Arquivo mensais:julho 2012

Diálogos Desenvolvimentistas Nº45: Martinho Lutero e a zona do euro.

Polêmico, neste dialogo desenvolvimentistas analisamos e discutimos o texto de Stephen Ritcher, editor chefe do theglobalist.com.

Polêmico pois o texto que Ritcher escreve apresente uma hipótese não muito convencional entre os economistas para explicar a crise na zona do euro. Sua idéia se baseia na religião de cada país, para ele os países que passaram pelas reformas de Martinho Lutero Lutero e tornaram-se protestantes seriam os países qualificados para a adoção do euro, cinco séculos mais tarde.Entre esses países qualificados destaca-se o Reino Unido.

O autor explica ainda que os países que se mantiveram católicos nunca conseguiram superar a prática da Igreja na época das indulgencias( dinheiro doado às igrejas em troca do perdão dos pecados) e ainda explica que o excessivo catolicismo, como no caso da Itália, é prejudicial à saúde fiscal de um país, ainda hoje, no Século XXI por motivos de corrupção, evasão fiscal enorme e disseminada.

A tradução do texto encontra-se  em:

http://www.valor.com.br/opiniao/2752278/martinho-lutero-e-zona-do-euro#ixzz20nu2fQjp

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Memórias de um embaixador inglês: Brasil, ainda povo de segunda classe

POR BOB FERNANDES, DIRETO DE LONDRES

O livro é da Penguin Books e na capa leva o selo BBC. Lançado em 2011, boa carreira nas livrarias, causou e causa furor nas hostes diplomáticas Europa e mundo afora. Muitos amam, outro tanto odeia. O Brasil está retratado em contundentes quatro páginas e meia. Os autores são dois. Matthew Parris já foi diplomata, trabalhou no Foreing Office, é colunista, escritor, e no ano passado ganhou o British Press Awards Best Columnist. Andrew Bryson é jornalista da BBC.

"Parting Shots", que pode ser traduzido como "Atirando na saída", é definido na capa como "Diplomatas nada diplomáticos – as cartas de embaixadores que você nunca deveria ler".

O livro é uma preciosa coletânea de despachos reservados de diplomatas ingleses no final dos anos 60, início dos 70. Sobre o Brasil, quem escreveu foi o embaixador John Russel, que deixava o posto e o Rio de Janeiro em junho de 1969.

Como leitura já valeria a pena. Pelos erros grosseiros, mas também pelos acertos, pela contundência nas avaliações, conclusões e opiniões, e por permitir a prospecção de como o embaixador inglês percebia o país. E como informava o governo da Inglaterra sobre o que, na sua percepção, era o Brasil.

Seis meses depois da rainha Elizabeth e o príncipe Philip serem ovacionados nas ruas de Copacabana, e recebidos pelo ditador de plantão, Costa e Silva, o embaixador inglês mandava seu último despacho. O título:

- (Brasil) Ainda tremendamente um povo de segunda classe.

O despacho, como relatado no livro, foi "calorosamente analisado" pelos superiores de Russel no governo inglês.

Resumo de como foi recebida a carta de John Russel:

- Neste muito legível e altamente pessoal despacho, Sir John Russell descreve o caráter extraordinário do Brasil e lança ocasionalmente um bem merecido insulto ao seu povo.

Logo no segundo parágrafo da carta, diz Russel:

- Numa porção do arco-íris brasileiro você tem tribos da idade da pedra vivendo nas profundezas das florestas e ainda praticando atos de canibalismo e sacrifício humano e que ainda não (para alegria deles) encontraram os homens brancos…

Prossegue o embaixador:

-…No outro extremo, você encontra São Paulo, que já ultrapassou a marca dos seis milhões e agora é a terceira maior cidade da America Latina.

Conclui Sir John Russel, sobre a cidade de São Paulo:

-…e também, sem dúvida, a mais feia.

