Diálogos Desenvolvimentistas Nº45: Martinho Lutero e a zona do euro.

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Polêmico, neste dialogo desenvolvimentistas analisamos e discutimos o texto de Stephen Ritcher, editor chefe do theglobalist.com.

Polêmico pois o texto que Ritcher escreve apresente uma hipótese não muito convencional entre os economistas para explicar a crise na zona do euro. Sua idéia se baseia na religião de cada país, para ele os países que passaram pelas reformas de Martinho Lutero Lutero e tornaram-se protestantes seriam os países qualificados para a adoção do euro, cinco séculos mais tarde.Entre esses países qualificados destaca-se o Reino Unido.

O autor explica ainda que os países que se mantiveram católicos nunca conseguiram superar a prática da Igreja na época das indulgencias( dinheiro doado às igrejas em troca do perdão dos pecados) e ainda explica que o excessivo catolicismo, como no caso da Itália, é prejudicial à saúde fiscal de um país, ainda hoje, no Século XXI por motivos de corrupção, evasão fiscal enorme e disseminada.

A tradução do texto encontra-se  em:

http://www.valor.com.br/opiniao/2752278/martinho-lutero-e-zona-do-euro#ixzz20nu2fQjp

Adriano Benayon:

 

Prezado Gustavo,

 

Costumam circular pela internet artigos dos mais cretinos, mas isso não sói ocorrer no grupo desenvolvimentistas.

 

Claro que não estou propondo censuras e entendo que você esteja divulgando  este artigo para que se tome conhecimento dele, claro que sem  endosso ao que nele está exposto.

 

Não obstante, e já que ele foi oferecido à nossa leitura, permito-me manifestar minha opinião de que se trata de um dos textos mais estúpidos que tenho lido.

 

Devo observar que não sou católico e que, portanto, não estou expressando ressentimento com a associação que ele faz entre irresponsabilidade e tradição católica.

 

Noto que ele desenvolve  mais uma das primárias explicações que arranjam para desorientar os menos avisados quanto às verdadeiras causas do colapso financeiro na Europa, em grande medida decorrentes das ações fraudulentas e predadoras de banqueiros de Nova York e Londres, a maioria dos quais certamente não é católica.

 

Quer os  antepassados desses banqueiros sejam confissão judaica, quer protestante, o fato é suas ações  não devem servir para denegrir essas confissões, mesmo porque são ações desprovidas de qualquer ética que tenha sequer uma pitada do Bem.

 

Rodrigo Medeiros:

De fato o artigo é muito ruim. O clássico weberiano da ética protestante não deve ser adotado cegamente. Ademais, o próprio Weber teria relaxado certas hipóteses do seu trabalho posteriormente. (rs) Existem católicos na Alemanha. Hitler era austríaco, católico e fanático por ordem e disciplina. Ele não era anti-capitalista, mas sim anti-comunista. Um psicopata! Não tem nada a ver com a ética católica… Nada!

 

Bem, parece que o cardeal Ratzinger marchou na juventude hitlerista quando menino… Misturar religião com o espírito de um povo é algo extremamente problemático. Acaba tomando “o povo” como algo fixo no tempo-espaço. As religiões existem porque existem pessoas diferentes e isso é saudável. Creio que o estudo da história ganha mais quando se analisa a trajetória da constituição das nações e a evolução de suas instituições.

 

 

Paulo Timm:

Prezados colegas,

Tenho tido muitas divergências com o Adriano. Mas concordo com ele que o artigo em pauta é simplesmente primário, digno do fim do século XIX, ou XVI….Quanto bobagem… E ainda publicam esse tipo de asneiras na grande imprensa do Brasil…Só falta, agora, reeditar Gobineau…

Em tempo: Ich bin einem echtl

ichem deutschman. Sou descendente de alemão…Nada contra eles…

 

Eduardo Kaplan:

O autor talvez tenha exagerado na dose em sua ironia ao centrar sua argumentação na comparação entre protestantismo e o catolicismo, mas acredito que ele chama a atenção para um debate necessário para o futuro da União Europeia: será que a política fiscal orientada pela moral luterana, tal como proposta pela Alemanha, é capaz de promover um projeto de desenvolvimento nacional (ou “pan-nacional”) europeu e lidar com suas desigualdades estruturais?

