Arquivo mensais:dezembro 2012

O lixo de luxo

por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania

Há décadas que, na véspera de Natal, minha família é tomada por um ritmo frenético de trabalho voluntário que consiste em preparar, além da Ceia Sagrada, marmitas de alumínio e pacotes contendo brinquedos usados que vamos reunindo ao longo do ano. Depois, saímos pelo bairro distribuindo as doações a uma população de rua que, nessa época, abunda aqui na região da Avenida Paulista.

Neste ano, porém, foi mais fácil. Não precisamos procurar as pessoas às quais faríamos as doações, pois elas vieram até nós. A rua em que residimos foi praticamente invadida por essas famílias desabrigadas por ações de reintegração de posse, por estarem recém-chegando a São Paulo ou por viverem nas ruas mesmo.

Não é novidade, para quem vive nos bairros ditos “nobres” de São Paulo, nas noites de véspera de Natal e Ano Novo ver famílias inteiras – quase sempre negras ou mestiças e com muitas crianças – remexendo o lixo. E elas continuam lá no dia seguinte, invariavelmente mergulhadas nessa tarefa deprimente e frenética.

Essas famílias reúnem-se em torno dos suportes para lixo fincados diante dos imóveis de modo a abrirem aqueles sacos de plástico negro em busca de comida, roupas e até de brinquedos “em bom estado” que os mais abastados jogam fora. Inquiridas sobre o que fazem, dizem que o maior desperdício nos bairros ricos é o que produz um “lixo de luxo”.

Na véspera do Natal deste ano, enquanto a esposa preparava as doações para irmos distribuir antes da meia noite, olho pela janela da área de serviço e deparo com uma cena que me reduziu o coração a pó.

A fartura de comidas e presentes do lado de dentro de minha residência contrastava, de forma lancinante, com a cena de uma família negra, esfarrapada, organizada em torno do suporte para lixo. Parecia uma linha de produção industrial. Os grandes sacos de lixo eram passados de mão em mão até serem despejados na calçada, onde era feita a triagem do que poderia ser aproveitado.

Chamei a esposa e sugeri que, como havia famílias em mais de um ponto da rua dedicando-se àquela tarefa humilhante, fizéssemos ali mesmo, à porta do nosso prédio, o que costumamos fazer perambulando de carro pelo bairro.

Mulher e filho, então, lotaram o elevador com as doações e saíram à rua ao encontro daquela pobre gente para a qual os moradores do bairro lançavam olhares de reprovação por estarem “fazendo sujeira”. Quando se aproximaram, os surpresos catadores de lixo, percebendo os embrulhos de presente e as marmitas de alumínio, cercaram-nos.

Enquanto conversavam com os desvalidos de todas as idades, vizinhos nossos romperam a indiferença e se aproximaram para saber “o que estava acontecendo”. Depois, a esposa relatou que pensaram que ela e meu filho estavam sendo assaltados (!?).

O que machuca mais, em tudo isso, não é só a visão que os favorecidos pela sorte têm dos indigentes. O mais trágico é a indiferença. Enquanto se entrega ao consumismo, essa patética classe média alta mostra que se condicionou a não se comover com tragédias sociais e a enxergar as vítimas da injustiça social como vândalos e até mesmo como criminosos.

Entregamos as doações e, com a consciência anestesiada pela caridade cômoda, voltamos ao refúgio do lar e, da janela do apartamento, ficamos assistindo ao desenlace da cena dantesca. As famílias pobres, após extraírem o possível dos sacos, colocaram tudo de volta neles, deixando a rua até mais limpa, pois o lixo de luxo nem sempre é embalado corretamente por quem o produz.

Previdência: Reforma fica para depois, diz ministro

Reforma da Previdência Social ficará para 2013, na melhor das hipóteses

por Vânia Cristino e Paulo Silva Pinto , no Correio Braziliense

Garibaldi Alves garante: a prioridade do governo, neste momento, é estimular a retomada do crescimento econômico. Assim, não haverá esforço para acabar com o fator previdenciário ou mesmo definir uma idade mínima para aposentadoria.

'A Previdência é um problema para 2030, e a presidente está preocupada com 2013. Eu não quero ser mais realista do que o rei. Aliás, ela é que é a rainha. E acho que ela está certa' (Cadu Gomes/CB/D.A Press)

Ministro da Previdência diz que o fim do fator previdenciário, a imposição de idade mínima para a aposentadoria e as restrições às pensões ficarão para 2013, na melhor das hipóteses. Neste momento, a prioridade do governo é estimular a retomada do crescimento econômico do país

O governo prometeu, mas não cumprirá tão cedo a promessa de promover a esperada reforma da Previdência Social, cuja sangria só faz aumentar — apenas com o salário mínimo passando de R$ 622 para R$ 678 a partir de 1º de janeiro, as despesas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) vão aumentar R$ 16,8 bilhões no ano que vem. O aviso do ministro da Previdência Social, Garibaldi Alves, é claro: nem a extinção do fator previdenciário, nem a definição de uma idade mínima para a aposentadoria, nem as urgentes barreiras para conter os abusos no sistema de pensões sairão do papel neste ano e, dificilmente, vão decolar em 2013.