Ao fazer previsões demográficas, o embaixador, diante da taxa de crescimento de então, chuta e erra:

- O Brasil apresenta um quadro extraordinário. A população de hoje, que é de cerca de 92 milhões, está crescendo numa taxa de 3.4% por ano e atingirá a marca de 225 milhões em 2000.

Na questão racial, outra previsão de Russel:

- Dentro de uma ou duas gerações, a questão racial terá deixado de existir. Nessa época não existirão nem brancos identificáveis nem negros identificáveis.

Escreveu o embaixador sobre essa mesma questão:

- Nos Estados Unidos uma gota de sangue negro torna um homem branco, preto: aqui uma gota de sangue branco faz de um homem preto, branco. (Um pouco de dinheiro faz o mesmo). Fusão é a ordem do dia e as diferenças se dissipam mais rápido.

Do futuro dos índios, apostou o embaixador:

- Daqui a poucos anos também se verá o desaparecimento dos últimos índios da floresta, finalmente oprimidos na luta desigual contra o homem branco e sua brutalidade, suas armas, seus presentes letais históricos, sua exploração, suas doenças…

No início de um dos parágrafos, o embaixador elenca qualidades do país: florestas, minérios, energia hidrelétrica em abundância, e pergunta:

- Por que, então, o Brasil ainda não está rico e próspero?

Ele mesmo responde:

- A resposta é curta. É porque o Brasil é terrivelmente mal administrado, porque tem 5 bitolas diferentes nas estradas de ferro; porque a Guanabara tem mais funcionários públicos do que New York, e a Petrobras, só no estado de São Paulo emprega mais químicos do que a Shell emprega em todo o mundo; porque você pode comprar tudo, de uma carta de motorista a um juiz da corte federal…

E continua, em seu despacho para o governo inglês:  

-… porque o reitor da universidade federal do Rio ganha US$ 500 por mês, enquanto os aluguéis aqui são três vezes maiores do que em Londres, e os hotéis do Rio estão entre os mais caros (e também os piores administrados do mundo); porque só existem 18.000 milhas de estradas pavimentadas no país; porque em 1968 os brasileiros mataram 10.000 pessoas – só um pouco mais do que o total de perdas no Vietnam durante o mesmo período…

O embaixador ataca o que entende ser "a vaidade corrupta e ruinosa de Juscelino Kubitschek" e a tranferência da capital para Brasilia, "aquele monumento  desenfreadamente remoto e que não funciona".

Ao analisar aqueles dias de ditadura e resistência, informou o então embaixador:

- Os alunos são reprimidos… os comunistas são poucos e mal organizados e a única coisa deles que não é underground é o fantasma do Che Guevara – (…) A igreja está dividida… a imprensa amordaçada, os intelectuais exilados ou sem coração: um esforço fraco e desarticulado.

Quanto à sociedade brasileira, dispara:

- A classe média em expansão marcha indiferente e se preocupa apenas em obter as boas coisas materiais da vida…

- Os pobres do Brasil ainda não chegaram lá, mas agora está em aberto a questão de quanto tempo mais eles se contentarão em continuar usando a enxada na sua estrada desesperançosa…

No final de seu despacho, John Russel fala sobre os seus três anos no Brasil da ditadura:

- Materialmente o país galopou para frente, politicamente foi pra trás… Os coronéis da linha dura confiscaram o desenvolvimento espiritual de um país de instintos criativos liberais e com uma enorme capacidade intelectual…

John Russel diz não se sentir mais tentado a "comentários cáusticos sobre os defeitos no caráter dos brasileiros", como havia feito no seu primeiro despacho, três anos antes.

Diz também que se o governo brasileiro "ficou mais duro", ele, Russel, deve ter "amolecido, suavizado". O embaixador inglês termina sua carta analisando os efeitos do Brasil sobre si mesmo:

- Talvez eu tenha me rendido ao charme traiçoeiro do Rio tropical: talvez eu tenha apenas aprendido a amaciar meus padrões austeros do norte, para ver as coisas de uma forma um pouco menos puritana neste clima complacentemente quente…

Nas últimas linhas, Sir John Russel, o embaixador inglês no Brasil no final dos anos 60, faz um último disparo, seguido por uma concessão:

- Os brasileiros ainda são tremendamente pessoas de segunda classe: mas obviamente eles estão a caminho de um futuro de primeira classe.

