Arquivo mensais:janeiro 2013

Importação de produtos sobretaxados cai 16,4%

Por  Marta Watanabe  noValor Econômico

Caiu o valor das compras no exterior dos cem produtos que tiveram elevação do Imposto de Importação. As compras desses itens somaram US$ 1,92 bilhão de outubro a dezembro, com uma redução de 16,4% em relação aos mesmos meses de 2011. Nesse período, as importações brasileiras totais também tiveram queda, mas bem menor, de 1,8%. Apesar dessa redução nas importações, o desempenho não está sendo comemorado.

Economistas e representantes de entidades de classe observam que outros fatores além do aumento da tributação podem explicar a redução. Cristina Reis, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, lembra que a queda nos desembarques pode refletir o baixo nível de investimento, como resultado da insegurança em relação à economia internacional e doméstica.

Os cem produtos que tiveram elevação do imposto de importação desde outubro já apresentaram redução no valor desembarcado. De outubro a dezembro do ano passado, a importação dos cem itens somou US$ 1,92 bilhão, uma redução de 16,4% em relação aos mesmos meses de 2011. No mesmo período, as importações brasileiras totais tiveram queda, mas bem menor, de 1,8%. Apesar de o governo ter divulgado a medida como instrumento de proteção comercial, o desempenho não está sendo comemorado.

Economistas e representantes de entidades de classe dizem que a falta de reação da produção física industrial e o baixo nível de investimentos explicam boa parte da redução de importação. Isso porque o grupo de cem produtos, que sofreu aumento de tarifas, incluiu insumos e intermediários e também bens de capital e suas partes.

Alguns setores também alegam que houve redução na importação dos insumos sobretaxados, mas aumentou o desembarque de produtos acabados. Procurado, o Ministério do Desenvolvimento não se manifestou.

Do valor importado com os cem itens no último trimestre de 2012, 13,9% correspondem a metais, 16,7% a borrachas e 25% são itens do setor de plásticos. Esses três segmentos contribuíram bastante para a redução da importação dos sobretaxados, com quedas respectivas de 24,1%, 34,8% e 12,9%. Há segmentos, porém, que foram em sentido contrário à média e tiveram elevação de importação. Produtos cerâmicos tiveram alta de 51%, e as partes e peças de calçados, 74,6%.

José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Abiplast, que reúne fabricantes de produtos plásticos, não acredita que a redução de importação dos itens do setor seja uma reação à elevação do imposto de importação. Segundo a associação, a sobretaxa atingiu resinas que são insumos importantes para o segmento, o que também propiciou o aumento dos insumos nacionais. A redução da importação desses itens, diz a Abiplast, está relacionada à fraca produção física da indústria.

O aumento da tarifa de importação sobre insumos, na verdade, diz Roriz, pressionou o custo de produção e tirou a competitividade da indústria doméstica. “Enquanto a importação de resinas sobretaxadas diminuiu, houve elevação da importação de transformados plásticos”, diz ele, em referência aos bens finais. Segundo a Abiplast, no último trimestre de 2012, as importações de transformados plásticos somaram 205 mil toneladas, um crescimento de 17% sobre o mesmo período de 2011.

Além de plásticos, outros setores que envolvem insumos ou intermediários foram sobretaxados. Para Alberto Mayer, presidente da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip), a redução de 24,1% de importação nos itens do setor de borracha, onde são representativos os pneus, está relacionada à queda da produção industrial do setor automobilístico.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção física de veículos automotores caiu 7,5% em novembro em relação ao mesmo mês de 2011. Na comparação acumulada, o recuo foi de 13,3%. A produção da indústria de transformação caiu 0,87% em novembro, e 2,76% no acumulado do ano.

Mayer diz que a medida do governo de sobretaxar pneus é benéfica para a indústria nacional do setor, mas os produtos com proteção adicional são pouco relevantes. “Eles representam de 5% a 10% do mercado de pneus”, diz. Outro problema, semelhante ao de plásticos, é a elevação de imposto aplicada à borracha sintética, insumo importante para a indústria local.

Heitor Klein, diretor da Abicalçados, associação que reúne calçadistas, diz que a sobretaxa praticamente não teve efeito sobre as importações de cabedais, solados e solas de sapato. “A medida foi na direção certa, mas não foi suficiente.” De outubro a dezembro de 2012, a importação de cabedais sobretaxados praticamente dobrou em relação ao mesmo período do ano anterior, e a de solas e saltos de calçados aumentou 16,5%.

