SP e Rio decidem adiar alta na tarifa de ônibus
Por Vinicius Neder, Fernanda Nunes, Ricardo Leopoldo e Daiene Cardoso no Estadão
Para reduzir o impacto sobre a inflação no início do ano, prefeituras das duas maiores cidades do País atendem a pedido do ministro Mantega

RIO e SÃO PAULO – Com o reajuste no preço dos combustíveis se aproximando, o adiamento do aumento nas passagens de ônibus pode ser a saída do Ministério da Fazenda para reduzir os impactos negativos na inflação neste início do ano. O ministro Guido Mantega pediu às prefeituras de São Paulo e Rio que adiassem reajustes e foi atendido. Os preços das duas capitais têm o maior peso no IPCA, índice de inflação oficial, que baliza as metas perseguidas pelo Banco Central (BC).
Para economistas, ao adiar as altas de preços administrados, o governo quer evitar que o IPCA de janeiro atinja a marca psicológica de 1%, o que poderia afetar expectativas do mercado para a inflação neste ano. O reajuste nos combustíveis deverá ocorrer na próxima semana, como revelou o Estado ontem.
O adiamento dos reajustes de passagens em São Paulo e no Rio, conforme antecipou ontem o jornal Folha de S. Paulo, deixa para depois uma alta de 0,13 ponto porcentual no IPCA, segundo o economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). Para os cálculos, foram considerados aumentos de 11,84% em São Paulo (inflação acumulada desde o último reajuste) e de 5,5% no Rio, como já estava anunciado.
Em São Paulo, a alta das passagens deverá ficar para junho, segundo o prefeito Fernando Haddad. Em entrevista à Rádio Estadão, Haddad disse que, ao pedir o adiamento, Mantega ponderou sobre a quantidade de despesas que se acumulam nos primeiros meses do ano, que influenciam as projeções de inflação. “Todos os reajustes acontecem no mesmo mês. É muita coisa para a administração no começo do ano e isso afeta as expectativas do mercado”, justificou Haddad, completando que a prefeitura pretende dar um aumento abaixo da inflação acumulada. O último reajuste foi em janeiro de 2011, quando a passagem passou de R$ 2,70 para R$ 3.
No Rio, o reajuste estava marcado para dia 2 de janeiro. Conforme decreto publicado em 19 de dezembro, a tarifa passaria para R$ 2,90. A assessoria do prefeito Eduardo Paes confirmou o pedido de Mantega. O aumento foi adiado em 1.º de janeiro, quando outro decreto anulou o de 19 de dezembro. Ainda não há nova data para o reajuste.
O contrato de concessão entre a prefeitura do Rio e as empresas que operam as linhas de ônibus prevê reajuste anual, sempre para o primeiro dia útil de cada ano. O Rio Ônibus, consórcio das empresas concessionárias, foi comunicado do adiamento na semana seguinte ao Natal. Em nota, a entidade afirmou que “confia que as relações previstas contratualmente serão cumpridas”.
Para um executivo de uma instituição financeira em Nova York, que preferiu não ser identificado, o pedido de adiamento nos reajustes afeta a imagem do País no exterior. “Qualquer empresário que aplica recursos para ampliar as instalações de sua fábrica pode pensar: ‘Ontem foi o setor elétrico que sofreu ação vigorosa do governo, hoje ocorreu com as companhias de transporte coletivo. E quando chegará a minha vez?’”, disse.
“Existe um objetivo claro do governo de avançar um processo de controle direto de preços”, comentou o ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman, sócio da Schwartsman & Associados.