Extraído do Portal Terra.

O “mensalão” como operação de marketing e como golpe branco fracassado

Mais além dos fatos concretos, a operação de marketing do “mensalão” merece fazer parte dos manuais de marketing politico. Nunca na história brasileira uma criação dessa ordem foi capaz de projetar e consolidar imagens na cabeça das pessoas, que as impedem de entender o fenômeno e avaliá-lo na sua realidade concreta, porque sua imaginação, seus instintos, já estão vacinados e conquistados pelas imagens projetadas pela campanha.

Uma jornalista da empresa da “ditabranda” entrevistou um dia a um parlamentar, presidente de um dos partidos da base aliada do governo, que teve uma das pessoas indicadas pelo partido para um cargo governamental, pego em flagrante , filmado, com som, em operação de suborno. O partido que o indicou – PTB – considerou que nao recebeu o apoio devido por parte do governo e seu presidente resolveu ligar o ventilador.

Disse que o governo pagava um “mensalão” a uma porção de gente. O jornal imediatamente cunhou a expressão e deu inicio àquele tipo de campanha cuja reiteração, por todos os órgãos da mídia privada, transformou a insinuação numa verdade supostamente incontestável.

O que ficou na imaginação das pessoas era literalmente que indivíduos chegavam no Palácio do Planalto com malas vazias, entravam numa sala contigua à do Lula, enchiam de dólares e saiam, mensalmente. A operação de marketing tornou-se um caso de manual de marketing, pelo seu sucesso. A partir a insinuação de um politico sem nenhuma respeitabilidade, se dava inicio à campanha, em que a oposição – liderada pela mídia privada – considerava que terminaria com o governo Lula.

Tudo foi se dando como bola de neve. O próprio jornal da família que emprestou carros para órgãos repressivos da ditadura cunhou o selo “mensalão”, com o qual cobria todas as atividades políticas nacionais. Até a eleição interna do PT foi incluída nessa rubrica.

Condenou-se moral e politicamente a dirigentes e políticos ligados ao governo, com o objetivo de ferir de morte o governo Lula, como repetição muito similar à crise de 1954, que terminou com o suicídio de Getúlio. Dois então membros da equipe do Lula chegaram – conforme entrevista posterior de Gilberto Carvalho – a ir ao Lula, levando a proposta opositora: todas as acusações seriam retiradas, inclusive o suposto impeachment, contanto que Lula renunciasse a se candidatar à reeleição.

Tinham receio de propor impeachment, pelas repercussões populares que poderia ter, então preferiam usá-lo como ameaça. O tiro saiu pela culatra. Lula reagiu dizendo que sairia às ruas para defender seu mandato, convocava os movimentos populares a reagir à tentativa de golpe branco.

A oposição, depois da cassação do Zé Dirceu, jogava, partindo do que considerava evidências contra o governo, com a vulnerabilidade do governo, alegando que Lula sabia dos fatos. Não foi o que aconteceu. Conseguiram várias cassações, conseguiram diminuir o apoio do Lula mas, principalmente, deram a pauta política do país.

O caso permitia desqualificar o Estado, o governo Lula, o PT. O Estado, por definição, para a direita, é corrupto ou corruptível. O governo Lula, o PT e os sindicatos teriam “tomado de assalto ao Estado” e imposto seus interesses particulares. O diagnóstico foi retirado diretamente do arsenal neoliberal.

Os governos de esquerda no Brasil – Getúlio, Jango, Lula – não terminariam seus mandatos. Fracassado o governo Lula, se cumpriria o prognóstico de um ministro da ditadura: “Um dia o PT vai ter que ganhar, vai fracassar, aí vamos poder dirigir o país com tranquilidade”.

