Arquivo mensais:dezembro 2012

Preços relativos e desindustrialização

por Flavio Lyra(*)

Brasília, 07 de Dezembro de 2012.

No programa Conta-Corrente de hoje da rede Globo, dois economistas neoliberais deixaram subtendido que a baixa competitividade atual da indústria brasileira é resultado da pouca abertura do país ao mercado internacional. Os aludidos especialistas parecem desconhecer as estatísticas das transações comerciais do país com o exterior, que mostram claramente que estamos importando, cada vez mais, produtos industriais e acumulando déficits crescentes na balança comercial desses produtos. Ou, não consideram preocupante o risco de desindustrialização a que o país está sujeito. É realmente, lamentável que essa gente internalize a visão ideológica das grandes corporações privadas internacionais e tente vendê-la a nossos compatriotas como verdades teóricas irrefutáveis. Será apenas pobreza intelectual, ou vai muito além disto?

Na contramão do que pensam os aludidos sábios livrescos, defendo a tese de que o problema de nossa indústria decorre precisamente da baixa proteção frente à competição externa a que tem estado sujeita. Respondem por isto vários fatores: a insuficiência de investimentos no setor de transporte; a privatização de serviços de infraestrutura e de indústrias básicas; a redução das barreiras à importação, a política de aumento real do salário mínimo; e a política cambial que mantém o real apreciado. Com essas políticas, não foi possível ajustar-se ao mercado internacional e os preços relativos de nossa economia se alteraram em desfavor da maior parte dos produtos industriais, reduzindo a rentabilidade do capital nessas atividades e desestimulando os investimentos, tanto em instalações quanto em inovação tecnológica.

A falta de investimentos em transporte e privatização elevaram sensivelmente o preço relativo de vários insumos importantes como telecomunicações, energia e transportes. A redução das barreiras à importação e a valorização do real diminuíram as margens de lucro dificultando a competição nos mercados externo e interno. Produziu-se, assim, uma especialização perversa para a dinâmica da atividade industrial, que eliminou horizontalmente a produção de componentes, com a destruição de elos das cadeias produtivas.

É indiscutível que era necessária maior especialização industrial, pois com o avanço do processo de globalização um elevado grau de autarquia mostrava-se antieconômico e era um obstáculo a maior integração na economia internacional. A especialização desejável, porém, precisava ser planejada de modo a manter a verticalização de determinados setores e não ser entregue às forças do mercado, como acabou acontecendo. Por exemplo, a indústria de componentes no setor de material elétrico e comunicações, até então muito desenvolvida, for varrida do mapa, no final dos anos 90.

Os neoliberais só têm olhos para a competição estática entre produtos de atividades já estabelecidas e esquecem inteiramente a competição dos capitais entre setores produtivos, que de fato são os determinantes da dinâmica na atividade produtiva. Não perceberam, portanto, que as mudanças nos preços relativos contra o setor industrial tiveram três conseqüências nefastas para o desenvolvimento do país: Deslocaram os investimentos para os setores mais rentáveis, como o agronegócio, a indústria extrativa mineral, telecomunicações e o grande comércio; desestimularam a formação de capital na indústria com a esterilização da poupança interna do setor, em aplicações financeiras; e estimularam o investimento no exterior.

O surgimento da China, como grande importador de nossos produtos primários e o aumento da massa salarial estimulado pelo aumento real do salário mínimo, permitiram ofuscar durante alguns anos a debilitação a que estava exposta a indústria do país, por insuficiência de investimentos. Mesmo nos poucos anos, durante o segundo governo de Lula, em que acumulamos superávits expressivos na balança comercial, não cessou o processo de deterioração da competitividade da indústria, por falta de investimento.

Cabe reconhecer que, especialmente durante o segundo governo de Lula, houve uma retomada do investimento na indústria, graças à atuação do BNDES, mas quantitativamente aquém do que seria necessário para relançar a economia brasileira num novo ciclo de desenvolvimento.

