Glória vã
Getúlio, com suas contradições e múltiplas faces e facetas, foi o maior político da história brasileira. Saiu um livro muito interessante sobre ele: “Os Ossos do Presidente – a Vida e a Morte de Getúlio Vargas”
Getúlio, com suas contradições e múltiplas faces e facetas, foi o maior político da história brasileira. Saiu um livro muito interessante sobre ele: “Os Ossos do Presidente – a Vida e a Morte de Getúlio Vargas” (EdiURI), de Iberê Athayde Teixeira. Está muito bem escrito e tem muita informação. Só não vai emplacar notinhas na mídia em geral por não ser da Cia. das Letras e porque o autor é advogado, não um jornalista cheio de compadres coniventes. Em compensação, é um livro honesto do começo ao fim. Entrega o que promete. Não exagera, não inventa, não se contenta em requentar e não se limita a contar histórias. Conta a História. Como tem conteúdo, dispensa o marketing barato e as firulas de diletante.
Iberê Teixeira focaliza um episódio que faz pensar sobre a finitude de cada um e sobre a efemeridade das glórias terrenas por maiores que elas tenham sido: os ossos de Getúlio Vargas foram recolhidos num saco de adubo, em junho de 1977, para dar lugar na sepultura a um novo morto, o general Serafim Vargas, sobrinho do bruxo de São Borja. Iberê indigna-se: “Seus ossos permaneceram durante 14 anos cobertos de musgo, no seio barrento da sepultura, envoltos em sacos de adubo. Em março de 1991. Por obra do acaso, aquela infâmia contra a sua memória veio à luz. Coube ao prefeito da cidade, um adversário político do ”getulismo”, a tarefa de resgatar a ignomínia, mandar abrir o jazigo, retirar os ossos do lúgubre sacaria e alojá-los numa urna de mármore”. Que coisa! Depois de tanto poder, acabar num saco de adubo.
Rei morto, rei posto. Pode-se perder até o lugar no túmulo. Segundo Iberê Teixeira, quando o general Serafim morreu alguém encasquetou de enterrá-lo no jazigo da família Vargas por ser filho de um irmão de Getúlio. Os coveiros, recebida a ordem, não se detiveram diante da ossada do membro mais nobre da grei. Há algo de macabro na narrativa. Liberado o espaço, “a família já podia trazer o general, a ”carneira” estava desobstruída, depois de morto ele podia se acomodar para o descanso eterno no lugar até então ocupado pelo famoso estadista”. Ninguém está seguro de coisa alguma. Mesmo um homem extraordinário pode ser despejado do seu último leito. Todo cuidado é pouco. Melhor ser logo cremado (não seria melhor dizer incinerado?) para evitar decepções futuras.
O livro de Iberê parte da morte para falar das ilusões da vida. Eu o interpreto assim. O erro em relação aos ossos de Getúlio foi corrigido. A lição fica. Tudo passa. Todos perdem o poder. Salvo, talvez, quando se está enraizado no imaginário social. Como diz a letra de “As Time Goes By”, é sempre a mesma história, a luta pelo amor e pela glória. E pelo poder. Apesar de um tanto mórbida, essa história é um excelente gancho para se pensar na História. Não duvido que esse fato, tão bem descrito por Iberê Teixeira, assim como fez no seu belo livro sobre a invasão de Santo Tomé, venha a constituir mais uma fantástica descoberta de algum jornalista, convertido subitamente em historiador, disposto a tudo para esquentar o passado e produzir algumas manchetes sensacionalistas. Getúlio ainda vai se revirar na tumba.
Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br