Sob a forma do impeachment ou da renúncia de Lula a disputar um segundo mandato ou, ainda, com sua eventual derrota, asfixiado pela oposição – que já havia dito que sangraria o governo, até derrotá-lo nas eleições de 2006 -, se daria um golpe branco e a esquerda estaria desmoralizada e derrotada por um longo período.

Mas não contavam com a capacidade de reação de Lula e com os efeitos das políticas sociais, já em marcha. O povo, com a consciência de que era o seu governo e que sua eventual derrubada faria com que ele, povo, pagasse o preço mais alto da operação da direita, reagiu. A oposição foi pega de supresa pelas reações, que levaram à derrota da tentativa de derrubar o governo. Mais do que isso, levaram à derrota do candidato da oposição – o duro e puro neoliberal Alckmin –, porque a oposição também foi vitima da sua própria campanha.

Como esbravejava o Otavinho, na primeira reunião do comitê de direção da sua empresa: – Onde é que nós erramos?

Erraram porque acreditaram que eram onipotentes. Afinal foi a mídia golpista que levou o Getúlio ao suicídio, que promoveu o golpe militar que derrubou o Jango e que, acreditavam, levaria o governo Lula à derrota e a esquerda à desmoralização.

Foram derrotados em 2006, em 2010 e tem todas as possibilidades de serem derrotados de novo em 2014. Mais do que isso, tiveram que reconhecer que o prestígio do governo vem de suas politicas sociais, que transformaram democraticamente o Brasil. Que seu poder de fogo como cabeça da oposição é decrescente, que entraram em decadência irreversível.

Agora, sete anos depois, tentam ainda explorar o sucesso de marketing, espremendo tudo o que podem, raspando o tacho da panela, buscando voltar a pautar o país em torno do seu sucesso de marketing. Não se dão conta que o país mudou, que desde então perderam duas eleições presidenciais, que o Estado brasileiro reconquistou legitimidade por suas políticas sociais e pela sua ação de resistência à crise internacional? Que as mídias alternativas ganharam um poder de esclarecimento da opinião publica, que não tinham naquele momento?

Mas não lhes restam outras armas, senão a de explorar o embolorado tema do “mensalão”, para recordar como já foram bem mais poderosos no passado. Seus outros argumento naufragaram: o Estado mostra eficiência na condução do país, o livre mercado levou o capitalismo internacional à sua pior crise em 80 anos, o povo reconhece que melhorou suas condições de vida, apoia e vota no governo, as alianças internacional da política soberana do Brasil projetam o país no plano internacional como nunca antes, ao mesmo tempo que se mostram muito mais eficazes do que o Tratado de Livre Comércio e a Alca que a direita pregava.

Em suma, a história avançou desde 2005 e na direção da derrota da oposição, da criação de uma nova maioria politica no pais. A permanência do monopólio antidemocrático dos meios de comunicação é a arma principal de que a direita dispõe e está disposta a usá-la até o fim, na sua derradeira encenação: o julgamento do “mensalão”.

Mas a história e a vida não se fazem com marketing. Nem mesmo mais vender os produtos da sua mídia mercantil eles conseguem. Lula os derrotou, demonstrando que se pode – e se deve – governar o país sem almoçar e jantar com os donos da mídia. Porque Lula não teve medo da mídia, condição –nas suas palavras – para que haja democracia no Brasil.

A primeira vez a encenação teve ares de tragédia – não consumada pela oposição. Esta segunda tem ares de farsa.

Eles passarão, nós passarinhos.

Extraído de  Emir Sader em Carta Maior.

Entrevista com Frei Betto, do portal IG

Um dos principais nomes da Igreja Católica na luta contra o regime militar e ex-assessor da Presidência diz que tem certeza que o MST está entre os alvos dos militares hoje

“É muita ingenuidade nossa pensar que tudo acabou”. A frase é do escritor Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, um dos principais nomes da Igreja Católica brasileira na resistência à ditadura militar (1964-1985). Preso entre 1969 e 1974, acusado de integrar a Ação Popular ao lado do guerrilheiro Carlos Marighella, Frei Betto está convencido de que os militares ainda agem nos bastidores do Planalto espionando as mais altas autoridades do país, inclusive a Presidência da República.

