Arquivo mensais:janeiro 2013

Sobre a cultura da noite, a tragédia de Santa Maria e a corrupção

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Incêndio em Santa Maria

Por Emir Ruivo no Diário do Centro do mundo

Antes de começar, deixo meus sinceros sentimentos a amigos e familiares das vítimas do acidente ocorrido na casa noturna Kiss na madrugada de sábado para domingo. Desde que acordei, ouvi muito sobre isso, e acho que posso contribuir com algumas informações adquiridas em 13 anos de experiência tocando em bares e casas noturnas.

O ocorrido impressionou muita gente, mas não a mim. Chocou, claro, ver o sofrimento das pessoas. Nunca imaginei um acidente dessa magnitude. Mas conforme ouvia certas informações, pensava comigo: “É … não dava para esperar nada melhor mesmo”.

A primeira coisa que causou estranheza em quem não conhece este universo é que os seguranças tentaram manter os convidados dentro da casa para pagar suas comandas. Segundo Taís, uma sobrevivente entrevistada pelo SBT, os seguranças encaminharam as pessoas para a fila de pagamento mesmo após o acidente; um deles teria dito que o fogo estava sob controle – isto é, ele estava ciente do ocorrido.

Em geral, seguranças são freelancers. Ganham entre R$ 50 e 100 reais por noite. Não recebem nenhuma instrução que não seja “evite brigas e não deixe ninguém ir embora sem pagar”. Não é sempre, é bom lembrar, mas é o mais comum.

A casa também não tinha alvará, e isto também tem sido muito noticiado. Aqui, chegamos a um problema mais complexo. Primeiro, o alvará de funcionamento não tem objetivo de dar segurança a ninguém. É uma taxa como tantas outras, um caça níquel das prefeituras. Eu, que jamais fui dono de bar, não conheço valores, mas já ouvi dezenas de pessoas afirmando que é abusiva.

Quando os dificultadores entram em cena, abrem espaço para corrupção. Conseguir licença para abrir uma casa noturna é algo tão intencionalmente complicado e burocrático que acaba corrompendo grande parte dos empresários. Com isso suas casas ficam sem alvarás. Sem alvará, a policia recebe suborno. Com suborno, não há controle – quem pode dizer que havia saídas de emergência suficientes se a checagem está sendo feita através de dinheiro?

Tenho visto gente falando da espuma acústica também. As de alto nível são auto-extinguíveis. Eu já vi demonstrações – a espuma pega fogo e encolhe, não espalha. A cola, hoje, também não é mais tóxica necessariamente. A Cascola fabrica um produto sem tuluol, componente mais tóxico da composição.

O problema é que muitas vezes se usa material de baixa qualidade. Aí o ciclo é o mesmo. Mercado pobre, prefeitura abusiva, policia corrupta, e o empresário opta por economizar em segurança. Às vezes me parece o Titanic, em escala menor. Lembra a cena do dono dizendo que não precisava de mais botes salva-vidas porque o barco era inafundável?

Soluções para o mercado da noite existem aos montes. A mais urgente, na minha visão, é proibir o uso das comandas. Na maioria dos países desenvolvidos, paga-se no momento do consumo. Aqui, a alegação é que é para não aumentar as filas no bar. Não é verdade. Comandas são utilizadas porque com elas consome-se mais. Se você paga por cada Coca-Cola, vê o dinheiro saindo; se o consumo é anotado num sistema, muitas vezes nem sabe o preço que está pagando. Só nota no fim da noite. Agora, veja que isto, sozinho, poderia ter evitado grande parte daquelas mortes.

Mas esta seria uma medida paliativa. É preciso mudar essa cultura, e o começo disso está no Estado – quando as prefeituras derem o bom exemplo, deixando de abusar dos empresários, quem sabe os empresários sejam capazes de instruir melhor seus funcionários. Taxas e multas têm que ser equivalentes ao tamanho do estabelecimento. Dessa forma, você cobra algo possível de ser pago, e não um valor que só vai fomentar a corrupção.

Com tudo isso, não estou de forma nenhuma eximindo os culpados. Os seguranças que foram desumanos e indecentes são culpados. Assim como os donos da casa. Mas a policia também é. E a prefeitura também.

Entrevista com Aécio Neves, senador de MG

no É notícia

O vídeo de hoje traz uma entrevista com Aécio Neves, senador e ex-governador de Minas Gerais. No primeiro bloco, Aécio Neves comentou porque não quer se lançar candidato do PSDB à Presidência neste momento. ‘Antes de mais nada, o PSDB precisa dizer o que pensa em relação ao Brasil, diferente daqueles que estão no poder. As pessoas precisam identificar no partido algo novo’.