 

Minha interpretação é que se trata de uma crítica às soluções conservadoras propostas para a atual crise dos bancos e das dívidas nacionais.

 

Paulo Timm:

Caro Eduardo,

 

A tese weberiana do ETICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITLISMO há tempos está em descrédito. Um exemplo histórico o demonstra: a prosperidade comercia e financeira das cidades italianas, como Veneza, já no sec. XV . Um belo filme ilustra esse tempo: EM LUTA PELO AMOR, que conta a história de uma bela cortesã – VERONICA FRANCO – processada pela Inquisição.

 

Adhemar Mineiro:

Misturar análise político-econômica com religião, mesmo que seja metaforicamente, pode dar muita confusão, e por isso é um instrumento que deve ser usado com extrema parcimômia. Especialmente o protestantismo, que convive com tantas diferenças.
Mais ainda na Europa. A questão é que a crise na Europa trouxe de volta todos os estereótipos ao debate. Irlandeses são bebedores de cerveja inveterados, alemães são todos nazistas esperando a primeira chance para reconstruir o “Reich”, gregos, portugueses, espanhóis e italianos aproveitam o quanto podem o vinho, o sol e as mulheres, e por isso não trabalham, e por aí vai. Triste! E na esteira desse tipo de visões, cresce o discurso anti-imigrantes e a extrema direita. Por isso, é importante também não reforçar estereótipos.
Na Europa, cada país é uma complexa e recente construção social, muitas vezes envolvendo diferenças enormes dentro de um mesmo país, religiosas, linguísticas, nacionais, econômicas, etc.. Imaginem esse mosaico tentando se construir como uma união. Todo cuidado é pouco na análise!

Adriano Benayon:

Prezados Rodrigo, Timm e demais colegas que comentaram este assunto,

 

Transmito-lhes o trecho de meu livro “Globalização versus Desenvolvimento”, em que me ocupei da tal tese de Max Weber.

O subtópico mais longo é o referente à insubsistência dessa tese.

[...]

Para tornar inteligíveis algumas referências  a tipos de capitalismo, que fiz neste trecho referente a Weber, transcrevo, ao final desta mensagem, um tópico anterior em que exponho esses tipos.

 

Para o Timm: O autor do livro “The Robber Barons” (pelo menos o que li e cito) é Matthew Josephson (The Robber Barons. San Diego; New York: HBJ, 1962, (1ª edição 1934).

 

Abraços,

 

Adriano Benayon

 

 

1.5.3. Weber

 

1.5.3.1. Ética puritana/capitalismo

 

Weber é mais influente, mas menos interessante do que Sombart. É conhecida a associação que o primeiro faz entre o capitalismo e afiliações religiosas puritanas.[1]  Sua tese tem servido para atribuir o desenvolvimento capitalista a determinados povos, sobretudo os anglo-saxônicos, e outros de origem germânica, como o alemão, o holandês, o suíço e os escandinavos. Muitos pensam que esses detêm superioridade sobre os demais, se não genética, pelo menos, decorrente da educação e das tradições.

 

A experiência dos últimos séculos, em que essas nações aparecem com destaque, aporta água ao moinho da mentalidade racista, ligada ao cientificismo do Século XIX, impressionado pelo darwinismo e pelo evolucionismo spenceriano. Sob essa ótica, se um dado povo escolheu determinada religião, mais fortalecedora do caráter, da disciplina e dos bons costumes e assim formou um corpo social superior, é porque tinha essa vocação. Algo como a idéia de nação eleita por Deus. Coincidência ou não, a maioria das populações de origem germânica é evangélica e adepta preferencial do Velho Testamento.

 

Weber trata extensamente das confissões puritanas que considera mais conformes ao espírito do capitalismo: 1) calvinista (presbiterianismo, religião reformada, na Holanda); 2) batista: a) anabatista; b) menonita; c) quaker; 3) pietista (Alemanha); 4) metodista (correspondente a esta, na Grã-Bretanha e EUA).

 

O calvinismo é a principal confissão da Holanda, da Suíça e da Escócia, tendo-o sido também em colônias do Norte dos EUA. Teve muitos adeptos na França, cuja estabilidade foi prejudicada pelas lutas e perseguições “religiosas” nos Séculos XVI e XVII. Muitos huguenotes emigraram para a Prússia, a Inglaterra e os EUA. Os menonitas, embora avessos ao serviço militar, eram admitidos na Prússia por sua industriosidade. Outros batistas e os pietistas são numerosos nos EUA e na Alemanha. Na Inglaterra, diversas seitas puritanas tiveram atuação destacada na Revolução dos anos 1640, e os metodistas ganharam grande expressão no Século XVIII.

