Por Walter Takemoto na Caros Amigos
Nas redes sociais tem uma campanha “de indignação” pela eleição do Renan Calheiros ao cargo de presidente do Senado, cargo que já ocupou antes por sinal. Ressaltam todos o “histórico” de acusações de corrupção e outros delitos cometidos pelo dito senador. Sem dúvida que em um país mais civilizado ele nem mesmo teria conseguido se candidatar, muito menos se eleger.
O que me deixa intrigado, para não dizer abestalhado, é o que me parece ser uma certa ingenuidade das pessoas ou então um certo adesismo sem crítica a qualquer campanha que surge nas redes sociais que pareça “moralizante” da política institucional.
E digo isso pelos seguintes “sintomas”:
- Renan Calheiros foi eleito em substituição ao Sarney, senador com graves acusações de corrupção e desmandos cometidos em suas “propriedades”, Maranhão e Amapá, que comanda com sua ‘famiglia’ utilizando métodos que fazem o falecido ACM parecer coroinha, e que eu me lembre ninguém fez campanha para impedir o coronel de dois estados ocupar a presidência do Senado por várias vezes;
- Sarney e Calheiros são dois políticos que dão apoio e fazem qualquer manobra ou ato pouco recomendável para garantir que os interesses do palácio do planalto (diga-se presidente Dilma e seus partidos da base) sejam atendidos, inclusive todos os dois foram eleitos com o apoio decisivo da presidente;
- Alguns dirão que o PSB e o PDT se rebelaram. É mesmo cara-pálida? Em primeiro lugar que a própria senadora Lidice da Mata declarou que a intenção dos senadores do PSB era ocupar uma das presidências das comissões do Senado, mas que a forma do PMDB conduzir as negociações inviabilizaram um acordo, ou seja, o problema não era ético mas de cargo;
- o senador Simon, que alguns dizem ser o representante da ética, é um senador de qual partido mesmo? PMDB cara-pálida! Pergunto: se o PMDB é composto por gente como Sarney, Renan, entre outros afundados na lama até o pescoço, o que é que ele faz nesse partido?
- E o PDT do Paulinho da Força Sindical? Que foi do João Henrique? Que apoia o PSDB em São Paulo? Que está com quem dá mais cargo? Esse é o representante da ética na política?
Interesses
A questão central, no meu entender, é que seja no Senado ou na Câmara, os senadores e deputados (a grande maioria para não dizer todos) vivem e fazem política a partir dos seus interesses e de seus grupos ou partidos, da manutenção de seus cargos e de seus feudos eleitorais, pouco se importando com os interesses e as lutas do povo.A questão da ética na política passa por derrubar o Renan? E quem vai ser o presidente? E a farra dos cargos com salários que ofendem qualquer trabalhador que vive da sua força de trabalho para sobreviver? E a festa com as emendas parlamentares, grande parte com cartas marcadas? E as ajudas de custo e outros benefícios que são pagos aos parlamentares e que jogam seus rendimentos nas alturas? E o compromisso desses parlamentares e seus partidos com as questões que são centrais para a grande maioria dos brasileiros, como a educação e a saúde pública, a reforma agrária, as políticas de inclusão e respeito aos direitos das mulheres como a descriminalização do aborto, ou dos homossexuais, de criminalização da homofobia, entre outros temas fundamentais quando falamos de direitos sociais e ética nas relações entre os indivíduos?
‘Democracia’
Esse sistema representativo, que dizem ser a democracia, interessa aos poderosos, à elite, aos próprios parlamentares que se transformam em casta e fazem da condição de “políticos” uma profissão, mas que não representa nada de democracia, de direitos e igualdade para a grande maioria da população.
É se iludir, e iludir o povo, dizer que tirar esse ou aquele parlamentar irá representar uma mudança política no Congresso. Mudança verdadeira, que possa representar uma outra concepção de democracia, justiça social e ética no fazer política, se dará no dia em que o povo tiver condições efetivas de determinar os rumos do país, de impor soberanamente sua vontade, de exercer diretamente o poder, sem intermediários, atravessadores e enganadores.
Enquanto isso, sai Sarney e entra Calheiros, sai Maia e entra Alves, a festa continua sendo deles, e nós nem mesmo somos chamados para figurantes dessa festa podre.