Com o agravamento da crise mundial a partir de 2008, ficou inteiramente evidente a situação de fragilidade competitiva do parque industrial brasileiro e de sua baixa capacidade de reagir frente às mudanças na política econômica dos Estados Unidos e dos países centrais, que buscam sair da recessão e reequilibrar suas contas externas inundando a economia mundial com farta emissão de moeda. O resultado desta política de expansão monetária é o agravamento da já insustentável situação de apreciação da moeda nacional e da perda de competitividade da produção industrial.

A política econômica do atual governo vem atuando na direção correta de aumentar a rentabilidade relativa dos investimentos no setor industrial, seja reduzindo os custos relativos da produção industrial, seja permitindo o aumento dos preços relativos da produção industrial: Destacam-se nesse sentido: o aumento das tarifas de importação e as isenções de impostos para vários produtos; a redução da taxa de juros básica, que desestimula as aplicações financeiras; a retomada dos investimentos públicos e privados na infraestrutura; a redução da margem de lucro dos concessionários de serviços de infraestrutura; a redução dos preços da energia; a redução da taxa de juros dos empréstimos a longo-prazo e o aumento da capacidade de financiamento do BNDES.

Persiste, entretanto, a forte pressão que a apreciação do real exerce sobre a competitividade dos produtos industriais, estimulando as importações e desestimulando as exportações. As ações que o governo adotou para desestimular as entradas de capital estrangeiro produziram, até agora, efeito limitado sobre a desvalorização do real.

Diante da ameaça real de intensificação do processo inflacionário o governo tem sido cauteloso no que toca a correção da apreciação do real. O retorno de taxas mais altas de inflação é temido, tanto pelo impacto desestabilizante geral do quadro econômico, quanto por seu efeito direto sobre o poder de compra dos salários. Este último aspecto, profundamente indesejável em relação às mudanças positivas alcançadas em matéria de melhora na distribuição da renda, pois impactaria diretamente sobre a base política do governo, a classe trabalhadora.

Os crescentes déficits na conta corrente do balanço de pagamentos, decorrentes da debilidade da indústria para exportar e competir no mercado interno são cada vez mais preocupantes. A esperança de corrigir o problema mais frente com o aumento das exportações de petróleo, com a entrada em atividade do Pre-sal, em vez de uma solução pode vir a constituir-se num problema adicional em relação ao setor industrial. O aumento da disponibilidade de moeda estrangeira pode equilibrar as contas externas, mas mantidos os preços relativos atuais, com o real apreciado, não haverá estímulo para a retomada necessária dos investimentos industriais.

As ações que o governo tem adotado até agora para melhorar os preços relativos em favor da indústria podem não ser suficientes e não haver alternativa que aumentar a proteção da atividade industrial, mediante a combinação entre desvalorização do real e aumento das barreiras a importação. Esta, certamente, é uma alternativa abominada pelo pensamento neoliberal, que acredita que só maior abertura ao mercado internacional de bens e de capitais vai ajudar à retomada do crescimento. Esta visão, simplesmente, ignora que o mundo está em recessão e que por vários anos, ainda, o comércio internacional de produtos industriais poderá manter-se estagnado.

(*) Economista. Cursou doutorado de economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.

PIB pode crescer só 1% em 2012

Analistas reduzem projeção para crescimento para 1,03% em 2012

Segundo a pesquisa Focus, do Banco Central, em 2013, a estimativa passou de 3,70% para 3,50%

Eduardo Cucolo, da Agência Estado

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BRASÍLIA – A previsão de crescimento da economia brasileira em 2012 recuou de 1,27% para 1,03% na segunda pesquisa Focus do Banco Central após a divulgação do resultado do PIB do terceiro trimestre de 2012. Para 2013, a estimativa passou de 3,70% para 3,50%. Nos dois casos, é a quarta queda seguida. Há quatro semanas, as projeções eram, respectivamente, de 1,54% e 4,00%.