 

1.5.3.2. Insubsistência da tese

 

Há várias ordens de razões que demonstram não estar a tese provada: 1) entre os países desenvolvidos, especialmente os que mais cresceram no Século XX, há mais gente que não professa as religiões apontadas por Weber do que adepta delas. A prática do capitalismo nunca foi exclusiva dos puritanos; 2) Weber enfatiza neles virtudes como prudência, retidão, hábitos simples, gosto por poupar, responsabilidade, dedicação ao trabalho, aversão às festas e a adornos; mas essas qualidades são mais próprias de praticantes da economia de mercado que de capitalistas. Na vida destes elas são menos relevantes e, amiúde, opostas às práticas correntes; 3) dos quatro tipos de capitalismo, três, pelo menos, estão nas antípodas dessas virtudes; 4) estas existiram e existem em outras culturas que não as afetadas pelo puritanismo; 5) não têm afiliação protestante diversos grupos étnicos e religiosos sobejamente dotados para o comércio e as finanças. Tudo isso retira sustentação à teoria.

 

A correlação mais válida entre características atribuídas por Weber aos grupos religiosos que descreve e as que eles de fato apresentam é a da consciência de sua identidade e a crença em sua superioridade moral sobre outros grupos. Trata-se, porém, mais de orgulho vão e mentalidade exclusivista do que de virtude. Racionaliza a vontade de dominar os outros, marca inegável do capitalismo.

 

Reflitamos sobre os principais países industriais. No Japão pode ter havido alguns comportamentos semelhantes às virtudes burguesas, obviamente sem relação com o protestantismo. A Alemanha também desmente o padrão weberiano, uma vez que ali a principal religião protestante é o luteranismo,[2]  a qual não compartilha o artigos de fé básicos das confissões puritanas.

 

Além disso, a Igreja Católica Romana predomina em várias das mais prósperas regiões, como a Renânia e a Baviera. Nos próprios EUA não são majoritários os filiados às religiões estudadas por Weber. Não as professa a maioria dos descendentes de imigrantes de origem não anglo-saxônica, nem grande parte dos de origem britânica. Ademais, no Mundo, apenas quatro países desenvolveram-se após a Segunda Guerra Mundial, com expressivo progresso tecnológico e com altas taxas de crescimento. São eles: Itália e França, em grande maioria, católicas; Coréia do Sul e Taiwan, não-cristãs. A China, que tem tido as taxas de desenvolvimento econômico mais elevadas dos últimos 20 anos, é a fonte das tradições taoísta e confucionista, além de ter acolhido o Budismo, proveniente da Índia.

 

Os primeiros centros a praticar o capitalismo foram as italianas e católicas Florença, Gênova e Veneza.  Antuérpia, na Flandres, Países Baixos meridionais, também era católica. Entre os grandes banqueiros europeus do Século XVI avultaram os Függer e outros, de Augsburg e do Sul, católico, da Alemanha. Somente de meados do Século XVII a meados do Século XIX, os dois centros mundiais podiam ser associados à cultura protestante, a saber, a Holanda,[3]  predominantemente calvinista, e a Inglaterra, que não o é, e ocupou o centro por muito mais tempo. Nesta, a religião da camada dominante foi e é a anglicana, cujos dogmas pouco diferem dos da Igreja Católica Romana. Ademais, também católicos fizeram parte daquela camada, sem falar na presença dos judeus a partir de meados do Século XVII, como ocorreu, desde o século anterior, na Holanda.[4]

 

Weber extrai uma “ética” do capitalismo das máximas de B. Franklin:

 

Todas as atitudes morais de Franklin são coloridas de utilitarismo. A honestidade é útil, porque assegura o crédito; assim também a pontualidade, a laboriosidade, a frugalidade, e essa é a razão pela qual elas são virtudes. Elas, como todas as outras, só o são na medida em que sejam de fato úteis ao indivíduo, e o substituto da mera aparência é sempre suficiente, se realizar o objetivo em vistaA impressão de muitos alemães de que as virtudes professadas pelo americanismo são pura hipocrisia parecem ser confirmadas por esse relato impressionante.”  WEBER, 1956, pp. 52-53, tradução e grifos de A. B.).