Em entrevista ao iG, Frei Betto, que foi assessor especial da Presidência no primeiro governo Lula, disse ter alertado o então chefe de gabinete Gilberto Carvalho sobre a possibilidade de escutas telefônicas no Palácio do Planalto. “Estou convencido de que isso existe até hoje. Não que eles (militares) estejam me seguindo ou espionando. Mas tenho certeza que o MST e até a Presidência da República, sim”, afirmou.

Cristina Gallo/Fotoarena

Frei Betto, que trabalhou na Presidência, está convencido de que os militares agem nos bastidores do Planalto

iG – Como era a atuação da Igreja na proteção dos perseguidos pela repressão? Registros mostram que até bispos de direita como d. Eugênio Sales ajudavam a esconder alvos da ditadura.

Frei Betto – A minha pergunta é por que o d. Eugênio (morto no último dia 9, aos 91 anos) fez isso para estrangeiros e não fez para brasileiros? Essa é a minha pergunta.

iG – Existia uma rede de solidariedade na Igreja, uma rota de fuga com conexões no exterior?

FB – Meu trabalho principal foi organizar essa rota de fuga. Mandei umas 10 pessoas. Em geral, sequestradores do embaixador americano (Charles Elbrick). Ninguém acredita, a repressão muito menos, mas a verdade é que eu nunca fui na fronteira. No entanto, eu dominava o esquema da fronteira porque o (Carlos) Marighella tinha me passado como funcionava. Só tinha que receber as pessoas em Porto Alegre e dar a dica. Tinha duas passagens. Uma em Santana do Livramento com Rivera, no Uruguai, e outra em Passo de Los Libres, na Argentina. Então eu tinha que dar as coordenadas e passar um telegrama em código para a pessoa que ia ficar lá esperando e já sabia que alguém ia chegar lá com uma revista na mão, aquelas coisas. E passava. Alguns voltaram. Outros foram presos no Uruguai, Mas havia muita solidariedade em igrejas, conventos etc.

Cristina Gallo/Fotoarena

Preso entre 1969 e 1974, acusado de integrar a Ação Popular ao lado de Carlos Marighella

iG – Protestantes e outros grupos religiosos participavam dessa rede de solidariedade?

FB – Muito. O pastor Jamie Wright, por exemplo. O irmão dele foi assassinado, Paulo Wright, líder da AP (Ação Popular). Geralmente em Igrejas históricas como a Batista, Luterana, Presbiteriana, Metodista, judeus. Naquela época quase não existiam as neopentecostais. E todos eles divididos a exemplo da Igreja Católica.

iG – Como era lidar com os infiltrados?

FB – Era muito difícil. Quando estávamos presos no Dops, em 1969, havia lá o delegado Alcides Cintra Bueno que era chamado “delegado do culto” por ser especializado em religiões. Era um homem de formação católica meio carola, mas torturador. Como ele conhecia muito a mecânica das Igrejas era o que mais interrogava religiosos. Nós vimos frades de hábito que eram agentes dele e iam lá dar informação sobre subversão na Igreja. Além do Lenildo Tabosa que era do Jornal da Tarde, assistiu ao interrogatório do Frei Fernando e a vida inteira carregou esta cruz fazendo de tudo para negar. Mas nunca conseguiu convencer, Fernando viu.

iG – Até descobrirem a existência de infiltrados muitas pessoas caíram?