Cristina Reis, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), lembra que a redução de desembarques pode ter sido provocada em parte pelo aumento da tributação, mas pode também refletir o baixo nível de investimento do ano passado, como resultado da insegurança em relação à economia, tanto internacional como doméstica.

Entre os cem itens, a importação de reatores, caldeiras e suas partes estão entre as maiores quedas no desembarque no último trimestre do ano passado – 30,4% na comparação com os três últimos meses de 2011. Esse grupo de produtos representa 12,1% dos cem itens que sofreram aumento de alíquotas. A compra no exterior de máquinas, aparelhos elétricos e suas partes, também incluídos nos cem itens, subiu 3,2%. Esse grupo, porém, tem participação menor, de 8%, entre os itens sobretaxados.

José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), não acredita que o resultado da queda de itens de bens de capital possa ser resultado da elevação do imposto. “Os bens de capital são encomendados a prazo longo e não houve tempo para afetar essas importações.” O aumento de alíquotas foi divulgado na primeira semana de setembro e passou a vigorar a partir de outubro.

Castro questiona a eficiência da elevação de alíquota para os cem itens. Mesmo com a redução do valor importado desse itens, diz que a medida não tem boa relação custo-benefício. Levando em conta o universo dos produtos que foram alvo de aumento de tarifa, o Brasil importou cerca de US$ 370 milhões a menos, o que significa 0,6% das importações totais nos último trimestre de 2012. “O Brasil aplicou uma alíquota alta, de 25%, e foi chamado de protecionista por um resultado muito pequeno.”

Para Castro, outro problema é a elevação de custo de produção para as indústrias que importavam insumos e bens intermediários, cujo imposto foi elevado. É possível que, mesmo na troca para o produto nacional, a indústria tenha adquirido insumo mais caro.

Cristina, do Iedi, defende que a medida do governo foi positiva. Para ela, o aumento de alíquotas é recente e é difícil avaliar seu alcance. “O governo sabe que o efeito não acontece da noite para o dia”, diz. Para a economista, a medida ajuda a indústria nacional a recuperar o fôlego. Porém, diz ela, a proteção não deve ser mantida por prazos muito longos, sob risco de acomodação dos fabricantes domésticos dos itens sobretaxados, o que poderia resultar em falta de eficiência e de competitividade.

Entrevista com Jose ‘Pepe’ Mujica – 1/3

No Blog do Luis Nassif

Acompanhe a primeira de três entrevistas que o Desenvolvimentista vai exibir com o Presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, realizadas em 2013 e 2012, em que fala tanto da América Latina, do Mercosul, da China, do consumismo contemporâneo, da ecologia, da prevalência do mercado, do conflito em Gaza, mas também do amor à vida, do temor da morte, da liberdade, dos estóicos, do amor, da solidão, da relação com sua esposa, a senadora Lucía Topolansky.

Conflito no Mali coloca patrimônio da humanidade em risco

Por Ana Paula Ferraz de Oliveira, na Carta Capital

“Um dos meus sonhos sempre foi ir a Tombuctu antes de morrer”, confessou Umberto Eco emNão Contem Com o Fim do Livro. O interesse do escritor e semiólogo italiano era visitar as bibliotecas da região, no centro do Mali, onde floresceu, antes do Renascimento na Europa, o maior núcleo acadêmico e comercial da África.
Mesquita de Sankore, um dos três centros de aprendizado que compõem a medieval Universidade de Tombuctu, no Mali. Ali alunos conhecem os princípios do corão, literatura, ciência, matemática, medicina entre outras disciplinas. Foto: @Unesco/ T. Joffroy / CRATerre-EAG

Mesquita de Sankore, um dos três centros de aprendizado que compõem a medieval Universidade de Tombuctu, no Mali. Ali alunos conhecem os princípios do corão, literatura, ciência, matemática, medicina entre outras disciplinas. Foto: @Unesco/ T. Joffroy / CRATerre-EAG

Desde a Idade Média, Tombuctu atraia estudantes que usavam livros como moeda de troca em busca de conhecimento dos sábios negros do Mali. O patrimônio cultural abriga mais de 700 mil manuscritos produzidos entre os séculos 13 e 20 em línguas árabes e africanas. Felizmente, Eco concretizou o seu desejo e conheceu o local, onde pôde constatar uma cultura oral determinada por livros. Mas quem ainda não teve a oportunidade de conhecer esse patrimônio cultural reconhecido pela Unesco corre o risco de nunca fazê-lo. Como uma miragem, esse oásis de conhecimento em pleno deserto do Saara está à beira do desaparecimento: Tombuctu está tomada pelas forças rebeldes e, na última segunda-feira 14, foi alvo de bombardeios franceses.

