Botequim Desenvolvimentista
O convidado de nosso Botequim Desenvolvimentista esta semana é o economista Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES. Discípulo de Celso Furtado, Carlos Lessa defendeu o desenvolvimentismo e um papel mais ativo do governo no direcionamento da economia. Segundo ele próprio, a imprensa previu sua demissão mais de setenta vezes. Até quem 2004, após criticar Henrique Meirelles, então presidente do Banco Central, a respeito do aumento de juros,foi afastado do cargo.
por Rogério Lessa, no Monitor Mercantil
“Não estamos sequer reproduzindo a República Velha. Esta República atual praticamente universalizou a desnacionalização.” A afirmação é do economista Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES. Em entrevista ao MM, ele revela estar fazendo “uma revisão relativamente radical” de um discurso freqüente na sua juventude em relação ao capital estrangeiro. E propõe uma forma específica de resgate da soberania dos países periféricos: a criação de mecanismos de comparação da qualidade dos produtos, margem de lucro, remuneração de trabalhadores, incremento à pesquisa, entre outros, da atuação das multinacionais em suas matrizes e nas filiais.
Em janeiro, o economista se encontrará com o presidente venezuelano Hugo Chavez, a quem vai propor que lidere uma atuação conjunta nesse sentido: “Além da obviedade de que qualquer unidade industrial gera empregos, renda e impostos, o que é muito importante, o fato de abrigar empresas estrangeiras deu para o Brasil alguma dimensão especial?”, indaga.
“Nossa posição de hospedeiro de filiais de multinacionais é sem dúvida uma posição secundaríssima. O Brasil não é apenas campo de experiência de inovação tecnológica das matrizes. É também campo de experiências de extrair recursos por todo e qualquer pretexto. É extremamente importante pedir para o Instituto Nacional de Tecnologia e o Instituto Nacional de Propriedade Industrial formularem um programa comparativo entre produtos feitos pelas filiais estrangeiras no Brasil há mais de 50 anos com os produtos feitos nas matrizes”, advoga.
Qual a diferença entre o tratamento dado ao capital estrangeiro do Estado Novo até a crise da dívida, nos anos e 80, e atualmente?
A política de desenvolvimento econômico brasileiro tentava criar espaço para que surgisse a empresa nacional, lançando mão de todos os procedimentos disponíveis, desde mecanismos de compra pública, proteção cambial, proteção aduaneira, financiamentos a juros especiais. No caso do plano automobilístico, as montadoras poderiam ser estrangeiras, mas nenhuma autopeça deixaria de ser nacional. Hoje quase não temos fabricantes brasileiros de autopeças. Os esforços de criar uma estrutura produtiva baseada numa espécie de tripé em que houvesse uma perna estrangeira, uma perna de empresas estatais e outra de empresas nacionais foi sendo corroído por um processo de desnacionalização. A última grande onda de expansão de empresas nacionais se deu no II Plano Nacional de Desenvolvimento, de Ernesto Geisel, no setor de bens de capital, máquinas de equipamentos.
O complexo cafeeiro serviu de base para a industrialização. O setor primário-exportador hoje não poderia cumprir a mesma função?
Os novos complexos primário-exportadores brasileiros não reproduzem o clássico complexo cafeeiro, que tinha empresários nacionais, banco financiador nacional, firma exportadora nacional. Tecnologia de seleção de variedades era do Instituto Agronômico de Campinas, as ferrovias que cortavam o interior de São Paulo eram nacionais – públicas ou privadas, mas controladas pelos cafeicultores paulistas.
O Porto de Santos era uma concessão nacional à Docas de Santos. Por isso foi possível ao Estado Novo pactuar uma maneira pela qual o complexo permitiu abrir caminho para esforços industrializantes. Hoje, a soja tecnicamente é da Monsanto. Todos os equipamentos são estrangeiros. Até mesmo num complexo antigo, como o açucareiro, o mais antigo de todos os complexos primários, hoje temos empresas francesas no país para fazer clones de canaviais mais eficientes. O capital estrangeiro está comprando quantidades colossais de terra produtora de cana-de-açúcar e produtores de etanol. Em pouco tempo esse complexo não será mais nacional.