A projeção para o desempenho do setor industrial em 2012 continua negativa, mas passou de -2,38% para -2,27%. Para 2013, economistas preveem avanço industrial de 3,75%, abaixo da projeção de 3,82% da pesquisa anterior. Um mês antes, a Focus apontava estimativa de retração de 2,32% neste ano e de expansão de 4,10% no próximo ano para o setor.

Analistas reduziram ainda a previsão para o indicador que mede a relação entre a dívida líquida do setor público e o PIB em 2012 de 35,15% para 35,10%. Para 2013, a projeção segue em 34%. Há quatro semanas, as projeções estavam em, respectivamente, 35,20% e 34% do PIB para cada um dos dois anos.

Juro e inflação 

A taxa básica de juros (Selic) deve ficar no patamar atual de 7,25% ao ano até, pelo menos, o fim de 2013, de acordo com a pesquisa Focus. A projeção para o fim de 2013 foi mantida pela quarta semana seguida.

A projeção de inflação medida pelo IPCA para 2012 subiu de 5,43% para 5,58%, de acordo com a pesquisa Focus. Há quatro semanas, a estimativa estava em 5,46%.

Para 2013, a projeção ficou em 5,40% pela segunda semana. Há quatro semanas, estava em 5,40%. A projeção de alta da inflação para os próximos 12 meses subiu de 5,39% para 5,44%, conforme a projeção suavizada para o IPCA. Há quatro semanas, estava em 5,33%.

Nas estimativas do grupo dos analistas consultados que mais acertam as projeções, o chamado Top 5 da pesquisa Focus, a previsão para o IPCA em 2012 no cenário de médio prazo subiu de 5,44% para 5,59%. Para 2013, a previsão dos cinco analistas caiu de 5,64% para 5,57%. Há um mês, o grupo apostava em altas de 5,45% e de 5,56% para cada ano, respectivamente.

Dólar

As projeções para a taxa de câmbio ao final de 2012 e de 2013 subiram novamente nas estimativas dos analistas. Para o fim deste ano, a mediana das projeções passou de R$ 2,07 para R$ 2,08. Para o fim de 2013, de R$ 2,06 para R$ 2,08.

A mediana das projeções para o câmbio dos analistas do Top 5 médio prazo caiu de R$ 2,11 para R$ 2,10 para o fim de 2012. Para o fechamento de 2013, segue em R$ 2,12.

Déficit

O mercado financeiro manteve a previsão de déficit em transações correntes neste e no próximo ano. A mediana das expectativas de saldo negativo na conta corrente em 2012 segue em US$ 54,00 bilhões. Há um mês, estava em US$ 55,00 bilhões. Para 2013, a previsão de déficit nas contas externas foi mantida em US$ 65,00 bilhões. Há um mês, estava em US$ 66,32 bilhões.

Na mesma pesquisa, economistas mantiveram a estimativa de superávit comercial em 2012 em US$ 20,00 bilhões. Quatro semanas antes, estava em US$ 18,90 bilhões. Para 2013, a projeção subiu de US$ 15,52 bilhões para US$ 15,60 bilhões. Há quatro semanas, estava em US$ 15,43 bilhões.

A pesquisa mostrou ainda que as estimativas para o ingresso de Investimento Estrangeiro Direto (IED), aquele voltado ao setor produtivo, foi mantida em US$ 60,00 bilhões em 2012. Para 2013, subiu de US$ 59,50 bilhões para US$ 60,00 bilhões. Há um mês, analistas esperavam entrada de US$ 60,00 bilhões em 2012 e em 2013.

Chávez aponta vice como sucessor

Admitindo a possibilidade de deixar o comando da Venezuela em virtude da quarta cirurgia contra o câncer, Hugo Chávez pede aos venezuelanos que elejam Nicolas Maduro, atual  Ministro de Relações Exteriores e vice-presidente.  No entanto, a constituição prevê que deve haver eleição neste caso.