A região abriga, ao todo, 26 bibliotecas, espalhadas pelas cidades de Gao (alvo de bombardeios nessa segunda), Bamba, Rhrous, Ber e Tombuctu, capital da região, que concentra mais da metade das obras. Os manuscritos ali guardados versam sobre temas como matemática, química, física, ótica, astronomia, medicina, história, geografia, ciências islâmicas, leis e tratados, jurisprudência e entre outros assuntos. São, portanto, uma das mais importantes de partida para reflexão sobre as tradições escritas na África.

A cidade de Tombuctu. Foto: © UNESCO/ Vorontzoff, Alexis N.A cidade de Tombuctu. Foto: © UNESCO/ Vorontzoff, Alexis N.

Antes do conflito na região, esse legado islâmico, intelectual, acadêmico e espiritual do continente já estava ameaçado por outros fatores. De acordo com o site da Timbuktu Educational Foundation (www.timbuktufoundation.org), que tem a custódia legal dos manuscritos e arrecada fundos para restaurar, preservar, traduzir e publicar os documentos, as páginas estão frágeis e se desintegram facilmente. De acordo com o grupo Tombouctou Manuscripts (www.tombouctoumanuscripts.org), da University of Cape Town (UCT), dedicado à pesquisa de aspectos da escrita e da leitura dos manuscritos, a preservação do patrimônio é “fundamental para modificar a imagem estereotipada do primitivo selvagem como a verdadeira representação da civilização africana”.

“É inexato imaginar um continente africano sem livros, como se livros tivessem sido a marca distintiva de nossa civilização”, afirmou o roteirista francês Jean-Claude Carrière, também emNão contém com o fim do livro.

A cidade de Tombuctu. Foto: © UNESCO/ Vorontzoff, Alexis N.A cidade de Tombuctu. Foto: © UNESCO/ Vorontzoff, Alexis N.

O conflito na região levou a Unesco a fazer um apelo para que todas as forças militares no Mali façam esforços para proteger o patrimônio cultural de Tombuctu. Uma carta assinada pela diretora-geral da entidade, Irina Bokova, foi enviada às autoridades francesas e malinesas invocando a Convenção de Haia, de 1954. “O patrimônio cultural do Mali é uma joia cuja proteção é importante para toda a humanidade. Ele carrega a identidade e os valores de um povo. A atual intervenção militar deve proteger as pessoas e assegurar este patrimônio”, defendeu.

Antecipando as operações militares na região, a Unesco providenciou um levantamento das características topográficas dos monumentos históricos direcionado ao comando das tropas e brochuras individuais com informações para os soldados, com a intenção de prevenir mais danos.

Os alertas não são em vão. O conflito no Mali já provocou perdas relevantes para o patrimônio cultural de Tombuctu no ano passado. Em dezembro de 2012, ao menos três mausoléus foram danificados. Outras ondas de estragos foram registradas em julho do mesmo ano. Na ocasião, a Unesco organizou duas missões de emergência ao país e o Comitê do Patrimônio Mundial criou um fundo de emergência para reabilitação e resguardo dos bens culturais. “A devastação a esse tesouro inestimável é um crime contra o povo de Mali, que sempre mostrou grande tolerância pelos diferentes tipos de religião, crenças e práticas espirituais”, declarou, à época, Bokova.

"Sou a favor da intervenção da francesa", diz o professor malinês Saddo Ag Almouloud, que leciona no Brasil. Foto: Arquivo pessoal“Sou a favor da intervenção da francesa”, diz o professor malinês Saddo Ag Almouloud, da PUC-SP. Foto: Arquivo pessoal

Professor do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação Matemática da PUC-SP, Saddo Ag Almouloud leciona no Brasil mas nasceu numa pequena aldeia na região de Tombuctu chamada Karaukamba. Ele passa férias acadêmicas em Bamako, capital do Mali, que está “relativamente calma”, segundo revelou a Carta Capital. Ele conta que Tombuctu teve a primeira e a maior universidade islâmica da África negra. “Da produção dessa universidade nasceram várias bibliotecas cuja mais conhecida é Ahmed Baba”, explica. Almouloud se declara a favor da intervenção internacional e lamenta os danos aos monumentos já registrados. Ele não acredita, porém, que o patrimônio esteja ameaçado pelos bombardeios franceses, mas pela imprevisibilidade dos jihadistas. “Eles não têm nada de muçulmanos e já destruíram alguns monumentos em Tombuctu. Não acredito que estejam preocupados com esse patrimônio”, afirma.

