Arquivo mensais:fevereiro 2013

Uruguai propõe trocar armas por computadores ou bicicletas

Governo de José Mujica pretende lançar programa em fevereiro ou março

em Revista Fórum

Governo de Mujica planeja ofensiva contra o tráfico de arma no país (Foto: Presidencia de la República del Ecuador / Flickr)

O governo do Uruguai pretende implementar um programa de troca de armas de fogo por computadores ou bicicletas. O projeto, chamado de  “Armas para a vida”, ainda em fase de elaboração, deve começar em fevereiro ou março.

O Uruguai possui uma população de 3 milhões de habitantes. Estima-se que, para cada cidadão uruguaio, exista uma arma de fogo.

“A campanha propõe uma troca: o cidadão entrega uma arma de fogo e recebe em troca outra: uma arma para a vida”, declarou o Ministério do Interior em comunicado.

O objetivo do governo do presidente José Mujica é que o projeto seja implementado junto com a aprovação de um projeto de lei que converte em crime o porte ilegal de armas e busca combater seu tráfico.

Após promulgada a lei, os uruguaios terão o prazo de seis meses para entregar sua arma ou legalizá-la. Caso contrário, poderão sofrer penas que vão de um a doze anos de prisão.

“São essas mesmas armas as que, em algum momento e por diversas causas como venda e roubo, podem terminar ingressando no mercado ilegal de armamentos ao qual recorrem as pessoas delinquentes”, disse Fernando Gil, responsável pela comunicação do Ministério do Interior uruguaio.

O Uruguai, que orgulha-se de ser um país tranquilo, neste ano já registrou 30 assassinatos. Em 2012, o país fechou o ano com o recorde de 290 homicídios, 90 a mais que em 2011.

Com informações do La Nación.  

Dilma resiste a pressão do PT e evita regular mídia

Por João Domingos n’O Estado de S. Paulo

presidente-dilma-rousseff

Mesmo após pressão do PT, a presidente Dilma Rousseff pretende manter na gaveta o projeto que cria mecanismos de controle dos meios de comunicação. Segundo auxiliares, ela não se sensibilizou com a insistência do presidente do partido. Rui Falcão, e do ex-ministro Franklin Martins. Ex-ministro Franklin Martins, que tratou de tema sob Lula, reuniu-se com presidente; Planalto deixa proposta na gaveta Mesmo pressionada por setores do PT e pelo ex-ministro da Comunicação Social do governo Lu­la Franklin Martins, a presidente Dilma Rousseff pretende man­ter na gaveta a proposta que cria mecanismos para o controle dos meios de comunicação, informa­ram auxiliares do governo.

Segundo eles, Dilma não está sensibilizada com o esforço fei­to pelo presidente do PT, Rui Fal­cão, e por uma ala do partido co­mandada pelo ex-ministro José Dirceu, que insiste na regulação da mídia. Na quarta-feira, duran­te reunião com deputados do PT, em Brasília, Falcão atacou a mídia e acusou setores do Minis­tério Público Federal de atuação política, dizendo que eles fazem a “real oposição” ao governo. O PT promete insistir no tema da regulação ao longo do ano. As palavras do presidente do PT foram ditas um dia depois de a Procuradoria-Geral da Repúbli­ca confirmar que encaminhará à primeira instância as acusações do publicitário Marcos Valério contra o ex-presidente Lula. No depoimento ao procurador-geral Roberto Gurgel, em se­tembro, Valério chegou a dizer que o esquema do mensalão pa­gou despesas pessoais de Lula.

A decisão da presidente de não mexer no projeto de contro­le da mídia ocorre também um dia depois de receber a visita do ex-ministro Franklin Martins, autor da proposta, entregue du­rante o final do governo de Lula. Franklin não quis dar detalhes da conversa com a presidente. “O assunto de uma audiência é exclusivo da presidente Dilma, de quem sou amigo e com quem converso sempre, quase todos os meses”, disse ele ao Estado. Prioridades do PT. No final do ano, logo depois de ter sido con­denado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção e formação de quadrilha no pro­cesso do mensalão, José Dirceu disse que neste ano o PT tem três prioridades: regular os meios de comunicação, fazer a reforma política e provar que o mensalão foi uma farsa. Dirceu e Rui Falcão acusaram os meios de comunicação de terem “pressio­nado” o Supremo a condenar os réus do mensalão. O presidente do PPS, deputa­do Roberto Freire (SP), afirmou que Falcão age como “pau man­dado” de Dirceu quando ataca a imprensa. “Se não existisse a imprensa para dar a conhecer à so­ciedade as malfeitorias do gover­no lulopetista, eles (os petistas) já teriam implantado um regime antidemocrático no qual só vale­riam suas opiniões e ideias.”