 

Mas, segundo Weber, Franklin atribui o reconhecimento da utilidade da virtude a uma revelação divina para levar ao caminho da retidão.

 

O bem supremo dessa ética é ganhar mais e mais dinheiro, combinado com evitar rigorosamente toda fruição espontânea da vida. O homem é dominado por ganhar dinheiro, pela aquisição como finalidade última de sua vida. A aquisição econômica não é mais subordinada às suas necessidades materiais. Se se perguntar a Franklin por que se tem de fazer dinheiro dos homens, ele [] responde, em sua autobiografia, citando a Bíblia, que seu pai calvinista lhe inculcara durante a juventude: ‘Tu vês um homem diligente em seu negócio? Ele se pode pôr frente a frente aos reis’ (Prov. xxii. 29).” WEBER, 1956, p. 53, tradução e grifos de A. B.).

 

Provavelmente muitos crentes não levariam a cobiça a tais extremos. Cumpriam tarefas, até certo ponto, construtivas na economia de mercado. Uns poucos chegariam a ser capitalistas. Estes se orientaram – a julgar pelas biografias dos que o conseguiram – mais pela falta de escrúpulos do utilitarismo, egresso de Bentham,[5] do que pelos ensinamentos bíblicos.[6] Esse, sim, corresponde ao espírito do capitalismo industrial e financeiro. Os aventureiros do capitalismo tradicional não eram pequenos burgueses dotados das virtudes puritanas, a amealhar modestas economias.[7]  Os parcimoniosos fiéis, pequenos lojistas e artesãos – o grosso da classe média de Londres, Amsterdã etc., nos Séculos XVII e XVIII – não representam nem o espírito do capitalismo, nem o próprio capitalismo. O capitalismo tradicional implica: ousadia, prática da violência e da fraude para obter valor dos outros, gosto pela fruição da riqueza, mentalidade de risco e até de jogador. Todas são opostas às virtudes atribuídas aos puritanos: prudência, poupança dos frutos do próprio trabalho, retidão. E que dizer em relação ao 3º e ao 4º tipos de capitalismo, que ofendem qualquer ética digna desse nome?

 

O rigor da moral de Calvino, como a de Santo Tomás de Aquino, igualmente condena a usura. Favorecia a economia produtiva, não o capitalismo. A carta de Calvino em favor da limitação dos juros a 5% aa., diz Braudel, é límpida e de um espírito rigoroso, informado das realidades econômicas. Isso explica, segundo Hauser, o desenvolvimento do crédito em lugares como a Holanda ou Genebra.[8]

 

Cippola esclarece: “Sim, mas em 1600, em Gênova, cidade católica, coração vivo de um capitalismo já na dimensão do mundo, o aluguel do dinheiro era de 1,2% aa.[...]Calvino não empurrou porta alguma. Há tempo que a porta está aberta.” [9]

 

Sombart ironizou a tese weberiana:

 

O que, na ética puritana, ocupa o primeiro plano é o ideal de pobreza do cristianismo primitivo. Por sua maneira de apreciar a riqueza e, com ela, toda atividade tendente à aquisição de riquezas, essa ética aproxima-se da moral puramente evangélica, e sua repulsão pelos bens terrestres é infinitamente maior que a dos escolásticos. [...] Enquanto constatamos nos tomistas uma certa indulgência em relação à riqueza, todas as simpatias dos puritanos concentram-se na pobreza.”  [10] (SOMBART, 1966, p. 240, tradução de A. B.).