“Fico profundamente triste pelo que está acontecendo com meu país, sou profundamente contra os jihadistas e completamente a favor da atual intervenção da francesa e internacional, pois o país está correndo perigo de sua existência como nação. Estou torcendo para que o Mali recupere sua estabilidade e paz”, disse.

Thiago Novaes: A pressão para evitar o sistema aberto no rádio digital

Rádio Digital Mundial e a Comunicação Social no século XXI

por Thiago Novaes*, no Coletivo Digital

“A tarefa da radiodifusão, como tudo, não se esgota ao transmitir informações. Além disso, tem que organizar a maneira de pedir informações, isto é, converter os informes dos governantes em resposta às perguntas dos governados. A radiodifusão tem que tornar possível o intercâmbio. Apenas ela pode organizar, em conjunto, as falas entre os ramos do comércio e os consumidores sobre a normalização dos artigos de consumo, os debates sobre altas de preço do pão, as disputas municipais. Se consideram que isso é utópico, eu lhes peço que reflitam sobre o porquê de ser utópico.
 Mas, seja o que for que o rádio trate de fazer, seu empenho deverá consistir em fazer frente àquela inconseqüência em que incorrem, tão ridiculamente, quase todas as instituições públicas.” (Teoria do Rádio, Bertold Brecht)

Faz mais de dois anos, um grupo de pesquisadores vem desenvolvendo pesquisa com o objetivo de subsidiar o governo brasileiro, radiodifusores e ouvintes sobre as possibilidades sócio-técnicas que o padrão DRM de rádio digital pode oferecer para a comunicação social. Vários documentos foram produzidos neste período, todos publicados na Internet [1][2][3], [4][5], apontando para a imensa superioridade técnica do DRM.

Trata-se, resumidamente (DRM para imprensa), de um padrão aberto, regulamentado pela ITU, que funciona em todas as faixas de frequência, que possui o mesmo codec de áudio do Sistema Brasileiro de TV Digital, otimiza o uso do espectro, funciona em baixas potências e consome muito menos energia.

Pensado para ser um padrão global de interesse público, o DRM é o favorito de emissoras educativas e estatais de vários países, e aos poucos vai conquistando novos mercados, combinando desenvolvimento econômico ao social.

Essas características bastariam para eleger o DRM o padrão de rádio digital a ser adotado no país, como já o fizeram a Índia e a Rússia.

Porém, muito mais ainda é possível!

As transmissões digitais de rádio, assim como de tv, não se limitam ao transporte de sinais de áudio ou vídeo, mas se voltam mesmo para emissão de dados, fazendo das plataformas digitais que se utilizam da propagação eletromagnética terrestre e também Ionoférica, meios de comunicação de alta capacidade de fluxo de dados: no caso da TV Digital, estamos falando transmissões de taxas até 19MB/s, ou seja, capazes de viabilizar a transmissão de um filme duas horas de alta-definição em aproximadamente 25 minutos.

Mas o que esses dados querem dizer?

Quando se fala em Internet, serviços gratuitos como Facebook, Blogspot,  Gmail, Youtube, etc., geralmente se esquece que toda esta comunicação e acesso tão importantes ao cotidiano das sociedades pós-industriais, tudo isso depende de uma infra-estrutura que está fora do controle dos usuários, tais como as fibras óticas que garantem, com segurança, que cirurgias sejam realizadas à distância, ou como o endereçamento DNS, ainda concentrado em poucos países e grupos.

Com o Rádio Digital Mundial, pode-se não apenas transmitir áudios com qualidade de cd para o nosso e outros continentes, mas também arquivos, disponibilizando novos serviços, modificando radicalmente conceitos estabelecidos na era analógica, já que mesmo o audiovisual pode também ser transmitido via rádio digital, como no caso do serviço Diveemo, que consiste da transmissão de vídeo via rádio.

Se você leu este post até aqui e deu uma passeada pelos links, já pode imaginar, então, porque os monopólios da comunicação estão trabalhando para evitar ao máximo que o padrão DRM seja o escolhido pelo governo brasuca.

Ao invés do DRM, muitos empresários da comunicação preferem o padrão HD Rádio, propriedade da Ibiquity, padrão este que apesar de ter sido aprovado pela ITU, tem seu codec de áudio como uma “caixa-preta”, é segredo industrial da Ibiquity, funciona mal na faixa do AM, não atende às Ondas Curtas, não funciona bem em baixas potências, consome muito mais energia que seu concorrente DRM, além de não otimizar o uso do espectro.