O tema reforma, diz Garibaldi, só entrará na agenda da presidente Dilma Rousseff quando o país resolver problemas de curto prazo, sair da crise e retomar o crescimento econômico. Como não há sinais de que o pior já passou, os graves problemas previdenciários ficarão para depois. “O governo está voltado para o debate de medidas econômicas, que deem resultado a curto prazo. Só teremos alguma chance de dar andamento à reforma previdenciária quando Palácio do Planalto tiver uma agenda mais diversificada”, diz. “Eu não quero ser mais realista do que o rei. Aliás, ela (a presidente Dilma) é que é a rainha”, afirma.

O ministro reconhece que há muito o que consertar, pois, da forma como o sistema está estruturado hoje, não tem como se manter de pé por muito mais tempo. Ele ressalta, porém, que nenhum brasileiro que já esteja no mercado de trabalho perderá direitos adquiridos quando a reforma acontecer. Tanto a idade mínima para a aposentadoria quanto as futuras regras de pensões só valerão para os trabalhadores que entrarem no mercado após a promulgação da lei. Garibaldi garante que, tão logo o governo decida encampar a reforma da Previdência, terá o que apresentar.

Ele conta que, além da idade mínima, proporá a flexibilização do fator previdenciário — que reduz, em média, 31% o valor da aposentadoria quando o trabalhador opta por se aposentar cedo, em torno dos 53 anos de idade, mesmo contando com 35 anos de contribuição. A ideia é aceitar a chamada fórmula 85/95, mas apenas como ponto inicial de partida. Esse modelo é simples: quando a soma da idade do segurado com o tempo de contribuição atingir o número 85, no caso das mulheres, e 95, dos homens, o fator deixará de pesar no cálculo do valor do benefício. Em hipótese alguma, o governo aceitará a pura e simples extinção do fator. E mais: a fórmula 85/95 não ficará parada no tempo. A cada ano, até chegar à idade mínima desejada pela Previdência, ela sofrerá acréscimos. A intenção é que, a cada ano, sejam incorporadas mais seis contribuições, ou seja, seis meses.

Quanto às pensões, Garibaldi afirma que apertará as regras de concessão dos benefícios, que, no INSS, consomem R$ 60 bilhões por ano. “Temos que moralizar o sistema, reduzir os abusos.” Ele destaca ainda que os segurados não devem esperar, a curto prazo, redução no tempo de espera por uma perícia médica. “Faltam médicos. Sofremos uma concorrência desleal até mesmo do Programa de Saúde da Família”, diz. “A Previdência paga salário de R$ 8 mil e o Programa, de R$ 12 mil.” Não à toa, há trabalhadores esperando mais de 90 dias pelo serviço. Leia os principais trechos da entrevista que o ministro concedeu ao Correio.

O ano está terminando sem que o governo e o Congresso tenham decidido sobre temas importantíssimos para o país, como o fator previdenciário e as pensões. O senhor tinha prometido novidades para dezembro. Por que elas não ocorreram?
Na medida em que a discussão do fator previdenciário saiu da mesa de negociação, nós ficamos sem gancho. Terminou ficando tudo para 2013. Sempre defendemos uma discussão mais abrangente, mas perdemos a oportunidade de levar isso adiante. No caso das pensões, as reformas virão, cedo ou tarde, pois o país não comporta mais bancar tantas distorções.

O senhor acredita que, em 2013, o penúltimo ano do governo Dilma e um período pré- eleitoral, haverá alguma chance de o Congresso discutir cortes de benefícios, como o das pensões?
Só teremos chance se houver uma agenda mais diversificada. O governo está centralizando o debate com as medidas de natureza macroeconômica, e isso não tem dado espaço para outros temas. Estamos na expectativa de que haja um desafogo na agenda econômica. É meio paradoxal isso, porque o que queremos propor pode representar uma poupança mais a longo prazo, a exemplo do Funpresp (Fundo de Pensão dos Servidores Públicos). Na minha visão, o governo já tem muitos problemas pela frente, e se trouxer, agora, para o front a área social, com certeza se verá no meio de um fogo cruzado.

