Arquivo mensais:janeiro 2013

Lula aos intelectuais: ” Queremos ouvir vocês”

“Não podemos deixar que esse seja apenas um parêntesis progressista em uma história conservadora”, defende Marco Aurélio Garcia

Por Conversa Afiada

Saiu no Instituto Lula:
“QUEREMOS OUVIR VOCÊS”, DIZ LULA EM ABERTURA DO ENCONTRO COM INTELECTUAIS

Acontece nesta segunda-feira (21) o Encontro com intelectuais sul-americanos do Instituto Lula. A reunião reúne 30 intelectuais sul-americanos na busca por caminhos progressistas para o desenvolvimento e integração da América Latina.

Para baixar fotos em alta resolução, visite o Picasa do Instituto Lula.

O ex-presidente Lula abriu as discussões e a primeira mesa teve falas de Aldo Ferrer, economista, ex-ministro da economia, atual embaixador da Argentina na França e Marco Aurélio Garcia, assessor de Relações Internacionais da Presidência da República do Brasil. Depois das falas iniciais, foram abertas as discussões.

O ex-presidente Lula lembrou que os países da região viam os Estados Unidos e a Europa como parceiros preferenciais e ficavam de costas uns para os outros pois não acreditavam que pudesse ser uma relação frutífera. Lula ressaltou ainda que o objetivo é que esta não seja apenas mais uma reunião e que crie mecanismos efetivos para promover essa integração, que transforme consensos em ações efetivas. Lula disse aos participantes que a vontade dos políticos da América Latina  em avançar nas discussões sobre a integração não tem sido acompanhada por ações políticas da mesma força. “Queremos aprender com vocês, saber o que vocês estão pensando esse tema na academia (…) para que sejam criados instrumentos para avançar na integração”.

As intervenções ressaltaram que a América Latina vive um momento de avanços, com governos progressistas, democracia avançando e melhorias sociais. “Nunca tivemos um momento tão propício para este debate “, destacou Aldo Ferrer, que ressaltou três mudanças fundamentais que já aconteceram, a melhora na qualidade das lideranças, o que possibilitou a ênfase no social; o fracasso do neoliberalismo e da crença de que o mercado sozinho resolveria a todos os problemas e a consolidação da democracia.

Marco Aurélio Garcia alerta, no entanto, que não se pode tratar esse momento como “um parêntesis progressista em uma história conservadora”. As políticas sociais parecem ser a grande marca desse novo direcionamento progressista da região, com resultados concretos que já têm gerado.

Diversas intervenções dos intelectuais coincidiram ao apontar a necessidade  de uma ênfase na inovação, na técnica e na indústria com maior valor agregado. “Brasil e Argentina vendem juntos dois terços das proteínas do mundo, mas não agregam valor a esses bens”, disse o economista argentino Bernardo Kosacoff, ex-diretor da Cepal, lembrando que é necessário aproveitar o enorme mercado interno da região e “levantar nossa auto-estima”. O senador uruguaio Alberto Curiel, também enfatizou a necessidade de infraestrutura produtiva integrada e mais valor agregado aos produtos da região. “Temos vários desafios que eu não sei como resolver. É preciso falar com empresários, o Lula está fazendo isso, é preciso falar com trabalhadores, o Lula está fazendo isso, é preciso falar com movimentos sociais, e o Lula já fez isso…”

Curiel criticou, no entanto, a falta de planejamento estratégico, embora reconheça os avanços sociais em toda região. Salomón Lerner, ex-primeiro ministro do Peru, concordou. “Hoje, quem planifica, quem faz pensamento estratégico são as multinacionais. A participação dos grupos políticos no governo é cada vez menor. A questão é como fazer para que essas militâncias, no momento progressista em que vivemos, participem da política. E não que a política seja discriminada como incapaz, corrupta e inoperante”.

O cientista político uruguaio Álvaro Padrón se uniu ao coro ao comemorar os avanços significativos na redução da pobreza e da desigualdade, mas alertou para os limites desse processo. “Foi a primeira vez que tivemos democracia, crescimento, distribuição de renda. Mas isso só não se traduz em desenvolvimento. Precisamos ter ganhos de produtividade, sem isso, atingiremos um limite muito em breve. Esse é o desafio fundamental”.