Como estratégia para deslegitimar o DRM, proliferaram recentemente declarações dúbias, inclusive de membros do governo, realizando uma espécie de trocadilho, como a afirmação de Genildo Lins, de que “os testes com rádio digital não foram bons“.

O secretário de comunicação eletrônica do governo se refere, na verdade, apenas ao padrão que mantém os mesmos emissores de alta-potência, o HD, já que o DRM, além de funcionar em alta-potência, atende às baixas-potências, sendo o único padrão que funciona em todas as faixas de freqüências.

A proposta de adiamento da decisão sobre o padrão de rádio digital vem acompanhada de uma estratégia de se realizar a migração das rádios AM (na verdade, das emissoras AM em Ondas Médias) para o VHF, acabando com a faixa AM, visto que o HD Rádio teve desempenho insatisfatório na faixa do AM. Se o HD não funciona para as AM, acabemos com o AM, propõem as emissoras comerciais!

Paralelas à escolha do padrão, pesquisas vêm sendo realizadas no sentido de se aumentarem as possibilidades de comunicação utilizando o espectro, como proposto pela técnica FHSS, ou atentas à necessidade de Espectro Livre, como descreveu David Weinberg, autor também de “O Mito da Interferêcia no Espectro de Rádio“.

Juridicamente, vale à pena lembrar das recentes iniciativas dos governos da Argentina e Equador que, amparados em suas Constituições, promoveram a divisão do espectro em três, visando assegurar a complementariedade dos serviços privado, públicos e estatal de radiodifusão.

Se bem sucedida, esta política poderia ampliar enormemente o acesso do cidadão não apenas ao consumo plural de conteúdo, mas viabilizar a livre e diversa expressão das pessoas, através doEspectro Livre, sintonizando as possibilidade digitais com o Art XIX da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ratificado no Art 13 do Pacto de San Jose da Costa Rica e presente na Carta Magna brasileira, em seu Art 5o.

Esperamos que este breve artigo sirva de referência para que cidadãos e cidadãs do Brasil, da América Latina e do mundo passem a tomar parte na definição do padrão tecnológico de rádio digital que vigorará em nossas sociedades nas próximas décadas.

Nosso interesse não é mais que promover o debate público, em defesa do interesse público, mas a força dos interesses privados parece novamente tentar se sobrepor ao que é melhor para todos. Contamos com você nesta luta!

*Thiago Novaes é Pesquisador em Telecomunicações, membro do Coletivo Rádio Muda – muda.radiolivre.org – e consultor do http://www.drm-brasil.org/.

Solidariedade incômoda

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Ontem à noite, 150 petistas se reuniram para arrecadar fundos para José Genoíno, José Dirceu e Delúbio Soares, mas foram confrontados pelo protesto solitário de Maria Gabriela de Farias, que sugeria a solidariedade na cadeia. Nesta sexta, Merval Pereira também condena a vaquinha e vê o PT como partido incorrigível e incapaz de admitir erros

Por Brasil 247 

 “Querem ajudar seus amigos? Dividam com eles parte da pena restritiva de liberdade”. Este era o cartaz de Maria Gabriela de Farias, ontem à noite, num jantar promovido pela juventude petista, em Brasília, para arrecadar fundos para os condenados na Ação Penal 470. Ao todo, compareceram cerca de 150 pessoas, que adquiriram ingressos vendidos entre R$ 100 e R$ 1.000. Portanto, uma arrecadação máxima de R$ 150 mil, insuficiente para o pagamento das multas de José Dirceu (R$ 676 mil), José Genoíno (R$ 468 mil), Delúbio Soares (R$ 325 mil) e João Paulo Cunha (R$ 370 mil).

O inusitado da situação é o fato de os responsáveis pelo suposto maior esquema de corrupção de todos os tempos – que teria movimentado mais de R$ 150 milhões, segundo Roberto Gurgel e Joaquim Barbosa – estarem recorrendo a uma vaquinha partidária para arrecadar fundos. José Genoíno, como se sabe, vive numa casa simples no Butantã, que é seu único patrimônio. José Dirceu, ainda que tenha enriquecido como consultor, vive na Vila Clementino. Delúbio Soares, na Consoloção. E João Paulo Cunha não possui patrimônio significativo.Na política brasileira, casos de enriquecimento súbito ocorrem em todos os partidos. Recentemente, descobriu-se que o senador Álvaro Dias possui patrimônio de R$ 16 milhões, que vem sendo disputado por uma filha não reconhecida. Ex-tesoureiros de campanha se tornaram milionários – e há casos até de alguns que tenham se tornado banqueiros.