Assista ao vídeo em: http://globotv.globo.com/rede-globo/bom-dia-brasil/t/edicoes/v/hugo-chavez-anuncia-a-quarta-cirurgia-contra-o-cancer-e-aponta-o-vice-como-sucessor/2285543/

 

STF pode abrir hoje crise institucional entre Judicário e Congresso

Grotescos e malandros alimentam crise entre STF e Congresso

por Paulo Moreira Leite , na Época

 

Podemos observar várias reações diante do julgamento do mensalão. Empolgados com as penas duríssimas, que atingem um partido que desde 2002 não conseguem vencer pelo voto, políticos conservadores querem superfaturar a vitória. Não basta, para eles, a decisão do STF.

Torcem para que o Supremo tome decisões radicais e até grotescas. Uma delas é mandar prender os condenados antes da pena transitar em julgado.  A ideia é a execração pública. Consiste em demonstrar que os condenados  não merecem sequer o respeito que a lei garante a cada um dos brasileiros.

Na mesma linha, pretende-se que o Supremo determine a cassação dos mandatos dos três deputados condenados, quando se sabe que o artigo 55 da Constituição define que esta é uma prerrogativa da Câmara e do Senado. Pede-se um ato de brutalidade, ilegal, como prova de força. Em vez de discutir e deliberar – ou não – pela perda de mandato, quer-se transformar o Congresso num poder subordinado ao STF.

É uma postura vergonhosa, de quem conta com a Justiça para obter vantagens que não conseguiu obter nas urnas.

Você acha que esse pessoal estaria tão nervoso se Fernando Haddad tivesse sido derrotado em São Paulo?  Ou se o PT não tivesse crescido tanto num pleito ocorrido em pleno julgamento, na semana em que dirigentes e líderes do partido foram condenados em transmissão ao vivo pela TV? Quem  disse que seria “saudável” se o julgamento se refletisse nas urnas?

A segunda postura é do silêncio. Respalda-se medidas anti-democráticas, porque elas podem trazer vantagens no futuro. Teme-se, no entanto, ficar contaminado com um serviço que pode manchar tantas reputações com colarinhos tão brancos, causar denúncias e prejuízos a imagem no futuro, quem sabe numa Comissão da Verdade dos anos 2020.

A atitude é típica de malandros, embora a maioria desse povo viva no asfalto e nã0 no morro. Evita críticas ao que está acontecendo.  A atitude  é: se der certo, está tudo bem. Mas se não der, não me comprometa!

A única postura coerente, numa hora que pode tornar-se grave, começa pela leitura do artigo 1 da Constituição: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”

Não se trata, é claro, de um palavrório vazio. A noção de que o “todo poder emana do povo”  percorre toda a Carta, inclusive naquele momento em que os “representantes eleitos” podem perder seu mandato.

Em 1988, quando se escreveu a Constituição em vigor, o país saía de uma ditadura, onde os generais cassaram 176 mandatos parlamentares sem prestar contas a ninguém.

Em 1968, o regime exigiu que a Câmara de Deputados cassasse o mandato de Márcio Moreira Alves. Os parlamentares se recusaram e o governo militar fechou o Congresso. Em 1976, o deputado Chico Pinto fez um discurso onde chamava Augusto Pinochet, general que governava o Chile de forma tenebrosa, de ditador. Foi cassado. Quem fez o serviço desta vez foi o STF.

A ideia básica, em 1988,  era assegurar que apenas representantes eleitos pudessem cassar representantes eleitos. Esta era a distinção entre uma democracia e uma ditadura.

A Constituição assume, de cara, o princípio de que não se deve cassar representantes eleitos. A ideia, essencial, é que serão protegidos sempre. O artigo 15 fala até que a cassação “é vedada.” Este é o espírito da coisa. Admite-se exceções, contudo.

Mas sempre se deixa claro quem pode fazer isso. Não é o Executivo nem o Judiciário.

Está explícito no parágrafo 3o,  artigo 55, que repito a seguir só para destacar:

“a perda do mandato será decidida pela Câmara dos Deputados ou pelo Senado Federal, por voto secreto e maioria absoluta, mediante provocação da respectiva Mesa ou de partido político representado no Congresso Nacional, assegurada ampla defesa.”