O documento do 4º Congres­so do PT, realizado em 2011, “convoca o partido e a sociedade a lutar pela democratização da comunicação no Brasil, enfatizando a importância de um novo marco regulatório para as comunicações, que, assegurando de modo intransigente a liberdade de expressão e de imprensa, en­frente questões como o controle de meios por monopólios, a pro­priedade cruzada, a inexistência de uma Lei de Imprensa, a dificul­dade para o direito de resposta, a regulamentação dos artigos da Constituição que tratam do as­sunto, a importância de um se­tor público de comunicação e das rádios e TVs comunitárias”. Em 2004, Lula enviou ao Con­gresso projeto que criava o Con­selho Federal de Jornalismo (CFJ). O conselho teria poderes, segundo a proposta, para “orientar, disciplinar e fiscalizar” o exercício da profissão e a ativida­de de jornalismo. Diante da re­percussão negativa, o governo re­tirou o projeto de pauta.

ONG reúne mais de 290 mil assinaturas contrárias à eleição de Calheiros

senado-renan-calheiros-pmdb-al-40047

Presidente da Rio da Paz, Antônio Carlos Costa, e outros representantes, aguardam senadores para entregar petição criada na internet

Por Paulo de Tarso Lyra - Correio Braziliense

Representantes da Organização Não-Governamental (ONG) Rio de Paz estão reunidos na porta do Congresso Nacional aguardando a chegada dos senadores para entregar a eles a petição contrária à eleição de Renan Calheiros (PMDB-AL). O senador é o favorito para ocupar a presidência da Casa. Até o momento, eles já conseguiram coletar, via internet, 291.500 assinaturas.

“Nós e outros 24 movimentos anticorrupção não daremos trégua. Não fomos nós que criamos essa situação. Renan renunciou, em 2007, e agora, foi denunciado ao Supremo Tribunal Federal (STF)”, afirma o presidente da ONG, Antônio Carlos Costa. “Ninguém é bobo. Nem quem mora na favela, nem o mais humilde sertanejo faz negócios com quem não confia”. Para Antônio, se o Senado não considera essa pressão popular ‘perdeu a razão do ser social’, já que o parlamento existe para ecoar o desejo do povo.

O fosso que se abre entre opinião pública e opinião publicada

A velha mídia, fora da realidade

el-pais

por MARCELO ZERO e DOUTOR ROSINHA, especial para o Viomundo

Chávez não era Chávez. A foto exibida no último dia 24 de janeiro pelo “El País”, jornal conservador espanhol, havia sido retirada de um vídeo médico de 2008, que mostrava um homem anônimo em coma.

Uma rápida e simples checagem teria revelado o erro grotesco e primário. No entanto, o “El País”, espécie de sucursal ibérica do antichavismo, resolveu arriscar para ver se “colava”. Não colou. Um internauta percebeu logo o erro e o jornal teve de retirar a foto e pedir desculpas. Tirou a foto e imediatamente colocou em si mesmo uma grande e vergonhosa “barriga”, nome que se dá, no jargão jornalístico, a erros desse tipo.

O episódio não é um fato isolado, um simples erro ocasional. Ao contrário. É emblemático de um tipo de jornalismo que se tornou bastante comum, especialmente na América do Sul.

Na Venezuela, na Argentina, no Equador, no Brasil e em outros países do subcontinente pratica-se, com inquietante desenvoltura, um tipo de jornalismo que tem por hábito diário distorcer ou mesmo falsear a realidade.

Os retratos pintados diuturnamente pela mídia tradicional sobre a situação atual desses países apontam para um quadro de caos, desagregação social e política e falta de rumo que encontram pouca ou nenhuma correspondência com a realidade objetiva. Parecem “fotos” grosseiramente retocadas por um photoshop concebido para enfear, ou mesmo simples falsificações, tal como a imagem do suposto Chávez hospitalizado.

No Brasil, por exemplo, há uma década que boa parte da mídia tradicional e oligopolizada divulga “fotos” e “retratos” das supostas mazelas dos governos do PT, apresentados, quase que invariavelmente, como absolutamente incompetentes, irremediavelmente corruptos, solertemente antidemocráticos e francamente desastrosos.