Mas o tempo político vai se escasseando, e a economia não dá sinais de que se ajeitará logo. Não existe o risco de não dar para fazer o que precisa ser feito?
Existe.

E como contornar isso?
O governo vem propondo medidas para minimizar os problemas de ordem econômica a curto prazo. Os nossos projetos dizem respeito a uma economia para o setor público mais a longo prazo. Daí ter que conciliar uma coisa com a outra.

Mas essa não é uma visão errada? A Previdência já não é o maior problema fiscal do governo?
Essa premissa é falsa. O grande problema do governo ainda não é a Previdência. Senão nós estaríamos sendo convocados pela presidente a todo instante, como é o ministro Guido Mantega, da Fazenda. A Previdência é um problema para 2030, e a presidente está preocupada com 2013. Eu não quero ser mais realista do que o rei. Aliás, ela é que é a rainha. E acho que ela está certa, pois tem um problema de curto prazo. Tem que botar a economia no rumo certo, para poder até ter condições de pensar mais a longo prazo.

Repetidas vezes, o senhor vem colocando no debate o escândalo que é o nosso regime de pensões…
E é. Com o apoio da presidente Dilma, o que deve estar em primeiro lugar dentro da agenda da Previdência Social é o problema da lei de pensões. Porque, inclusive, já temos uma despesa de R$ 60 bilhões no regime geral (INSS), para uma despesa global de R$ 300 bilhões — e isso apenas neste ano. Somado com os outros regimes (servidores públicos), a despesa com o pagamento de pensões ultrapassa os R$ 100 bilhões. Isso é insustentável.

Por que a prioridade?
Porque é um sistema cheio de falhas. Quando se fala em corte de pensões, pensa-se que vamos cometer injustiças. Ora, na verdade, nós estamos querendo fazer justiça. Há toda aquela história de falta de tempo de carência (para o recebimento do benefício), casamento no leito de morte, etc. São muitas as falhas que custam caro aos cofres públicos. O país não pode continuar pagando isso e promovendo a injustiça, porque a grande maioria que paga a vida inteira está sendo burlada. Os brasileiros terão que se conscientizar de que não há mais espaço para esse tipo coisa.

Qual a origem de toda essa generosidade brasileira?
No passado, as regras de pensão não eram tão benevolentes. A origem é a Constituição de 1988, agravada pela Lei nº 8.213, do início dos anos 1990. A legislação pré-Constituição era muito parecida com a dos demais países. Havia uma cota familiar, um adicional por dependente, não era 100% para todo mundo, não tinha reversão de cotas. Não havia abusos.

Mas, para corrigir isso, os brasileiros podem contar, nos próximos anos, com reduções de direitos? Não tem como consertar a Previdência sem isso?
Não se trata de reduzir direito. É reduzir abusos. Esse é o grande problema. Se nós não comunicarmos isso bem, podemos até perder a batalha e não chegar a lugar nenhum. Não estamos falando em cortar direitos. Estamos falando em alterar regras de acesso. O direito no Brasil é quando você preenche pré-requisitos. Até então, o que se tem é uma expectativa de direito. São alterações que visam moralizar. Não existe almoço grátis.

No passado, quando se adotou o fator previdenciário, isso foi entendido como uma perda de direito. Ou não?
Não vou defender o fator previdenciário. Mas ele existe porque esse país nunca teve uma idade mínima para a aposentadoria. Se não havia uma idade mínima, o sujeito se aposentava aos 55 anos (a média é de 53), tiveram que criar um monstrengo. O país não teve coragem para adotar uma idade mínima, coisa que quase todos os países têm. Só quatro não têm. Equador, Irã, Iraque e Grécia. Como vê, estamos em má companhia.

Geralmente, o político, quando  vira ministro, vai para uma pasta para inaugurar obra, para distribuir bondades que dão votos. Qual o sentido de ser um ministro na Previdência? O que isso acrescenta em relação ao seu eleitorado?
Primeiro, não me ofereceram outro ministério. Eu até queria um mais fácil. A qualquer tempo que me derem outro, estou disposto a trocar. Mas acho que ninguém vai querer. A Previdência é difícil.

Mas vale a pena?
Vale. Nós já conseguimos aprovar o Funpresp, que todos reconhecem como um avanço. Quem sabe conseguimos abrir mais essa agenda e dar outra contribuição para o país. Há distorções graves que precisam ser corrigidas,pois custam caro demais à sociedade. Tivemos duas reformas da Previdência, as dos governos Fernando Henrique e Lula. Mas os desafios continuam.