A cientista política Ingrid Sarti, presidente do Fórum Universitário Mercosul (FoMerco) agradeceu ao Instituto Lula por intervir justamente no desafio de levar o pensamento da academia para as instâncias decisórias. “Como professora, faço parte desse trabalho árduo de pesquisa, que muitas vezes acaba engavetado. É muito importante que o Instituto Lula possa ser um motor dessa articulação e dar algum auxílio à formação de políticas públicas”.

Theotonio dos Santos, economista da Universidade Federal Fluminense, afirmou que uma integração comercial daria mais poder de negociação internacional à América Latina. “O Chile tem 40% do cobre do mundo e entregamos esse produto abrindo mão da capacidade de influenciar o preço internacional dele”.

Este é o segundo de uma série de encontros promovidos pelo Instituto Lula e que têm como tema central a integração da América Latina. Em agosto passado, o Instituto já promoveu um encontro com movimentos sociais. A próxima reunião será com empresários latino-americanos.

O encontro continua na tarde desta segunda-feira. Para saber mais sobre o encontro e os participantes, clique aqui.

 

Entrevista com Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente

no É Notícia

O vídeo de hoje traz uma entrevista com a ex-Minsitra do meio Ambiente, Marina Silva, que foi a terceira colocada nas eleições presidenciais de 2010, cumpriu dois mandatos no Senado (eleita em 1994 e reeleita em 2002) e esteve à frente do Ministério do Meio Ambiente na gestão do presidente Lula, entre janeiro de 2003 e maio de 2008. Atualmente sem partido, Marina foi filiada ao PT e ao PV. Na entrevista, expõe sua opinião a respeito do novo Código Florestal e revela se pensa em concorrer novamente à presidência da República.

Parte 2:

Parte 3:

Notícias hidroelétricas

Por Miguel do rosário, n’O cafezinho

Lago de Furnas

Excelente notícia, vinda do ClimaTempo: o Nordeste, que até então ficara mais ou menos de fora da recente temporada de chuvas que se abateu sobre o resto do país, está recebendo agora a benção de São Pedro. São esperadas fortes chuvas em todo Nordeste, trazendo alívio para a agropecuária da região e enchendo seus reservatórios.

Vou dar uma dica, aliás, para se acompanhar o nível dos reservatórios em todo país. O link para o boletim diário do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) está aqui:

http://www.ons.org.br/resultados_operacao/boletim_diario/2013_01_17/reservatorios.htm

Este é o último boletim. Para ver de outros dias, basta mudar a data. Por exemplo, para ver do dia primeiro de janeiro, mude o link para:

http://www.ons.org.br/resultados_operacao/boletim_diario/2013_01_01/reservatorios.htm

Atente sobretudo para o volume útil dos reservatórios, que é a quantidade de água acima de um determinado nível necessário para produção de energia, e que vai de 0% a 100%.

Nesse link, você acompanha os níveis, sem poder comparar, mas com informações sobre a participação dos reservatórios no total de cada região:

http://www.ons.org.br/tabela_reservatorios/conteudo.asp

O volume útil dos reservatórios cresceu nos últimos 15 dias em vários lugares, mas São Pedro ainda tem que colaborar por alguns meses para que estes voltem ao normal.

Nas Furnas, maior reservatório do país, o volume útil nos últimos 15 dias subiu de 12,5% em 01 de janeiro para 20,35% no dia 17.

Eu fiz uma tabela com os dados de todos os reservatórios, comparando os anos de 2012 e 2001, e verifiquei uma coisa: na verdade, os níveis em 2012 se mantiveram bons – bem melhores do que os da última crise no setor (em 2001) – durante quase todo o ano. Houve uma redução meio que súbita a partir do final do segundo semestre. O gráfico abaixo, relativo a Furnas, mostra bem isso:

Repare que o ano começou com o volume útil em Furnas superior a 90%. No segundo semestre começa a declinar, registrando um tombo de setembro a dezembro.

A lição que devemos tirar desta crise é que, apesar da importância das usinas hidrelétricas, e da necessidade de construirmos mais unidades, o Brasil não pode ficar dependendo do volume de chuvas num mundo onde o clima se torna cada vez mais irregular. A necessidade de diversificar matrizes é essencial para oferecer segurança econômica ao país.

