Arquivo mensais:junho 2012

Fiori: Nacionalismo e desenvolvimento (I)

Nacionalismo e desenvolvimento (I)

Por José Luís Fiori

"A dificuldade da "economia política clássica" foi reconhecer o significado econômico das nações, não apenas na prática mas também na teoria". Eric Hobsbawm, "Nações e Nacionalismo desde 1780", Paz e Terra, 1990, p: 37

Desde a Revolução Francesa, a palavra "nacionalismo" teve várias definições e conotações políticas e emocionais, variando segundo o tempo e o lugar, e aparecendo ora como uma ideologia ou sentimento, ora como um movimento social ou estratégia política. Na sua origem histórica, sobretudo na França e nos Estados Unidos, foi um movimento revolucionário, democrático e cidadão, depois passou a ter uma conotação predominantemente cultural e etnolinguística, sobretudo na Europa Central, para se transformar, finalmente, num projeto político de construção e/ou fortalecimento dos Estados nacionais que nasceram – dentro e fora do continente europeu – a partir das independências americanas. Mas foi só na segunda metade do século XIX que o nacionalismo adquiriu uma face e uma formulação explicitamente econômica e se transformou num instrumento de luta dos países "atrasados" contra a supremacia inglesa.

É bem verdade que depois do século XVI o desenvolvimento econômico capitalista se deu sempre com base em Estados territoriais que praticaram políticas mercantilistas de defesa de suas economias nacionais, e nesse sentido se pode dizer que sempre existiu algum tipo de nacionalismo econômico "primitivo", desde a origem do sistema estatal europeu. Mas foi só na Alemanha, no século XIX, que se formulou uma teoria e uma estratégia nacionalista consistente de desenvolvimento econômico, a partir de objetivos geopolíticos explícitos. Na sua obra mais importante, publicada em 1841, o economista alemão Friedrich List criticava a "economia política clássica" por condenar as nações menos desenvolvidas a "rolar eternamente a pedra de Sísifo" do atraso, exatamente porque havia "excluído completamente a política da ciência econômica, ignorado a existência da nacionalidade, e desconhecido completamente os efeitos da guerra sobre o comércio entre as nações" (1986, p:128). Depois da morte de List e da primeira unificação alemã, em 1871, estas ideias contribuíram decisivamente para o desenho de uma estratégia consciente de desenvolvimento e industrialização, combinada com uma visão ufanista da cultura germânica e com um projeto geopolítico de unificação e expansão do poder alemão, em direta competição com o poder comercial e naval da Grã-Bretanha.

Por que os sucessos econômicos do passado foram interrompidos por retumbantes fracassos políticos?

Desde então, o sucesso econômico da Alemanha se transformou no paradigma de referência do nacionalismo econômico, em todo mundo, e teve uma importância particular na história da Rússia e do Japão, países que têm várias semelhanças geopolíticas com a Alemanha. Entre o fim da "Guerra dos 30 Anos", em 1648, e a unificação de 1871, o território atual da Alemanha foi dividido e "balcanizado", de forma ativa e conivente, pelas grandes potências europeias, e só conseguiu se unificar depois de três guerras sucessivas e vitoriosas, da Prússia contra a Dinamarca, a Áustria e a França, na década de 1860.

Mas mesmo depois da unificação, a Alemanha sempre se sentiu um país cercado e pressionado, carregando um enorme atraso político e econômico e um profundo ressentimento com relação às "grande potências" responsáveis pela criação do sistema inter-estatal e do capitalismo europeu, e pela liderança da conquista europeia do "resto do mundo". É neste contexto de atraso, cerco e ressentimento nacional, que se deve situar a permanente preocupação defensivo-expansionista da Alemanha, dentro de um "espaço vital" supra-nacional a ser conquistado e preservado. É neste contexto também que se deve situar o "intense commitment" de suas elites civis, militares e intelectuais, que teve um papel decisivo no desempenho econômico do nacionalismo alemão. Em maior ou menor medida, se pode reencontrar muitas destas características na história da Rússia/URSS e do Japão, e nos seus grandes ciclos de intenso crescimento econômico, desde o século XIX, e mesmo entre 1950 e 1991, apesar de que neste período o Japão e a Alemanha fossem transformados em "protetorados militares" a serviço da estratégia militar global dos EUA.