Obras em Belo Monte, Abreu e Lima e Comperj paradas por seis meses

Trabalhadores deixam as três maiores obras do País paradas por seis meses

Disputas trabalhistas, às vezes violentas, em Belo Monte, Abreu e Lima e Comperj atrasaram empreendimentos, mas garantiram benefícios
por Renée Pereira , n’ O Estado de S.Paulo

O jogo mudou. Se no passado, com o nível de desemprego nas alturas, o trabalhador tinha de aceitar qualquer proposta, hoje em dia é ele quem dá as cartas nas negociações trabalhistas. Sem acordo, podem ficar semanas de braços cruzados até conseguir melhorar os benefícios. É o que tem ocorrido nos três maiores projetos em construção no Brasil: Hidrelétrica de Belo Monte, Refinaria Abreu e Lima e Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Juntas, as obras somam quase meio ano de paralisação desde o início das atividades.

O campeão de greves é o Comperj. Entre novembro de 2011 e maio deste ano, os trabalhadores do empreendimento ficaram 82 dias parados – sendo 58 deles este ano, segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada (Sinicon). Na Abreu e Lima, também chamada de Rnest, foram 71 dias desde 2010; e em Belo Monte, cujas obras começaram no ano passado, 16 dias. A estratégia dos trabalhadores tem surtido efeito.

Além de reajustes salariais bem acima da inflação, eles conseguiram turbinar os benefícios concedidos pelas empresas. O valor da cesta básica, por exemplo, foi o item que mais cresceu nas três obras. Na refinaria, aumentou 940% em quatro anos, de R$ 25 para R$ 260. Mas, nesse item, quem paga melhor é o Comperj: R$ 300. Em Belo Monte, os valor subiu 110% em um ano e meio de atividades, para R$ 200.

“Num ambiente como o atual, em que há escassez de mão de obra, o trabalhador vive num céu de brigadeiro”, afirma o professor da Universidade de São Paulo (USP), José Pastore, especialista em relações de trabalho. Segundo ele, a situação é mais favorável nas obras localizadas em áreas distantes e inóspitas. Nesses casos, o trabalhador fica isolado nos canteiros de obras, longe da família e sem acesso a serviços e entretenimento.

Pastore comenta que muitas empresas o têm procurado para ensinar os profissionais de Recursos Humanos a negociar. “Mas não adianta treinamento. Hoje em dia os trabalhadores conseguem tudo o que pedem. O quadro virou”, afirma o professor. Nas três obras, os reajustes salariais da data base atual ficaram na casa de 11%.

Em Belo Monte, eles conseguiram reduzir de 180 dias para 90 dias o tempo para visitar a família; na Refinaria Abreu e Lima, de 120 para 90 dias. “Há uma mudança na formação dos trabalhadores da construção. Antes tinha baixo valor social. Hoje eles precisam ter maior qualificação profissional e absorver alta tecnologia”, afirma o presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Construção Pesada e Montagem Industrial da Bahia (Sintepav), Adalberto Galvão.

Ele explica que, além de maior cultura sindical, os trabalhadores de agora têm maior grau de escolaridade e estão conectados a informações de todo o País. Na prática, isso significa maior rotatividade. Se veem uma oportunidade melhor, com cesta de benefícios melhor, não hesitam e trocam de emprego, diz Galvão.

Pacote. “O governo lançou um pacote de obras importantes, mas não olhou para o desenvolvimento social do trabalhador. O teto de proteção social e os benefícios não estavam sendo concedidos na mesma velocidade que do lucro das empresas.” Galvão explica que o trabalhador que tem mais consciência vai fazer grandes mobilizações exigindo que a riqueza seja distribuída.

O problema é que nem sempre as paralisações são pacíficas, a exemplo do que ocorreu em Belo Monte e no Comperj. Com milhares de trabalhadores em campo, as centrais sindicais não têm conseguido controlar os ânimos dos grupos, que acabam destruindo o que veem pela frente: ônibus, máquinas, equipamentos ou o próprio alojamento.

A situação ficou tão preocupante que, logo após os primeiros episódios de violência nos canteiros de obras das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira, o governo federal decidiu criar o Compromisso Nacional para Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho na Indústria da Construção – que envolve os trabalhadores e as empresas. A ideia é criar um pacto para evitar novos conflitos.

O presidente do Sinicon, Rodolpho Tourinho, conta que durante 11 meses foram discutidas uma série de medidas para melhorar o ambiente de trabalho e intermediar futuras paralisações. Foram definidos seis compromissos: contratação de mão de obra pelo Sistema Nacional de Emprego (Sine), eliminando os famosos gatos (aliciador de mão de obra); qualificação; saúde e segurança; ambiente seguro e saudável para o trabalhador; relações com a comunidade, com compensações sociais; e representação sindical no local. Os empreendedores precisam aderir ao compromisso.