Chuvas fracas elevam risco de alta forte da energia e freiam contratos

Por Daniel Rittner no Valor Econômico

O plano de redução das contas luz anunciado pela presidente Dilma Rousseff está definitivamente ameaçado, se as usinas térmicas ficarem ligadas durante a maior parte do ano para poupar água dos reservatórios. Até dezembro, elas terão que continuar sendo acionadas a plena carga, se não chover o equivalente a pelo menos 80% da média histórica, segundo relatório de um grande banco de investimentos distribuído a clientes na sexta-feira.

Se isso ocorrer, o custo de manter 14 mil megawatts (MW) de térmicas em operação será de R$ 25,4 bilhões e levará a um reajuste de 23,6% das tarifas das distribuidoras de energia em 2014, quando a despesa for integralmente repassada aos consumidores. O cenário parece alarmista, melhor apenas do que um racionamento, mas tornou-se bastante plausível. Até o fim da semana passada, choveu somente 63% da média histórica no subsistema Sudeste-Centro-Oeste – a maior caixa d’água do país – e 23% no subsistema Nordeste.

Na terceira revisão do programa mensal de operação, divulgada sexta-feira, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) prevê que as chuvas vão se intensificar até o fim de janeiro. Mesmo assim, fecharão o mês atingindo 78% no Sudeste-Centro-Oeste e 32% no Nordeste.

Para o banco de investimentos responsável pelo estudo, esse cenário de hidrologia baixa “compromete a confiabilidade do sistema” em 2014, quando haverá eleições presidenciais e Copa do Mundo. Faria os reservatórios do Sudeste-Centro-Oeste e do Nordeste chegarem a 31 de dezembro com apenas 26,1% e 30%, ainda abaixo dos níveis verificados ao término de 2012 e muito perto do limite mínimo de segurança para a operação do sistema.

A estimativa contempla um crescimento de 5% do consumo de 2013. Não se trata de uma hipótese absurda, levando em consideração que, mesmo com o “pibinho” do ano passado, houve aumento de 3,6% até novembro.

Se a hidrologia for boa, e chover exatamente como o padrão histórico, a necessidade de acionamento das térmicas se restringiria a 5,9 mil MW médios e os reservatórios acabariam o ano com mais folga, acima dos limites de segurança. Mesmo assim, sobraria uma conta de R$ 4 bilhões para o rateio dos consumidores, com impacto de 3,7% nos reajustes das distribuidoras em 2014.

Qualquer que seja o cenário de agora até dezembro, especialistas afirmam que o baixo nível dos reservatórios e a necessidade de uso ainda indefinido das térmicas contaminaram os preços de todo o ano no mercado livre de energia, onde a maioria das indústrias busca fornecimento.

Além disso, houve uma freada nos negócios de longo prazo (contratos com pelo menos um ano de duração), já que os preços dispararam. “A procura caiu entre 75% e 80%”, afirma o presidente da comercializadora de energia Comerc, Chistopher Vlavianos. “Nós mesmos aconselhamos os clientes a fechar contratos de longo prazo em um momento mais tranquilo. Agora se vive um estresse no mercado.”

O sócio-diretor da Ecom Energia, Paulo Toledo, corrobora essa percepção. “Toda vez que o preço de mercado fica muito estressado, existe uma diminuição do volume de negócios, até pelas dúvidas que se criam. A tendência é de redução momentânea, por causa da perda de referência de preços. Mas uma coisa está clara: eles estão contaminados pelo resto do ano inteiro. Os reservatórios estão melhorando um pouco e temos três meses de chuva pela frente, mas dificilmente vamos chegar ao fim do período úmido em um patamar confortável. O estresse ainda continuará.”

De acordo com Toledo, os contratos com duração de um ano estavam sendo negociados a R$ 75 ou R$ 80 por megawatt-hora no início de 2012, mas já subiram para patamar de R$ 200 a R$ 210 nas últimas semanas. Para fornecimento de um ano, a partir de 2014, o preço recua para R$ 140 a R$ 145. Por isso, a recomendação para quem tem a necessidade agora de suprimento de energia é fechar contratos com duração mais longa, de três a quatro anos. Assim, segundo os especialistas, pode-se diluir os altos preços que estão sendo pedidos por um prazo maior.