No segundo bloco, Aécio disse que ‘não é porque é de outro partido que só tem defeitos’, ao comentar sobre as intervenções de Dilma Rousseff na economia. O tucano, porém, falou que a presidente está cometendo ‘equívocos’ nos atos desse tipo e citou o caso das empresas de energia.

No último bloco, Aécio falou que, apesar da alta popularidade da presidente Dilma, acredita que a oposição pode vencer a eleição de 2014. ‘Todos os governos no mundo são cíclicos. O PT perdeu a capacidade de ousar, de enfrentar os verdadeiros gargalos que estão nos levando para esse crescimento pífio’.

Donos da Kiss e dois músicos são presos no RS

Kiko Spohr, dono da casa noturna, foi preso, assim como dois músicos que se apresentavam na noite da tragédia que matou 231 pessoas; boate Kiss tinha alvará provisório e funcionava sem plano de prevenção a incêndios

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Do Diário de Santa Maria - A Polícia Civil prendeu três pessoas, em caráter temporário, que são investigadas no caso do incêndio que atingiu a boate Kiss matando 231 pessoas na madrugada de domingo. Uma quarta pessoa também estaria sendo procurada.

Estão presos dois músicos da banda Gurizada Fandangueira e um sócio da casa noturna, que estava supostamente internado em uma clínica em Cruz Alta. As outras prisões ocorreram em Mata e em São Pedro do Sul. A polícia também já cumpriu mandados de busca e apreensão.

Foi preso o empresário Elissandro Spohr, o Kiko. Conforme o advogado dele, o criminalista Jader Marques, ele teve temor de permanecer em Santa Maria e buscou atendimento médico em Cruz Alta devido à intoxicação.

Spohr recebe atendimento por ter inalado a fumaça que se espalhou pela casa noturna durante o incidente. Segundo o advogado, o sócio estava presente na festa juntamente com a mulher, grávida, no momento em que a faísca de um sinalizador manuseado por um integrante da banda Gurizada Fandangueira atingiu o revestimento de isolamento acústico, no teto da boate.

— Não façamos um juízo antecipado do Kiko. Ele compareceu ontem (domingo) mesmo à Justiça e está absolutamente à disposição. Todas as pessoas que estavam na boate eram amigas dele. Foi lá que comemoraram datas significativas, foi lá que namorados e namoradas se conheceram — salientou Marques em entrevista à Rádio Gaúcha.

O festival de desinformação que segura o desenvolvimento

Por  

Hoje em dia, provavelmente o maior custo que o país carrega é o chamado “custo mídia” – o festival de desinformação que tomou conta da cobertura dos grandes veículos.

Há um caminhão de questões para serem criticadas. O governo Dilma está longe do estado da arte da gestão; as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) ainda enfrentam problemas de gerenciamento; não se avançou em nada na redução da burocracia pública; abandonaram-se as minirreformas que ajudavam a destravar a economia.

Cada tema desse dá espaço a campanhas críticas relevantes, necessárias para aprimorar os trabalhos, evitar o acomodamento e manter o governo com rédea curta,

Mas há uma invencível dificuldade da mídia em produzir a crítica técnica.

Há muito reclama-se do custo Brasil, expresso especialmente nas tarifas públicas. Um dos grandes problemas surgidos nos anos 90 foi com a matriz elétrica. Tinha-se, até então, energia barata, fruto de décadas de investimento em hidrelétricas já amortizadas.

Com a privatização, matou-se essa vantagem competitiva. Criou-se um modelo de mercado que desorganizou a geração, praticamente quebrou a distribuição e, ao final, legou uma das tarifas de energia mais altas do planeta.

Decidiu-se, então, reduzir as tarifas – mais para as empresas (que necessitam de competitividade), menos para os consumidores domésticos.

Trata-se de medida de largo alcance. Segundo as contas da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) significará uma economia anual de R$ 31,5 bilhões para o setor produtivo.

Permite não apenas tornar os produtos internos mais competitivos em relação aos importados, como melhor as decisões de investimento em muitos setores.

Aliás, faz parte da estratégia adotada de baratear os novos investimentos, onde entra também a redução da taxa Selic, melhoria do câmbio, desonerações da folha etc.

Os efeitos são claramente quantificáveis.