“O objetivo é criar uma mesa permanente de discussão. Se há algum movimento de greve e não se chega a um acordo, um grupo de trabalho é acionado para apaziguar a situação”, diz Tourinho. Mas as centrais sindicais reclamam que o acordo não está funcionando. “Vai haver muita confusão nas obras do PAC em 2013″, diz Paulo Pereira da Silva, presidente da Força Sindical. “Assinamos o convênio e mesmo assim os trabalhadores continuam sendo maltratados”, argumenta o sindicalista. (Colaborou Marcelo Rehder)

A Primavera Árabe e suas contradições

por Emir Sade, na Carta Maior

Há dois anos surgiu o mais espetacular movimento de massas que o mundo árabe ja conheceu. Depois de amadurecer lentamente dentro de regimes ditatoriais, os povos tunisino e egípcio saíram às ruas de maneira rebelde e massiva, até conseguir derrubar duas ditaduras que tinham conseguido passar a idéia da sua perpetuidade.

Movimentos de jovens laicos foram a novidade de massas mais importante, quebrando a alternativa com que essas ditaduras tentavam perpetuar-se: ou elas ou regimes fundamentalistas islâmicos.

Mas depois desse protagonismo espetacular dos povos tunisino e egípcio, a primavera não conseguiu se estender ao conjunto da região. Ou melhor, suas tentativas encontraram repressões duras e até mesmo de tropas estrangeiras, ou desembocaram em bombardeios militares – como no caso da Líbia -, que substituíram as manifestações de massa – ou em enfrentamentos militares de parte a parte – como na Síria, entre atos terroristas e bombardeios militares.

O fim de um regime crucial para os Estados Unidos e o risco de que esse precedente se estendesse por toda a região, fez com que as potências ocidentais interviessem de forma direta e militar, levando à queda do regime de Kadafi e desviando assim a natureza inicial da primavera árabe para outros objetivos. A crise na Síria é uma derivação dessas manobras, em que os povos ficam afastados da capacidade de intervenção e de dar inicio à construção de regimes democráticos.

Ao mesmo tempo, eleições colocam novas autoridades nos governos – como nos casos da Tunísia e do Egito – que ainda não expressam as novas forças populares nesses países. Partidos que haviam sido tolerados durante as ditaduras – especialmente muçulmanos – ganham as eleições, mesmo se não com suas expressões mais radicais e governam sem ainda refletir as maiores novidades da primavera árabe, particularmente suas formas laicas.

Para que sejam regimes transitórios, não deveriam, como no caso do Egito, elaborar imediatamente uma nova Constituição, que tem o risco de impor ao país um molde religioso conservador e bloquear um processo aberto de construção da democracia nesses países.

Ao mesmo tempo, esses novos regimes nascentes não podem cair na tentação de acordos com o FMI que, ao contrário de atender seus graves problemas econômicos e sociais, os levará a recessões e a ainda mais graves crises sociais.

São processos ainda abertos e tomara que permaneçam assim por um bom tempo, para que as forças novas, jovens, laicas, possam se organizar melhor e disputar a condução desses processos.

O futuro sustentável

O futuro é verde

na Carta Capital

Com a mão na massa e uma conexão total com a natureza, uma escola de Bali inova ao relacionar na prática o conceito de sustentabilidade ao ensino. Foto: Carol da Riva

Passeando no campus da Green School, uma escola internacional em Sibang Kaja, na Ilha de Bali, Indonésia, você se imagina explorando o esconderijo de um mundo perdido. Localizada num cenário paradisíaco, todas as construções são feitas de bambu e tijolos de lama e palha. Os caminhos são demarcados por pequenos seixos, o mobiliário é feito de madeira esculpida e velas de barco assumem o lugar das janelas em algumas salas e aula. Entre as classes, árvores enormes, coqueiros, terraços de arroz de todos os matizes de verde sendo traçados por búfalos, jardins floridos e hortas em volta das salas de aula, onde os alunos plantam e colhem vegetais, tomates, pepinos, cana-de-açúcar e cacau. Um ambiente acadêmico ecologicamente saudável onde estudam 272 crianças (dos 3 aos 17 anos de idade) de 47 nações (10% delas balinesas bolsistas), que nasceu do sonho de um canadense apaixonado pelos balineses, John Hardy.

