Os riscos do novo fortalecimento dos governistas venezuelanos

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‘Eleições na Venezuela abrem caminho para um Estado comunal’

por Mariana Timóteo da Costa, n’O Globo

Henrique Capriles comemora vitória como governador de Miranda AFP/JUAN BARRETO

Para historiadora e cientista política da Universidade Central da Venezuela, situação da oposição está cada vez mais difícil

SÃO PAULO — Uma das principais intelectuais venezuelanas, Margarita López Maya rompeu com o chavismo após o presidente Hugo Chávez “acentuar seu projeto autoritário”, em 2007. Por telefone, ela explica os riscos deste novo fortalecimento dos governistas nas urnas.

O GLOBO: O que explica esta vitória e o que representa o chavismo agora governar 20 dos 23 estados?

Margarita López Maya: O partido do governo realmente se fortaleceu. Acho que as pessoas deram um voto solidário a Chávez, um presente para o presidente. A compaixão, aliada à máquina estatal imbatível, que tem muito dinheiro para atrair eleitores com gastos sociais, mostrou-se muito eficaz. A vitória de Chávez em mais estados abre caminho para que a Venezuela vire um Estado comunal, cada vez menos democrático.

A senhora defendia uma democracia mais participativa no passado, mas é bem crítica em relação às comunas chavistas. Por quê?

Margarita López Maya: Porque, do jeito que elas funcionam, ferem a Constituição, tiram a autonomia dos governos locais. Uma coisa é dar mais voz ao povo, outra é criar uma espécie de governo municipal paralelo – assim são as comunas. O que Chávez quer com elas é gerar um Estado verticalizado, subvertendo a gestão do Orçamento, alterando a balança dos gastos públicos. As comunas são um mecanismo para dar mais dinheiro aos aliados e dificultar a vida dos opositores.

A oposição perdeu estados como Zulia, onde está o petróleo, Carabobo e Táchira. A que atribui isso?

Margarita López Maya: Que ela precisa ouvir os anseios da população. Esses estados vivem problemas de corrupção, alta criminalidade, e outros. O governador de Zulia (Pablo Pérez) mostrou que não é um nome tão relevante quanto se achava contra Chávez. Os opositores que ganharam força foram Henrique Capriles (reeleito em Miranda) e dois nomes que vieram do chavismo: Henry Falcón (Lara) e Liborio Guarulla (Amazonas). Ou seja, gente mais atraente aos setores populares.

Como a oposição pode reverter esta perda?

Margarita López Maya: Investindo em novos nomes, aumentando sua base, estimulando o debate público. Mas a situação dela está cada vez pior, enquanto o preço do petróleo não baixar, será muito difícil derrotar o chavismo. Os governistas têm muito dinheiro para gastar e tratam os recursos petrolíferos como cofre sem fundos.

Henrique Capriles se consolida como o principal nome da oposição numa eventual eleição presidencial, caso Chávez não possa voltar?

Margarita López Maya: Sim, mas o Estado comunal tornará seu governo mais difícil. Miranda sempre foi reduto opositor, de classe média. Capriles não depende apenas de sua popularidade para continuar fazendo um bom governo por lá, tem uma luta imensa para conseguir recursos do governo central daqui para frente. A doença de Chávez traz imponderáveis, e uma eleição com a participação de chavistas nunca acontece de igual para igual. O cenário é incerto. O chavismo pode sobreviver sem Chávez? Pode. Mas o presidente existe. Ninguém pode prever o que acontecerá se ele não existir mais. Eleições gerais e locais têm dinâmicas diferentes.

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