“Hoje, ninguém consegue encontrar contratos com um ano de duração abaixo de R$ 140 por megawatt-hora”, reforça Carlos Faria, presidente da Anace, associação que representa consumidores livres de energia. “Entendemos que a chance de um racionamento em 2013 é muito baixa, mas a probabilidade de mantermos as térmicas ligadas por muito tempo é alta, o que pressiona bastante os preços.”

Diante do quebra-cabeça em que se transformou a estratégia dos grandes consumidores para o suprimento de energia, uma novidade agradou à indústria: a MP 579, que prorrogou as concessões e foi convertida em lei na semana passada, abriu caminho para a venda de excedentes de eletricidade. Tratava-se de uma reivindicação antiga do setor, que ainda depende de regulamentação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), mas foi bem recebida pelas empresas.

Hoje, quando não consome toda a energia de seus contratos no mercado livre, as empresas só podem vender a sobra a um valor tabelado: o preço de liquidação das diferenças (PLD), atualizado semanalmente pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica. Com a mudança promovida pela Lei 12.783, os consumidores livres ganharam segurança para fechar contratos mais longos, porque podem revender no mercado a energia que não foi consumida, sem amarras.

Segundo levantamento recente da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia (Abrace), cerca de 20% das necessidades de seus associados estava com contratos expirando em 2013. Mesmo com o desconto prometido nas contas de luz a partir de março, que pode chegar a 28% no caso das indústrias eletrointensivas, a previsão é que quase ninguém saia do mercado livre e volte para a clientela das distribuidoras – condição para desfrutar integralmente da queda de tarifas.

Vlavianos, da Comerc, lembra um ponto que deve evitar o movimento de volta das indústrias ao mercado regulado. Para recebê-las como clientes, as distribuidoras precisariam contratar mais suprimento de energia, o que está caro no momento atual. Portanto, diante de eventuais pedidos de empresas, tendem a usar o direito de pedir um prazo de cinco anos para atender à demanda.

De qualquer forma, é grande a chance de que os consumidores tenham uma alta forte das tarifas, tanto no mercado livre quanto nos reajustes das distribuidoras.

O BNDES e a mulher do malandro

Por Miguel do Rosário, n’O Cafezinho

Nunca vi um governo que gostasse tanto de apanhar. Há alguns dias, o Estadão publicou um editorial tremendamente agressivo contra o BNDES, o principal instrumento de política de investimento do governo federal, e não vimos nenhuma resposta. O texto usa os dados colhidos por um artigo do Valor, que fala do prejuízo de R$ 700 milhões que o braço de investimentos em ações do BNDES, o BNDESPar, pode ter, ao fechar o balanço de 2012, em função do investimento na empresa LBR, do setor de lacticínios. A LBR está descendo rapidamente a ladeira, fechando fábricas e amargando déficits milionários desde sua criação em 2011. Esclarecendo: o BNDESPar não fechará no negativo; os R$ 700 milhões que – talvez, talvez! – perder com a LBR representarão apenas um lucro líquido menor para a instituição em 2012. O ativo em ações do BNDESPar, em setembro de 2012, já contabilizado o prejuízo com a LBR, estava em R$ 108 bilhões, e o lucro líquido no período Jan/Set 2012 (também já considerando o prejuízo) ficou em R$ 1,5 bilhão.

A crítica ao BNDES é bem vinda, mas como sempre ela se desencaminha ao se transformar num cipoal confuso de informações erradas, exageros sem base estatística e proselitismo ideológico.

Os números do ano calendário de 2012 ainda não fecharam, então vamos usar os números até junho ou novembro de 2012, para verificar se o BNDES “perdeu o rumo”, conforme acusa o título do editorial do Estadão.

A tabela abaixo refere-se ao lucro líquido do BNDES nos últimos 13 anos:

De 1998 a 2002, o lucro líquido do BNDES foi de R$ 3,7 bilhões. De 2008 a junho de 2012, foi de R$ 33,66 bilhões.

Boa parte deste espetacular aumento dos lucros do BNDES vieram do BNDESPar, seu braço de investimentos societários. E aí que entra toda a confusão deliberada dos grandes jornais, ao tratar do prejuízo da LBR. Eles mencionam apenas um caso de prejuízo, omitindo centenas de casos de sucesso (que são a maior parte).