O ato de solidariedade da juventude do PT a alguns condenados, no entanto, deveria ser apenas isso: um ato de solidariedade promovido por pessoas que acreditam na inocência de amigos e companheiros. Mas foi transformado em ato político por seus adversários, como Maria Gabriela de Farias, que sugeriu solidariedade na cadeia, e Merval Pereira, em sua coluna desta sexta-feira.

No texto “Vaquinha petista”, Merval diz que o jantar organizado em Brasília expressa uma determinação da corrente Construindo um Novo Brasil, que “não tem o menor pudor em defender os condenados do mensalão, uma mácula permanente na história dos Trabalhadores”.

A solidariedade incomoda, no entanto, não por seu aspecto moral – ou supostamente imoral. Mas apenas porque expressa a força do PT como organização política.

A revolução digital da escola

Ampla cobertura de mídia, recebido pela presidente Dilma Rousseff e pelo Ministro da Educação Aloizio Mercadante, elogiado por dois dos maiores bilionários do planeta – Bill Gates e Jorge Paulo Lemann -, tudo isso pode passar a impressão que o norte-americano Salman Khan inventou a fórmula da sabedoria.

Se não inventou, chegou perto.

Para ajudar sobrinhos com dificuldades com matemática e física, Khan montou algumas aulas em vídeo. Depois, postou-as no Youtube. As aulas fizeram sucesso, receberam o elogio consagrador de Gates e foram traduzidas para o português pela Fundação Lemann.

Agora, o MEC planeja incluir o material na estratégia de conteúdo para tablets – após ter adquirido 600 mil tablets para alunos da rede pública.

O método que desenvolveu é simples de entender e dificílimo de massificar na rede convencional, pois significa uma mudança radical em paradigmas pedagógicos velhíssimos.

Em linhas gerais, a filosofia Khan é a seguinte:

Hoje em dia a criançada já nasce digitalizada. E, nos eletrônicos, a figura central são os games, os jogos com vários graus de dificuldade.

Cada criança tem seu próprio ritmo de aprendizado. Algumas passam por todas as etapas rapidamente; outras demoram mais. Mas, passando pelos diversos níveis, todas se encontram no mesmo grau de aprendizagem.

No caso do ensino convencional, o conteúdo é empacotado em aulas de 50 minutos. E todos, na classe, são expostos ao mesmo ritmo. As aulas ainda são fundamentalmente de transmissão de conteúdo.

Pelo método Khan, o conteúdo passa a ser adquirido fora de classe, através de seus vídeos e de equipamentos dos alunos conectados à Internet. Cada aluno terá seu próprio ritmo de aprendizado. Como são aulas à distância, com alunos conectados, o sistema produz gráficos e tabelas mostrando – em tempo real – o ritmo de aprendizado de cada aluno.

Muda-se completamente a natureza das salas de aula e enobrece-se o papel do professor. Nas salas, caberá ao professor promover a interação entre os alunos – por exemplo, colocando alunos com dificuldades junto a alunos mais sabidos. Em vez de ser encarado como o juiz implacável, passa a ser o orientador que ajudará o aluno a ultrapassar os níveis dos games.

Mais do que os vídeos em si, o modelo pedagógico sugerido é a chave para a próxima etapa da educação brasileira, ingressando finalmente na era digital.

O MEC está montando um acervo de material pedagógico digital, disponíveis em tablets. Há mapas dinâmicos, corpo humano. A maioria absoluta das escolas já dispõe de laboratório de informática e os tablets começam a ser distribuídos.

O desafio maior será a reciclagem de professores. Os alunos já nascem plugados; os professores, não. Além disso, a maior parte do ensino médio é de responsabilidade de estados.

A implantação dos novos métodos exigirá parcerias com estados e municípios, cursos intensivos para os professores, de usabilidade dos equipamentos. E, principalmente, a constatação de que tecnologia não substitui nem sala de aula nem professor. Caberá ao professor, na sala de aula, liderar o processo pedagógico.

Novas concessões de rodovias têm disputa acirrada

Leilões de rodovias atraem até 12 grupos
Por Daniel Rittner no Valor Econômico 

Sempre que houver filas de veículos de mais de 200 metros nos pedágios ou quando a espera passar de 15 minutos, as concessionárias terão de liberar as cancelas. Para os usuários de rodovias, essa é uma das mudanças mais significativas da nova rodada de concessões rodoviárias, que vai transferir 7,5 mil quilômetros de estradas federais à iniciativa privada nos próximos três meses.