Quais as conseqüências desse cenário?
Se, no passado, até a industria de bens de consumo não duráveis, que nasceu à sombra dos cafezais, apesar de estar nas mãos de estrangeiros, as cadeias de distribuição eram nacionais. Também nesse segmento havia soberania específica do país para arbitragem, nas duas pontas. Agora não mais.
Na concepção original, o complexo metalmecânico seria arbitrado da seguinte maneira: montadoras estrangeiras, autopeças nacionais. Hoje praticamente todas as montadoras estrangeiras estão no país. Dizer que isso vai mudar o padrão dessa indústria é uma piada. Quero dizer que o grau de desnacionalização da indústria brasileira é absolutamente colossal, principalmente depois da privatização, desde a abertura para bancos estrangeiros até abrir a infra-estrutura para o capital de fora. O único setor ainda fechado é o da energia atômica.
A China também não abriga multinacionais e, através delas, exporta produtos de maior valor agregado?
Sim, mas os chineses estão clonando as filiais estrangeiras localizadas no país. Nós estamos vendendo as empresas nacionais. É uma lógica completamente diferente. A privatização da infra-estrutura permite a participação de velhos concessionários estrangeiros.
O caso mais grave é o das telecomunicações, mas também da transmissão e distribuição de energia. A publicidade já é estrangeira, bem como a produção editorial. A maior parte da literatura infantil já e publicada por editoras estrangeiras. E assim vai. Essa estrutura veio para ficar e não será com discurso contra o capital estrangeiro que conseguiremos domesticar algo que está no ganha-pão da imensa maioria dos trabalhadores brasileiros que estão empregados.
A elite nacional que hoje vende suas empresas e, como o senhor disse, comemora com champanhe é diferente daquela dos anos 30?
A elite daquela época existia no café. Existia superprodução e o Estado resolveu o problema, evitando inclusive que os bancos executassem as dívidas. Porque foi protegida, concordou com uma política pela qual o Estado iria fomentar a indústria. É completamente diferente do cenário atual. Me sinto paralisado diante desse cenário. Por outro lado, impressionante é não estar colocada uma pergunta fundamental: O que esse enorme capital estrangeiro fez no Brasil?
Historicamente, sua instalação corresponde aos períodos em que a economia brasileira se diversificou e cresceu. Gerou emprego e renda…
Até aí, perfeito. Mas quais foram os resultados para a economia brasileira em termos de desenvolvimento? Um exemplo: a Gillette. Presença é tão forte que virou expressão no dicionário. Existe alguma inovação tecnológica em 100 anos de existência no país? A qualidade é semelhante à da fabricada nos EUA ou na França? Há programas de pesquisa desinteressada? Pesquisa de materiais brasileiros? Qual o avanço tecnológico que trouxe para o país?
Outro ponto a indagar é sobre como são os mecanismos de competição entre as empresas. Qual a margem de lucro? Nos caso das montadoras, diz-se que é de 10% aqui, enquanto a média mundial é 5% e nos EUA 3%. Se isso é verdade, explica porque todas querem vir para cá. Por que a competição não passa por esse item fundamental?
O senhor vai se encontrar com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, no início de janeiro. O que irá propor a ele?
Montar um programa na periferia do mundo a partir de perguntas elementares. Por exemplo, não vejo carros adaptados às condições de calor em nossa região. Há um tema na ordem do dia que não está necessariamente ligado à economia, que é a soberania nacional, mas não para exercê-la no atacado, e sim na defesa ampla do cidadão enquanto consumidor e empregado de empresa estrangeira. Os povos da periferia do mundo, que estão cheios de filiais de multinacionais, precisam traçar planos de atuação para elas.