O BNDES começou a entrar no ramo de investimentos em ações de empresas nacionais em 1974, mas só em 1982 criou a BNDESPar, cujo objetivo é justamente apoiar companhias nacionais, através de compras de ações, incluindo aí ajudas financeiras em processos de fusão e reestruturação. Como lida com o mercado de ações, naturalmente há riscos.

Pode-se atacar à vontade as operações do BNDESPar nos últimos anos, mas não se pode negar que elas proporcionaram lucros bilionários ao banco. O prejuízo com a LBR faz apenas cócegas no patrimônio do BNDESPar.

Eis os últimos números disponíveis relativos ao desempenho do BNDESPar, em R$ milhões:

Eles mostram que o lucro líquido no período Jan/Set 12 caiu 54% em relação ao ano anterior, mas mesmo assim ainda se encontra vigorosamente no azul, em R$ 1,53 bilhão. Ou seja, o lucro do BNDESPar (que é apenas um braço do BNDES) em apenas 9 meses, com prejuízo na LBR e tudo, foi bem maior que lucro de todo o BNDES durante os 12 meses de 2002, que foi de R$ 550 milhões.

Entretanto, falamos até agora apenas de lucro líquido, que é para calar a boca dos neoliberais e responder à acusação de má gestão. Mas o BNDES não tem objetivo de produzir lucro, e sim de promover o desenvolvimento. Os lucros são bem vindos porque ajudam a abastecer a caixa do Tesouro Nacional, e permitem ao banco investir em programas sociais sem fins lucrativos.

O maior objetivo do banco, todavia, é ofertar crédito às empresas, de todos os tamanhos. E isso aumentou consideravalmente:

O BNDES terminou a era tucana desembolsando R$ 38,2 bilhões em 2002 (e olha que era ano eleitoral). Em 2012, até novembro, já desembolsou R$ 121,8 bilhões.

Há um trecho do editorial do Estadão que é uma falsidade completa:

Com a mudança de rumo, o banco resolveu problemas de grandes empresários engasgados com maus negócios. Privilegiou a clientela dos grandes com uma fatia desproporcional dos empréstimos (..)

Não é verdade. Nos últimos anos, tem crescido a proporção, em dinheiro e em número de operações, de micro, pequenas e médias empresas na carteira de empréstimos do BNDES. Em 2011, as MPMEs responderam por 49,8% dos empréstimos totais do banco, ou R$ 49,8 bilhões. Em 2008, a participação dos pequenos havia sido de apenas 22% e nos anos anteriores, bem menos. Em 2011, foram 896 mil operações, ou 94% do total de operações de empréstimo do BNDES naquele ano. Em 2012, a tendência ficou mais ou menos estável.

Na era tucana sim, o BNDES privilegiava os grandes, com um agravante. O BNDES desembolsava pouco, para poucos, e não priorizava a infra-estrutura. E ainda lucrava pouco, deixando de contribuir para a União. O BNDES financiou grande parte das operações de privatização, oferecendo crédito barato para que grupos estrangeiros adquirissem patrimônio nacional. Naqueles anos, o Estadão não acusava o BNDES de ter perdido o rumo…

Dito tudo isso, suponho ser evidente que as operações do BNDESPar devem ser alvos de um minucioso escrutínio público, e de eventuais críticas. Mas todas as cartas devem ser postas na mesa. Não vale ouvirmos apenas um lado só da história. No caso da LBR, pelo que entendi, tratou-se da tentativa, até o momento fracassada, de criar um terceiro grande grupo de laticínios no Brasil, ao lado da DPA, pertencente à Nestlé, e da Brasil Foods (que nasceu da fusão de Sadia e Perdigão). O BNDES já havia ajudado Sadia e Perdigão a saírem do buraco em que se meteram, com a crise de 2008. Fez bem, pois em caso contrário, o mercado de leite no Brasil ficaria monopolizado pela Nestlé, sediada na Suíça.