Agora de novo, neste início do século XXI, Alemanha, Rússia e Japão estão seguindo estratégias econômicas nacionalistas, orientadas por seus grandes objetivos estratégicos nacionais permanentes, de defesa e luta pelas suas hegemonias regionais. Para pensar o futuro ou tirar lições, entretanto, seria importante primeiro entender porque os seus grandes sucessos econômicos e tecnológicos do passado acabaram sendo interrompidos por retumbantes fracassos políticos e/ou geopolíticos.

José Luís Fiori é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, e autor do livro "O Poder Global", da Editora Boitempo, 2007.

Fonte: Valor

O derradeiro relatório de Samuel Pinheiro Guimarães sobre o Mercosul

O derradeiro relatório do nosso Samuel Pinheiro Guimarães ao Conselho de Ministros do Mercosul, apresentado em Mendoza, na data de ontem, 27 de junho de 2002: http://www2.camara.gov.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-mistas/cpcms/publicacoeseeventos/relatorio-ao-conselho-de-ministros
Sua renúncia é uma perda irreparável. Esperamos que ele possa reconsiderar. Mas para isso é preciso que os governos queiram tê-lo de volta.

A transnacional Rio Tinto Alcán e o golpe de Estado no Paraguai

Grandes produtores de grãos (soja em especial) e as respectivas empresas do setor expressaram, desde a primeira hora, apoio ao golpe contra o presidente Fernando Lugo. Mas há outras empresas interessadas na mudança de governo como a canadense Rio Tinto Alcán, uma das maiores produtoras de alumínio do mundo. O governo canadense foi um dos primeiros, aliás, a aprovar o afastamento do presidente Lugo.

Parece ter passado despercebido na imprensa internacional que um dos primeiros países, depois do Vaticano e da Alemanha, que reconheceu o novo governo instalado no Paraguai mediante um golpe parlamentar, foi o Canadá. O governo do Canadá, através de sua embaixada de Buenos Aires, vem realizando desde 2009 um intenso lobby a favor da indústria extrativa Río Tinto Alcán que quer se instalar nesse país sul-americano.

Mas, o quê representa a Río Tinto Alcán ?

A Río Tinto Alcán (RTA) é a segunda maior produtora de alumínio no mundo, se dedica também a extração de diversos minerais e tem presença nos cinco continentes. As denúncias contra a RTA incluem acusações de genocídio e crimes de lesa humanidade.

Em Papua Nova Guiné, ilha de Bougainville, a empresa é acusada de ter instigado, em 1980, um levante armado que provocou o uso de forças militares e milhares de mortos. A seguir, depois que os trabalhadores começaram a sabotar a mina, em 1988, a Rio Tinto foi acusada de conspirar para impor um bloqueio que resultou na morte de cerca de 10 mil civis até 1997. O caso se encontra atualmente na Corte dos EUA, no caso "Sarei et al v. Rio Tinto Plc et al", 9ª Corte de Apelações, N° 02-56256.

O jornalista paraguaio Guido Rodríguez Alcalá faz uma breve mas contundente história da RTA no mundo: apoio ao regime racista da África do Sul; o governo da Noruega pôs a RTA na lista negra por atentar contra o meio ambiente e os direitos humanos; por razões similares, o movimento “Fora do Pódio” deseja eliminar a RTA como patrocinadora dos Jogos Olímpicos… E a lista continua.

O investimento no Paraguai: um enorme consumo de energia
É importante esclarecer que o Paraguai é produtor de energia hidroelétrica, compartilhando centrais binacionais com seus vizinhos, Argentina e Brasil. Entretanto, 4/5 desta energia é exportada e só 1/5 utilizada no país. A RTA deseja consumir, a baixos preços, uma quantidade equivalente (1/5). O investimento da RTA dividia o governo paraguaio. Embora o Presidente da República houvesse se manifestado contrário a um subsidio ao preço da energia, o ministro de Indústria e Comércio, Francisco Rivas – confirmado como ministro pelo novo presidente Federico Franco – e o então vice-presidente Federico Franco haviam se manifestado favoráveis a cumprir as condições da RTA para sua vinda ao Paraguai. O vice-ministério de Energia havia afirmado, entretanto, que os subsídios à energia para a RTA equivalia a US$200 milhões/ano, crescentes. Igual opinião compartilhavam outros ministros não liberais.