E aqui chegamos ao ponto essencial do debate: “voto secreto e maioria absoluta, assegurada ampla defesa.” O que se quer é que o Congresso fique menor, diminuído, que aceite que lhe digam o que pode e o que não pode fazer. Embora sejam representantes eleitos pelo povo, não podem ser soberanos. Será que isso tem a ver com a hemorragia eleitoral das grandes esperanças conservadoras? Até Gilberto Kassab está negociando uma vaga no imenso Aero-Dilma, não é?

Será que essa gente anda triste por que não consegue ganhar uma eleição há muito tempo?

Não vou retomar as sentenças do mensalão. Cada um tem uma opinião a respeito. Mas é consenso que  os ministros aceitaram noções que prejudicaram os réus. A ideia de que era possível flexibilizar provas  foi anunciada sem maiores ressalvas. A noção básica de direito penal, de que todo réu é inocente até que se prove o contrário foi colocada em questão desde o primeiro dia, pelo método do fatiamento, altamente favorável a acusação. No debate sobre as penas, ficou clara a preocupação em garantir de todas as maneiras que elas fossem longas para impedir casos em que pudesse haver prescrição. Ou seja: mais do que a pena correta, fosse qual fosse, tentou-se garantir a mais  dura.

Você pode até achar que isso era necessário, que a política “não tem jeito” e os políticos “são todos ladrões…” Mas aí estamos fazendo um julgamento político de um grupo político, correto?

Também pode fazer cara de inteligente e pensar assim: agora vamos ao mensalão do PSDB-MG e ao mensalão do DEM-DF. Aí vai ficar claro que o país está mudando e essas críticas ao julgamento é coisa de quem enxerga conspiração em tudo.

É bom estar preparado. Não haverá reprise neste show. A sociedade do espetáculo tem dono. Tanto que nenhum empresário que poderia ser enquadrado como corruptor privado foi para o banco dos réus, numa tradição que também havia ocorrido no julgamento do esquema de Collor.

Os dois mensalões seguintes foram desmembrados e vão seguir seu curso, vagaroso, na Justiça comum. Os réus terão direito a um segundo julgamento, o que foi negado aos 35 condenados do mensalão Delúbio-Marcos Valério. Isenção? Só se o julgamento fosse remembrado, o que eu acho sinceramente que seria um erro.

Resta, então, entender o debate sobre as cassações.

Muitas pessoas tem dito que é esquisito imaginar um político condenado – e até preso – que foi capaz de preservar seu mandato. Vai votar por email? Por telefone?

Terá autorização da direção do presídio para dar comparecer a uma votação mais importante?

Poderá usar celulares do PCC? (Aí depende da polícia do Alckmin, né…Piadinha, piadinha…)

Minha visão é que isso não é o mais importante. Nem é tão estranho assim, na verdade. Em 1992, o Congresso votou o impeachment de Fernando Collor, que renunciou antes de ser condenado. O Senado cassou seus direitos políticos por oito anos. Sim. O Congresso.

Em 1994, o Supremo absolveu o ex-presidente por falta de provas válidas. Estranho? Anormal? Ninguém achou. Era normal considerar que o julgamento político de Collor fora feito no Congresso e o criminal, no Supremo. As atribuições estavam claríssimas e ninguém precisou debater o artigo 55…

O estranho, o esquisito, o delirante, o vergonhoso, é desrespeitar a Constituição. O resto se explica e se entende, pois tem a legitimidade de nossa democracia.

E aí chegamos a um ponto essencial. Ninguém pode prever, agora, qual será o voto dos deputados no julgamento dos colegas condenados pelo Supremo.  Em 2005, Dirceu, Jefferson e Pedro Correa foram cassados por votação ampla. O que pode acontecer em 2012?

Ninguém sabe. Vai depender, essencialmente, do ambiente político da época. Para começar, muito possivelmente a Câmara terá um novo presidente, Henrique Alves, do PMDB, no lugar de Marco Maia, do PT. Este é o acordo entre os maiores partidos da casa. O que isso muda na ordem das coisas? Ninguém pode antecipar.