Hardy era daqueles garotinhos que choravam para ir à escola. “Minha escola foi construída pelas mesmas pessoas que ergueram o hospital e o manicômio, com o material. Não era permitido pensar fora da caixa. Eu detestava estudar”, diz. Em 1975, com 25 anos se mandou para Bali, conheceu a sua mulher, Cinthia, e montaram uma pequena joalheria. O negócio cresceu. Ganhou filial em Hong Kong, depois Nova York. Em 2007, vendeu a empresa e se aposentou. Vivia uma vida de rei em Bali, até que sua mulher o convidou para ir ao cinema ver o filme do Al Gore, Uma Verdade Inconveniente. John resmungou, mas foi. “Esse filme arruinou a minha vida. Pensei que, se somente uma parte do que Al Gore disse for verdade, meus quatro filhos não terão a mesma vida que eu tive. Nesse dia, eu decidi passar o resto da minha vida lutando para melhorar as suas possibilidades.”

John apostou na educação. Sonhou com uma escola verde, que ligasse a vida das pessoas ao ensino. Mandou chamar os arquitetos balineses. A escola precisava inspirar e servir de exemplo em cada ato, com o máximo de respeito à comunidade local e aos seus costumes. “Aqui em Bali, ninguém entra de sapato na casa dos outros. Foi essa a metáfora que dei”, diz. Também proibiu o uso de material químico, derivados de petróleo ou madeira nativa. “Como pode uma escola falar sobre sustentabilidade com os alunos sentados em carteiras de madeira, quando essas estão praticamente extintas em Bali?” Foi, então, que pensou no bambu. “Com três meses, o bambu sai da terra e ultrapassa a altura de um coqueiro. Com três anos, pode ser colhido.” E assim fez a escola.

Quem visita a Green School fica encantado com o seu urbanismo, arquitetura, paisagismo e sustentabilidade. O prédio principal, no centro do campus de 8 hectares, é uma imensa estrutura de bambu composta de duas torres em espiral. É o chamado Coração da Escola, onde acontece boa parte das atividades.

O bambu também serve de estrutura para as outras as salas de aula, as traves do campo de futebol, o balanço das crianças, a cesta de basquete, as cadeiras, as mesas e as lousas. Não há pisos nem calçadas. Os alunos transitam de uma sala para outra por passeios de brita e pedras vulcânicas. O espaço não construído é mata ou horta, cultivada pelos alunos. Parte das hortaliças é destinada ao almoço, outra é vendida aos pais.

Tudo na escola é pensado pelo viés da sustentabilidade. Os banheiros, por exemplo. Cada recinto possui duas privadas. E nenhuma tem descarga. Na do número 1 joga-se água no vaso. Na do número 2, em vez da porcelana, fica um balde. Após usar, joga-se palha moída para tapar o “produto”. Não fica cheiro. De hora em hora, uma funcionária retira o balde que vira adubo. “Nosso impacto ambiental é quase zero”, diz Ben Macroy, diretor de Comunicação da escola que também é um sucesso em energia. Graças às placas solares, a uma pequena turbina chamada vortex e ao biogás, a escola gera watts o suficiente para não depender da rede elétrica. “Também porque toda a iluminação da escola é de luz natural. Não usamos lâmpadas”, diz Ben.

Na hora do almoço, mais ecologia. Duas mesas são colocadas no Coração da Escola. Uma com receitas indonésias, outra com comida de gringo. Ambas são servidas em cestas de palha forradas com folhas de bananeira. Após comer, todos têm de deixar essa folha e o resto de comida nos baldes para adubagem. Só os talheres são lavados.

Todos os pais são bem-vindos na escola. Eles podem circular pelo campus, levar seus computadores para se conectarem na rede wi-fi, jogar prosa fora no café, almoçar com as crianças, ou envolver-se em projetos de sustentabilidade. Uma vez por semana, ocorre a assembleia geral com pais, professores e alunos e, a cada 15 dias, os pais se reúnem no chamado Changemaker Forum. “Com tanta gente bacana, seria um desperdício não usar esse coletivo para alavancar projetos comunitários que façam a diferença para um mundo melhor”, diz Ben Macroy. Os projetos são os mais variados: energia renovável, inglês para os balineses, ajuda aos animais em risco de extinção e até um recente, para transformar plástico em algo lucrativo (o plástico é um dos maiores problemas de Bali).

Outra preocupação da escola é com a comunidade ao redor da escola, composta de muitos balineses. “Estamos com muitos carros no ir e vir. Quero que todas as famílias morem perto o suficiente para que as crianças possam vir para a escola a pé”, diz Hardy.

“A escola tem um astral maravilhoso, uma espécie de ímã. Todo esse verde, os espaços abertos. É algo que nos seduz”, diz David Porteus, que há dois anos trocou a Big Island, no Havaí, por Bali, junto com a mulher e os filhos. “Fui me aproximando tanto da escola, que acabei sendo escalado para tomar conta da Student Villa, a vila dos estudantes entre 14 e 16 anos, que estão na escola sem os pais.

