Brasileiros entregues à própria sorte em assentamentos de GO

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Por Deco Bancillon no Correio Braziliense

Entregues à sorte

Penúria dos brasileiros esquecidos pelo Estado é ainda mais aguda em assentamentos e lugarejos isolados. Geraldo é testemunha das privações dos moradores de Simolândia (GO): “Somos escravos dessa vida sofrida ” . Situação se repete em Sítio d’Abadia (GO), mostra reportagem do Correio

Moradores aguardam regularização da área pelo Incra. Ladrões agem na comunidade quando os homens saem para trabalhar

Simolândia (GO) — Nos rincões do Brasil que ninguém vê, a falta de acesso a serviços públicos é uma mazela que afeta homens e mulheres, adultos e crianças. Não importa o credo ou a cor. São todos vítimas do abandono do Estado. “A gente ouve o povo dizer que a escravidão acabou. Mas somos escravos desta vida sofrida”, desabafa o piauiense Geraldo Ferreira de Sousa, um lavrador de 44 anos que há nove vive sob a pior das condições sociais, em um assentamento rural distante cerca de 250 quilômetros da capital da República.

Todos os dias, os dois filhos de Geraldo, uma garota de 18 anos e um rapaz de 15, acordam às 5h da manhã e caminham três quilômetros até chegar à parada de ônibus e pegar a condução para a escola. No barraco de pouco mais de 10 metros quadrados em que vive a família do lavrador, não há água encanada nem energia elétrica. Sem muros ou cercas, a propriedade é protegida por dois cachorros vira-latas, que ladram sempre que algum estranho se aproxima. “Tudo o que conseguimos é com muita dificuldade, com muita luta”, diz ele.

Para cidadãos como Geraldo, com direito a voto, mas sem acesso a serviços básicos que o poder público tem obrigação de prover, um simples banho quente é coisa de outro mundo. “Aqui não tem nada. Nem privada, nem chuveiro. Quando a gente fica apertado, resolve no mato mesmo”, confidencia o estudante Robério Santos Barbosa, 17 anos. O líder comunitário Glaucio da Silva Oliveira, 31, sentencia: “Este é o corredor da miséria. Sem dúvida, o lugar mais carente de atenção de todo o nordeste de Goiás”.

Sofrimento

A sensação de abandono é latente. Glaucio, Robério e Geraldo estão entre mais de uma centena de brasileiros de 40 famílias pobres que acreditavam na promessa de que, um dia, o assentamento rural Zumbi dos Palmares, hoje sinônimo de descaso, se tornaria uma comunidade estruturada, com abastecimento de água potável, luz elétrica e estradas asfaltadas. Em 2003, no primeiro ano de mandato do então presidente Lula, essas pessoas invadiram uma fazenda abandonada distante cerca de 15km do município goiano de Simolândia, de 6,5 mil habitantes. A desapropriação da terra, em 2005, pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), foi a primeira e única grande conquista dessa gente.

Além de barracas, umas poucas panelas e bandeiras do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), eles carregavam consigo a esperança de que o novo governo se empenharia em resolver os problemas fundiários de um país em que o direito à propriedade é um sonho para poucos. De lá para cá, porém, pouco ou nada mudou no assentamento. Protegidas apenas por cercas de arame liso, as 43 moradias são um convite à bandidagem. “Aqui, roubam até as panelas velhas e as roupas surradas”, denuncia a dona de casa Eleuza Maria de Jesus, de 33 anos.

Cleonice Barbosa Ribeiro, 44, conta que a ausência dos maridos, que migram para municípios vizinhos em busca de trabalho, facilita a ação dos criminosos. “Aqui só ficam mulheres e crianças. Os que têm força para o serviço vão procurar emprego longe”, diz. “Só Deus para olhar por nós, porque, se depender da polícia ou do governo, a gente pode esperar pelo pior”, desabafa.

E o pior pode mesmo acontecer. “Tempos atrás, um barraco pegou fogo. A gente acha que foi a lamparina que estourou ou algo do tipo”, conta Glaucio Oliveira, um dos moradores mais antigos do assentamento. Maria de Fátima Alves, 53 anos, teve um susto ainda maior. “Esses dias, meu marido passou mal. Chegou a desmaiar. Entrei em desespero. Liguei no Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), mas acharam que era trote. Insisti umas cinco vezes, e nada. Então, corri para a estrada e gritei por socorro”, lembra.