Por aqui, a velha mídia também não se cansa de lançar mão de barrigas homéricas. Basta lembrar a ficha falsa da presidenta Dilma Rousseff, publicada pela “Folha de S.Paulo” em sua capa. Ou então as inúmeras falsas denúncias veiculadas pela revista “Veja” ao longo dos últimos anos, jamais comprovadas, entre elas a suposta conta de Lula no exterior ou o dinheiro que teria sido remetido pelas Farc ao Partido dos Trabalhadores.

Pelo que se divulga em boa parte dessa mesma mídia, o país vive um processo acelerado de decadência desde 2003, quando o governo liderado pelo PT substituiu o “competente”, “limpo” e “democrático” governo de tintas paleoliberais, que havia colocado a nação no rumo “correto” da “modernidade”.

Bem, seria fastidioso enumerar aqui os claros êxitos dos recentes governos brasileiros. Basta fazer análise objetiva dos principais indicadores socioeconômicos para se chegar à inevitável conclusão de que o Brasil, nos últimos dez anos, mudou substancialmente para melhor.

Estudo mundial do Boston Consulting Group, divulgado há poucos meses e solenemente ignorado, coloca o Brasil como o país que mais se destacou na qualidade recente de seu desenvolvimento.

Assim, se alguém quiser entender o que aconteceu no Brasil na última década, não encontrará respostas fidedignas na cobertura da imprensa conservadora. Terá de recorrer a blogs e sites alternativos e a fontes estrangeiras, ou então fazer suas próprias pesquisas.

A imagem do Brasil recente construída por parte expressiva da grande mídia tradicional está tão longe da realidade quanto a foto do homem hospitalizado dista do autêntico Chávez. Na tentativa incansável de “furar” os governos progressistas recentes, produz-se uma pletora de “barrigas”, numa espécie de vale-tudo midiático.

Trata-se, portanto, de uma mídia-barriga, que fábrica notícias distorcidas, enviesadas, exageradas e até mesmo falsas, de forma sistemática. Uma mídia que convive melhor com figuras do submundo do que com a verdade.

Esse distanciamento da realidade, que beira a esquizofrenia, é preocupante. Porém, não é o único. Há também o claro descolamento entre a opinião publicada e a opinião pública. A primeira dedica ódio profundo ao PT e seus governos. Já a segunda consagra Lula e Dilma com recordes de popularidade.

Não por acaso a mídia tradicional passou, nos últimos anos, a questionar a legitimidade do voto popular. Com a candura que lhe é peculiar, ressuscitou a “tese Pelé”, construída na ditadura, segundo a qual o “povo não sabe votar”. Aqueles que votam com a situação o fazem por que são manipulados e desinformados, escravos do Bolsa Família que não têm o hábito de ler Veja e outros modernos bastões do Iluminismo. É um voto que, no fundo, segundo essa concepção, não conta, ou não deveria contar.

Isso nos leva ao terceiro e mais preocupante distanciamento ou descolamento. O distanciamento entre parte da mídia conservadora e a democracia. Em tempos recentes, segmentos da nossa mídia tradicional, honrando uma notável tradição, não se acanharam em aplaudir e defender golpes militares ou “brancos” contra governos progressistas da América Latina, como aconteceu na Venezuela, em Honduras e no Paraguai.

Autoridades eleitas e reeleitas, em pleitos livres e lisos, são tratadas caricatamente como “ditadores”, “caudilhos” e “populistas”, gentalha que ameaça a “democracia”. Provavelmente uma “democracia” sem povo e sem voto, que assegura a independência das instituições, desde que elas sejam conservadoras, e a alternância de poder, desde que entre forças políticas da direita, como no pacto político de Punto Fijo, que dominava, com o aplauso da mídia, a Venezuela pré-Chávez.

Obviamente, nada disso é novidade. A velha mídia do Brasil e de outros países do subcontinente sempre foi muito conservadora. No passado, apoiou ditaduras e esmerou-se na crítica a partidos de esquerda e a movimentos sindicais e sociais a eles associados.

A novidade está em que parte dos países da América do Sul é governada hoje por forças políticas que romperam, até certo ponto, em maior ou menor grau, com a agenda neoliberal que levou os partidos de direita e centro-direita da região à ruína política.

Surgiram ou chegaram ao poder novas forças políticas. De repente, essa mídia, acostumada com o oligopólio político de uma pequena elite, secundada pelos setores conservadores da classe média, viu seu poder de influência decrescer consideravelmente.

