Estatais irrigaram o mercado livre com energia muito barata

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Por Rogério Lessa no Monitor Mercantil

Botequim
O Botequim Desenvolvimentista de hoje traz o engenheiro Roberto D”Araujo,do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico (Ilumina). Ele tem denunciado que as maiores vítimas do modelo privatista do setor de energia adotado pelo governo Fernando Henrique e, segundo ele, mantido nas gestões do PT, são as empresas estatais.

Em reforço a essa crítica, o site Contas Abertas informou que o Grupo Eletrobras, composto por 19 empresas do setor de energia elétrica, deixou de investir 30,9% do orçamento de R$ 8,5 bilhões previstos para ano. O valor é a menor aplicação da companhia nos últimos quatro anos.

Nesta entrevista exclusiva ao MONITOR MERCANTIl, D”Araujo, frisa que a política do atual governo para o setor de energia sempre atendeu ao interesse do grande capital: “E o mercado livre, para o qual foi a grande indústria, era irrigado com energia quase gratuita das estatais”, compara o engenheiro.

am5O ciclo das chuvas parece ter normalizado. Significa que o abastecimento de energia não está mais ameaçado?

O problema não é a baixa hidrologia, que, aliás, no nível atual, é comum em países de clima tropical. O que gostaríamos de entender é por que, partindo de janeiro de 2012 com 78% de armazenamento no sistema, chegamos a dezembro com apenas 37%, sabendo que a hidrologia tinha piorado.

Situação parecida só ocorreu em 2003, mas, na época, a demanda havia caído 15%, situação bem mais confortável. A falta de explicações convincentes abre a possibilidade de que a obsessão por modicidade tarifária tenha atingido a modelagem matemática. O que o setor ainda não se deu conta é que, caso haja uma mudança de critério de despacho térmico, todo o modelo mercantil precisa ser revisto, pois os “certificados” de garantia física estão errados.

Isso ajuda a explicar os apagões recentes de energia no país?

É preciso esclarecer que o problema não é a interrupção, mas, sim, o tempo de recomposição do suprimento, que tem sido muito longo. Se o defeito é originado nas distribuidoras, pode começar com um simples curto e se espalhar por falhas no sistema de proteção que falha em “ilhar” o defeito.

“Apaguinhos” das distribuidoras duram muito tempo em função da filosofia de manutenção dessas empresas que insistem em terceirizar esse tipo de serviço. Rotatividade e diversidade de empresas fazem com que os profissionais não se especializem nas áreas a que atendem. Na transmissão, falta a modernização de subestações nas quais estão conectadas linhas de proprietários diferentes, o que complica as manobras, nem todas automatizadas.

Como avalia a política de energia do Governo Dilma?

A tarifa de energia, que só explodiu sob a gestão da ministra, mostra que há erros óbvios. Nada foi feito então, por que o mercado livre, para o qual foi a grande indústria, era irrigado com energia quase gratuita das estatais. Na minha opinião a política sempre atendeu ao interesse do grande capital.

Energia eólica e solar tem futuro no Brasil?

A energia solar deveria ser incentivada para aquecimento de água. Até hoje milhões de chuveiros elétricos consomem um absurdo de energia. A solar fotovoltaica mereceria uma política de pesquisa de ponta para resolver os problemas de preço. Que eu saiba, não há sinais dessa preocupação.

A oferta de energia é e continuará sendo um fator que limita o crescimento da economia?

Depende do que queremos produzir no longo prazo. Se continuarmos insistindo em fabricar materiais básicos, eletrointensivos, não há energia que chegue. A discussão da matriz deveria começar pela política industrial. No atual governo, a indústria de commodities parece estar no comando.

A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos podem estar em risco por falta de energia?

Triste o país que precisa de um evento esportivo para garantir que sua energia tenha garantia e qualidade.

Como aumentar a oferta de energia no Brasil sem comprometer o meio ambiente?

Não existe fonte energética inocente no meio ambiente. Algumas atingem alguns aspectos e outras se chocam com outros. Mesmo a decantada eólica ocupa extensas áreas, mata aves migratórias e não são agradáveis de se conviver em função do ruído.

A única decisão coerente com a agenda ambiental é procurar eliminar a ineficiência do sistema. Perdas da ordem de 20% na distribuição são inaceitáveis. Eletrodomésticos ineficientes continuam sendo produzidos e só ganham uma letra D. Como são mais baratos, continuam nas tomadas.

Adaptadores se multiplicam aos milhões para atender a uma mudança de padrão feita da noite para o dia sem um estudo de compatibilidade com o que já existe. Fizeram a alegria da indústria elétrica, que ganha bilhões com mais essa trapalhada.

O Brasil está enfrentando os problemas de oferta de energia?

Acho que, fora o que está ocorrendo agora, na minha opinião, um problema de modelo de planejamento que não combina com o modelo de operação, sinceramente, acho que o Brasil não vai enfrentar problemas de oferta. O problema é: a que custo? Como ficará o setor com as estatais fragilizadas? Quem vai entrar de parceiro com os privados para viabilizar projetos que, sem a entrada de sócios institucionais, não sai?

Um projeto para implantação de energia solar em massa no país, voltado sobretudo para aquecimento de água, poderia fazer diferença substancial na demanda de energia?

A utilização óbvia da energia solar no Brasil seria para aquecimento de água. Chuveiros elétricos podem ter potência acima de 5 kw. Como há uma tendência de coincidência de uso horário, pode haver um alívio na hora da ponta, principalmente em São Paulo e no Sul. Se o Brasil passar a adotar a tarifa diferenciada, pode dar uma boa economia na conta.

Por que as hidrelétricas são tão atacadas no Brasil, que tem uma matriz muito mais limpa do que países como a China, por exemplo?

Por incrível que pareça, a China está adotando um sistema eólico, solar, baterias. Não é que a solar e as baterias substituam o vento, mas a intenção é transformar a intermitência da eólica em algo mais amigável com o sistema. Quando o vento pára, as eólicas se desligam abruptamente e isso é péssimo para a estabilidade do sistema.

A China está testando a possibilidade de suavizar a saída das eólicas. Para o campo e para iluminação de estradas, a solar seria muito interessante.

O problema é a manutenção desses equipamentos. Muita pesquisa está sendo feita sobre os painéis para aumento da eficiência. Acho que o Brasil está fora mais uma vez, porque se trata da física de novos materiais.

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