Posição complacente e crítica do Governo
Depois de duas audiências públicas realizadas pelo mesmo governo, a batalha na opinião pública parecia dividida. Por ser um assunto sumamente popular e com um apoio majoritário, o investimento da Río Tinto Alcán começou a gerar opiniões críticas dos mais diversos setores.

As opiniões mostram sua máxima polarização quando o então vice-presidente critica publicamente a vice-ministra de Minas e Energia, segundo publicação do jornal Ultima Hora, de 30 de maio passado: “Então, eu disse ao presidente da República (Lugo): para que me enviou ao Canadá e nos pôs a estudar isto, se no final uma vice-ministra (Mercedes Canese) vai se opor. Eu tenho o direito de pensar que o que se pretende é continuar favorecendo a economia brasileira, porque não cabe na minha cabeça que, podendo vender energia muito mais cara que a que cedemos ao Brasil, gerando emprego, impostos e divisas, tenha gente que se oponha a este projeto”. Similares publicações podem ser vistas em outros meios.

A afirmação de Franco é um falso dilema, pois a venda de energia do Paraguai de Itaipú ao Brasil gera divisas para o desenvolvimento e o investimento e, além disso, o que a RTA se propõe é pagar preços inferiores – inicialmente 32 US$/Mwh e atualmente 42 US$/Mwh – aos que o Brasil paga e que, embora ao preço atual de 52,2 US$/Mwh, somente produzem um pequeno beneficio (8,4US$/Mwh) e cobrem ao mesmo tempo os custos de produção (43,8US$/Mwh).

A RTA pressiona o governo para iniciar negociações
Depois das declarações de Federico Franco, a empresa manifestou seu interesse em iniciar as negociações com o governo, pressionando sobre o cronograma de instalação da planta. Assim, no dia 13 de junho foi publicada nos meios de comunicação a visita dos representantes da RTA ao Chefe de Gabinete da Presidência da República. Na oportunidade, seu representante, o hispano-brasileiro Juan Pazos, afirmou: “Consideramos, depois de três anos e meio que estamos no Paraguai, que o governo já tem todas as informações que necessita”. Evidentemente, um tema central é o preço da energia. Não se pode discutir o preço da energia, sem discutir o resto. Formam parte de um pacote”. A multinacional não informou o valor que considera "ideal" pela energia paraguaia.

O golpe em gestação
Dois dias depois, em 15 de junho, aconteceu a tragédia de Curuguaty. Uma juíza determinou uma ordem de busca e apreensão a pedido do empresário colorado Blas M. Riquelme, para resguardar sua suposta propriedade privada. A ação é coordenada pela promotoria e termina com a morte de 18 campesinos e policiais. No lugar, que depois a própria imprensa indicaria que eram terras públicas usurpadas por Blas M. Riquelme, havia menos de 50 pessoas no momento do massacre.

O resto é história. Nesse mesmo dia, Fernando Lugo substituiu Carlos Filizzola (da Frente Guasú) no Ministério do Interior pelo colorado, ex- Procurador Geral do Estado, Rubén Candia Amarilla, responsável por mais de 1000 denúncias de movimentos sociais e vinculado a Camilo Soares, ex- Secretário de Emergência Nacional, acusado por malversação e membro do primeiro círculo de Fernando Lugo. Na segunda-feira, 18 de junho, a Frente Guasú expressou seu desacordo com dita designação, junto com o Partido Liberal Radical Autêntico (partido de Federico Franco e Francisco Rivas) e, para mais desconcerto, a própria Associação Nacional Republicana, Partido Colorado, criticou sua nomeação.

Na quinta-feira, 21 de junho, a Câmara de Deputados aprovou a abertura de um processo político contra Fernando Lugo. No dia seguinte, 22 de junho, o Senado aprovou em tempo recorde o afastamento do presidente.