 

Tanto Sombart como Braudel mostram que as propaladas virtudes burguesas, associadas por Weber ao puritanismo, já estavam presentes na História, havia 200 anos ou mais, antes de ter este surgido. Ademais, o puritanismo não seria responsável pela expansão desenfreada do amor ao ganho e ao dinheiro. Weber contestou as objeções de Sombart, mas Braudel, apoiado em numerosas fontes, dá razão a este. [11]

 

“Todavia, quem não tem razão é Weber.Para convencer-se disso, bastar-lhe-ia ler os Libri della Famiglia, de Alberti, dos quais as citações de Sombart dão idéia limitada demais. Ser-lhe-ia suficiente chamar à tribuna outras testemunhas da vida florentina. Que se dê a palavra a Paolo Certaldo, e a causa será entendida: ‘Se tu tens dinheiro, não pares, não o guardes morto em tua casa, pois vale mais trabalhar em vão que repousar em vão,porque mesmo que não ganhes trabalhando, pelo menos não perdes o hábito dos negócios’. [...] É uma coisa muito bela e uma grande ciência saber ganhar dinheiro, mas uma qualidade ainda maior e mais bela é saber gastá-lo mesuradamente e onde é preciso. Lembremo-nos de que é um dos personagens dos diálogos de Alberti que quase diz: ‘tempo é dinheiro’.” [12]  (BEC, 1967, pp. 103-104, (apud BRAUDEL, 1979, p. 517, tradução e grifo de A. B.).

 

Está, portanto, longe da realidade a idéia de que seriam específicas dos puritanos as práticas propícias ao progresso pessoal na economia. Algumas nacionalidades não cristãs e não puritanas, como as católicas, ortodoxas e de outros ritos, participam mais que proporcionalmente das listas dos bilionários. Entre essas: judeus, chineses, japoneses, sírio-libaneses, armênios e gregos.

 

1.5.3.3. Aquisitivismo e utilitarismo

 

O próprio Weber aponta no espírito do capitalismo elementos estranhos a qualquer doutrina cristã, como o utilitarismo, “ ‘filosofia’ situada no plano mais vil da satisfação egoísta das paixões individuais, lideradas pela cobiça.” [13]  O autor abre outra brecha em sua própria fortaleza:

 

Em todos os períodos da história, houve aquisitivismo sem escrúpulos, não limitado por normas éticas de espécie alguma. Como a guerra e a pirataria, o comércio foi sempre livre de restrições nas relações com estrangeiros e com os estranhos ao grupo. A ética dúplice permitia fazer o que não permitia entre irmãos. A aquisição capitalista como aventura sempre se sentiu em casa em todos os tipos de sociedade econômica que conheceram o comércio com o uso de dinheiro e que ofereceram a este oportunidades, por meio de ‘commenda’, recolhimento de impostos, empréstimos de Estado, financiamento de guerras, cortes ducais e cargos públicos. Do mesmo modo, a atitude interna do aventureiro, que ri de todas as limitações éticas, tem sido universal [...] Além disso, com a ruptura da tradição e a extensão da livre empresa econômica, mesmo para dentro do grupo social, a novidade não foi eticamente justificada, mas só tolerada como fato.” (WEBER, 1956, pp. 57-58, tradução de A. B.).

 

O espírito do capitalismo é irreligioso e aético, porque utilitarista. Sua regra é: a ética não impede de infligir danos nem mesmo a indivíduos do grupo, confissão ou classe a que pertence o capitalista. O próximo pode ser usado como objeto de exploração. Trata-se de egoísmo extremo, passível de ser transposto para o egoísmo de grupo (como o racismo) e combinar-se com a afiliação religiosa, para dissimular a falta de ética. Trata-se de racionalizar a pilhagem e conferir-lhe status de ideologia.

 

1.5.3.4. Calvinismo/judaísmo, utilitarismo

 

Poder-se-ia aproximar teses de Sombart e de Weber. O primeiro associa o capitalismo e sua fundação a um “racionalismo” voltado para objetivos econômicos.[14]  Ora, isso é utilitarismo, elemento central do capitalismo, como reconhece Weber. Sombart associa o capitalismo à ética discriminatória, segundo ele, proveniente do judaísmo. Weber liga o sistema aos hábitos dos puritanos, os quais não diferem muito dos dos judeus, embora estes, pelo menos na doutrina, sejam menos avessos a prazeres e festas.

 

No calvinismo é básica a doutrina da predestinação. Seus adeptos crêem que: 1) Deus os salvou antes de nascerem, e a fé representa um sinal disso;[15]  2) se adotaram a religião e suas normas de conduta, é porque Deus escolheu cada um deles para ser salvo. Isso pode implicar a idéia de que os que não têm a mesma religião não são do mesmo gênero de gente: uma nova versão da idéia de povo eleito. No Velho Testamento esse povo, unido a Deus por um pacto, são os hebreus. Para os puritanos são os que guardam aquele Livro. Muitos dos que atingem o topo do poder, por meio do capitalismo, acreditam também ser eleitos por Deus, mesmo não sendo calvinistas nem judeus. Por fim, várias pessoas, dessas e de outras origens, não precisam de religião alguma para praticar atos de dominação. Falam em democracia e, na verdade, estão com o demo.

