solo, o aumento da escassez hídrica e temperaturas cada vez mais altas fazem com que seja mais difícil expandir a produção. A menos que se possa reverter essas tendências, os preços dos alimentos continuarão subindo e a fome continuará se espalhando, derrubando o atual sistema social.

É possível reverter essas tendências a tempo? Ou os alimentos são o elo frágil da civilização do começo do século 21, em boa parte como o foi em civilizações anteriores, cujos vestígios arqueológicos agora são estudados?

Essa redução no fornecimento de alimentos no mundo contrasta drasticamente com a segunda metade do século 20, quando os problemas dominantes na agricultura eram a superprodução, os enormes excedentes de grãos e o acesso aos mercados por parte dos exportadores desses produtos.

Nesse tempo, o mundo tinha duas reservas estratégicas: grandes sobras de grãos (com uma quantidade no lixo ao começar a nova colheita) e ampla superfície de terras de cultivo não utilizadas, no contexto de programas agrícolas norte-americanos para evitar superprodução. Quando as colheitas mundiais eram boas, os Estados Unidos faziam com que mais terras estivessem ociosas. Quando eram inferiores ao esperado, voltava a colocar as terras para produzirem.

A capacidade de produção excessiva foi usada para manter a estabilidade nos mercados mundiais de grãos. As grandes reservas de grãos amortizavam a escassez de cultivos no planeta. Quando a monção não chegou à Índia em 1965, por exemplo, os Estados Unidos enviaram um quinto de sua colheita de trigo para esse país, para evitar uma fome de potencial catastrófico. E graças às abundantes reservas, isto teve pouco impacto sobre o preço mundial dos grãos.

Ao começar este período de abundância alimentar, o mundo tinha 2,5 bilhões de pessoas. Atualmente tem sete bilhões.

Entre 1950 e 2000, houve ocasionais altas no preço dos grãos, devido a eventos como uma seca severa na Rússia ou uma intensa onda de calor no Meio-Oeste norte-americano. Mas seus efeitos sobre o preço tiveram vida curta. No prazo de um ano as coisas voltaram à normalidade. A combinação de reservas abundantes e terras de cultivo ociosas converteu esse período em um dos quais houve maior segurança alimentar na história.

Contudo, isso não duraria. Em 1986, o constante aumento da demanda mundial de grãos e o custo orçamentário inaceitavelmente alto levaram à eliminação do programa norte-americano de reservas de terras agrícolas.

Atualmente, os Estados Unidos têm algumas terras ociosas no contexto de seu Programa de Reserva para a Conservação, mas são solos muito suscetíveis à erosão. Acabaram-se os dias em que havia terras com potencial produtivo prontas para serem cultivadas rapidamente em caso de necessidade.

Agora o mundo vive com o olhar voltado apenas para o ano seguinte, sempre esperando produzir o suficiente para cobrir o aumento da demanda. Os agricultores de todas as partes realizam enormes esforços para acompanhar esse acelerado crescimento da demanda, mas têm dificuldades para consegui-lo.

A escassez de alimentos conspirou contra civilizações anteriores. As dos sumérios e maias foram apenas duas das muitas cujo declínio, aparentemente, se deveu à incursão por um caminho agrícola que era ambientalmente insustentável.

No caso dos sumérios, o aumento da salinidade do solo em consequência de um defeito em seu sistema de irrigação, que a não ser por isso estava bem planejado, acabou devastando seu sistema alimentar e, por fim, sua civilização. Quanto aos maias, a erosão do solo foi uma das chaves de seu desmoronamento, como o foi para tantas outras civilizações antigas.

Fazendeiros bloqueiam estrada na Grécia em protesto por melhores condições de produção, na segunda-feira 11. Foto: Sakis Mitrolidis / AFP

A nossa também está nesse caminho. Mas, ao contrário dos sumérios, o que a agricultura moderna sofre é o aumento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera. E, como os maias, também está manejando mal a terra e gerando perdas sem precedentes de solo a partir da erosão.

Atualmente, também enfrentamos tendências mais novas, como o esgotamento dos aquíferos, a paralisação dos rendimentos dos grãos nos países mais avançados do ponto de vista agrícola e o aumento da temperatura. Neste contexto, não surpreende que a Organização das Nações Unidas (ONU) informe que agora os preços dos alimentos duplicaram em relação ao período 2002-2004.

Para a maioria dos cidadãos dos Estados Unidos, que gasta, em média, 9% de sua renda em alimentos, este não é o maior problema. Mas, para os consumidores que gastam entre 50% e 70% de sua renda com comida, duplicar os preços é um assunto muito sério.

Estreitamente ligada à redução das reservas de grãos e ao aumento do preço dos alimentos está a propagação da fome. Nas últimas décadas do século passado, o número de famintos no mundo caiu, chegando a 792 milhões em 1997. Depois começou a aumentar, chegando a um bilhão. Lamentavelmente, se as coisas continuam sendo feitas como de costume, as filas dos famintos continuarão crescendo.

O resultado é que para os agricultores do mundo está ficando cada vez mais difícil ajustar a produção à crescente demanda por grãos. As existências mundiais de grãos diminuíram há uma década e não foi possível recompô-las. Se isso não for feito, a previsão é que, com a próxima má colheita, os alimentos encareçam, a fome se intensifique e se propaguem os distúrbios vinculados à alimentação.

O mundo está entrando em uma era de escassez alimentar crônica, que leva a uma intensa competição pelo controle da terra e dos recursos hídricos. Em outras palavras, está começando uma nova geopolítica dos alimentos. Envolverde/IPS

Lester Brown preside o Earth Policy Institute e é autor de Full Planet, Empty Plates: The New Geopolitics of Food Scarcity (Planeta Cheio, Pratos Vazios: a Nova Geopolítica da Escassez Alimentar), W.W. Norton: Outubro de 2012.

Artigo publicado originalmente no Envolverde