  1. Imagine uma empresa que fature R$ 100 milhões/ano e lucre 20%, ou R$ 20 milhões. Logo, suas despesas totais são de R$ 80 milhões. Suponha que R$ 30 milhões sejam com folha salarial e R$ 10 milhões com custo de energia.
  2. Na hora de analisar o investimento, se for recurso próprio, o empresário irá comparar com o chamado custo de oportunidade – no caso, a aplicação remunerada pela Selic, a taxa básica de juros da economia, com plena liquidez e sem risco.
  3. Com a Selic a 12,5%, para que o investimento tenha o mesmo retorno, em 15 anos, ele terá que investir R$ 132,7 milhões na empresa.

As medidas de redução de investimento impactam diretamente o investimento necessário

  1. Com a redução da Selic de 12,5% para 7,5%, sua capacidade de investimento aumenta para R$ 176,5 milhões. Ou seja, 33% de aumento.
  2. Com a redução da conta de energia em 27%, sua capacidade de investimento aumenta para R$ 150,6 milhões, uma alta de 14%.
  3. Com a desoneração da folha de pagamentos, a capacidade de investimento aumenta em 30%, para R$ 172,5 milhões.
  4. Somando-se tudo, a capacidade de investimento pode aumentar em 91%, indo para R$ 253,4 milhões.

Ora, não existe mágica na redução. Não existe almoço-grátis.

Cota de depreciação – 1

Uma das medidas utilizadas foi aproveitar o vencimento de concessões e acabar com a cota de amortização. Antes, o governo cobrava pela concessão, o concessionário pagava e incluía a amortização do investimento na tarifa. O consumidor acabava pagando pelo investimento. Decidiu-se mudar a sistemática, deixando de lado a modalidade de concessão onerosa pela concessão pela menor tarifa. Mais ainda.

Cota de depreciação – 2

Na hora de renovar concessões antigas, deu aos concessionários a possibilidade de renovar de forma não onerosa, desde que aceitasse a nova modalidade de pagamento – que levaria em conta as despesas operacionais da concessão. Para reduzir a conta, no caso das concessões que vencem até 2015, houve a proposta de ressarcir as empresas pelo tempo que faltava para vencer o contrato. Como discutir a legitimidade da proposta?

Cota de depreciação – 3

De repente, descobre-se que o mercado precificava as empresas levando em conta a renovação da concessão, a manutenção dos ganhos com a tal taxa de depreciação, mesmo ela não se constituindo em direito líquido e certo da companhia. Acionistas ganharam rios de dinheiro em cima da desinformação do mercado, contando com um faturamento futuro que não poderia se manter após o final da concessão.

Cotas de depreciação – 4

As cotações de uma companhia dependem do fluxo futuro de resultados. Em geral, o mercado projeta o fluxo passado para o futuro e, a partir daí, calcula o chamado preço justo da ação. Ora, no caso das concessões, ponto central de análise é o prazo dos contratos e de que maneira se dará sua renovação. Vendeu-se a ideia de que, mesmo com a renovação, o fluxo de resultados seria mantido. É evidente que houve um passa-moleque no mercado.

Cota de depreciação – 5

Em vez de investir contra os que manipularam os preços (escondendo informações relevantes), houve um enorme alarido de lobistas contra o que diziam ser “insegurança jurídica” dos contratos. Que mané insegurança? Tem-se periodicamente leilões de energia, com novos investidores entrando no mercado, apostando em novas fontes, sem um pingo de receio quanto à segurança jurídica. No entanto, espalhou-se a lenda da insegurança, com propósitos eminentemente políticos.

Almoço grátis

Não se ficou só nisso. Se desonera a conta de tributos, diz-se que o governo está dando presente tirando dinheiro dos impostos. Se há aporte do Tesouro, diz que o governo está oferecendo almoço com dinheiro do contribuinte. Mas é claro! Alguém acha que essa entidade chamada governo tem fontes próprias de receita? Há um tiroteio insano no ar que impede que as boas iniciativas sejam valorizadas e impede que os fracassos relevantes sejam apontados.

Após críticas do Movimento Negro, Ministério da Cultura prorroga prazo de Editais

Movimento negro pede editais com mais prazo e mais clareza

Por Cristina Tardágula n’O Globo


A ministra da Cultura, Marta Suplicy: prazo de editais prorrogado porque janeiro e fevereiro são “meses de férias e festividades”
Foto: Ailton de Freitas

Rio – Dois meses depois de anunciar um pacote de R$ 9 milhões distribuídos por editais que foram criados para promover a cultura negra, o Ministério da Cultura (MinC) se tornou alvo de críticas por parte dos próprios produtores negros e de entidades como o Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara), que tem sede em Brasília.