Golpe parlamentar
A notícia do jornal La Tercera, do Chile, reproduz a declaração do Secretário geral da OEA, José Miguel Insulza “…que, reconhecendo que o artigo 225 da Constituição do Paraguai confere faculdades à Câmara de Deputados para iniciar um juízo político e ao Senado para atuar como tribunal, 'a comunidade internacional formulou dúvidas fundadas sobre o cumprimento das normas contidas nos artigos 17 e 18 da Constituição do Paraguai e nos tratados internacionais subscritos por esse país, que consagram os princípios universais do devido processo e do legítimo direito de todo processado de defender-se, usando todos os recursos processuais, contando para isso com prazos suficientes entre o inicio do juízo e sua conclusão'…”.

O presidente do Paraguai teve menos de 24 horas para preparar sua defesa e não foram apresentadas provas – exceto fotocópias e publicações da imprensa – para formalizar as acusações.

Transnacionais, entre elas a RTA, as primeiras beneficiadas com o golpe
Corretamente, analistas políticos atribuíram aos grandes oligopólios da produção de grãos como os principais beneficiados do golpe de Estado contra Fernando Lugo. Lugo foi submetido a um sumaríssimo juízo político pela matança de Curuguaty, que desnuda uma realidade que não pode ser ignorada: oito milhões de terras mal havidas que não foram recuperadas pela Justiça, e o Paraguai com a pior distribuição da terra na região. Apesar de a ordem de despejo ter sido ditada por uma juíza e o operativo policial dirigido por uma fiscal, o julgado foi Fernando Lugo.

Entretanto, se esqueceram de um ator chave: a RTA.

Em seu discurso de posse, Federico Franco se referiu longamente ao tema energético, “Também impulsionará o setor energético para utilizar a energia gerada nas hidroelétricas de Itaipú e Yacyretá e 'que ninguém tenha que ir ao exterior procurar trabalho'.”

O Canadá reconheceu imediatamente. Logo em seguida, o nome de Francisco Rivas foi confirmado como Ministro de Indústria e Comércio e lobista da RTA. Evidentemente, as razões são milhões.

Silvio Núñez é Jornalista e pesquisador.

Contrabando ideológico do Paraguai

Começo a ficar preocupado com o debate em torno do golpe no Paraguai.

Meu receio é o contrabando ideológico, com idéias exóticas que podem ser trazidas ao Brasil e germinar por aqui.

Estou falando sério. É grande o número de comentaristas que dizem que a deposição de Fernando Lugo foi um processo dentro da lei e que, por essa razão, não pode ser comparado a um golpe de Estado.

Já li comparações inclusive com o impeachment de Fernando Collor. Teve até um professor universitário que disse isso no Rio Grande do Sul.

Vamos combinar que é feio reescrever a história, ainda mais a partir de fatos tão recentes.

Fernando Collor foi investigado por vários meses e considerado culpado pela Polícia Federal, que encontrou vários indícios de corrupção e troca de favores.

A CPI sobre PC Farias recolheu provas contra o tesoureiro e o presidente. Os auxiliares de Collor foram questionados, puderam se defender e acusar. Apareceu uma testemunha, com um cheque usado para comprar um carro para a primeira dama. E apareceram vários cheques-fantasma do esquema e suas conexões. A polícia federal descobriu um computador com a descrição gráfica do esquema financeiro. Estava tudo lá: quem recebia, quem pagava.

Depois de tudo isso, o Congresso votou o impeachment do presidente. O país estava convencido de sua culpa. Os estudantes foram às ruas pedir sua renuncia. Collor pediu apoio popular. Recebeu maiores protestos.

Ao contrário de Lugo, Collor não foi deposto. Renunciou. Lugo tinha apoio popular, a tal ponto que um dos motivos para a pressa dos golpistas era impedir a chegada de seus aliados a Assunção. É trágico: para dar um golpe contra o povo, correram de populares.

As acusações contra Collor não foram histórias que cairam céu contra um presidente fraco que, por falta de apoio parlamentar, foi despachado para casa.

Collor enfrentou um processo democrático, onde teve direito a ampla defesa.