FB – Sim. Era muito difícil descobrir infiltrados. Muitos a gente detectou, mas tem gente que colaborou com a ditadura e vai morrer incólume. A não ser que tenha dado uma mancada. Tem um seminarista dominicano que a gente não sabe se ele já era colaborador quando entrou. Depois, na USP, descobriram que ele era agente da repressão. Ele sumiu do mapa durante uns cinco anos e então recebemos informação de que ele tinha sido levado para um treinamento na escola da CIA no Panamá. Quando eu saí da prisão ele reapareceu todo amiguinho dizendo que estava com saudade e falei para ele, cara a cara, “não sei se você é ou não é, mas não tenho a menor confiança em você e por favor não me apareça mais”.

iG – Essa paranoia durou até depois do fim da ditadura, não?

Cristina Gallo/Fotoarena

'Informação é poder', diz Frei Betto sobre espionagem pós-ditadura

FB – Quando saí da prisão fui morar numa favela em Vitória e fiquei lá de 1974 a 1979. Já em 1977 comecei a voltar a São Paulo para trabalhar com educação popular. Quando Fernando Henrique, Almino Afonso e Plínio de Arruda Sampaio voltaram para o Brasil eles vieram com a ideia de fundar um partido socialista. Eu, naquele momento, estava no auge da mobilização pelas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e eles me convocaram para uma reunião na casa de um jornalista, cujo nome não vou citar pois estou subjetivamente convencido que esta pessoa era da repressão mas não tenho prova. Sei que me estranhou o fato de ele ser um repórter e ter um padrão de vida tão alto. E tome vinho, tome vinho, conversamos, eles tentavam me convencer que tinham a forma, um partido socialista, e eu entrava com a massa, as CEBs. Eu respondi que ia surgir um partido de baixo para cima, isso em 1978, por intuição, e depois surgiu o PT em 1980. Marcamos outra conversa, o jornalista insistiu para que fosse novamente na casa dele e isso acabou num impasse. Até que um frade daqui, depois de muitos anos, me perguntou se eu havia participado de uma reunião na casa de fulano, com Fernando Henrique (Cardoso, ex-presidente) e Plínio (de Arruda Sampaio) etc. Perguntei como ele sabia daquilo e o frade respondeu que um general amigo dele ligado ao SNI foi quem contou. Aí caiu a ficha. Tinha muito esse tipo de coisa. Recentemente peguei no arquivo público nacional todo meu dossiê. Ele vai até 1992. E tem coisas absolutamente inverossímeis.

iG – O senhor ainda toma algum cuidado especial?

FB - Estou convencido de que isso existe até hoje. Não que eles (militares) estejam me seguindo ou espionando. Mas tenho certeza que o MST e até a Presidência da República, sim. Seria muita ingenuidade nossa achar que o Planalto não é espionado. É o centro, o coração do poder. Quando trabalhei no Planalto (no primeiro governo Lula) duas coisas me chamaram atenção. Primeiro que todos os garçons eram das Forças Armadas. E o garçom é a pessoa que entra no meio da reunião, que enquanto está servindo o cafezinho fica escutando tudo, fica amigo das secretárias, tem trânsito livre até na sala do presidente. Não entra o ministro, mas entra o garçom. E outra coisa foi num dia em que o Lula estava viajando, subi na sala do Gilberto Carvalho (então chefe de gabinete da Presidência) e vi um pessoal na sala do Lula cheio de equipamentos. Perguntei o que era aquilo e o Gilberto disse que era o pessoal da varredura do Exército. Eu perguntei para o Gilberto qual a garantia de que eles não tiram um equipamento de gravação e colocam outro. Gilberto disse que nunca tinha pensado nisso.

iG – Mas seriam os militares?

FB – Sim. Os militares.

iG – Com qual objetivo?

FB – O objetivo é simples. Informação é poder.

iG – O que se sabe é que existe uma grande rede de espionagem em Brasília mas por razões econômicas, chantagem etc.

FB – Os militares neste ponto são mais… é como nos EUA. A CIA não prende ninguém. Ela só trabalha com informação. Quem prende é o FBI. É muita ingenuidade nossa pensar que tudo acabou.

iG – Os militares teriam um projeto de retomar o poder?

FB – Não. Eles têm o projeto de não serem surpreendidos e eventualmente até de manipular.

iG – Eles são movidos pelo medo?