O grupo acusa o ministério de fazer demagogia por ter estabelecido prazos muito curtos para a inscrição de projetos nos citados editais e de ter sido pouco transparente quanto a seus requisitos. Buscando reverter a polêmica, o MinC prorrogou para março a maior parte dos editais que se encerrariam no fim desta semana e, agora, anuncia a realização de oficinas para ajudar os futuros proponentes “a entender e adequar sua proposta ao que foi exigido”.

Lista em quatro dias

A polêmica com relação à execução do projeto que a ministra Marta Suplicy divulgou no dia 20 de novembro começou na primeira semana do ano. Em 3 de janeiro, Claudinei Pirelli, chefe de gabinete da Fundação Cultural Palmares (FCP), braço do MinC responsável por reforçar “a cidadania, a identidade, a ação e a memória” dos negros, disparou um e-mail para a base de dados do órgão buscando “ampliar a mobilização em torno dos editais para criadores e produtores negros”. No texto, Pirelli pedia que os contatados montassem até o dia 7 — quatro dias depois — uma lista de nomes, e-mails e telefones de entidades, artistas e criadores negros. O fato de, no prazo oferecido, estarem incluídos um sábado e um domingo levou à fúria parte do movimento negro.

— A ideia da ministra é boa, mas há uma problema de operacionalização dentro da FCP — diz Humberto Adami, diretor do Iara. — Como é que se pede para que o movimento negro se articule em todo o país de uma quinta para uma segunda-feira? Isso não é administração pública.

— Esses editais foram lançados com prazos diminutos e criaram uma confusão danada — completa Antônio Costa Neto, assistente de Adami no mesmo instituto. — Assim como o branco, o negro precisa de tempo para elaborar pré-projeto, projeto básico, calcular o orçamento e entrar na disputa por um edital. De que serve abrir oportunidades se não há a devida transparência e divulgação de regras? Não é possível fazer um projeto do dia para a noite, ainda mais no fim do ano. Aí, lá na frente, os projetos não preenchem os requisitos, são eliminados, e o esforço terá sido em vão. Se continuar assim, a política do MinC para os negros pode acabar parecendo demagogia.

Costa Neto ainda foi além. Apontou um suposto dirigismo por parte do ministério ao tentar elaborar uma lista em apenas quatro dias:

— Só daria tempo de entrarem os amigos, os conhecidos. A meu ver, as informações relativas a esses editais teriam que ser totalmente públicas e divulgadas. Ou o MinC passaria informações apenas àqueles que tiveram acesso ao e-mail de convocação da FCP?

Em uma das furiosas respostas ao e-mail enviado por Claudinei Pirelli, o designer negro Luiz Carlos Gá alertou:

“Ou muda a Fundação Cultural Palmares (…) ou iremos ver um desfilar de negros a se desmoralizarem pela incompetência de atender às reais necessidades dessa demanda (…). Embora a ministra Marta não tenha essa intenção, acredito eu, corre o risco de sermos acusados de incompetência por não termos atingido em número e em qualidade os projetos dentro da expectativa desse governo, o que será uma bela de uma covardia”.

Na troca de e-mails, houve ainda quem criticasse a execução orçamentária da FCP, supostamente abaixo do esperado. Em 2012, a entidade usou 85% da verba posta à sua disposição. Para os especialistas do Iara, um exemplo de que há dinheiro, mas falta gestão na fundação.

‘Meses de férias’

Ciente da celeuma, o MinC tomou duas medidas: prorrogou para março e abril os editais da Fundação Biblioteca Nacional, da Funarte e da Secretaria de Audiovisual que, a princípio, se encerrariam no fim deste mês (veja mais em quadro nesta página) e anunciou a realização de oficinas gratuitas para ensinar os interessados a participar e a acompanhar a tramitação de seus futuros projetos nesses editais. As oficinas ocorrerão em diversas representações regionais do ministério — no Rio de Janeiro (na sexta-feira), em São Paulo (no sábado e nos dias 5, 20, 23 e 28 de fevereiro), em Belo Horizonte (no dia 5 fevereiro) e em Recife (no dia 29 de janeiro). Ainda estão previstas oficinas na Paraíba, no Ceará, no Piauí e no Maranhão.