Nos últimos cinquenta anos, todos os países desenvolvidos deram enormes incentivos financeiros, políticos, diplomáticos e até militares, para ajudarem as grandes empresas de seus países a expandirem seus negócios em escala internacional. E continuam fazendo. Veja a França bombardeando camelos no Mali para ajudar suas empresas instaladas na região. EUA, União Europeia, China, Japão e Coréia do Sul ainda ajudam suas grandes empresas. Acho que o governo brasileiro não deve descartar a estratégia de incentivar o surgimento de grupos nacionais com condições de disputar as grandes batalhas econômicas do século XXI. Obviamente, deve fazê-lo com muita transparência, e pesando os prós e contras de cada ação. A vantagem do BNDESPar é que o governo, além de deixar os camelos em paz, não “dá de graça” dinheiro para as empresas; ele compra parte delas, e com isso tem participação nos lucros, quando estes chegam. Naturalmente, há sempre o risco de uma operação não dar certo, como parece ser o caso da LBR. Avaliando, contudo, a performance geral das operações nos últimos anos, e a espetacular evolução do desembolso e lucro líquido do BNDES (com auxílio luxuoso do BNDESPar), pode-se afirmar que a instituição, mesmo com os tropeços inevitáveis, tem seguido no rumo certo.

Maduro acredita no regresso rápido de Chávez

Maduro diz que Chávez entrará em segunda etapa do tratamento

n’O Globo

Maduro cumprimenta venezuelanos em Valencia, no estado de Carabobo, no último sábado
Foto: HOLGER BENNEWITZ / REUTERS

CARACAS — O vice-presidente venezuelano, Nicolás Maduro, disse neste domingo que confia que o presidente Hugo Chávez voltará em breve ao país e que ele entrará em uma segunda etapa do tratamento em breve. Durante uma entrevista para o canal Televén, Maduro afirmou que as autoridades estão otimistas na rápida recuperação do presidente e destacou que o líder conta com uma equipe médica composta por profissionais formados nas melhores universidades cubanas. Chávez não dá declarações nem é visto em público desde o dia 11 de dezembro, quando foi operado em Cuba para o tratamento de um câncer na região pélvica.

De acordo com Maduro, ao terminar esta fase de recuperação, Chávez entrará em una segunda etapa terapêutica, que será explicada aos venezuelanos em breve em anúncios oficiais. Segundo o jornal local “El Universal”, o vice afirmou ainda que Chávez adquiriu um “brilho especial no olhar”. O dirigente não deu mais informações sobre o retorno do presidente.

- (Chávez) está levando a batalha, ciente do que está acontecendo no país e disciplinado em seu tratamento (…) amorosamente acompanhado por suas filhas, seus netos e seus irmãos – declarou o vice-presidente no programa dominical “José Vicente Hoy”.

Maduro destacou que a primeira fase do pós-operatório foi “difícil” e “complexa”.

- Ele está estabilizando suas funções (corporais), o funcionamento dos seus órgãos, todas as suas funções essenciais vitais, está plenamente consciente e com uma força vital cada vez maior para entrar na segunda fase, que será anunciada através de canais oficiais – disse Maduro. – Mais cedo ou mais tarde, teremos o presidente entre nós. Chávez segue em recuperação e está ansioso por ver a pátria à qual ele dedicou sua vida esforço.

Durante a entrevista, o vice-presidente também comentou que as autoridades venezuelanas estão monitorando um grupo de partidários do ex-presidente Pedro Carmona (cujo governo durou 48 horas, em abril de 2002), por convocar ações que violariam a ordem democrática. A longa ausência do líder gerou especulações sobre sua saúde. Muitos políticos da oposição afirmam que Chávez, reeleito para um mandato de seis anos, em outubro, é incapaz de continuar governando. Aliados do presidente rejeitam estas acusações.

- Aqueles que pretenderem se valer de seu poder econômico, midiático ou político baterão de frente com a Constituição e o Estado venezuelanos. Depois não venham dizer que são perseguidos políticos – alertou.

No sábado, Maduro criticou os líderes empresariais do país, acusando-os de tentar desestabilizar a nação, enquanto a oposição acusa o governo de não conseguir controlar a economia, afligida por uma inflação de 20% e por racionamentos.

Na sexta-feira, o jornal espanhol “ABC” disse que os médicos cubanos do Centro de Investigações Médico-Cirúrgicas (Cimeq) de Havana, onde o chefe de Estado está internado, estão sofrendo fortes pressões para conseguir estabilizar clinicamente o presidente, já que Chávez não estaria em condições de enfrentar uma viagem de avião.