Não tivemos nada disso contra Lugo. Não há um fiapo de prova de suas responsabilidades pelas 17 mortes num conflito agrária, que criou a comoção que ajudou os golpistas a criar um ambiente favorável a derrubá-lo.

Os outros quatro episódios são acusações vagas e genéricas. Em nenhum deles a culpa de Lugo está demonstrada. Sequer é descrita. Estamos falando aqui de um arranjo político, uma oportunidade. Lugo era um presidente incômodo, com ideias de esquerda – bastante moderadas, por sinal – e seus adversários não quiseram perder uma chance de livrar-se dele.

É o poder oligárquico em sua expressão extrema, anti-democrática e absoluta – tão poderoso que pode cumprir um simulacro de democracia para pervertê-la.

Falar que se cumpriu o ritual democrático é o mesmo que dizer que o ditador Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai por 35 anos, acumulou uma fortuna ilícita estimada em 5 bilhões de dólares e deixou uma lista de 400 desaparecidos políticos era um presidente legítimo porque de tempos em tempos promovia eleições que vencia com mais de 90% dos votos.

E é isso o que mais preocupa neste caso. O gosto pelo simulacro.

Vitima de um golpe de Honduras, Manoel Zelaya foi acusado de tentar avançar uma emenda constitucional para permitir a reeleição presidencial – não para ele, mas para seus sucessores. Nem a embaixada americana acredita que esse fato era motivo para seu afastamento. Em documentos enviados para Washington, a representação diplomática em Tegucigalpa explicava que se tratava de um golpe de Estado. Mas havia, em Honduras, um pretexto que, de forma distorcida e abusiva, foi usada para depor um presidente constitucional.

Contra Fernando Lugo não havia nem pretexto e mesmo assim ele foi derrubado, um ano e dois meses antes do fim de seu mandato.

Mas nossos golpistas adoram uma novilíngua. Em 64, quando João Goulart foi deposto, eles anunciaram que a democracia foi resgatada. Fizeram marchas para comemorar a liberdade…Vai ler os jornais e está lá assim: a democracia foi salva…A liberdade venceu…

Paulo Moreira Leite

Fonte: Época

Moradores de rua protestam contra possível proibição de sopão em São Paulo.

Larissa Leiros Baroni
Do UOL, em São Paulo
  • Fernando Donasci/UOL
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    29.jun.2012 – "Sopão é que me salva", diz Priscila dos Santos (esq.), 19, que mora na rua há cerca de um ano, e protesta contra possível proibição em São Paulo

A fila se forma antes mesmo da van chegar. Alguns esperam ansiosos pela única refeição do dia; outros, mesmo que tenham almoçado, marcam presença como prevenção, já que não sabem o que os espera no dia seguinte. Há ainda aqueles que buscam um alimento quente para a noite fria da capital paulista, característica do inverno. Às 20h30 –em ponto–, os voluntários da Turma da Sopa chegam ao viaduto Condessa de São Joaquim, no centro de São Paulo, para servir cerca de 300 moradores de ruas.

As duas panelas de 50 litros demoraram menos de 40 minutos para acabar. Carne, abobrinha e batata eram alguns dos ingredientes da sopa de legumes, que transbordava seu cheiro por todo o quarteirão. Muitos pegaram a fila mais de uma vez. Teve até moradores que garantiram a marmita do dia seguinte – seja em um pote plástico ou em uma garrafa pet  cortada ao meio.
A ação se repete sagradamente das segundas às quintas-feiras há aproximadamente 19 anos, conforme informou o voluntário Fernando Arruda, 26, que coordenou a distribuição nos trabalhos da última quinta-feira (28).
Mas essa tradição pode estar ameaçada. A Secretaria Municipal de Segurança Urbana planeja acabar com o sopão nas ruas de São Paulo.
Segundo reportagem do jornal "O Estado de S. Paulo", a distribuição de sopas realizada por 48 instituições nas ruas do centro deverá ser proibida em um prazo de 30 dias. O sopão, de acordo com a proposta, passará a ser distribuído exclusivamente em uma das nove tendas da prefeitura, conhecidas como espaços de convivência social, que atendem pessoas sem teto na capital.
 