Procurada pelo GLOBO, a pasta explicou que os editais anunciados pela ministra foram prorrogados porque janeiro e fevereiro são “meses de férias e festividades” e que o cadastro solicitado por e-mail por dirigentes da FCP no último dia 3 seria usado “como apoio à divulgação de políticas públicas” e para a difusão de comunicados. O ministério explicou ainda que o curto prazo dado ao movimento negro para a montagem dessa lista tinha por objetivo atender “ao planejamento interno, que incluía ainda a organização dos dados” coletados.

Em Davos, o pessimismo dos ricos

por Luiz Gonzaga Belluzzo na Carta Capital

Resilient Dynamism é o tema proposto aos participantes pelos organizadores do Fórum Econômico Mundial que ora se realiza em Davos. Nos últimos cinco anos, o conclave dos ricos, famosos e bem-sucedidos do mundo, anda murcho, lamurioso, pessimista e, como revela o tema escolhido, enigmático. Resilient Dynamism: soa bem, mas pode significar qualquer coisa. O jornal inglês The Guardian do dia 23 de janeiro espetou sua maldade no painel dos inconformados. Sugeriu que seria mais apropriado We got it wrong. A tradução livre: Não entendemos nada.

Escreve Monbiot, do Guardian: “A crise demonstra que o pensamento neoliberal é uma fraude de alto a baixo”. Foto: Joel Saget/AFP

Talvez, escovado por seus estudos sobre a Grande Depressão, Bernanke revelou incômodo com os sinais do mercado, mas seus pares demoraram a ouvir os passos da caminhada da economia para a recessão. Não foram poucos os membros do Fomc que temiam um repique da inflação e recomendaram uma elevação dos juros. Outros, como William Poole, apostaram no caráter passageiro das turbações financeiras: “Aposto que nada vai mudar fundamentalmente na economia real”. Rezava o comunicado da reunião do comitê publicado em 7 de agosto: “Ainda que os riscos de uma desaceleração do crescimento tenham aumentado em alguma medida, a preocupação maior do comitê é com o ­risco de a inflação não moderar o seu ritmo como esperado”.

Com essa sensibilidade, é claro que tampouco os sábios anteciparam a violência deflacionária da reversão de um ciclo expansivo apoiado no crédito fácil e no enriquecimento fictício das famílias.

Lambendo as feridas causadas por sua incúria e imprevisão, diante do massacre imposto a seus esgares presunçosos, os potentados do mundo dos negócios cuidam de lamentar a hostilidade das maiorias descontentes com os rumos da economia global. O CEO do JP Morgan, Jamie Dimon, queixou-se, em Davos, das acusações e dos ataques lançados contra os bancos pelos reguladores e pelo público em geral. Em sua opinião os bancos foram um “porto seguro” para governos, empresas e famílias “durante a tempestade”.

Ainda mais seguros foram os diques construídos pelos bancos centrais mediante a compra de papéis ilíquidos que contaminavam as carteiras das instituições. Os sábios da finança que sustentavam suas posições superalavancadas com a grana dos mercados atacadistas de dinheiro. Aí dormitavam as aplicações de curto prazo de empresas e famílias. Quando esses mercados desapareceram tangidos pelo pânico, os colegas do senhor Dimon foram socorridos, em meio à tempestade, pelos salva-vidas lançados pelos governos.

Para acrescentar vergonha à infâmia, o supracitado New York Times revelou, em sua edição de 23 de janeiro, outra proe­za dos Senhores do Universo. Em 16 março de 2007, funcionários do Morgan Stanley dis­cutiam o nome de mais um pacote de ativos tóxicos que preparavam para lançar no mercado. As sugestões eram realmente sugestivas: “Derretimento subprime”, “Holocausto nuclear”, “Porrada do Mike Tyson” ou “Um saco de excremento”.

Entre outras trapalhadas, as camadas dirigentes – os especialistas da academia e as autoridades de plantão aceitaram a viseira de modelos mais tolos do que inúteis que rezavam o refrão da impossibilidade de acontecer o que estava acontecendo, concluindo que nada havia a fazer. Despejadas das moradias recém-adquiridas e impagáveis, as famílias devedoras descarregam a ira nos banqueiros excessivamente espertos e reguladores demasiado negligentes.

Essa busca e (improvável) captura de culpados revela a precariedade histórica e analítica que se apoderou do debate contemporâneo sobre as origens da crise. O espírito do tempo, atoleimado com o advento das informações instantâneas, da mídia de massa e de suas ramificações ciberespaciais, sempre inchadas de sábios de duas frases e cinco palavras, se encarregou do resto do serviço: simplificar os problemas e massacrar a inteligência alheia com caganifâncias e vulgaridades.