 

Tipos de capitalismo

 

Há, pelo menos, 4 tipos de capitalismo. O 1º, o tradicional, manejou o comércio e as finanças internacionais desde o início da Era Moderna, no Século XVI, e mesmo antes. Seus titulares eram oligarcas burgueses e também alguns nobres atuantes no capitalismo, e, ainda, os próprios senhores da guerra e os príncipes dos Estados nacionais modernos, desencadeadores dos descobrimentos marítimos e da exploração monopolista de zonas conquistadas. A conquista era, em geral, militar, mas se dava, em parte, por meio da cooptação de dignitários e comerciantes locais seduzidos por vantagens pecuniárias, pouco duradouras. Nesses “empreendimentos”, a acumulação decorria de pilhagem e de ganhos comerciais e financeiros, difíceis de distinguir daquela.

 

O 2º tipo é o da grande empresa industrial ou financeira, formado a partir do final do Século XVIII, com as revoluções industriais. Esse inclui: a) os grandes industriais, agentes da concentração econômica descrita na história dos centros; b) os grandes banqueiros, partícipes e, por vezes, líderes da indústria, além de comandantes das finanças públicas e, em especial, as das guerras, cuja escala deu saltos, desde as napoleônicas. Os ganhos procedem dos lucros (receitas menos custos, incluída a remuneração dos diretores, o fator organizador ou dispositivo).[16]  Os lucros extraordinários decorrem, em geral, de posições dominantes ou oligopolistas nos mercados e, por vezes, de inovações na produção ou na comercialização dos bens e serviços. No primeiro caso, esses lucros excedem em muito os que resultam da produtividade do trabalho, já que provêm de sobrepreços nas vendas e de subpreços na aquisição de matérias-primas e outros insumos.

 

A 3ª espécie é a dos tráficos ilícitos e semi-ilícitos, subdivididos em três segmentos: a) máfias envolvidas nas atividades ilícitas, tais como o tráfico de drogas e de armas, operações terroristas etc; b) exploradores das toleradas, como jogo e prostituição, amiúde ligadas ao primeiro segmento; c) instituições de apoio aos segmentos a) e b), organizadas em atividades “legais”, abrangendo bancos e financeiras, “lavadores” do dinheiro das atividades ilícitas. Este é aplicado também em outras atividades legais: religiosas, beneficentes, “humanitárias” e em ONGs, fundadas (em dois sentidos) por capitalistas com o objetivo de concentrar mais poder, influenciando e controlando os cidadãos e os “governos”.

 

A 4ª espécie é a da especulação, que se faz com ativos reais e financeiros (ações e outros títulos). Essa atividade é exercida, em grande parte, pelos mesmos agentes que formam o 3º tipo. Como no caso deste, a 4ª espécie envolve um jogo de cartas marcadas, por meio da manipulação das Bolsas de ações, títulos, opções e mercadorias. Ela acarreta a criação desenfreada de instrumentos financeiros, como os derivativos, os quais geram ganhos sem relação com atividades produtivas, permitindo ao capital financeiro obter rendas infladas.

 

Vale citar Braudel:

 

Se eu tivesse o gosto de Sombart pelas explicações sistemáticas e definitivas, eu destacaria o jogo e a especulação como o elemento maior do desenvolvimento capitalista. Viu-se aparecer, no curso deste livro, essa idéia subjacente do jogo, do risco, do logro (tricherie), sendo a regra básica fabricar um contrajogo, diante dos mecanismos e instrumentos do mercado, e fazê-lo funcionar de modo diferente senão inverso.” [17]

(BRAUDEL, 1979, p. 515, tradução e grifo de A. B.).