Nessa nova conjuntura, a velha mídia revela a sua verdadeira e feroz face: a de um partido de oposição que não mede esforços para recuperar a sua antiga hegemonia e que não tem pudor em atropelar a verdade e as normas básicas do bom jornalismo, colocando em risco a democracia que diz tanto defender.

Entretanto, essa mídia ainda detém firme monopólio da produção e difusão da informação. A internet, por certo, cria circuitos alternativos de debate democrático. Porém, é ilusão pensar que ela, por si só, é capaz de quebrar o monopólio da informação. Na realidade, esse monopólio é também reproduzido no mundo online. A informação destoante ainda é francamente minoritária e escassa.

O Brasil precisa de uma mídia mais aberta, profissional, democrática e, sobretudo, plural, como recomenda, aliás, o relatório intitulado “Uma mídia livre e pluralista para sustentar a democracia europeia”, elaborado recentemente, no âmbito da União Europeia. E seu governo precisa, sim, de críticas consistentes e fundamentadas, e não da atual cachoeira de panfletos histéricos, denúncias vazias, textos mal apurados e mal escritos.

Isso demandaria, obviamente, que se iniciasse um debate amplo, franco e livre sobre a extrema concentração da propriedade dos meios de informação no país. Mas esse é, ao menos por enquanto, um tema tabu, interditado pela mídia conservadora, que alega que tal debate representaria uma ameaça à liberdade de expressão e à democracia.

Uma alegação tão falsa quanto a foto do Chávez no “El País”.

Dr. Rosinha, médico com especialização em Pediatria, Saúde Pública e Medicina do Trabalho, é deputado federal (PT-PR). No Twitter: @DrRosinha; Marcelo Zero, assessor técnico da Liderança do PT no Senado Federal.

Série Diálogos antecipa FSM na Tunísia

Democracia, comunismo, comunicação e revolução estão em debate nos países que viveram a Primavera Árabe

FSMTunisia-tp_330_228

Por Terezinha Vicente
Da Ciranda da Comunicação Integrada

Depois de 2011 muitas coisas aconteceram no Marrocos, Jordânia, Palestina, Egito, Síria, Tunísia, etc. “E nossa missão é reproduzir as informações, há muitas mudanças na região”, disse Hamouda Soubhi, do Marrocos e membro do Comitê Local do FSM 2013, na primeira sessão dos Diálogos promovidos em São Paulo pelo Grupo de Apoio e Reflexão ao Processo do Fórum Social Mundial (Grap). A mesa de terça-feira (29), foi sobre a Primavera Árabe; na quarta (30) houve outra sobre o movimento dos indignados, os Occupies e os protestos recente dos estudantes chilenos.

Todos nos contaram que a luta de seus povos vem de muito tempo, vários ativistas que lideraram os protestos são militantes há décadas, essas revoluções não surgiram de repente, organizadas pela internet, como os meios de comunicação tentam passar. Para Messaoud Romdhani, do Fórum Tunisiano de Direitos Humanos, não é estranho que o movimento na região tenha começado em seu país. “A Tunísia tem tradição de ser moderna”, conta Messaoud e cita como exemplo que “já no século XIX foi o primeiro país árabe a proibir a poligamia, dando status para as mulheres”. Desde os anos 80 e 90, os movimentos começaram a ligar a luta por direitos civis à luta por direitos econômicos, com a união dos sindicatos aos movimentos de mulheres e de luta por direitos humanos.

A participação ativa das mulheres tem sido destaque em toda a primavera árabe, sobretudo porque a cultura ali e a religião islâmica restringem muito os seus direitos. Halima Juini, da organização de mulheres da Tunísia, contou-nos sobre as lutas das trabalhadoras têxteis que ocuparam fábricas para evitar seu fechamento e disse que a participação das mulheres deu nova forma à luta. No início da revolução a união do movimento feminista com o movimento estudantil foi fundamental, diz Halima. A luta deu também às mulheres a coragem de denunciar as violências específicas que as atingem, “muitas vezes tratadas como prostitutas, julgadas moralmente por um conservadorismo que humilha as mulheres”. Foi uma evolução no processo o reconhecimento dos direitos das mulheres como parte dos direitos humanos fundamentais.