FB – Não. É uma questão de inteligência militar mesmo.

Extraído de iG São Paulo

Direita declara guerra contra integração da Venezuela ao Mercosul

As forças oposicionistas não previram a movimentação liderada pela presidente Dilma Rousseff em Mendoza

 
Uma onda conservadora desponta no cenário político do subcontinente. Seu mote é evitar o ingresso venezuelano no Mercosul. Mais afamado solista dessa ópera, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso veio a público atacar posição do governo brasileiro, em companhia de outros menestréis e escribas.
 
A saraivada de argumentos apresenta cardápio variado. Uns acenam com detalhes jurídicos que supostamente teriam sido desrespeitados, tanto na suspensão do Paraguai por quebra da cláusula democrática quanto na inclusão da Venezuela à revelia de um governo usurpador. Outros vislumbram faltas burocráticas cometidas por Caracas. Há ainda os que lançam suspeitas de que o presidente Chávez estaria planejando ludibriar obrigações junto ao organismo regional. Pouco importa que as razões jurídicas e políticas tenham sido apoiadas pela unanimidade dos membros plenos e democráticos do Mercosul, em conformidade com as regras da instituição.

Tal enxurrada de pretextos mal-ajambrados parece revelar que o reacionarismo tomou um susto. Afinal, era no Senado do Paraguai, controlado por bandos de cores diversas, que estava bloqueado o processo de ampliação do Mercosul. Quando as forças de direita, logo acolhidas por Washington, deram o bote contra Fernando Lugo, possivelmente imaginavam continuar dificultando o processo de integração. Foram surpreendidas, tudo indica, pela resposta liderada por Dilma Rousseff, a despeito de resistências no próprio corpo diplomático brasileiro.

 
Há certa lógica, contudo, nesse furor contra a deliberação de Mendoza. Os Estados Unidos fixaram como centro tático de sua política para a América do Sul, após o enterro da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), impedir o robustecimento de um bloco fora de seu domínio e apostar nos tratados bilaterais de livre-comércio. A articulação de três das quatro principais economias locais (Brasil, Argentina e Venezuela), ainda mais sob uma mesma orientação geopolítica, é duro golpe nessas pretensões.


Por sua vez, as oligarquias do subcontinente, ou parte expressiva de seus grupos, costumam vincular perspectivas de fortuna e poder à associação com a superpotência. Advogam que as cadeias produtivas regionais só têm futuro se subordinadas à malha estadounidense, estando condenada ao fracasso qualquer hipótese de autonomia. O fato de que essa política, por décadas sem fim, tenha significado atraso, desigualdade, pobreza e opressão política, não parece lhes dizer respeito. Afinal, tais itens não constam do balanço de empresas e empreitadas, como é sabido.
 
Benefícios

Para esse ponto de vista, a integração da Venezuela é desconcertante. O novo membro do Mercosul, além de quase 30 milhões de habitantes, tem entre seus ativos uma das maiores reservas energéticas do mundo e um enorme potencial de alavancagem financeira, por conta da produção petroleira. Mais ainda, possui localização geográfica privilegiada para o acesso marítimo e serve como ponte político-econômica para outras nações andinas e caribenhas. Sob todos os ângulos, traz mais músculos ao bloco.

Este fortalecimento, aliás, chega em boa hora: o grupo de países sul-americanos liderados por administrações de esquerda representa, no hemisfério ocidental, a principal alternativa contra a crise fora dos marcos neoliberais. Quanto maior a sinergia entre suas estruturas produtivas, mais amplas serão as possibilidades de continuar o ciclo de crescimento econômico com base na expansão do mercado interno, na distribuição de renda, na universalização de direitos sociais e na reconstrução dos Estados nacionais.

As dificuldades e desalinhamentos não podem ser subestimados, é certo, mas a bronca do conservadorismo, acima de tudo, exala interesse de classe, preconceito ideológico e cultura colonizada. Sentimentos eventualmente acirrados pela América do Sul estar saindo do diagrama historicamente traçado pelas elites e suas metrópoles.