 

Nas espécies 1 e 2, a maioria das atividades é tão nociva à saúde física e moral das sociedades quanto as dos tipos 3 e 4. Assim: a) as indústrias de fumo e bebidas alcoólicas; b) as alimentares, com insumos (agrotóxicos nas plantas e aditivos químicos nos alimentos industrializados), alimentos impróprios ao equilíbrio orgânico e desprovidos, no processamento, de seu valor nutritivo; c) a industria legal de drogas, a farmacêutica, fazendo proliferar, com intenso marketing, e enormes sobrepreços, drogas tóxicas mais aptas a devastar organismos do que a os curar; d) as indústrias de petróleo e carvão, responsáveis pela destruição do ecossistema da Terra; e) a maioria das indústrias química e petroquímica, bem como as que transformam seus insumos em ácidos, pneus, tintas, etc; f) a indústria automotora, que polui, privilegia e faz dominar o uso dos combustíveis fósseis, além de prover transporte caro, discriminatório e ineficiente. Contado o faturamento dessas indústrias e os das que estão a elas ligadas por vínculos para trás e para frente, tem-se a parte do leão do produto industrial de origem legal. Maior ainda é o faturamento da 3ª e 4ª espécies (as empresas ilegais e as financeiras).

 

[1] WEBER, Max. The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism. 5ª impressão. London: Allen & Unwin, 1956. Original: Die Protestantische Ethik und der Geist des Kapitalismus.

[2] Embora trate da concepção luterana de missão, o próprio Weber assinala que Lutero não pode ser reclamado pelo espírito do capitalismo. Acrescenta: “O próprio Lutero teria, sem dúvida alguma, repudiado, sem concessões, qualquer conexão com um ponto de vista como o de Franklin”(cujos preceitos Weber aponta como emblemáticos do espírito do capitalismo). Weber considera, ademais, as declarações de Lutero contra a usura mais anticapitalistas do que as da fase final da escolástica católica. Vide WEBER, op. cit., pp. 82-83.

[3] As províncias do Sul da Holanda são católicas, na maioria. Nas de maioria protestante, há outras confissões além da calvinista.

[4] O capitalismo inglês tem, até hoje, epicentro em Londres, no Sudeste da Ilha. As demais regiões do Reino Unido contam pouco a esse respeito. A Escócia, calvinista, era periférica.

[5] Este, por sua vez, está na linha de outros pensadores britânicos nada recomendáveis pelo valor ético, ou mesmo filosófico, de seus escritos.

[6] Vide, por exemplo, JOSEPHSON, The Robber Barons, op. cit. Da Bíblia alguns capitalistas observavam somente a parcimônia, degradada para pura avareza, e o “olho por olho, dente por dente”.

[7] A maioria das confissões destacadas por Weber só surgiu nos Séculos XVI, XVII e XVIII.

[8] HAUSER, Henri. Les Débuts du Capitalisme. Paris: F. Alcan, 1931, pp. 51 et seq.

[9] CIPOLLA, C. M. Note sulla Storia del saggio d’interesse, corso, dividendi e sconto dei dividendi del Banco di S. Giorgio, nel seccolo XVI, em: Economia Internazionale, vol. 5, maio 1952, p. 14 apud BRAUDEL, Fernand, Civilisation Matérielle, Économie et Capitalisme, XV-XVIII siècle, tomo 2, op. cit., pp. 506-507.

[10] SOMBART, Le Bourgeois, op. cit., p. 240.

[11] “Leon Battista Alberti (1401-1472), herdeiro de família poderosa [...]: os Alberti colonizaram economicamente a Inglaterra do Século XIV; eram tão numerosos, que os documentos ingleses falam amiúde de Albertynes como se, a exemplo dos hanseáticos ou dos luqueses e dos florentinos, aqueles formassem uma nação. Leon B. Alberti escreveu, em 1433-1444, em Roma, os três primeiros Libri della Famiglia; o 4º, em Florença, terminado em 1441. Sombart descobre nele um clima novo: o elogio do dinheiro, o valor do tempo, a necessidade de viver parcimoniosamente.” (BRAUDEL, tomo 2, 1979, p. 515, tradução de A. B.).

[12] BEC, C. Les Marchands écrivains à Florence, 1375-1434. Paris, 1967, apud BRAUDEL, op. cit., tomo 2, p. 517.

[13] Isso é atribuído por psicólogos ao desejo irracional de acumular, que muitos psicólogos explicam como fixação na fase anal.

[14] Ele o caracteriza em função de três elementos: a) idéia de aquisição; b) direção econômica sistematicamente orientada para a obtenção de ganhos; c) esforço constante por expandir a firma. SOMBART, Die Juden und das Wirtschaftsleben, op. cit., pp. 186-187.