O certo é que os parlamentares condenados têm direito constitucional a uma “ampla defesa”. Isso quer dizer que poderão subir a tribuna e dar sua versão dessa história. Negar este direito é assumir, descaradamente, que se quer diminuir o artigo 1 da Constituição, que diz que “todo poder emana do povo, que o exerce através de representantes eleitos.”

Como explica Luiz Moreira Junior, doutor em Direito pela UFMG e diretor acadêmico da Faculdade de Direito de Contagem, é possível cassar o mandato de um político mas para isso  é preciso “autorização do Congresso. Ele foi investido de poder pelo povo, só o povo pode tirar. Se a gente relativiza isso, relativiza a própria democracia.”

Nos sabemos quem gostava de democracia relativa. Era aquele general que prendeu Chico Pinto e mandou o STF cassar seu mandato.

Crítica da Economist fortaleceu Guido

‘Economist’ conseguiu fortalecer Mantega 

por Brasil 247

O desempenho da economia não foi dos melhores no último trimestre e a presidente Dilma ficou irritada quando soube dos números. Mas agora é que o ministro da Fazenda não cai mesmo. Nesta sexta-feira, a própria presidente, o ministro forte do governo, Fernando Pimentel, o homem forte do PT, José Dirceu, e o colunista da Folha de S.Paulo Clóvis Rossi saíram em sua defesa

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Guido Mantega já deve ter se acostumado com os rumores e as pressões pela sua saída do Ministério da Fazenda, que se intensificaram neste ano (relembre). Desta vez, contudo, a pressão veio de fora, por reportagem da revista britânica ‘The Economist’, que condicionou a reeleição da presidente Dilma Rousseff à troca de sua equipe econômica. Mas as críticas da prestigiosa publicação não parecem ter abalado o ministro dentro do governo. Pelo contrário: a opinião da revista estrangeira aparentemente fortaleceu o ministro.

O primeiro a sair em defesa de Mantega foi o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel. “No dia em que a Economist nomear ministro no Brasil, deixaremos de ser uma república federativa”, disse Pimentel, talvez o ministro mais próximo da presidente Dilma Rousseff — os dois militaram juntos no movimento estudantil. Pimentel disse ainda que, em 2013, o crescimento do PIB brasileiro estará “certamente acima da média mundial” (leia mais aqui).

Mas foram da presidente Dilma as palavras mais contundentes. “Nós todos aqui somos a favor da liberdade de imprensa. Então não tem nenhum senão a dizer sobre o direito de qualquer revista ou jornal falar o que quiser. Só quero me manifestar que em hipótese alguma o governo brasileiro eleito pelo voto direto vai ser influenciado pela opinião de uma revista que não seja brasileira”, disse Dilma. “Vocês não sabem que a situação deles [Grã-Bretanha] é pior do que a nossa? Pelo amor de Deus, desde 2008″, completou a presidente.

Os comentários da revista também fortaleceram Mantega no PT. Condenado na Ação Penal 470, o ex-ministro José Dirceu interpretou a sugestão da ‘Economist’ como uma manifestação britânica contra o governo Dilma. “Desrespeito à parte, isso tudo é conversa fiada da Economist. Eles que demitam seu ministro de Finanças já que a Grã-Bretanha não cresce e o governo interveio com tudo na economia para salvar os bancos e a libra esterlina. Aqui o Governo quem exerce somos nós”, escreveu em seu blog (leia aqui).

Para completar, o colunista Clóvis Rossi, da Folha de S.Paulo, se uniu ao coro dos defensores de Mantega, em artigo intitulado “Fica, Mantega, fica“. “Os argumentos para justificar o pedido [de substituição] são de uma pobreza espantosa em se tratando de uma publicação de altíssima qualidade, goste-se ou não de suas opiniões”, escreveu Rossi, que questiona: “O que a Economist quer? Que Mantega baixe uma Medida Provisória proibindo os consumidores de se desendividar? Beira o ridículo”.