Segundo o “ABC”, fontes em contato com a equipe do hospital cubano Cimeq não descartam a possibilidade de que Chávez seja transferido em breve para o hospital militar de Caracas, onde, internado, juramentaria seu mandato e continuaria o tratamento contra um câncer terminal.

Brasileiros entregues à própria sorte em assentamentos de GO

Por Deco Bancillon no Correio Braziliense

Entregues à sorte

Penúria dos brasileiros esquecidos pelo Estado é ainda mais aguda em assentamentos e lugarejos isolados. Geraldo é testemunha das privações dos moradores de Simolândia (GO): “Somos escravos dessa vida sofrida ” . Situação se repete em Sítio d’Abadia (GO), mostra reportagem do Correio

Moradores aguardam regularização da área pelo Incra. Ladrões agem na comunidade quando os homens saem para trabalhar

Simolândia (GO) — Nos rincões do Brasil que ninguém vê, a falta de acesso a serviços públicos é uma mazela que afeta homens e mulheres, adultos e crianças. Não importa o credo ou a cor. São todos vítimas do abandono do Estado. “A gente ouve o povo dizer que a escravidão acabou. Mas somos escravos desta vida sofrida”, desabafa o piauiense Geraldo Ferreira de Sousa, um lavrador de 44 anos que há nove vive sob a pior das condições sociais, em um assentamento rural distante cerca de 250 quilômetros da capital da República.

Todos os dias, os dois filhos de Geraldo, uma garota de 18 anos e um rapaz de 15, acordam às 5h da manhã e caminham três quilômetros até chegar à parada de ônibus e pegar a condução para a escola. No barraco de pouco mais de 10 metros quadrados em que vive a família do lavrador, não há água encanada nem energia elétrica. Sem muros ou cercas, a propriedade é protegida por dois cachorros vira-latas, que ladram sempre que algum estranho se aproxima. “Tudo o que conseguimos é com muita dificuldade, com muita luta”, diz ele.

Para cidadãos como Geraldo, com direito a voto, mas sem acesso a serviços básicos que o poder público tem obrigação de prover, um simples banho quente é coisa de outro mundo. “Aqui não tem nada. Nem privada, nem chuveiro. Quando a gente fica apertado, resolve no mato mesmo”, confidencia o estudante Robério Santos Barbosa, 17 anos. O líder comunitário Glaucio da Silva Oliveira, 31, sentencia: “Este é o corredor da miséria. Sem dúvida, o lugar mais carente de atenção de todo o nordeste de Goiás”.

Sofrimento

A sensação de abandono é latente. Glaucio, Robério e Geraldo estão entre mais de uma centena de brasileiros de 40 famílias pobres que acreditavam na promessa de que, um dia, o assentamento rural Zumbi dos Palmares, hoje sinônimo de descaso, se tornaria uma comunidade estruturada, com abastecimento de água potável, luz elétrica e estradas asfaltadas. Em 2003, no primeiro ano de mandato do então presidente Lula, essas pessoas invadiram uma fazenda abandonada distante cerca de 15km do município goiano de Simolândia, de 6,5 mil habitantes. A desapropriação da terra, em 2005, pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), foi a primeira e única grande conquista dessa gente.

Além de barracas, umas poucas panelas e bandeiras do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), eles carregavam consigo a esperança de que o novo governo se empenharia em resolver os problemas fundiários de um país em que o direito à propriedade é um sonho para poucos. De lá para cá, porém, pouco ou nada mudou no assentamento. Protegidas apenas por cercas de arame liso, as 43 moradias são um convite à bandidagem. “Aqui, roubam até as panelas velhas e as roupas surradas”, denuncia a dona de casa Eleuza Maria de Jesus, de 33 anos.

Cleonice Barbosa Ribeiro, 44, conta que a ausência dos maridos, que migram para municípios vizinhos em busca de trabalho, facilita a ação dos criminosos. “Aqui só ficam mulheres e crianças. Os que têm força para o serviço vão procurar emprego longe”, diz. “Só Deus para olhar por nós, porque, se depender da polícia ou do governo, a gente pode esperar pelo pior”, desabafa.