Partidos colonizados

A fraqueza dos partidos locais e a interferência dos EUA e aliados são outras características citadas pelos depoentes, que repudiam a mistura de religião com a política, utilizada para a opressão dos seus povos e lutam por uma democracia laica. “Ganhar a eleição é mais difícil do que fazer a revolução, a sociedade é resistente”, pondera Messaoud. O ativista critica o atual governo da Tunísia que “não tem prioridade social porque se baseia numa religião que quer retroceder o país à Idade Média”. Na Síria, a revolução apresenta-se ainda mais confusa para o mundo pelas posições aparentemente progressistas do ditador Bashar al-Assad, que sustenta um regime há 48 anos no poder. “O governo colocou nossa população à mercê dos EUA”, segundo Sara Ajkyakin, ativista exilada no Líbano há dez meses e há três visitando o Brasil para divulgar sua causa. “Derrubar o ditador e seu aparato militar tornou-se objetivo de todos”. Sara diz ainda que a base social da revolução síria é composta por ativistas que apoiam as mulheres, as crianças, os estudantes. A burguesia teria menosprezado os manifestantes inicialmente, dizendo que aquelas pessoas nada representavam.

“Queremos internacionalizar a revolução desde o primeiro dia. Nada esperamos dos PCs que estão com Assad, dizem-no socialista por ser pró-palestino. Digam, que socialista mata mais de 60 mil pessoas do seu país?” , pergunta indignada a jovem representante da Síria. Ela conta que 90% da economia síria é privada e que, destes, 70% das empresas estão nas mãos da família do ditador. “A luta é contra o imperialismo dos EUA e da Rússia; mas os americanos são mais inteligentes, sustentam grupos moderados islâmicos que concordam em submeter-se aos interesses dos Estados Unidos”. Sara protagonizou a polêmica da noite, levantada por um militante na plenária ao defender o governo da Síria com o discurso dos partidos comunistas. “Você tem o direito a ter sua opinião, mas não tem direito aos fatos. Assad contribuiu para o massacre dos palestinos em 67, por que não se fala nisso?”, indignou-se.

Segundo Sara, “na Síria não teria começado uma revolução sem as revoluções na Tunísia e nos outros países árabes”. Para o representante palestino na mesa, Yousef K. Y. Habache, a independência da Palestina só virá junto com a independência dos outros países árabes. Há mais de 65 anos os palestinos lutam pela autodeterminação do seu povo e pelo direito de retorno de seus milhares e milhares de refugiados no mundo todo. Ele mesmo um exilado da Palestina, “não conheço meu filho de 4 meses ainda”, Yousef falou dos 75 mil prisioneiros palestinos em sua própria terra, ocupada pelos sionistas israelenses que “tomaram toda a terra arável e não vão parar por aí”, da greve de fome em que se encontram diversos presos no momento. O ativista considera a “cadeira conquistada na ONU como importante, mas etérea” e denunciou a dupla posição levada pelo Brasil . “Apoiou o direito ao Estado da Palestina na ONU, mas tem economia militar forte que apoia Israel”. Sabemos que o Brasil é um dos bons compradores da avançada tecnologia bélica desenvolvida no Estado de Israel.

Comunicação e Fórum Social Mundial: visibilidade

Desigualdade, injustiça, pobreza, desemprego, precariedade da vida enfim, são condições comuns à maioria dos povos árabes (assim como aos latino-americanos e africanos) e verdadeiros motivos das revoltas populares. O controle da comunicação pelos opressores é outro traço comum. Sara diz que é responsabilidade nossa buscar acesso às informações que não vem pelas vias normais e dá um exemplo. Segundo ela, os dois principais jornais da Síria têm por nomes um deles o nome do partido no poder e o outro, o mês em que esse mesmo partido tomou o poder na Síria. “Depois das revoluções”, falou Hamouda, “os jornais passaram a falar no ‘despertar do mundo árabe’, como se os nossos povos estivessem dormindo!”, ironiza. Realmente, é muito preconceito e presunção de superioridade ocidental.

Ben Amor Romdhane, membro do comitê do FSM na Tunísia, também falou que a revolução não foi feita na internet, mas que ela propiciou um avanço no direito à comunicação. “A revolução foi fruto da coalizão dos movimentos de mulheres, estudantil, sindical e outros misturados aos blogueiros que quebravam códigos sociais criticando o governo na internet, alguns tendo pago alto preço por isso”. Chegou um momento na Tunísia em que o policiamento na internet filtrava e censurava informações, vários sites foram fechados, deixando o país sem informações do mundo e nem para o mundo. “Nos primeiros dias da revolução tivemos os blogueiros unidos, criando seus canais de comunicação, usando os celulares para enviar fotos do que acontecia”, disse o ativista. “Os blogueiros conquistaram o direito à informação, mostraram que ela não pode ser propriedade de poucos”.