Com potencial para aumentar a pressão sobre o ministro, o material publicado pela ‘Economist’ acabou revelando defensores e pode até contribuir para facilitar a vida do tão criticado Mantega.

46% dos investimentos estrangeiros no Brasil vão para indústria de transformação

Para economistas, PIB também foi afetado pelo cenário externo
Por Chico Santos, no Valor Econômico

Para alguns economistas, é preciso tomar cuidado com as comparações entre o Brasil e outros países latino-americanos. A atração de investimento estrangeiros na região demonstra isso. Do total desses recursos destinados ao Brasil em 2011, 46% foram para a indústria de transformação. No caso do Chile, o número cai para apenas 5%. No país andino, mais da metade (53,5%) das exportações – que totalizaram US$ 80,8 bilhões em 2011 – tem origem no complexo cobre.

Para o economista Carlos Mussi, chefe do escritório brasileiro da Cepal, é necessário “relativizar” as comparações internacionais e levar em conta “o grau de complexidade das economias”. Segundo ele, a situação internacional tem, sim, um efeito importante sobre o comportamento do empresário brasileiro na hora de investir. “O empresário sabe que o histórico é que os ciclos externos vão sempre bater aqui. Ele precisa acreditar que, agora, a situação interna é diferente”, afirma.

O economista João Saboia, professor de macroeconomia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), concorda que há fatores internos travando um crescimento maior da economia brasileira, mas vê também um papel importante da crise internacional nas expectativas do empresariado e nas consequentes decisões de investimentos. “Tem um lado externo que não pode ser negado, mas há também dificuldades internas que não estão sendo superadas. ”

Para Saboia, o nível de investimento brasileiro “está muito baixo, tanto no campo privado como no público”. Para ele, o governo também precisa explicar melhor quais são os objetivos dos incentivos que estão sendo dados a alguns setores, como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos automóveis. O economista acha que as ações do governo estão muito “pontuais” e concentradas no curto prazo, sem clareza quanto às intenções “mais no médio prazo”.

Saboia discorda, no entanto, em relação ao diagnóstico de esgotamento do modelo de crescimento focado no mercado interno. Acha que, mesmo vivendo um momento “amarrado”, ainda é o caminho mais provável para a superação do período de baixo crescimento. Para o professor da UFRJ, a população brasileira tomou uma espécie de “porre de crédito” e se endividou além da conta, precisando de tempo para voltar às compras.

Felipe Kezen, professor de economia internacional da Universidade Mackenzie, no Rio, e de finanças na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), também não concorda com a teoria do esgotamento do mercado interno. “Essa é uma crise mundial singular. Não é de escassez, é de produção”, diz.

A consequência, segundo o professor, é que “que quem apostar totalmente no liberalismo toma uma surra da China”, o país que elevou a escala de produção a níveis nunca antes alcançados, a preços baixos e cada vez com mais qualidade, e que colocou Estados Unidos e Europa na defensiva.

Nesse contexto, Kezen vê a América Latina buscando espaços em estágios muito diferentes e, por isso, difíceis de serem comparados. A maior parte dos países é exportadora de produtos primários, dos quais a China é a grande compradora, para viabilizar sua produção industrial em larga escala.

No Brasil, os produtos primários estão bancando o crescimento das importações, mas sem as históricas crises cambiais a indústria perdeu sua proteção. “Uma coisa boa está fazendo mal”, diz Kezen. Apesar disso, segundo ele, a economia brasileira está “crescendo por dentro” nos indicadores sociais e de renda, aspectos que o PIB não estaria conseguindo captar.

2014 chegou antes de 2013

Percepção e Realidade

por José Roberto de Toledo , no O Estado de S.Paulo

Desde a semana passada, a sucessão de Dilma Rousseff (PT) virou prato principal e é improvável que o cardápio mude pelos próximos dois anos. O molho varia do explícito (o lançamento do presidenciável Aécio Neves pelo PSDB) ao subentendido (a polêmica do pibinho), passando pelo trágico (ascensão e queda do baixo clero da corrupção petista) e o cômico (revista inglesa pedindo cabeça de ministro no Brasil).