 

Foto 14 de 14 – Convite no Facebook para "sopaço" na Praça da Sé, no dia 6 de julho. O protesto foi inspirado na possibilidade de a Prefeitura proibir 48 ONGs de rua de distribuir sopa nas ruas do centro da capital. Reportagem do jornal "O Estado de S. Paulo" revelou que a administração planejava implementar a medida em até 30 dias. Após a repercussão negativa da ideia em redes sociais, a prefeitura, em nota, negou a intenção Reprodução/Facebook

A notícia, além de ter gerado protestos nas redes sociais e inspirado um "sopaço", também causou alvoroço entre os moradores de rua. Ao identificarem a presença de nossa equipe no local, muitos –com o prato de sopa na mão– gritavam: "Fora Kassab". Um deles até compôs uma música em forma de protesto: "Kassab vai para lá; não fica mais cá; em outro vamos 'votá'".
Para a aposentada Cecília Pereira dos Santos, 74, o fim do sopão ou mesmo a transferência de sua distribuição seria "uma tragédia". Ela sai diariamente do Butantã –onde mora sozinha e com apenas um salário mínimo e meio no bolso por mês– para ter direito a sua única refeição "robusta" diária. "Como a sopa e guardo o pão que eles oferecem de complemento para o café da manhã do dia seguinte", conta ela, que lamenta ao se recordar que a ONG não atua três dias por semana. "Nesses dias? Tento me virar como posso."
Cecília diz desconhecer o endereço das nove tendas da prefeitura, mas afirma que essa possível transferência deixará muitas pessoas, além de desabrigadas, com fome. "Se for muito longe, para mim vai ser inviável."
A mesma indignação foi expressa por Priscila dos Santos, 19, que mora na rua há cerca de um ano. "Além de não darem comida para a gente, querem proibir os outros de nos ajudarem?", questiona ela, que diz comer no Bom Prato quando consegue juntar algum dinheiro, mas "quando estou dura o sopão é que me salva".
O secretário de Segurança Urbana, Edsom Ortega, segundo publicação da "Folha de S.Paulo", afirmou querer atrair os moradores de rua para os abrigos, que chegam a ter 2.800 vagas ociosas em alguns períodos do ano. Ao ser informada desta explicação, Priscila soltou uma gargalhada e disse: "Muitas vezes já fui procurar vaga em um albergue e ouvi dizer que o local estava cheio, mesmo sabendo de pessoas de dentro que estava vazio", relata a moradora de rua.
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Foto 8 de 22 – Viaduto Condessa de São Joaquim, no centro de São Paulo, vira refeitório nas noites das segundas às quintas-feiras, com a distribuição de alimentos pela Turma da Sopa. Ao menos 300 pessoas são beneficiadas por dia. A Prefeitura da capital paulista anunciou a possível proibição do sopão nas ruas da cidade Fernando Donasci/UOL
Posição da prefeitura

Na quinta-feira (28), depois da repercussão negativa da iniciativa, a prefeitura divulgou uma nota na qual afirmou que a distribuição de alimentos não será proibida, apenas restrita.
"A Prefeitura de São Paulo informa que não cogita proibir a distribuição de alimentos por ONGs na região central da cidade. O que existe é a proposta de que as entidades ocupem espaços públicos destinados para o atendimento às pessoas em situação de rua, como as tendas instaladas pela Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social. A prefeitura entende que a união das ações das ONGs com as dos agentes sociais têm potencial para tornar ainda mais eficazes as políticas de reinserção social", diz o texto.
Após a divulgação da nota, a assessoria da prefeitura voltou a reforçar que não se trata de uma proibição, mas sim de um "convite" às entidades para que passem a atuar nas tendas.

Larissa Leiros Baroni
Do UOL, em São Paulo

Alto representante-geral do Mercosul Renuncia.

MENDOZA, Argentina – O brasileiro Samuel Pinheiro Guimarães surpreendeu a diplomacia regional nesta quinta-feira ao anunciar de forma abrupta, logo no início da cúpula do Mercosul em Mendoza, sua renúncia como alto representante-geral do bloco. Ele negou as versões que apontavam como motivo divergências sobre a situação do Paraguai, questão que centra os debates na cidade argentina, e atribuiu sua saída à falta de “apoio e condições políticas para exercer o cargo”.