A sua história é a de muitos outros, como Chris Thompson, atual CEO da escola. Chris deixou 23 anos de trabalho para uma multinacional do Vale do Silício, a Electronic Arts (EA), ao escutar John Hardy falar. “Em um mês, larguei tudo e trouxe meus filhos para cá. As pessoas perguntam como eu tive coragem. Foi a decisão mais fácil da minha vida”, diz Chris, que chegou como pai e logo assumiu o cargo de diretor-geral. “Tudo é orgânico e de acordo com a vocação”, diz.

A metodologia de ensino da escola é toda feita de mão na massa e de maneira holística. “Nós seguimos o currículo oficial de Cambridge, mas não temos um modelo fixo. O mais importante não é o que ensinamos, mas como ensinamos”, afirma Chris Thompson.

Para o professor do quarto ano, Shaun McGurgan, a escola é um organismo vivo, que ensina sobre o mundo real e na linguagem de cada criança, de cada ano. “Nosso método é centrado no aluno e não nas matérias”, diz. Segundo o professor, cada aluno aprende no seu tempo, com respeito. “E todas as matérias estão interconectadas e integradas”, afirma. “Neste ano, criei um jogo de mitologia nórdica, que auxilia as crianças com música e teatro e histórias, a desenvolver o inglês e a matemática. ”

O calendário das aulas que começam às 8h15 e terminam às 3h15 é dividido em três pilares. As normais: Inglês, Matemática e Ciências; Artes, como drama, pintura, música, dança; e os estudos verdes. Mas nenhuma é totalmente normal. Nas aulas de drama, por exemplo, os alunos podem declamar Shakespeare na mata. No estudo verde, as crianças vão ao campo de arroz, mas fazem o cerimonial de pedir a bênção hindu antes de plantar com os mestres balineses. “Tudo o que eles aprendem é na prática. Não precisam decorar nada e não esquecem mais”, diz Chris Thompson. Questionado se as crianças gostam da escola, Chris dá risada. Pai de dois filhos que estudam na escola, ele diz que, quando dá uma bronca nos filhos, diz: “Se vocês não se comportarem, amanhã não vão para a escola. Vão ficar em casa”. E eles obedecem? “Na hora”, afirma Chris.

Quando questionado se não querem abrir uma filial no Brasil, Chris Thompson disfarça. “Existem escolas verdes no mundo todo. Não é preciso copiar modelos. É preciso estar aberto a inovar e usar a bagagem local. Cada um cada um.” Chris pode ter razão, mas que dá vontade de ver muitas Green School no Brasil e pelo mundo, isso não dá para negar.

DILMA

O Governo está no rumo certo

Flavio Lyra (*). Brasília, 22 de Dezembro de 2012

Qualquer analista sério do desempenho do atual governo do país não poderá concluir que o baixo crescimento do PIB no corrente ano, cerca de 1%, serve como indicador de impropriedades das mudanças introduzidas na política econômica desde o segundo governo de Lula e aprofundadas no atual governo, consistentes em maior participação do Estado na orientação e regulação da atividade econômica.

No pior dos casos, caberia argumentar que o governo poderia ter sido mais incisivo em medidas de proteção ao mercado interno de produtos industriais e na redução do superávit fiscal. Tais ações teriam certamente influenciado positivamente a demanda efetiva e contribuído para melhorar o desempenho do PIB.

A crítica, portanto, seria dirigida não ao excesso de influência do Estado sobre a atividade econômica, como pretendem os analistas ligados ao mercado financeiro, em sua cantilena em favor de mercados mais livres, inteiramente fora de contexto, num mundo em recessão fruto da irracionalidade dos mercados.

Para entender o que vem ocorrendo no Brasil é indispensável uma visão processual da realidade, que permita evidenciar as transformações que desde os governos de Lula vêm acontecendo nos planos econômico, ideológico e político, que apontam em três direções principais: maior autonomia decisória nacional na área econômica frente aos interesses das grandes corporações internacionais; crescente conscientização da população, especialmente das camadas mais pobres, sobre seus direitos como brasileiros, inclusive o de escolher seus governantes; e chegada ao poder de representantes dos movimentos sociais e da classe trabalhadora, substituindo os representantes da elite empresarial alienada e submissa aos interesses do grande capital internacional.

É preciso que fique claro, de uma vez por todas, que as debilidades estruturais que afetam negativamente a competitividade da indústria brasileira vêm de longa data e têm muito a ver com a abertura econômica e cambial irresponsável, os altos preços dos serviços de infraestrutura em decorrência dos contratos de concessão realizados com o setor privado, e os enormes superávits fiscais para pagar os altos juros da dívida pública, inicialmente adotados no Governo Collor e aprofundados nos governos de FHC.