*Breno Altman é jornalista e diretor editorial de Opera Mundi

 
 
 
 
 

 

 

 
 Extraído de Vermelho

Consumidor confuso, lucro fácil – PEDRO RUBIM BORGES FORTES

O Globo – 17/07

Diante do clichê de que vivemos em uma era da informação, parece inusitada a ideia de que as novas tecnologias possam ser utilizadas mais para confundir, do que para explicar. Não raro, as promotorias do consumidor enfrentam o risco da incompreensão ao se insurgir contra o emprego de inovações científicas.

É importante reproduzir o alerta de pensadores como Jurgen Habermas e Boaventura Souza Santos, que nos lembram que o cientificismo e o elogio à tecnologia não podem esvaziar a ideia de justiça e a necessidade de preservação dos valores humanos. Afinal de contas, também vivemos numa era de direitos.

No caso dos medidores digitais de energia, por exemplo, a Aneel editou um regulamento em que concede liberdade ampla e irrestrita para as concessionárias definirem seus investimentos em tecnologia digital e o tipo de medidores. Ao invés de estabelecer um marco regulatório detalhado, assegurando a observância do Código do Consumidor, a Aneel delegou a prerrogativa indelegável de controlar a tecnologia às distribuidoras.

Esta omissão permitiu que os relógios domiciliares fossem substituídos por medidores digitais em postes, alienando o consumidor do controle do consumo. A elevação do preço das contas e a exigência de pagamento sob pena de corte de luz aumentaram a vulnerabilidade dos usuários. O marco regulatório é fundamental para proteger os direitos dos consumidores.

Na área de telecomunicações, é comum que o consumidor receba ofertas de novos pacotes por telefone. Nas conversas telefônicas, vantagens são realçadas e limitações são omitidas. O consumidor não é alertado sobre cláusula de fidelização, eleição de foro ou restrição de performance a 10% do contratado. A Anatel exige que os contratos específicos sejam enviados ao consumidor, no prazo de cinco dias.

Por se tratar de uma contratação feita à distância, é dado ao consumidor o direito de desistência a partir do recebimento do contrato. Na prática, as empresas descumprem a regra e apenas avisam que há uma cópia do contrato no seu site. Ora, se precisar ingressar na Justiça, o consumidor não tem como demonstrar os termos de seu contrato de serviços, nem se proteger de uma alteração unilateral lesiva.

No caso das instituições financeiras, a tradicional remessa do extrato bancário pelo correio agora é cobrada. A alternativa de extrair o documento nos caixas eletrônicos é insuficiente porque o papel é sensível a luz e os dados serão perdidos. O uso de internet banking também é limitado em um país que ainda enfrenta a exclusão digital. Inúmeros consumidores pagam a malfadada "tarifa de extrato bancário" para assegurar seu acesso à informação.

Outros clientes bancários simplesmente abriram mão deste direito para evitar a cobrança. Os bancos justificam a medida por minimização de papel, mas é a maximização do papel-moeda que explica melhor a questão. Os lucros aumentam com a arrecadação da tarifa e a ignorância do cliente induz certo descontrole da conta pessoal.

O Banco Central lamentavelmente protege, neste caso, os interesses dos bancos em detrimento dos direitos dos consumidores, deixando de proibir a tarifa abusiva.

Enfim, a tecnologia é aspecto inevitável da vida contemporânea e tem sido um importante instrumento de empoderamento individual. Informação é certamente uma fonte de poder. As intervenções do Ministério Público não pretendem impedir o progresso, mas evidenciar o lado obscuro de certas inovações tecnológicas.

A vulnerabilidade do consumidor, exposto a relações assimétricas de poder e de informação com as empresas, justifica o combate à tecnologia da desinformação.

A sociedade deve estar atenta e cobrar das agências reguladoras uma postura mais firme na defesa do direito à informação dos consumidores.