Coprodução Brasil-Argentina emociona ao rever ditadura pelos olhos de um menino
Por Alexandre Bazzan, na Caros Amigos

Há 12 anos Marcelo Muller e Benjamín Ávila se conheceram na EICTV (Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños), em Cuba, onde Marcelo era estudante e Benjamín coordenador da cátedra de direção. Criou-se ali “uma relação de estudo, e fomos ficando amigos e eu fui conhecendo a história dele, essa vida maluca que ele teve nos anos 70 na infância aqui na argentina”, explica Muller, que escreveu o roteiro, junto com Ávila, de “Infância Clandestina”, co-produção Brasil-Argentina que estreia nessa sexta-feira (7).
Parceria Antiga
A parceria dos dois é antiga, mas foi com o “curta metragem que é uma espécie de um embrião um pouco ingênuo de ‘Infância Clandestina’, que chama-se ‘Veo Veo’, e foi a partir desse embrião que nós começamos a trabalhar no ‘Infância Clandestina’”, acrescenta Marcelo.
Em “Veo Veo”, um menino sem ter fotos do pai, ou sequer ter lembranças de como ele era, pede ajuda à irmã mais velha para conseguir falar sobre o pai em uma apresentação da escola. A irmã explica que o pai trabalhava para os pobres, uma espécie de Robin Hood, e é essa a explicação que ele dá para a professora ao colar uma foto do arqueiro de Sherwwod no mural junto com pais professores, bancários, entre outros. O que pareceu piada aos colegas, mostra a dificuldade da formação de identidade quando não se tem memória.
Nova Produção
O mesmo ocorre em “Infância Clandestina”. Logo no começo do filme, um casal de brasileiros explica a Juan, menino argentino filho de pais militantes dos Montoneros, que estavam exilados em Cuba, que seu nome agora seria Ernesto Estrada. Enquanto isso os pais explicam em uma gravação que o disfarce é necessário para voltar à terra natal e que Che Guevara também havia feito o mesmo para viajar pelo mundo. O filme todo mostra, na visão do menino, as dificuldades de esconder a própria identidade em uma realidade de perseguição. Quando a polícia aperta o cerco aos pais de Juan, sua mãe queima documentos do grupo Montoneros e até fotos pessoais da família, tudo para que não existam provas para condená-los.
“A memória e a identidade são duas coisas que andam juntas, tanto que no filme anterior do Benjamín – um documentário chama-se ‘Nietos (identidade y memorial)’ -, essas questões andam realmente juntas, são muito próximas, é uma questão de resgatar pra saber quem é”, diz Marcelo Muller.
Benjamín Ávila, diretor do filme e que teve a mãe perseguida e desaparecida pelo regime ditatorial por ser membro do grupo Montonero, acredita “que o filme é parte de uma construção ou de uma evolução na construção da história, da memória da época da ditadura na Argentina. Claramente somos um país que tem construído sua história fortemente e creio que a minha infância seja um novo degrau na hora de falar sobre essa época, um novo ponto de vista que oferece esse novo tempero que é a possibilidade da felicidade, a possibilidade de acreditar, voltar a entender o que era a militância naquela época do ponto de vista daquele cotidiano e não da construção histórica que temos hoje… creio que a infância pode refrescar esse novo ponto de vista.”
Ainda sobre a visão de um menino sobre os acontecimentos da época, Benjamín explica que foi a visão que ele teve, logo, é natural que se mostre esse ponto de vista. “‘Infância Clandestina’ é um filme que eu sempre quis fazer, era uma obrigação, sempre me senti dessa maneira, e só me dei conta disso quando terminou a produção e as pessoas aplaudiam.”
Colaboração Internacional
Além da importância temática do filme, roteirista e diretor ainda destacam a integração entre os dois países como um exemplo a
ser seguido. Para Marcelo Muller “é um grande avanço na integração do cinema brasileiro com o cinema argentino, é uma coprodução brasileira-argentina-espanhola, uma coprodução bastante criativa.”
Benjamín Ávila vê nas diferenças um grande trunfo para fortalecer o mercado cinematográfico dos dois países e, segundo ele, é por meio da união que se conseguirá esse avanço: “Nós argentinos temos um sistema de produção muito diferente e creio que a combinação das duas maneiras de produção pode ser muito bem sucedida… Um dos objetivos deveria ser justamente de, conjuntamente, lutarmos pelos espaços de distribuição e discussão na Argentina e no Brasil, inicialmente, e posteriormente na América Latina… ‘Infância Clandestina’ é apresentado como um modelo, um exemplo de integração entre os dois países no mercado audiovisual .”
Comissão da Verdade
Enquanto na Argentina alguns dos verdugos da ditadura já foram condenados e tantos outros começam a ser julgados, no Brasil, a Comissão da Verdade ainda gera desconfiança.
Na opinião de Marcelo Muller, “é engraçado o Brasil conseguir encontrar, mesmo que de uma maneira superficial, um equilíbrio que permitiu o país continuar evoluindo politicamente e escondendo debaixo do tapete essa história toda. Eu não acho que essa seja a melhor solução, acho que a verdade tem que aparecer e temos que tentar aprender com essa verdade; vir à tona e sair dos arquivos e a sociedade conhecer, eu tenho muita expectativa com o que vai sair dessa Comissão da Verdade, pra mim é até um pouco frustrante quando foi decidido que essa comissão vai trabalhar a portas fechadas.”

Ditadura sob o olhar de uma criança: “Infância clandestina” em cartaz nos cinemas brasileiros http://t.co/XnunHj7p