As baixas taxas de investimento observadas, particularmente na infraestrutura econômica e na indústria, responsáveis por nossa baixa produtividade e defasagem tecnológica, vêm dessa época e somente começaram a elevar-se durante o segundo governo de Lula. No último qüinqüênio, a taxa média de investimentos chegou a 18,9% frente a 16,2% no qüinqüênio anterior.

Na ação mais incisiva do Estado, acha-se a explicação para a mudança observada, particularmente, através do aumento dos financiamentos do BNDES e dos investimentos da PETROBRAS. Neste caso, com a construção de gasodutos e a compra no mercado interno de navios e plataformas de exploração de petróleo. Também foi fundamental a retomada dos investimentos na construção civil, especialmente em função da nova política de habitação para os segmentos populares.

É natural que os analistas do mercado financeiro, na defesa dos interesses de seus patrões, que pela primeira vez deixaram de auferir rendas enormes no mercado de títulos públicos e na especulação com ativos financeiros, estejam insatisfeitos, pois a taxa de juros básica da economia foi reduzida substancialmente pelo atual governo. Foi para a lata de lixo da história, assim, o discurso falacioso e interessado de que a taxa de juros dos títulos do governo não poderia reduzir-se, pois o mercado apenas refletia a situação de desequilíbrio entre a oferta e a demanda, esta supostamente influenciada pelo alto de endividamento público.

Tampouco se confirmou a ameaça de que a inflação voltaria com toda força se a taxa de juros fosse reduzida. Tudo, pura mentira, revestida de ares de verdade científica pelos cultores dessa “ciência econômica” fajuta, saída de manuais matematizados forjados em universidades americanas, cujo compromisso com a realidade é nenhum.

A responsabilidade do atual governo é imensa, pois o país precisa aumentar a oferta e reduzir os custos de seus serviços de infraestrutura. Precisa avançar substancialmente na dotação de infraestrutura tecnológica e na capacitação de recursos humanos de alto nível. Precisa, ainda, melhorar a qualidade de seu sistema educacional. Mas, não dá para ignorar que estamos caminhando nessa direção. Os investimentos da Petrobras na exploração do Pre-sal continuam sendo realizados e dentro de uns poucos anos seremos um grande produtor de petróleo e gás. Os preços de energia elétrica estão sendo reduzidos, os investimentos no setor ferroviário prosseguem, as novas concessões ao setor privado nos segmentos de portos, rodovias e aeroportos deverão produzir resultados satisfatórios nos próximos anos.

É verdade, que ainda há muito a realizar para que o país venha a assumir uma posição de destaque na economia internacional por sua pujança econômica, mas estamos muito distantes da imagem pessimista que mais recentemente as aves agoureiras do mercado financeiro e da grande imprensa estão desenhando para o país. Quando éramos o paraíso para as aplicações financeiras de capital estrangeiro, os mesmos portavozes que hoje pedem a saída do ministro da Fazenda não se fartavam em elogiar a política econômica.

Esses senhores e os segmentos empresariais que eles representam, apenas estão aproveitando a conjuntura internacional desfavorável para se colocarem na contramão de uma política econômica que busca conciliar o crescimento com a maior participação dos trabalhadores na renda. Quando pleiteiam maior liberdade de mercado, o que de fato estão querendo é menor atenção do governo aos segmentos mais humildes da população e maior liberdade para o capital financeiro acumular lucros, não importando o que aconteça com o desenvolvimento do país.

Sonham em voltar ao poder em 2014, para levarem ao final a obra nefasta de desnacionalização, privatização e ajustamento passivo da indústria e da infraestrutura às necessidades do mercado internacional que não puderam concluir, pois foram alijados do poder pelo eleitorado brasileiro, depois dos fracassados governos que realizaram e nos deixaram nos braços do FMI e quase sem autonomia para nos governarmos.

É verdade que tais governantes conseguiram controlar o processo inflacionário. Mas, sempre cabe a indagação se não teria sido possível conseguir o mesmo resultado sem produzir os efeitos deletérios sobre o endividamento público interno e externo e sobre a atividade industrial, que ainda hoje prejudicam a retomada sustentada de nosso desenvolvimento.

A trajetória que os governos populares vêm imprimindo ao país, naturalmente apresenta altos e baixos, mas o rumo está correto e os resultados favoráveis à maioria da população estão à vista de todos, muito embora ainda haja muito a fazer para que o país se consolide como um exemplo de modelo de crescimento com melhoria na distribuição da renda.

(*) Economista. Cursou o doutorado de economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.