— Cheguei a Mendoza com a decisão já tomada. E ela nada tem a ver com a crise em relação ao Paraguai — disse o diplomata ao GLOBO.

Ex-ministro de Assuntos Estratégicos da Presidência e ex-secretário-geral do Itamaraty, Pinheiro Guimarães ocupava desde janeiro de 2011 o cargo, criado um mês antes para estabelecer uma espécie de porta-voz e representante máximo do Mercosul. Ele cumpria funções de articulação política, formulação de propostas e representação das posições comuns dos Estados-membros.

O anúncio da renúncia foi feito durante a reunião de chanceleres do bloco. Após um pequeno discurso, em que alegou falta de apoio às iniciativas que defende, Pinheiro Guimarães limitou-se a entregar um relatório aos colegas sobre o que considera serem as prioridades do Mercosul. Ele negou divergências dentro do Itamaraty, como também especulava-se, e com o chanceler Antonio Patriota, que contribuiu para alimentar os rumores ao se recusar a falar sobre o caso em entrevista coletiva.

— Realmente nos surpreendeu. Ele tinha todo nosso apoio — disse o chanceler uruguaio, Luis Leonardo Almagro.

Bloco chega a consenso sobre suspensão paraguaia

Apanhados de surpresa, os diplomatas do Mercosul ainda não deram qualquer pista sobre a substituição de Pinheiro Guimarães. Os chanceleres chegaram nesta quinta-feira a um consenso sobre a punição ao Paraguai pelo impeachment de Fernando Lugo. A decisão, a ser formalizada na sexta-feira pelos presidentes de Brasil, Argentina e Uruguai, foi de não aplicar sanções econômicas, mas manter o país suspenso do Mercosul até abril de 2013, mês das eleições presidenciais.

— Existe um consenso no Mercosul pela não aplicação de sanções econômicas ao Paraguai. O que seria anunciado na sexta-feira vai um pouco além do que foi comunicado no domingo passado, já que a suspensão era por uma semana e seria prorrogada — disse Patriota ao GLOBO.

Em aberto, fica a definição da situação jurídica do Paraguai — suspenso, mas não excluído — em relação ao bloco. O status incide em questões delicadas, como as relações comerciais entre os Estados-membros e a adesão plena da Venezuela. A situação inédita será estudada mais a fundo pelos chanceleres. Segundo fontes brasileiras, a intenção do Mercosul é de alguma forma dar um troco político ao Congresso paraguaio, o único que não ratificou a adesão plena do país de Hugo Chávez ao bloco.

Enquanto seu destino era discutido em Mendoza, em Assunção o governo paraguaio já começava a se articular para buscar alternativas às punições. Uma delas, manifestada ontem pelo ministro da Fazenda, Manuel Ferreira, seria mudar a taxação de mercadorias provenientes dos países vizinhos.

— Se o Mercosul resolver nos bloquear, haverá uma consequência favorável para o Estado, porque o orçamento geral tem um déficit e, com as sanções, teremos de impor tarifas às importações de Argentina, Brasil e Uruguai, que nos dariam maior receita — disse Ferreira. — Qualquer bloqueio não terá efeitos traumáticos. Cerca de 60% das nossas importações vêm da China.

Agravando a tensão, o presidente do Parlasul, o paraguaio Ignacio Mendoza, denunciou ter sido barrado na reunião desta quinta-feira. E o novo governo paraguaio acusou a Venezuela de ter instigado uma sublevação das Forças Armadas durante o impeachment de Lugo. A denúncia — feita pela ministra da Defesa María Liz García e reforçada pelo presidente Federico Franco — é de que o chanceler venezuelano, Nicolás Maduro, tentou convencer os militares a apoiarem o ex-bispo e se oporem a sua destituição.

— Dizem estar preocupados com a ruptura institucional no país, mas, no fundo, o barulho internacional (contra Franco) é para que consigam meter a Venezuela pela janela no Mercosul — disse o senador liberal paraguaio Miguel Abdón Saguier.