A economia – que elegeu FHC, Lula e Dilma – é o ingrediente principal do debate, novamente. A pegadinha é que o gosto popular está cada vez mais distante do palato dos críticos. As diferenças de percepção são tão distintas quanto seus instrumentos de medida. A confiança do consumidor dá picos enquanto as aferições do PIB afundam. Investimentos param ao mesmo tempo que o crédito dispara.

Para cada indicador negativo há um positivo e vice-versa. Depende do gosto do freguês. A produção de automóveis caiu pela primeira vez desde 2002? Mas a taxa nacional de desemprego é a mais baixa desde muito antes disso. Os salários brasileiros crescem duas vezes mais do que a média mundial? Mas o capital estrangeiro foge do Brasil para Índia, China ou aonde seja.

Economistas dizem que os indicadores positivos refletem o passado e os negativos, o futuro. Eles devem ter razão, como tiveram ao prever 10 das últimas 3 recessões.

A piada é gasta porque não há outro ramo de atividade no qual projetar impunemente dê tanto prestígio e dinheiro quanto a economia. Entre 2000 e 2010, as previsões de crescimento do PIB feitas pelo mercado (e publicadas pelo boletim Focus do Banco Central) tiveram um erro médio de mais de 50%. Nove em 10 erraram. Guido Mantega está em linha com seus pares.

Probabilisticamente, se Dilma atendesse a The Economist e decapitasse o ministro da Fazenda, a presidente teria 90% de chance de trocar seis por meia dúzia.

O que tanto mudou desde 2010, quando a revista inglesa enfiou um foguete sob o Cristo Redentor, até a publicação do obituário do PIB brasileiro na semana passada? Foi o PIB ou seu parâmetro de comparação? A bipolaridade eufórico-depressiva parece estar tanto nos olhos de quem vê quanto no objeto da observação.

Aos redatores ingleses resta citar a tirada célebre: “Quando os fatos mudam, eu mudo minha cabeça, o senhor não?” A frase é ora atribuída a John Maynard Keynes, ora a John Kenneth Galbraith. Importa menos o nome do que o fato de que o autor é economista.

Economia eleitoral

Nada se correlaciona mais à popularidade presidencial do que a confiança do consumidor. Ambas estão ascendentes, apesar do pibinho. Como pode ser? Porque o consumidor avalia que sua situação financeira está melhor do que há seis meses, e acha que vai melhorar ainda mais no futuro próximo – puxada por emprego e salários em alta. É portanto um jogo de percepção e expectativa.

O PIB vai seguir a confiança do consumidor, como quer o governo, ou o consumidor vai acabar se convencendo de que o melhor já passou e trocar de canoa, como sonha a oposição? As expectativas são, em boa parte, autorrealizáveis. Portanto, vencer a batalha de versões sobre a economia é começar bem a guerra sucessória.

Chefe do PSB, Eduardo Campos se antecipou dizendo a empresários descontentes com a economia que falta rumo estratégico ao país – implícita é sua oferta por nova bússola. Campos morde e assopra. Pode ser o “tertius” que forçaria um segundo turno em 2014, ou o aliado que facilitaria a eventual reeleição de Dilma. Tudo depende das circunstâncias, ou seja, da economia.

O lançamento de Aécio foi quase um empurrão. Fernando Henrique Cardoso jogou o senador mineiro na arena. Aécio gaguejou, mas não tem opção. Se não mostrar gana para ser candidato agora, quando o PSDB não tem alternativas, vai perder o trem da história. Não assumiu o discurso, mas já age como candidato.

A redução das tarifas de energia elétrica é um ato de campanha de Dilma pela reeleição. Ao gorarem o plano presidencial, as concessionárias geridas por governadores tucanos defenderam o interesse de seus donos mas alimentaram o discurso petista de que o PSDB é demofóbico quando se trata de economia popular. 2014 já começou, mas passa pela economia de 2013.