O governo espera disputa acirrada na primeira etapa dessa rodada, que terá licitação no dia 30 e vai envolver pelo menos seis grupos – CCR, Odebrecht, Invepar, Ecorodovias, Triunfo e Acciona. Será o primeiro teste do apetite dos investidores e incluirá dois lotes: a BR-116, em Minas Gerais, e a BR-040, entre Brasília e Juiz de Fora (MG). Para esses dois trechos ainda não valerá a norma sobre filas no pedágio. Na avaliação oficial, várias empresas “correm por fora” e também mostraram interesse pelas concessões nas audiências públicas feitas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), entre elas Isolux Corsán, Fidens, Barbosa Mello, Cowan e Aterpa.O governo espera uma disputa acirrada entre pelo menos seis grupos – CCR, Odebrecht, Invepar, Ecorodovias, Triunfo e Acciona – na próxima rodada de concessões de estradas. Ao todo, serão transferidos 7,5 mil quilômetros de rodovias federais à iniciativa privada, nos próximos três meses. O primeiro teste ocorrerá no dia 30, quando serão licitados dois lotes, a BR-116 (em Minas Gerais) e a BR-040 (Brasília-Juiz de Fora). Um punhado de outras empresas corre por fora, na avaliação oficial, e também demonstrou interesse por essas duas concessões nas audiências públicas realizadas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT): Isolux Corsán, Fidens, Barbosa Mello, Fidens, Cowan e Aterpa.

As grandes novidades, no entanto, ficam nos sete trechos com leilão previsto para abril. Eles somam 5,7 mil quilômetros de extensão e seus contratos exigem investimentos, sem levar em conta despesas operacionais, de quase R$ 32 bilhões nos 25 anos de duração dos contratos. A malha concedida passa por Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Tocantins, Bahia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Para os motoristas, uma das mudanças mais significativas se fará notar quando houver congestionamentos nas praças de pedágio, comuns em vésperas de feriados. Pela primeira vez nas concessões rodoviárias, as cancelas terão que ser levantadas e não poderá haver cobrança de tarifa, sempre que as filas de veículos ultrapassarem 200 metros de extensão e o tempo de espera exceder 15 minutos. Trata-se de uma prática adotada em outros países, como a Argentina, com o objetivo de estimular a agilidade das concessionárias e diminuir a irritação dos motoristas. Evita-se, assim, a repetição de uma cena já conhecida de muitos paulistas: o trânsito parado durante horas, nos arredores das praças de pedágio, em estradas para o litoral.

“Em cada novo edital, tentamos aperfeiçoar as concessões, mantendo as regras básicas e promovendo inovações”, afirma Natália Marcassa de Souza, diretora da ANTT. Segundo ela, não foi possível incorporar boa parte dessas inovações nos dois primeiros trechos – BR-040 e BR-116 – porque suas licitações vinham sendo preparadas havia cinco anos, enquanto os demais lotes estão com seus estudos frescos e minutas de edital recém-concluídas.

Outra mudança importante, válida apenas a partir dos sete lotes de abril, é o aumento dos critérios de qualificação para a qualificação das empresas que vão entrar na disputa. O governo decidiu fixar uma exigência de patrimônio líquido, entre R$ 400 milhões e R$ 870 milhões, para cada rodovia. Isso impede logo de cara que empreiteiras de médio porte, como Fidens e Aterpa, assumam sozinhas a concessão de uma rodovia como a BR-262 (Belo Horizonte-Vitória). Também inviabiliza que uma empresa como a Triunfo, com patrimônio líquido de R$ 1,342 bilhão ao fim do terceiro trimestre de 2012, leve três lotes ao mesmo tempo – como a BR-101 (Bahia), a BR-060/153/262 (Brasília-Goiânia-Betim) e a BR-163 (Mato Grosso).

Algumas experiências recentes motivaram o governo a definir critérios mais rigorosos. Em 2007, a espanhola OHL venceu cinco dos sete lotes oferecidos pelo governo – incluindo trechos estratégicos como a Fernão Dias (São Paulo-Belo Horizonte) e a Régis Bittencourt (São Paulo-Curitiba) – e jamais conseguiu entregar boa parte das obras exigidas em contrato. Em 2008, o grupo Bertin usou os leilões de energia para vender eletricidade de mais de duas dezenas de térmicas, mas a maioria das usinas não saiu do papel e hoje existem discussões intricadas sobre a devolução delas. Finalmente, no ano passado, o governo se decepcionou com o resultado da privatização de três aeroportos e aumentou as exigências para a rodada seguinte de concessões, em 2013.