[15] “A regra do calvinismo, tal como posta em prática no Século XVI em Genebra e na Escócia, na virada para o XVII em grande parte dos Países Baixos, no XVII na Nova Inglaterra e, por um tempo, na própria Inglaterra, seria para nós a mais insuportável forma de controle eclesiástico sobre o indivíduo, possível de existir.” (WEBER, 1956, p. 37, tradução de A. B).

[16] “Dispositiv”, na terminologia em alemão.

[17] BRAUDEL, Fernand. Civilisation Matérielle, Économie et Capitalisme, XV-XVIII siècle. Tomo 2: Les Jeux de L’échange. Paris:Armand Colin, 1979, p. 515. A obra vai só até o Século XVIII. Que diria o autor, se estivesse analisando o final do Século XX?

Gustavo Santos:

Pessoal,

o texto é bastante irônico, como bem descreveu o Kaplan.

mas mostra o quão difícil e profundo são o desejo de manutenção das diferenças culturais européias.

nós brasileiros temos dificuldade de perceber isso daqui.

 

Daniel Conceição:

Longe de ser um problema cultural/religioso, o problema europeu eh puramente aritmetico. Imaginem que num jogo de poker uns sao melhores jogadores que outros. Talvez essas diferencas sejam mesmo culturais. Pra mim pouco importa. Marcio teve a sorte de crescer numa familia de jogadores, enquanto o Daniel nunca aprendeu as regras do jogo. Independentemente das capacidades de um e de outro, porque ha fortes dinamicas retro-alimentadores que tornam vencedores mais propensos a vencer novamente, inevitavelmente havera um desequilibrio e as fichas acabarao concentradas nas maos de um (ou poucos jogadores). De duas, uma: ou os perdedores sem fichas decidem sair do jogo, ou tomam emprestadas mais fichinhas da mesa ou dos vencedores frequentes para continuar jogando. No caso Europeu, a mesa decidiu estupidamente nao dar mais fichas aos jogadores. Bizarro tambem eh que o jogador cheio de fichas (Alemanha) venha reclamar que os sem fichas (Grecia, Italia, Espanha…) estao perdendo demais. Ora, pare de ganhar e eles pararao de perder. Em economias monetarias, ganhos monetarios de uns somente podem vir das perdas monetarias de outros. Nao eh dificil entender. Mesmo a Eurozona fosse apenas a Alemanha, Noruega e Suecia acabariam aparecendo desequilibrios financeiros entre os setores de cada pais (governos e setores privados) como agora…

Paulo Timm:

Caro Adriano: Cumprimentos pela oportuna intervenção.Teu artigo vai para meu registro de implacáveis…

Impecável. Erudito. Crítico.

 

A essas alturas do campeonato ainda vem gente falar em Religião para explicar a crise…

 

Ceci Jarua:

Cumprimentos meus também para nosso caro amigo Benayon.   Excelentes impecáveis observações e crítica.

Uma ideia sobre “Diálogos Desenvolvimentistas Nº45: Martinho Lutero e a zona do euro.

  1. PiresPortugal

    Pode estar a confundir-se as causas pelas consequências: os mais ricos e mais capitalistas converteram-se mais facilmente ao protestantismo para se considerarem bons e justificarem os seus meios de produção. Acredito na teoria de Marx que os modos de produção condicionam as crenças. As crenças não nascem de qualquer lógica teórica sem relações com a prática. Não creio que o protestantismo tenha criado mais riqueza capitalista mas que se tenha difundido onde as condições económicas, psicológicas e sociais favoreciam o capitalismo. Hitler era católico mas tolerante dos protestantes para os seus objetivos. Hitler era fanático da organização e eficiência criando ou estimulando uma crença de superioridade da raça semelhante a certas crenças religiosas da sua superioridade moral.
    Imagino una NEO-anarquia e NEO-marxismo que tem em conta o tempo, dinheiro, ética e utilidade social glocal=global+local. Mais: Weber, Franklin, Marx, Hitler, ética do capitalismo, comunismo, anarquia, NEO-anarquia e NEO-marxismo: tempo-dinheiro-ética-útil-social-glocal-global-local http://onu-w-gov.blogspot.de/2012/08/weber-franklin-marx-hitler-etica-do.html

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