“Há contradições em nossas revoluções”, confirma Sara ao responder questionamentos da plenária, “mas só participando delas, e em conjunto com a classe trabalhadora de todo o mundo, vamos atacar o imperialismo não só com palavras”. Questionou o internacionalismo e o socialismo de Hugo Chavez, “que enviou diesel para bombardear nossas vilas”. Ainda que o povo árabe se una por justiça, liberdade e dignidade, “a força do dinheiro vindo do Catar, Arábia Saudita e EUA leva o apoio aos reacionários”, falou Halima. “Eles dizem querer um Islã moderado, mas o dinheiro e o petróleo são suas principais causas”.

Por tudo isso, nova edição do Fórum Social Mundial acontecendo naquele lado do mundo é muito importante para a continuidade dos processos de transformação social e para a visibilidade internacional da luta dos povos árabes. “O FSM, com a ideia de misturar as lutas por todos os direitos, foi inspirador para a Tunísia”, diz Messaoud. “O FSM chamará a atenção do mundo para a Tunísia, mostrando um governo islâmico que quer voltar para a Idade Média. Pobreza, desigualdade, desemprego são problemas que estão no mundo todo”.

Essa é a idéia original do FSM, proporcionar o contato e a troca de experiências entre os que almejam um outro mundo melhor, fortalecendo a luta global. “A causa palestina é uma causa humana”, falou ainda Yousef Habache, “queremos solidariedade, mas queremos ser solidários com os outros povos, globalizar a luta e os direitos humanos”. Essa é outra característica comum nos depoimentos sobre a primavera árabe, a certeza de que a luta continua. “Os movimentos sociais não param de crescer e se manifestar diariamente”, disse Ben Amor. “Acredito que a revolução não terminará enquanto não se conquiste equidade e igualdade social”. Tomara.

Foto da manchete: Terezinha Vicente

Só traição evita vitória anunciada de Renan

Agencia-Brasil310811ANT_004944

No blog Balaio do Kotscho

Como uma boiada que segue placidamente para o matadouro, o Senado Federal se prepara para eleger seu novo presidente, Renan Calheiros (PMDB-AL), a partir das 10 horas da manhã desta sexta-feira.

Denunciado semana passada pelo Ministério Público Federal, Renan nem fez campanha, mas sua vitória está anunciada há meses e só um festival de traições poderá impedir que ele volte a sentar na cadeira de presidente.

Nas contas do PMDB, apesar de todas as acusações feitas contra o senador alagoano desde que se viu obrigado a renunciar à presidência do Senado em outra legislatura, ele deverá ser eleito novamente com algo entre 55 e 60 votos.

Como precisa de apenas metade mais um dos votos dos senadores presentes (maioria simples) e até a véspera só o PSDB e o PSB, com um total de 13 entre os 81 senadores anunciaram que votarão no dissidente Pedro Taques (PDT-MT), a situação de Renan parece cômoda.

O presidente do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), já comemorava: “Renan consegue se eleger tranquilamente, com uma grande folga de votos”.

Um sinal de que a vitória não está tão garantida assim, porque sempre há o risco de traições, foi a decisão do atual presidente, José Sarney, de só conceder a palavra aos candidatos durante o processo de votação, e não também aos lideres dos partidos e outros senadores, como aconteceu em eleições anteriores para a Mesa Diretora do Senado.

Com a desistência de Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), que estava há mais tempo em campanha, os dissidentes de outros partidos, além de PSDB e PSB, apoiarão Pedro Taques.

Pelo menos três senadores petistas são apontados como possíveis dissidentes que não seguirão o acordo firmado entre PT e PMDB para apoiar Renan: Angela Portela, José Pimentel e Eduardo Suplicy.

Como o voto é secreto, o perigo de traição é maior, já que nunca se vai saber quem votou em quem. É melhor esperar sair o resultado no painel eletrônico para ver se a boiada obedeceu mesmo os acordos firmados entre os partidos.

Só uma coisa é certa: a provável eleição de Renan Calheiros no Senado e do deputado Henrique Alves (PMDB) na Câmara Federal, ambos sob graves suspeitas, nos mostra que acabou esta história de “baixo clero” e “alto clero” no Congresso Nacional. Ficou tudo um clero só, nivelado por baixo.