Os pedágios, conforme já havia sido divulgado no ano passado, só poderão ter sua cobrança iniciada quando pelo menos 10% das obras de duplicação tiverem sido concluídas. Além disso, os serviços iniciais – intervenções simples como tapa-buracos e melhoria – deverão durar 12 meses, e não mais seis. Só que os reajustes anuais das tarifas ganharão novos componentes.

Um bônus de até três pontos percentuais sobre o reajuste poderá ser dado às concessionárias que reduzirem o nível de acidentes, fatais ou não. Por outro lado, o pedágio cairá se as futuras concessionárias não conseguirem cumprir o novo “índice de disponibilidade” das pistas, a partir do sexto ano de contrato. A regra determina que, para tocar as obras de manutenção das estradas, elas não interditem faixas de rolamento mais do que 3% do tempo durante o dia e mais do que 5% do tempo durante a noite. Quem exceder esse limite terá direito a um reajuste anual menor da tarifa.

O leilão das rodovias, seguindo a forma de disputa adotada nas últimas concessões, terá uma única apresentação de ofertas, sem lances em viva-voz, nos quais os concorrentes podem bater a proposta dos rivais. As ofertas para todos os lotes deverão ser entregues simultaneamente e ganha quem oferecer a menor tarifa.

De forma inédita, não haverá mais necessidade de apresentação do plano de negócios pelas concorrentes, mas apenas uma declaração de instituição financeira que tenha dado aval à viabilidade da proposta apresentada em leilão. O plano de negócios é um documento no qual as empresas demonstram, em detalhes, suas estimativas de receitas e despesas com investimentos.

“Teoricamente, ele serve para mostrar se a proposta do grupo vencedor no leilão é exequível ou não”, diz o presidente da Empresa de Planejamento e Logística (EPL), Bernardo Figueiredo. “Na prática, muitas empresas manipulavam os números apenas para ganhar o aval da ANTT. E isso deixava as portas abertas para pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro no futuro.”

É justamente uma contestação envolvendo o plano de negócios da Ecorodovias, vitoriosa no leilão da BR-101 no Espírito Santo, que ainda que impede a assinatura do contrato de concessão. A licitação, primeira de uma rodovia no governo Dilma, completa hoje um ano. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve, em dezembro, uma liminar pedida pelo consórcio que terminou em segundo lugar na concorrência.

Apesar da experiência negativa com o último leilão federal e da ansiedade em obter uma decisão judicial que lhe permita assumir a administração do trecho capixaba, a Ecorodovias garante que tem estudado sua participação nas próximas licitações.

“A nossa numerologia não está fechada”, afirma Luiz César Costa, diretor de desenvolvimento de negócios da empresa, a respeito das tarifas de pedágio que serão oferecidas, “mas estamos olhando projetos que permitam maior rentabilidade e tenham uma lógica com os nossos negócios futuros”.

O executivo diz que a Ecorodovias está olhando o pacote de concessões “como um todo”, mas reclama do pouco tempo disponível para a análise dos editais, no caso da BR-040 e da BR-116. “Tivemos 30 dias, incluindo Natal e Ano Novo, para avaliar duas concessões que somam 1,7 mil quilômetros de extensão e exigem investimentos de R$ 11 bilhões”, frisa. Para ele, um ponto que aumenta os riscos das próximas licitações é a exigência de duplicação, com trechos superiores a 100 quilômetros por ano, que podem esbarrar em restrições ambientais e falta de desapropriações.

Para dar apoio às empresas, o governo promete outra novidade: a criação de fundos de investimento e participação – coordenados pelo BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal – que poderão ter até 49% do capital acionário das futuras concessões, associando-se aos grupos vencedores na condição de “sócios estratégicos”. O Valor apurou que a intenção do governo é que esses fundos tenham em torno de 20% do capital das concessionárias, evitando chegar a uma participação próxima de 49%.

Embora bem-vinda, essa engenharia financeira foi recebida por boa parte do mercado como um remendo às baixas taxas de retorno das concessões – 5,5% ao ano, em termos reais. “Ninguém tem coragem de dizer para a Dilma que as premissas estão erradas”, diz um executivo de uma grande empreiteira com interesse nas concessões rodoviárias.