Para hoje, são esperados discursos mais enérgicos com a chegada de presidentes como a argentina Cristina Kirchner e o equatoriano Rafael Correa — Mendoza também recebe a cúpula da Unasul. Ontem, antes de embarcar, Correa deu mostras do tom que adotará:

— Independentemente do que o Mercosul ou a Unasul definam, o Equador já decidiu: não reconheceremos um governo ilegítimo. Chega de apologia.


Fonte: http://oglobo.globo.com/mundo/alto-representante-geral-do-mercosul-renuncia-5… © 1996 – 2012. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização. “>O Globo

Em ‘decisão do século’, Supremo dos EUA aprova reforma da saúde

Apoiadora da reforma de saúde, apelidada de Obamacare, se manifesta em frente à Suprema Corte americana, em Washington. Foto: AP

Apoiadora da reforma de saúde, apelidada de Obamacare, se manifesta em frente à Suprema Corte americana, em Washington
Foto: AP


A Suprema Corte dos Estados Unidos confirmou nesta quinta-feira o texto base da lei de reforma da saúde do presidente Barack Obama, que obriga todos os cidadãos a pagar um seguro-saúde, embora com certos limites. A sentença da maioria da Corte, a quatro meses das eleições, significa uma grande vitória para o presidente democrata.

Cinco juízes, entre eles o presidente da Corte, John Roberts, cujo voto foi decisivo, decidiram que o Congresso tem o poder de impor esta obrigação de ter um seguro médico, contra quatro que votaram contra. No entanto, os juízes votaram a favor da imposição de limites a certas mudanças no programa de saúde pública Medicaid, destinado aos mais pobres. A reforma estabelece que todos os americanos deverão obter um seguro médico antes de 2014 sob pena de sanções financeiras.

Sem se dar por vencida, a oposição republicana prometeu que tentará revogar totalmente a reforma da saúde após as eleições de novembro. O presidente da Câmara dos Representantes, o republicano John Boehner, se comprometeu a seguir lutando para revogar a reforma do sistema de saúde. "A Câmara seguirá lutando pela revogação completa" da reforma, indicou Boehner em uma mensagem difundida em sua conta pessoal no Twitter.

À exceção do caso Bush contra Gore, que selou a vitória de George W. Bush na eleição presidencial de 2000, "muitas pessoas têm dado atenção a esta questão, mais do que em qualquer outro caso na história recente" da Suprema Corte, declarou Paul Clement, advogado dos adversários da administração Obama.

O mais alto tribunal dos Estados Unidos, de maioria conservadora, apresentou às 10h (11h no horário de Brasília) seu veredicto, descrito por especialistas como "a decisão do século", no último dia de sua sessão anual e após três meses de deliberações.

"Nós respondemos ao chamado da história", disse Barack Obama durante a adoção da lei em março de 2010. "Nós provamos que este governo – um governo do povo e pelo povo – continua a trabalhar para o povo".

Mais da metade dos estados, uma organização patronal e quatro indivíduos acreditam que esta disposição viola a Constituição. Eles pediram que a Corte reavaliasse todas as 2.700 páginas da legislação.

O governo havia pedido ao Tribunal para julgar a disposição conforme a Constituição. "Eu acredito que seja fundamental garantir que todos neste país tenham uma cobertura médica decente que não seja arruinada quando estão doentes", declarou Obama na terça-feira.

O rival republicano de Obama, Mitt Romney, que instituiu uma legislação parecida no estado de Massachussetts quando foi governador, havia prometido que, se a Suprema Corte não revogasse o texto, ele se apressaria em fazer isso ao entrar na Casa Branca.

Pesquisas recentes mostraram a impopularidade da reforma em um país obcecado pela defesa das liberdades individuais. "A Corte deve decidir com base na Constituição, e não nas pesquisas", disse à AFP a advogada Elizabeth Wydra, pró-governo. "Se os juízes seguirem a Constituição, a história e todas as suas decisões anteriores relativas ao poder federal, facilmente vão confirmar a lei".

"O que está em jogo é saber se o nosso governo federal tem poderes limitados", declarou o advogado Randy Barnett, que defende aqueles que se queixam a respeito da inconstitucionalidade da reforma, ressaltando: "Não estamos na França nem na Inglaterra, não estamos em um Estado com poderes ilimitados".

Extraído de Veja