Só decepção

No rastro de problemas que os moradores enfrentam todos os dias, nenhum é maior do que a sensação de que todo o sacrifício pode ter sido em vão. Há nove anos, quando demarcou o local, o Incra teria dito que o assentamento comportaria até 56 famílias. Tempos depois, após visitarem o terreno, técnicos do órgão disseram que a capacidade, na verdade, era outra: 33 famílias. “Só que aí já era tarde. Quem tinha vindo para cá não quis mais sair e ficou por isso mesmo”, ressalta Glaucio.

Com a indefinição, o plano de regularização do assentamento não foi aprovado. O mesmo ocorreu com o crédito para construção das casas populares, que está parado à espera do aval do Incra. Tristeza ainda maior foi descobrir, pelo próprio Instituto, que grande parte da área é imprópria para cultivo agrícola. Quase todo o terreno é de solo arenoso, que dificulta o plantio de culturas tradicionais, como o milho, a soja e o arroz. Mesmo assim, ainda há quem acredite que um dia as terras serão férteis. “Tenho fé que um dia melhore. Aos pouquinhos, a gente fez pegar um feijão-vagem, uma melancia”, diz o lavrador Geraldo Ferreira.

Para o diretor de Estudos e Políticas Sociais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Rafael Guerreiro Osório, a esperança do agricultor de que um dia aquelas terras serão férteis não exime o Estado do erro de ter permitido que dezenas de famílias vivessem nessa situação. “De nada adianta assentar pessoas em um pedaço de terra improdutiva, em que elas não poderão trabalhar e tirar dali o próprio sustento. Isso só reforça a condição de miséria delas”, adverte.

Em resposta ao Correio, o Incra afirma que o assentamento “foi concebido inicialmente para receber 53 famílias”. No entanto, em 2009, após encaminhar uma equipe de vistoria ao local, aplicou os critérios da legislação e a capacidade de ocupação foi “corrigida” para 33 famílias. O órgão assegura que o erro foi da empresa contratada para prestar assistência técnica às famílias. O Incra destaca que as famílias estão sendo assistidas com cestas de alimentos, doadas pelo governo federal, “o que minimiza a condição de subsistência delas”.

Legado

O descaso que se vê no assentamento Zumbi dos Palmares se repete com boa parte dos moradores de Simolândia: 10,71% dos moradores do município não têm televisão em casa, outros 10,76% não possuem geladeira para acondicionar alimentos. Dos 6.514 habitantes registrados no último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 81,50% foram considerados pobres. Em meio à miséria, quem não tem emprego sobrevive da ajuda alheia. “Aqui não tem trabalho para todo mundo. Ainda mais para gente como eu, que não sabe ler nem escrever”, afirma Manoel Ferreira Almeida, lavrador de 48 anos que, mesmo desempregado, é responsável por sustentar a esposa com problemas mentais e seis filhos.

Não é só: 58,16% dos moradores do município goiano não têm carteira assinada. Para essas pessoas, conseguir um posto de trabalho formal é quase um milagre, pois boa parte delas é analfabeta completa ou funcional — ou seja, aprendeu a ler e a escrever, mas não consegue interpretar textos ou fazer operações matemáticas simples. A dona de casa Eleuza Maria de Jesus, 33, sabe bem o que é estar nessa situação. Ela cursou até a sexta série do ensino fundamental, mas seu conhecimento é mínimo. A grande preocupação de Eleuza é evitar que as três filhas repitam a sua situação. A do meio, Agda Beatriz Costa, 8, é a que tem apresentado mais dificuldade na alfabetização. Mesmo indo para o terceiro ano de estudo, a menina só consegue escrever o primeiro nome.

“Esses dias o meu marido passou mal. Chegou a desmaiar. Entrei em desespero. Liguei no Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), mas acharam que era trote. Insisti umas cinco vezes, e nada. Então, corri para a estrada e gritei por socorro”
Maria de Fátima Alves, dona de casa

 

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