George Monbiot, o celebrado articulista do Guardian não deixa barato: “A crise demonstra que o pensamento neoliberal é uma fraude de alto a baixo. As demandas dos ultrarricos foram vestidas com os adornos de uma teoria econômica sofisticada. Mas o completo fracasso dessa experiência à escala mundial não impede a sua repetição. Isso nada tem a ver com economia. É uma questão de poder”.

Coordenador de ocupação do MST na Usina Cambahyba é assassinado no Rio

O trabalhador rural e militante do MST Cícero Guedes foi assassinado por pistoleiros nesta sexta-feira (25/1), nas proximidades da Usina Cambahyba, no município de Campos dos Goytacazes (RJ).

Cícero foi baleado quando saía do assentamento de bicicleta. Nascido em Alagoas, ele foi cortador de cana e coordenava a ocupação do MST na usina, que é um complexo de sete fazendas que totaliza 3.500 hectares.

Esse latifúndio foi considerado improdutivo, segundo decisão do juiz federal Dario Ribeiro Machado Júnior, divulgada em junho.A área pertencia ao já falecido Heli Ribeiro Gomes, ex-vice governador biônico do Rio, e agora é controlada por seus herdeiros.

Cícero Guedes era assentado desde 2002 no Sítio Brava Gente, no norte do Rio de Janeiro, no assentamento Zumbi dos Palmares, mas continuou a luta pela Reforma Agrária. Era uma referência na construção do conhecimento agroecológico tanto entre os companheiros de Movimento como também entre estudantes e professores da Universidade do Norte Fluminense.

No lote, ele desenvolvia técnicas da agroecologia, com uma diversidade de plantas , respeitando a natureza e aproveitando de tudo que ela poderia dar. Começou com o plantio de sua cerca viva de sabiá, que viu sua propriedade melhorar visualmente e também obter uma boa fonte de renda.

Cícero também era conhecido pelas suas bananas, presentes em muitas partes do lote, consorciadas com leguminosas, milho e espécies frutíferas.Os filhos cresceram vendo a experiência se desenvolver e aprenderam com o pai que os alimentos produzidos na agroecologia  têm  qualidade superior aos do supermercado

O agricultor assentado Cícero Guedes dos Santos, desde o inicio da ocupação do seu lote em 2002, já possuía o desejo de ter em sua área diversidade de plantas , respeitando a natureza e aproveitando de tudo que ela poderia dar. A natureza , inclusive, foi a fonte de inspiração para esse tipo de consciência e o entendimento da mesma fez com que esse sentimento de preservação e convívio fosse dia-a-dia aumentando.

Violência do latifúndio

O complexo de fazendas tem sido palco de todo tipo de violência: exploração de trabalho infantil, exploração de mão de obra escrava, falta de pagamento de indenizações trabalhistas, além de crimes ambientais.

Em dezembro, o Incra fez o compromisso de criar um assentamento na área da usina, mas até agora não avancou no sentido de assentar as famílias.

A morte da companheiro Cícero é resultado da violência do latifúndio, da impunidade das mortes dos Sem Terra e da lentidão do Incra para assentar as famílias e fazer a Reforma Agrária. O MST exige que os culpados sejam julgados, condenados e presos.

As fazendas da Usina Cambahyba acumulam dívidas de milhões com a União e seu processo de desapropriação está paralisado há 14 anos — desde que o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) considerou aquelas terras improdutivas e passíveis de desapropriação para fins de reforma agrária.

Porém, a dívida da usina não se limita ao aspecto financeiro. No último mês de maio, os brasileiros ficaram estarrecidos com a revelação de que os fornos de Cambahyba foram usados para incinerar corpos de 10 militantes políticos durante a ditadura civil-militar brasileira. A confissão do ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Cláudio Guerra, consta no livro “Memórias da uma guerra suja” e foi divulgada por toda a imprensa.

Até hoje, porém, a Justiça Federal impede a desapropriação da área e já determinou despejos violentos de famílias que reivindicam a terra. Essa é a segunda vez que o MST realiza uma ocupação na área da usina.

A primeira foi em 2000, e seis anos depois, as Polícias Federal e Militar, por decisão da Justiça Federal de Campos, despejaram as 100 famílias que haviam criado o acampamento Oziel Alves II.