E o pior pode mesmo acontecer. “Tempos atrás, um barraco pegou fogo. A gente acha que foi a lamparina que estourou ou algo do tipo”, conta Glaucio Oliveira, um dos moradores mais antigos do assentamento. Maria de Fátima Alves, 53 anos, teve um susto ainda maior. “Esses dias, meu marido passou mal. Chegou a desmaiar. Entrei em desespero. Liguei no Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), mas acharam que era trote. Insisti umas cinco vezes, e nada. Então, corri para a estrada e gritei por socorro”, lembra.

Só decepção

No rastro de problemas que os moradores enfrentam todos os dias, nenhum é maior do que a sensação de que todo o sacrifício pode ter sido em vão. Há nove anos, quando demarcou o local, o Incra teria dito que o assentamento comportaria até 56 famílias. Tempos depois, após visitarem o terreno, técnicos do órgão disseram que a capacidade, na verdade, era outra: 33 famílias. “Só que aí já era tarde. Quem tinha vindo para cá não quis mais sair e ficou por isso mesmo”, ressalta Glaucio.

Com a indefinição, o plano de regularização do assentamento não foi aprovado. O mesmo ocorreu com o crédito para construção das casas populares, que está parado à espera do aval do Incra. Tristeza ainda maior foi descobrir, pelo próprio Instituto, que grande parte da área é imprópria para cultivo agrícola. Quase todo o terreno é de solo arenoso, que dificulta o plantio de culturas tradicionais, como o milho, a soja e o arroz. Mesmo assim, ainda há quem acredite que um dia as terras serão férteis. “Tenho fé que um dia melhore. Aos pouquinhos, a gente fez pegar um feijão-vagem, uma melancia”, diz o lavrador Geraldo Ferreira.

Para o diretor de Estudos e Políticas Sociais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Rafael Guerreiro Osório, a esperança do agricultor de que um dia aquelas terras serão férteis não exime o Estado do erro de ter permitido que dezenas de famílias vivessem nessa situação. “De nada adianta assentar pessoas em um pedaço de terra improdutiva, em que elas não poderão trabalhar e tirar dali o próprio sustento. Isso só reforça a condição de miséria delas”, adverte.

Em resposta ao Correio, o Incra afirma que o assentamento “foi concebido inicialmente para receber 53 famílias”. No entanto, em 2009, após encaminhar uma equipe de vistoria ao local, aplicou os critérios da legislação e a capacidade de ocupação foi “corrigida” para 33 famílias. O órgão assegura que o erro foi da empresa contratada para prestar assistência técnica às famílias. O Incra destaca que as famílias estão sendo assistidas com cestas de alimentos, doadas pelo governo federal, “o que minimiza a condição de subsistência delas”.

Legado

O descaso que se vê no assentamento Zumbi dos Palmares se repete com boa parte dos moradores de Simolândia: 10,71% dos moradores do município não têm televisão em casa, outros 10,76% não possuem geladeira para acondicionar alimentos. Dos 6.514 habitantes registrados no último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 81,50% foram considerados pobres. Em meio à miséria, quem não tem emprego sobrevive da ajuda alheia. “Aqui não tem trabalho para todo mundo. Ainda mais para gente como eu, que não sabe ler nem escrever”, afirma Manoel Ferreira Almeida, lavrador de 48 anos que, mesmo desempregado, é responsável por sustentar a esposa com problemas mentais e seis filhos.

Não é só: 58,16% dos moradores do município goiano não têm carteira assinada. Para essas pessoas, conseguir um posto de trabalho formal é quase um milagre, pois boa parte delas é analfabeta completa ou funcional — ou seja, aprendeu a ler e a escrever, mas não consegue interpretar textos ou fazer operações matemáticas simples. A dona de casa Eleuza Maria de Jesus, 33, sabe bem o que é estar nessa situação. Ela cursou até a sexta série do ensino fundamental, mas seu conhecimento é mínimo. A grande preocupação de Eleuza é evitar que as três filhas repitam a sua situação. A do meio, Agda Beatriz Costa, 8, é a que tem apresentado mais dificuldade na alfabetização. Mesmo indo para o terceiro ano de estudo, a menina só consegue escrever o primeiro nome.

“Esses dias o meu marido passou mal. Chegou a desmaiar. Entrei em desespero. Liguei no Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), mas acharam que era trote. Insisti umas cinco vezes, e nada. Então, corri para a estrada e gritei por socorro”
Maria de Fátima Alves, dona de casa